Sunday, March 02, 2014

Nojo e inveja



Algumas diferenças culturais podem levar muito tempo para serem absorvidas, quando se muda de país. Seja por falta de tempo ou de disposição para o discernimento, a verdade é que alguns pequenos incômodos passam anos ali, como uma etiqueta grande demais na camisa, que você só lembra que precisa tirar quando já se abotoou e está saindo com pressa.

Assumo a responsabilidade pelas minhas falhas. A culpa é minha se passei tanto tempo brigando com o termo schifo (nojo, em italiano). Simplesmente não possui a mesma ênfase, a mesma conotação que em português. Não causa o mesmo impacto. Ou perdeu a força com a banalização do termo. “Não, obrigado. Eu tenho nojo de cuzcuz.” Dito em italiano, não chega a ofender o cozinheiro. Sim, um pouco de polidez seria cordial, mas essa é uma terra melodramática, cheia de ênfases e gestualidade. Não poderia ser diferente.

A inveja – confesso – ainda é um estorvo. Pequeno, mas estorvo. É difícil encontrar quem não aprecie a cozinha italiana, quem não admire a cultura, a história, a arte, a genialidade e os monumentos dessa terra. Quem, ao planejar a primeira viagem à Europa, excluiria a Itália do roteiro? Mas isso não significa ter inveja.

É lugar comum – incentivado pelos jornalistas e convidados de tvs, rádios, jornais e sites de informação – confundir admiração com inveja, na Itália. Às vezes, as frases têm efeito conrário, demonstrando um certo desconforto na comparação. Às vezes, não sempre. “...a nossa cozinha, que o mundo inteiro inveja!”, “É a França que deve ter inveja do nosso vinho!”,  “Temos que cuidar melhor nas nossas maravilhas, que são de causar inveja...” E por aí vai. Inveja daqui, inveja dali e uma falsa superioridade incomoda quem conhece outras terras, possui uma cultura diferente ou aprecia uma culinária mais vasta (incluindo a italiana). Não chega a dar nojo, mas um certo schifo, eu diria.

Agora, cá entre nós, aprendi a fazer um cuzcuz de causar inveja...
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19 comments:

Milena F. said...

Algumas coisas incomodam mesmo!!!
Em francês o que me incomoda é o termo "pas mal" ("não é ruim", em tradução literal). Mas acredita que é positivo? A gente faz uma comida, o francês come de le lamber os beiços e diz "pas mal"... Vc acerta 19 questões de 20 e te dizem "pas mal! Por que não usar uma verdadeira forma de felicitar?
Mas cuidado para não confundir, pois se alguém disser "pas terrible" (não horrível), quer dizer que é horrível mesmo essa comida ou o qualquer outra coisa a qual o interlocutor se refere!!!
P.s.: quero a receita desse cuzcuz!!!

myra said...

acho que muitos paises tem uma arte culinaria, diferente mas muito boa mesmo, vejam no Mexico!!sabe Allan eu gosto imensamente couscous!!!
abraco!

Sandra said...

hahaha, ia comentar algo parecido com o que a Milena escreveu, mas com a expressão "nicht so schlecht" (não tão ruim). Aqui na Suíça, isso é usando nos mesmos termos do pas mal na França e isso as vezes me dá um nojo, rs...!!

maray said...

em compensação, os palavrões italianos são muito mais enfáticos e conclusivos que os nossos... eu não costume usar, nem italianos nem brasileiros, porque acho que palavrão é como remédio: só deve ser usado na presence de doença real, se não banaliza. Mas lembro da minha avó italiana e da ênfase que ela mostrava quando não gostava de alguma coisa...ê inveja!!

O Leão da Montanha said...

Espero que aproveite muito bem as belezas e a culinária da magnífica Itália. Gostei muito desse texto reflexivo. Uma outra coisa que muitas pessoas ao visitarem esse país não dão muita importância, são os circos. A Itália é referência mundial na arte circense, exercendo forte influência nesta arte no Brasil. Se gostar, recomendo a visitar algumas companhias, como Moira Orfei.

Abraços

Teorias do Leão da Montanha
Curta Teorias do Leão da Montanha

Teresinha Ferreira said...

Olá Allan,
Imagino como deve ser difícil absorver as diferenças culturais.
Pois é, inveja daqui e dali vai sempre existir e uma coisa é certíssima, a horta do vizinho é melhor do que a nossa.
O Brasil pode ser um país riquíssimo e lindo, mas o descaso de alguns nos faz querer ir mais longe tomar o vinho de outras terras.
Você disse tudo... Cuidar das nossas maravilhas... Sei que eu adorei essas terras e pretendo voltar um dia.
Imagina que eu ainda não sei fazer cuzcuz...rsrs
Tudo de bom.;)

Allan Robert P. J. said...

Milena, cada esquisitisse, né?

