Tuesday, August 20, 2013

Paciência tem limite



Numa publicidade do café Lavazza, a cena inicial explora características típicas femininas e masculinas: a mulher que faz um monte de perguntas e o homem que se impacienta.

Meu limite para questionários vai até a primeira pergunta. Na realidade, termina um pouco antes, mas consigo me controlar. Ou que falso calmo eu seria? Com o cérebro sempre em ebulição, preciso de pausas longas para absorver perguntas e elaborar respostas. Não é raro eu dar uma resposta absurda e sem sentido a alguma pergunta:

▬ O que você pretende fazer a respeito disso?

▬ O brasão da ferrovia tem um urubu amarelo.

Mas eu também posso simplesmente responder “amanhã eu vejo isso.” Como não gosto de procrastinar, “amanhã eu vejo isso” significa somente que não haverá uma resposta. Lá pela terceira ou quarta pergunta, quando o funeral da minha paciência terá terminado faz tempo, a fuzilada visual pode ou não ser acompanhada de um breve “amanhã”. Nesses momentos, não insistir e me deixar em paz é o caminho mais seguro para evitar o apocalipse.

Quer me ouvir falar a noite inteira? Evite começar o bate-papo com uma pergunta fechada (daquelas que só permitem uma resposta: “essa parede verde ficou uma maravilha, não é?”). Converso sobre tudo, até sobre assuntos que não domino, só não gosto ter de concordar com a opinião alheia nem de me sentir obrigado a tomar posições. Sou um bom observador que não gosta de ser observado. E sou prático. Normalmente já decidi o que fazer a respeito daquilo e tenho uma opinião sobre aquele verde horrível na parede, mas prefiro não me exprimir. Para não ser contestado ou para evitar ser diplomaticamente hipócrita: “lindo, esse verde!” Quando eu quero a opinião alheia – o que não é um crime –, eu peço. “Amanhã eu vejo isso” costuma ser uma resposta suficientemente absurda  e silenciadora na maioria dos casos.

Mas tem o lado divertido: observar a expressão de quem ouve uma das minhas respostas absurdas. Diante do meu ar sério e da minha segurança, poucos entendem na hora o que está acontecendo. A cara de “oi?”, “...hein?”, “não entendi” e “será que ele tá me gozando?” desarma o gatilho cerebral da próxima pergunta. E se, na semana seguinte, a pessoa volta ao assunto dizendo que não entendeu a minha resposta, fico olhando sem responder [fingindo uma expressão de “oi?”, “...hein?”, “não entendi” e “será que ele tá me gozando?”] e pergunto depois de uma pausa mais longa que o normal: “do quê você tá falando?”

Quer saber? Se eu tivesse uma irmã como aquela da propaganda da Lavazza, eu não iria terminar no paraíso.

14 comments:

Thais Miguele said...

Well, acho que não fiz nenhuma pergunta retórica no jantar entre amigos de Angola, por que, né? Não te achei mega estranho!!! Heheheh.

Flavia said...

O que eu aprendi. com o seu texto a responder aquilo que eu não quero para alguém."Amanhã eu vejo isso" adorei!

myra said...

agora voce me fez rir! otimo, e muita verdade! a mim qdo me pergumtam sobre uma pintura ( que nao gosto, mas nao quero ofender..) digo"mto intressante" :)))
um gde abraco!

@deniserangel said...

Mais uma faceta sua que não conhecia, ahaha. Hoje em dia, uso o freio "é verdade?", "é útil?", "bom?", antes de falar algo a alguém. Quanto a fazer perguntas, vou me policiar quanto àquelas que exigem uma única resposta e não favorece o diálogo.
Obrigada pela dica, amigo.
abraço, garoto

Anonymous said...

O Lavazza não tão bom quanto os italianos pensam, porém reconheço que os italianos sabem preparar um excelente ristretto e o fazem com prazer.
O que isto tem a ver com o texto?
Oi? Hein? Não entendi! Está me gozando?
Manoel Carlos

Dayanne Guerra said...

Allan acho que me identifico muito com o que você falou, adoro observar e não quero ser observada. As vezes brinco dizendo que tenho preguiça de conversar, mas simplesmente me cansa ter que concordar ou discordar de algo que já foi exposto como uma opinião. Me identifiquei muito com sua colocação.

Claudinha ੴ said...

Entendo bem sua tática, aqui usam a mesma. Mas eu tenho meus segredos. Dosar as perguntas, apropriá-las para que as respostas sejam dadas e ter algumas cartinhas na manga...
rsrsrs

Bah said...

Acho que isso é coisa de homem uahauahua geralmente não têm paciência pra #mimimi. Aqui em casa é a mesma coisa. Sempre chego no limite da paciência dele auhauahau

Kisu!

Vincenzo said...

gostei muito do texto e, como moro na Italia e infelizmente o spot é muito comum por aqui (e transmitido diariamente), posso dizer com certeza que eu também não iria terminar no paraíso com uma irmã assim... :D


maray said...

Allan, eu já trabalhei com pesquisa. Dessas que ficam azucrinando as pessoas com perguntas. Trabalhava para um instituto de pesquisa. Foi meu pior emprego. Eu adoro ouvir pessoas, mas percebia bem quando queriam se ver livres de mim. Mas eu precisava trabalhar, né? Puxa, só de lembrar ainda me sinto mal...
Hoje eu respondo a qualquer questionário na rua. Acho que é sentimento corporativo, solidariedade, sei lá. Pena do ser humano que precisa ter uns empregos chatos assim!

abraços sem nenhuma pergunta. Juro!

Roseane Viana said...

Bom saber. Se um dia te conhecer pessoalmente sei que não poderei fazer muitas perguntas...bom final de semana!

Léia Silva said...

Oi Allan
Acho essa propagando super chata e acho incrível como está durando todo esse tempo "no ar"!
Sexta-feira fui a um jantar e um amigo do meu marido fazia sempre esse tipo de pergunta fechada e conversou sozinho a noite inteirinha! Quando a sua mulher começava um assunto ele também a interrompia e continua a conversa dela, ui!
Também não gosto que ter de concordar com a opinião alheia e de me sentir obrigada a tomar posições, mas as vezes para evitar polêmica com gente chata concordo com um "humrum"!
Bjim
Léia

Sissym Mascarenhas said...

Allan,

kkkkk que bom que voce me entenderia....

alias, gostei da expressão: " o funeral da minha paciência terá terminado faz tempo" - nunca mais esquecerei.

Beijos

Luma Rosa said...

Oi, Allan!
Sou boa para observar e isso não quer dizer que goste de responder perguntas. Mas em geral, esse tipo de pergunta que já sabemos a resposta, serve para fazer pressão e enrolar caminho para chegarmos em definitivo aquilo que queremos.
Se alguém lhe perguntar sobre a cor da parede, a resposta vai depender se foi um homem ou uma mulher que a fez. Se for mulher, ela quer que você concorde, pois já está escolhida. Se for um homem, desconfie. Um homem de verdade nunca irá lhe perguntar se gosta da cor da parede. Enfim, responder alguma coisa, depende também dos nossos interesses. Se acho a pergunta absurda, pergunto logo porque está fazendo a pergunta. Afinal, é lógica a resposta.
Beijus,