Sunday, June 27, 2010

Depois de levar tanta crise na cara, não será a italiana a me abater

Acabara de ler uma frase atribuída a Picasso que dizia: “A juventude não há idade.” Não entendi e saí para brincar na rua. Eu tinha uns doze, treze anos e um amigo com quem passava horas e horas, o Alaor. Um dia o Alaor se engraçou com uma menina de um outro bairro e o Jaime, o dono do bairro vizinho, veio tirar satisfação berrando no nariz do Alaor. Me meti na frente e defendi o amigo, dizendo que se no outro bairro só tinha frouxo não era culpa nossa. O Jaime partiu pra cima e decidi que seria batalha até a última gota de sangue. Acontece que o Jaime era maior que eu e o Alaor juntos. Morreria como o homem que não chegaria a ser, mas deixaria minha marca no Jaime. De repente o Jaime saiu correndo. Na
reação inesperada perdi preciosos segundos na corrida atrás daquelas pernas longas que se distanciavam velozmente. Não veria a última gota de sangue do Jaime, mas ganhei fama de brigão. Galinho de briga com tamanho e feições de querubim. Depois fui aprender capoeira e box, que me ensinaram a controlar a minha agressividade. [Auto-controle]

Quando fui trabalhar naquela grande cervejaria, descobri que a minha falta de tato, a impaciência, a sinceridade a qualquer preço e a minha desorganização iriam me levar a ter a carreira mais curta da história da empresa. Aprendi a ser (muito) diplomático, (muito) paciente e passei a dar mais importância à política da empresa que às minhas opiniões, ainda que elas fossem divergentes. Tornei-me tão organizado que fui designado como o responsável pelo programa de qualidade da empresa no departamento comercial, com 82 funcionários. [Adaptar-se, respeitar a hierarquia, reconhecer as próprias deficiências e procurar melhorar: mudar]

Em Junho de 2008, em uma carta intitulada Mudanças, escrevi criptograficamente o falimento da empresa onde trabalhava. Iniciava a crise italiana que piora a cada dia e eu não tinha expectativas de um outro emprego nas mesmas condições do anterior. Havia combinado com um colega de trabalho – e amigo – que abriríamos juntos um franchising com a indenização recebida, cuja franquia exigia uma sociedade de dois sócios. Precavido, pesquisei uma opção para o caso do amigo desistir na última hora, um plano B. Mas deveria ser algo que eu pudesse administrar sozinho. Bem, na última hora o amigo desistiu e eu fiquei com o plano B. A minha primeira experiência empresarial – ainda que pequena – em terras estrangeiras começava com uma crise, mas eu não podia esperar. [Planejamento, agilidade nas mudanças e disposição para enfrentar imprevistos]

A situação da economia italiana vai mal. Muito mal. O governo informa que mais de 500.000 postos de trabalho desapareceram com a crise, mas a realidade é bem outra. Existe na Itália um “amortecedor social” muito utilizado pelas empresas nesse período chamado “caixa integração” o que significa que o funcionário vai em férias forçadas e o INPS – e só o INPS – paga 60% do salário dele. Quando a produção volta ao normal o funcionário retorna ao seu trabalho. No caso da Alitalia, por exemplo, os funcionários que não foram aproveitados pela nova companhia tem direito a 7 (sete!) anos de “caixa integração”. Como o INPS não produz dinheiro, a conta é paga pelo contribuinte. Um ex-piloto da Alitalia ganhava em média € 12.000,00 por mês. Viver com 60% disso por sete anos sem trabalhar é como ganhar na loteria. Mas o pobre operário que vivia com € 900,00 mensais e tinha dificuldade para esticar o salário até o fim do mês não tem como se virar nos poucos meses de “caixa integração” que recebe. Se a empresa fechar as portas, nem os 60% ele recebe mais. A Província de Piacenza informou que até 2007 eram estrangeiros – ou cidadãos italianos oriundos de outros países – 96% da mão-de-obra utilizada na colheita do tomate e da uva, trabalho temporário de Agosto a Setembro em ritmo de 24 horas por dia. A partir de 2008 todos os trabalhadores utilizados na campanha do tomate e da uva eram italianos nascidos na Itália (Todos = 100%). E tem quem me mande e-mails pedindo dicas de como sobreviver na Itália, como se aqui vivêssemos na Europa dos bons tempos. Desde que iniciei a minha atividade, seis clientes fecharam as portas. Reagi pensando: “Não, não houve uma retração do mercado, mas um assentamento que eliminou os comerciantes menos preparados. Tanto melhor, vou ter que rodar menos.” Por questões burocráticas que só quem vive na Itália consegue acreditar, ainda não recebi uma parte consistente da minha indenização que deveria ser paga pelo INPS, o que me obrigou a assumir compromissos que não deveria necessitar, além de um advogado para tentar resolver a questão. Vou em frente. [Auto-motivação, otimismo, capacidade de absorver frustrações]