Myra, você é uma mulher do mundo. :)

Sandra, às vezes cansa, mas o primeiro mundo é assim. :)

Maray, Os palavrões se multiplicam com os dialetos. :)

Leão, A Itália tem mesmo uma grande tradição circense e eu adoro circo, mas há muitos anos deixei de frequentar circos que utilizam animais.

Teresinha, absorver tais diferenças é adaptar-se, mas algumas coisas incomodam. Volte, o cuzcuz é fácil de fazer. :)

Thais Miguele said...

"Ui, que nojinho" seria "ui, che schifinho"?

Thaís said...

Interessante abordagem, curiosamente em português a gente "bota a calça" e "calça a bota", diz "pois não" quando quer dizer "sim" e "pois sim" quando quer dizer "não".
Invidio gli italiani!
un'Abbraccio!

Luma Rosa said...

Oi, Allan!
Diferente de visitar um lugar e morar é que quando moramos, temos que aceitar o que a cultura local estabeleceu desde sempre - "Ajoelhou, tem de rezar", é uma expressão brasileira e temos tantas outras... Só que não reparamos, pois estamos inseridos dentro do contexto.
"Voltemos à vaca fria". Não sei quantas pessoas sentem "dor de cotovelo" ou "Têm macaquinhos no telhado" por você fazer cuscuz tão bem. "Vou abrir meu coração": Não me importo, contanto que um dia, antes que eu "bata as botas", você "arregace as mangas" e sem "arrancar os cabelos", "baixe a bola", não "torça o nariz" e sem que eu precise "bater na mesma tecla", você dê o "braço a torcer" e "com as pernas nas costas", aceite que até mesmo "onde os Judas perdeu as botas", existe alguém que consegue "pensar na morte da bezerra" enquanto "sem pés nem cabeça", não entende que "inveja branca" é uma coisa normal de sentir.
:)
Beijus,

author casulo-online said...

O que é bom para mim, pode ser ruim para o outro, mas adoro cuzcuz e também sei fazer "à la minha moda" muiiito bom!!!

Cristina said...

Adorei o post! Ja fiquei chateada quando levei açai para comer em casa e minhas amigas, ao verem aquela consistencia quase liquida e roxa, disseram: che schifo!
Mas hj entendo melhor a expressao e nao levo tao a sério.
Ja inveja nunca me incomodou como palavra nem em portugues...
O que me incomoda é o tal do disgraziato, usado até de pai pra filho! ahaha!
Adoro ver as maes italianas dizendo: allora sei un cretino disgraziato! Ohhh drama!! Um drama encantador!! :)

Bruxa do 203 said...

Adoro essas diferenças culturais! Antes de qualquer conclusão, é necessário saber o que determinada palavra ou expressão significa em outro lugar, imagina então em outro país ou continente.

Bah said...

É um sonho que eu ainda vou realizar de alguma forma rs... Quero muito conhecer a sua terra rs

Kisu!

Carol Alencar said...
This comment has been removed by the author.
Carol Alencar said...

Allan,
Eu tb fico " infastidita" com essas duas palavras!
E acrescento uma expressao que me incomoda bastante: "nn c'è male"... É uma forma tao negativa de dizer que está tudo bem...
Mas um acaba se adaptando a esse jeito " burro chucro" dos italianos...
:)

Denise Rangel said...

Allan, é estranho mesmo, a confusão que certas palavras causam. Lembrei-me do Papa trocando palavras e provocando constrangimento. Quando crianças, ficamos horrorizados quando uma prima, recém-chegada do Norte disse que queria uma puta de feijão. Uma concha, ela queria dizer, hehe.
Abraço, garoto

Allan Robert P. J. said...

Thaís Miguele, acho que essa expressão poderia ser traduzida simplesmente com uma torcida do nariz. :)

Thaís, curioso como dizemos o contrário e... Putz!, que confusão. :D

Luma, sim, os lugares comuns estão por toda parte. O difícil nem chega a ser aprender quando usar, mas compreender que nem sempre tem o mesmo efeito. :)

Cris (Casulo), Está lanado o desafio do cuzcuz! :)

Cristina, pelas bandas de cá o tal "disgraziato" não se usa. Ainda bem. :)

Bruxa, o problema maior é a carga cultural que trazemos de casa. :)

Romina, se quiser conhecer mesmo a minha terra, não venha pra Itália: sou carioca. :)

Carol, me parece que em outros países europeus a coisa vai por aí também. Porque não elogiar como se deve, não? :)

Denise, se esse tipo de confusão acontece no nosso próprio país, imagine num país diferente. :)


Sissym Mascarenhas said...



Afff. to rindo com o que a Milena disse...

Lembrei que em ingles dizer "so bad", dependendo do que se quer colocar, não significa ser ruim, pode ser o contrario ou dá um sentido mais enfático.

Eu adoro cuzcuz e estou com água na boca.

Bjs