Sunday, June 05, 2011

Glam

As discotecas fazem muito sucesso por aqui. Ainda. Não existem boites e as opções de lazer – construídas pelos homens – devem oferecer música e ambientes fechados, ou funcionarão três meses por ano. , ainda, o problema da paz pública, o que as faz se instalarem em zonas desabitadas. Além disso, as discotecas são opção para os jovens a partir dos 16 anos; gasta-se pouco, passa-se a noite e tem-se a impressão de já ser adulto. Até que um dia o adulto descobre que não é divertido ser mais um no meio daquela multidão doida para ser adulta, abdicando-se da música em volume lobotomizante até que os filhos (ou filhas, no meu caso) atinjam a idade de frequentar discotecas. Mas a partir de então, seremos apenas motoristas.

Ela ensaiava há tempos uma tática que me demovesse da decisão de frequentar discoteca depois dos 18. A ocasião apareceu com a festa da amiga. Reapareceu, pensando bem, pois a festa da escola do ano passado não contou com a presença dela, ainda com 15 anos. A animação nem era tanta e resolvi ceder. Não sem antes deixar claro que a próxima vez seria aos 18 (esperando que nenhuma outra amiga resolva comemorar o aniversário em uma discoteca antes).

Oito da noite. Um bando de meninas invade o apartamento e se entrincheira no quarto dela. O barulho dos saltos altos no pavimento de madeira se funde com o ininterrupto tagarelar. A porta fechada não encobre o barulho das granadas e metralhadoras. Às dez e quinze a tropa sai pronta para abater o inimigo, qualquer que seja ele. Uma parte se despede e desce para esperar o pai motorista de uma delas; as restantes me olham radiantes, esperando os elogios que prontamente chegam. A irmã mais velha saiu há mais de uma hora, com destino mais tranquilo e um sorriso maroto de quem passou por isso. As senhorinhas vestidas de noite, maquiadas e equilibradas sobre saltos muito altos me apressam, como se eu não tivesse passado a noite esperando para levá-las.

Deixo-as na frente da discoteca Glam, em Sarmato, a 18 quilômetros de casa, e descubro que todas conbinaram vestir-se do mesmo modo. A caravana de pais não se atreve a entrar no amplo e engarrafado estacionamento, sob pena de ficar preso até às duas da madrugada, limite dado às debutantes disco. Volto no horário marcado, como todos os outros pais. As senhorinhas não parecem tão entusiasmadas nem tão elegantes como na chegada. Pela quantidade de meninas mancando imagino que uma epidemia abateu-se nos saltos altos da discoteca. O grupinho finalmente encontra o carro à entrada do estacionamento, comigo dentro. Ela está abatida e desiludida; os adultos não frequentam o lugar; os pés doem e há uma ponta de inveja da irmã mais velha: não há uma irmã mais nova para o futuro sorriso maroto. consegue murmurar: “Nunca mais!”
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10 comments:

myra said...

que bom que a tua filha disse "nunca mais"!!!
sempre detestei as discotecas, é somente barulho...
abraços e sabe, voce escreve tao bem, meu querido Allan!!!

Elvira said...

Concordo com ela.
Barulho o tempo todo na minha cabeça, nunca mais !!!

Bjs.
Elvira

Ana Maria said...

Uma das coisas que eu mais gostei quando entrei na idade adulta foi de não ter mais a "obrigação" de frequentar esses lugares chatos só para poder fazer parte da turma. Mas ao mesmo tempo, acho legal essa fase de ir aos lugares pela primeira vez.

Lili Detoni said...

Eu amava as discotecas que abriam à tarde para "ainda não adultos"! Enquanto li, lembrei com saudades desse tempinho que meu coração grita pra me lembrar: "Nunca mais..."
Abraço da Lili!

Jussara Gehrke said...

Meus filhos passaram por isso, mas me lembro que com os 4 foi do mesmo jeito, foram pouquissimas vezes e tb não curtiram.
A maior preocupação é quando cmeçam a sair sozinhos à noite, e de carro! passei anos sem dormir direito, credo! nem gosto de lembrar!

bjs
Ju

maray said...

conheço o problema. Mas quase tinha esquecido, pois os meus já passaram dos 30. Mas houve uma noite em que fui buscar o meu e, parada lá na rua augusta às duas da manhã, parou também um carro e me perguntou : "quanto?". Não fiquei chateada não. Considerei um elogio. Aquela história do copo meio cheio ou meio vazio, depende de como se olhe...
Mas esse "nunca mais" da tua filha, no caso dos meus, durava geralmente um mês, quando muito ...
Beijão!

Lu said...

Confesso que eu ri muito aqui. Fui apenas uma vez a discoteca e quase enlouqueci. Levei vários dias para recuperar minha audição. kkkkkkkkkkkkkkk
Os pés sairam bem de lá, até porque eu nunca fui fã dos saltos altos. Meu sapato natural chama-se tenis. rs

bacio

http://graceolsson.com/blog said...

Pelo menos, ela decidiu depois de, realmente, ter sentido na pele.
parabéns pela decisao dela.Dias felizes, sempre!!!

Palavras Vagabundas said...

As agruras de ser pai, rs
O problema nessa idade é que pés machucados e ouvidos zoando são lembranças que duram no máximo um mês.
abs e bom fim de semana
Jussara

Sissym said...

Ahhhhh adorei quando li "nunca mais"!!!!

Bjs