Hoje o meu movimento seria suficiente para proporcionar-me uma vida mais tranquila, se não houvesse assumido os compromissos que tive que assumir para manter a atividade funcionando, mas vivo na corda bamba, tendo que fazer contas e tomar decisões muito racionadas. Contudo, não posso deixar-me abater. Tenho uma família maravilhosa e o risco é sempre de descontar nas pessoas que estão mais próximas e que são mais vulneráveis, ou seja, minhas filhas. Duas pessoas adoráveis e lindas, que merecem uma vida maravilhosa. Às vezes é realmente muito difícil, mas procuro tratá-las com toda a paciência, a atenção, o respeito e o carinho que elas merecem. Com a Eloá não tem atritos. Jamais nos desentendemos. [Não descarregar frustrações nas pessoas que lhe são caras, a quem lhe está próximo]

Todos os dias acordo pensando num modo de melhorar a situação – que, repito, não é das piores – e busco ou invento oportunidades. Não me dou por vencido e me assusto quando vejo nos jornais que alguém exterminou a própria família e se suicidou por causa de uma situação financeira precária e falta de expectativas. Essa roleta russa social está mudando o humor do povo italiano. Nos últimos três anos tudo o que me poderia acontecer de ruim, aconteceu. Quando penso que a partir daquele ponto as coisas só podem melhorar, lá vem outra notícia negativa para tentar azedar as minhas manhãs. Mas eu não desanimo e procuro concentrar a minha energia na solução dos problemas, e não com lamentações ou pessimismo. Isso tem feito com que eu não sofra por antecipação e tenha mais tranquilidade para encontrar soluções. Quando existem soluções, pois um problema sem solução, solucionado está. Não entendo quem leva a sério o livro “A lei de Murphy”, pois esse não entendeu a sátira da obra e já perdeu a briga antes mesmo de lutar. É um álibi divertido, mas que não exime ninguém da luta. [Preservar as energias para as soluções, e não para os problemas]

- Luís Fernando Veríssimo lançou, pela Editora José Olympio, seu primeiro livro aos 37 anos;
- Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade;
- Clementina de Jesus trabalhava como doméstica até ser “descoberta” por Hemínio Bello de Carvalho aos 62 anos;
- Raymond Alexander Kroc sobreviveu até os 52 anos vendendo máquinas de milk-shake, até descobrir e comprar a lanchonete que ele transformou na cadeia de fast food McDonald’s. [Perseverar]

Hoje eu entendo o que Picasso quis dizer com aquela frase, mas sei que mais dia, menos dia, temos que crescer a assumir a responsabilidade pelas nossas vidas e pelas vidas que colocamos nesse mundo, mesmo preservando uma juventude interna. Não existe ninguém que possa nos substituir nessa (ainda que árdua) tarefa. Desde os tempos do Jaime sou um lutador. Luto em silêncio e não desanimo com os primeiros socos na cara, insisto. Nenhuma crise é maior do que era o Jaime, que deveria ser um pessimista. O pessimismo transforma toda oportunidade em expectativa de frustração. Mude! [A realidade é dura, mas menos pessimista do que imaginamos]

E se o que escrevi não faz sentido para você, talvez você seja uma daquelas pessoas privilegiadas, vivendo acima de questões cotidianas como essas. De qualquer forma, não se assuste, é apenas outra mensagem criptografada.

26 comments:

myra said...

olà Allan, quero te agradecer pelas tuas palavras, nos comentarios, e sabe voce escreve tao bem, mas tao bem
um abraço,

Meire said...

Faz e muito sentido...Sabemos e também estamos sentido na pele este momento.
Meire

Borboletas nos Olhos said...

