Sunday, June 12, 2011

Virei viado

Não, não sou homofóbico. O “viado” do título nada tem a ver com a sexualidade, minha ou alheia. Evito usar termos racistas ou derivados de preconceitos, como “judiar” ou “denigrir”, por exemplo, mas de maus hábitos e boas intenções todos somos vítimas.

Nos primeiros anos de Itália, quando ouvia alguém dizer que um produto de determinada região era superior ao de outro lugar, ficava curioso, procurava confrontar e decreteva: “Isso é coisa de viado!” Com a tecnologia do nosso tempo, é possível reproduzir qualquer produto em qualquer lugar, pensava eu. Pois o tempo passou, aprendi a degustar com calma, trabalhei oito anos em uma cooperativa de supermercados como gerente de produtos frescos (queijos, iogurtes, massas frescas, salames e demais embutidos, etc.), fiz diversos cursos (sim, Slow Food também), visitei muitos fornecedores, estudei, debati e aprendi muito.

Lembro do fornecedor de Mozzarella Di Bufala Campana DOP que chegava às sete da manhã, junto comigo, para descarregar o produto fresco e com prazo de validade de seis dias. Nos trazia sempre uma confecção grande na cabine do furgão para não esfriar, diretamente de Nápoles. Era o nosso café da manhã três vezes por semana. Dos inúmeros queijos que tive o muito prazer em degustar, o Ragusano é o meu preferido. Dentre os embutidos, o Culatello di Zibello é, sem dúvida, a melhor especialidade gastronômica que já provei. O porquê de tanta qualidade se deve à seleção e criação dos animais que um dia perfumarão a nossa mesa, ao clima particularmente úmido da região e a uma preparação cuidadosa e artesanal.

Noutro dia, na “XXVI Festa del Culatello di Zibello”, ouvi uma senhora respondendo à filha que perguntava o que fosse o tal culatello. Quando a senhora esclareceu que se tratava de um presunto, olhares afiados cortaram-lhe a alma. O culatello é a parte mais nobre da coxa traseira do porco, na parte interna. É o corte macio do que viria a ser presunto. A maioria dos presuntos crus produzidos no Brasil não se comparam com a suavidade dos presuntos crus italianos. Também existem produtos ruins por aqui, mas é mais fácil encontrar presuntos crus italianos que respeitem o delicado paladar dos consumidores. Só que o culatello não é um presunto, é culatello.

Em Fevereiro estive na Costa Amalfitana, vizinha a Nápoles e produtora de mozzarella di bufala. Lembrei do sabor da mozzarella daquelas manhãs no trabalho e fiquei surpreso ao descobrir que consumida ali, poucas horas depois de produzida e ainda morna, era ligeiramente superior. Nada que um paladar habituado a sabores fortes possa identificar. São sutilezas gustativas que enaltecem o próprio paladar e alegram os bolsos dos produtores. É uma troca justa.

Se você pretende vir à Itália passear de gôndola, venha. Apenas considere que existem outras descobertas que podem deixar recordações diferentes. Como visitar a pequenina Zibello e provar o que para muitos é o rei dos embutidos, o Culatello di Zibello. Emoção garantida ou seu paladar de volta.

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14 comments:

myra said...

voce sempre ensinandonos delicadezas e tantas outras coisa!!!! obrigada!
um gde abraçO!

Georgia said...

Putz Allan, levei o maior susto agora com o titulo do teu post. Tu virando viado nessa idade e com filhas tao inteligentes, uma mulher que com certeza nao ia deixar vc virar viado de jeito nenhum, kakakkkaak, ainda bem que vc expplicou isso, rs.

Sem preconceito, viu.


Boa semana

Thais Miguele said...

Fazia tempo que eu não entrava aqui, a correria do trabalho não permitia. Adorei a história da sua bebê indo pela primeira vez à discoteca. Ela ainda vai murmurar muitos Nunca Mais, sabe?

Cris said...

Allan

Que post maravilhoso! Um dia ainda vou conseguir provar uma mozzarela feita na hora! Um abraço e boa semana

Menina no Sotão said...

Você me fez lembrar das viagens que fazíamos na infância, mio babo e eu para comprar morangos porque os de determinadas região, eram mais doces e graúdos. Isso sem falar nas adégas e nos produtores de queijo. Nossa, que viagem.
Uma ocasião um primo foi com a gente e esse ficou bebado de tanto suco de uva que tomou. kkkkkkkkkkkkkkkkk
Vou embora ou então as lembranças vão se ocupar de mim totalmente.

bacio

Sissym said...

Olá Allan, dicas muito interessantes, vou visitar os links indicados. Cada vez mais me encanto com assuntos variados sobre a Italia. Recentemente fiz uma nova amizade, mora na Toscana, e estou sendo apresentada a tantas particularidades encantadoras desta terra regada de historias, lugares e gastronomia.

Bjs

Ana Wants Revenge said...

pois eh, essas dicas vao valer ouro na minha proxima viagem. nada como enxergar as sutilezas dos lugares que visitamos. ;)

beijo grande :***
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Lili Detoni said...

Allan! Vc disse que adoraria estar em Sampa pra comer aquele maravilhoso lanche do Mercado Municipal... porém, olha só quantos sabores vc me fez imaginar com esse post!!! O bom é que daqui há poucos dias estarei na Itália, com minha lista de dicas que vc nos dá! Até breve!
Lili.

Sissym said...

Allan, adorei o Minube. Não conhecia.
Aproveitei para compartilhar cada post indicado aqui (Facebook e twitter). As fotografias são lindas, alias, as cidades Zibello e Costiera Amalfitana são belíssimas.

Beijos

Inaie said...

adorei!!! to querendo ir a cinqueterre em agosto. vamos vers e rola...

Palavras Vagabundas said...

Até me deu fome e acabei de jantar ... mentira, me deu vontade de sentir os cheiros e degustar devagarinho, rs
abs
Jussara

Lili Detoni said...

Olha eu aqui de novo! Passei pra dizer que chegarei em Roma no próximo dia 9! Dia 12 irei para Florença, onde ficarei sete dias (passeando pela região, além de ir em La Spezia - visitar nosso amigo Antonio - e conhecer Cinque Terre. Nesse meio tempo, tentarei ir até Piacenza, e com certeza entrarei em contato. Mas, poderemos mesmo fazer um passeio junto de vc e sua família, ok? (quem sabe, em La Spezia?!) Assim que definirmos o roteirinho, deixarei um recadinho aqui. Abraços!
Lili.

lyz said...

:-))
Que máximo:-)
hahahah
gostei muito de chamar atenção para as nuances do sabor.
E vamos ao Culatello.
O de Zibello, chiaro!
bjks
Meg

Anderson Fabiano said...

Querido Allan,

Sempre que passo por aqui você me reconduz a um cantinho qualquer dessa Itália que, no pouco tempo em que lá vivi, me deixou marcas tão profundas.

Sabe, adoro meu país! Gosto mesmo. Com pitadas de patriotismo e tudo mais, mas, devo confessar que alguns pedacinhos do mundo que pude conhecer deixaram-me a nítida sensação que tinham mais a minha cara que esse costão de lindas praias, o chope e a conversa fiada (e afiada também). rsssss

Você tem a incrível capacidade de fazer seus leitores viajarem por onde você passa. Ruas. hábitos, especiarias, curiosidades, detalhes sutis que encantam.

Parabéns, parceirinho!

E, se sobrar umas casquinhas de Culatello manda pro amigo aqui. Prometo que escrevo algo tão bom quanto o que acabo de ler.

Meu carinho,
Anderson Fabiano