Sobreviver e seguir amando e sendo capaz de se divertir e pensar. Pra mim parece um bom programa de vida.

Roseane, said...

Eu não sou privilegiada Allan. Eu quero tomar seu exemplo para controlar minha falta de tato. Já me dei mal algumas vezes porque preciso aprender a ser mais diplomática.
Bjks e bom domingo!!!

denise rangel said...

Que belas lições, Allan.Talvez eu tivesse desistido e voltado ao Brasil. A determinação aliados ao amor pela família são peças-chave diante de qualquer adversidades. Elas não diminuem, nós é que ficamos mais fortes.
Força e sucesso em teus projetos. Estás em minhas orações.
abraço, garoto

denise rangel said...

Ops!
.. digo, "a determinação aliada ao...
abraço, garoto

Juliana Rossa said...

Allan, ótimas lições!
Tenho certeza que vc vai superar tudo isso, assim como fez com o Jaime.
Bj!!!

Milton Ribeiro said...

Excelente!

Não esquela que Saramago tornou-se um verdadeiro escritor aos 54 anos, quando estava desempregado e rsolver levar aquele negócio a sério.

Abraço.

Ana Maria said...

Ainda não perdi as esperanças de estar entre os privilegiados algum dia! Esse texto foi perfeito para mim.

ines bachiega said...

Já li que "a vida é simples, mas a gente é que complica", mas não é bem assim. As coisas acontecem, muitas vêzes, sem que possamos nos proteger. Aí é hora de correr atrás, mais ainda, prá se manter em pé. Já encarei várias tempestades de todo tipo na minha vida, mas não desanimo, não desisto, assim como você!
Um grande abraço!
Adorei o texto!

Lunna Guedes said...

E sempre tem alguém que me pergunta como ir para a Itália ou se é um país bom para se viver. Como conseguir cidadania. Se eu sendo italiana posso dar um jeitinho.
Enfim, as perguntas de sempre e o sorriso amarelo.
Acho que não é apenas a condição financeira que vai mal, também a política. Temos questões indigestas e que se arrastam. Sabe-se lá até quando.
Mas o humor do italiano mudou faz tempo, desde que acreditamos que pior que está é possível ficar e viva o Berlusconi e sua gente.
Por causa dele desisti de torcer para o Milan e há tempos que evito ler sobre a condição de meu país. Enfim, pior que está é realmente possível ficar, mas como dizia a nona, uma vez reagimos quando a coisa chegou no fundo do poço. Será que teremos que reeditar tal condição para se fazer alguma coisa? Aff
Grande abraço carissimo

Luma Rosa said...

Engraçado...

"Keep it simple, stupid!"

Comecei essa postagem do "Luz" com essa frase de Ray Kroc.

Ser perseverante, otimista, paciente... tantas qualidades que precisamos para sobreviver! Alguém me disse uma vez que "Amadurecer é assumir responsabilidades", isto não contradiz Picasso, pois podemos ser jovens maduros, pois sim? :=)))

Parabéns pela sua luta, por merecer a confiança de sua família e com isto poder juntos valorizar mais a vida familiar!

Boa semana! Beijus,

Luma Rosa said...

Comecei a última postagem do "Luz"...

Lucia Malla said...

Allan, perseverar sempre. E não desanimar, pq o mundo é belo e cabe numa janela sobre o mar. :)

Conte comigo precisando, ok?

Bjs.

Silvia said...

Mensagem criptografada com lição de vida? Bom demais. É sempre bom a gente relembrar regrinhas básicas da vida. Todos têm problemas, o que vale é como lidam com eles.

Lili Detoni said...

Allan, querido amigo! Que lindas palavras de otimismo! Sei o quanto é difícil encarar os "Jaimes" nessa vida, mas também sei o quanto é maravilhoso VENCÊ-LOS! Eu luto há muito tempo, mas amo cada dia de luta. Trabalho duro dando minhas aulas, costurando meus bichos de pano para vender na feirinha de artesanato, fazendo cursos para aprender mais e mais e mais... Tenho 48 anos e, sinceramente, acho que todo dia é dia de aprender, de iniciar um novo projeto, acreditar num novo sonho e recomeçar! O Brasil também atravessa suas crises, mas, assim como vc, tenho as pessoas que eu amo e que dependem do meu entusiasmo para vencer, aprender e ensinar. Adorei suas palavras (mais uma vez!) e saiba que sempre pensarei nelas quando, por algum motivo, desanimar. Obrigada, pelos seus comentários em minhas postagens! Abraço pra vc e sua família! Lili. :)

Ana Maria Marques said...

Allan, viver é recomeçar todos os dias. Força na peruca! :)

maray said...

Faz todo sentido. E a lei de murphy pra mim é mais do que um álibi. É um conforto. Sou daquelas que costumam "ter certeza" de que o que irá vingar será o plano B. Então eu faço um C, por via das dúvidas... Pessimista por excelência ou genética, sei lá, sempre penso no pior. E, sabe de uma coisa? Talvez pra me contrariar, em minha vida só tem acontecido o melhor...


abração

Maria Augusta said...

Allan, este teu post é uma verdadeira lição de vida. Porque os problemas chegam de todos os lados, não podemos evitá-los sempre, mas eles podem nos destruir ou nos tornar mais fortes, dependendo de como os enfrentamos. Tenho certeza que tua perseverança vai ser recompensada e que teus projetos serão realizados, pois você luta por eles com determinação.
Um grande abraço.

Gilbamar said...

No complexo jogo da vida qualquer reação repentina pode fazer a grande diferença entre "ser ou não ser".

Abraços poéticos de Gilbamar.

Blog do Vini said...

Sábias as lições que alinhastes no teu texto, que vem apenas confirmar a extraordinária figura do seu artífice. Tenho orgulho de ser amigo virtual do VENCEDOR que as escreveu. Não esqueça nunca que no final tudo vai dar certo, se ainda não deu é porque não chegou no final. Abraço grande, parabéns e boa sorte!

deco said...

Belo post... Deve fazer sentido a todos. Aos que não faz sentido, um dia fará. Como diria um amigo meu: "quem disse que viver é fácil?"
Todos temos obstáculos, desde os mais simples aos mais complexos, e a magia da vida é essa, superá-los.
Até.

Diário de Classe said...

Olá Allan!

Rí muito do primeiro parágrafo desse texto. Você descrevendo a sua vida foi como se eu tivesse vendo a vida de pessoas que fazem parte da minha. Um exemplo dessas é meu pai, comerciante que luta para sobreviver entre os tubarões depois de muitas perdas, e dia após dia, consegue manter sua micro-empresa acordando às 5:30 da manhã e indo dormir às 23:00. Sempre com um sorriso no rosto e com muito gás. Recordo também, do meu namorado, de 40 anos a 4 anos desempregado, vivendo da ajuda de seus familiares, sem conseguir arrumar um emprego. Sua lição de vida é lição para muitos que acham que não há solução para tudo. É por esse e outros textos fantásticos que tenho acompanhado eu lhe oferto o prêmio Dardos com muita satisfação. Ele se encontra na minha página. Caso resolva aceitá-lo, é só buscar, ok? Um forte abraço,

Michelle Simões

Amandita said...

Esse post fez muito sentido pra mim. Como sempre, belo texto. Abç,

Brasil na Italia said...

OI Allan,
Belissimo artigo. Quando eu digo que tem crise na Italia, o povo nao acredita. Alguns pensam que eu nao quero dividir a minha "italia prospera" com outros brasileiros.

Acho que a perseverança eh importante, mas notei tambem que as vezes quando as portas se fecham constantemente talvez seja melhor mudar a direçao. Talvez estejamos investindo nossas energias na direçao errada para a nossa felicidade.

Bem, eh dificil dizer. Nao existe uma resposta certa.

De qualquer jeito, desejo tudo de bom

Um abraço,

Barbara

Erica Ritacco said...

Caro,

Cheguei hà somente dois anos e a Europa jà estava em crise. Infelizmente nao tive a oportunidade de conhecer a Europa que estudamos e que conhecemos no Brasil.

Seu texto é maravilhoso. Voce sabe jogar com as palavras e idéias, algo que requer conhecimento de causa, informaçao e muita competencia. Adorei suas palavras. Quem consegue se superar em momentos de crise, é capaz de se superar em qualquer situaçao. A Italia muitas vezes me deixa impaciente e insegura, mas abandonar o barco sò deixarà marcas de frustraçoes.

Um abraço. Erica