Sunday, December 06, 2009

Dos enigmas do coração e das suas consequências

Um casal de namorados aproveita o frio e a chuva insistente para usufruir estreitamente um guarda-chuva. Apesar do clima, sinto no ar a cumplicidade e o calor do afeto que os envolve. Quantos já tentaram explicar o indecifrável amor? Somo-me a eles ou dou de ombros e sigo desviando-me, de marquise em marquise, da chuva que cai? É muito provável que cada um possua a própria convicção sobre esse sentimento tão forte, capaz de guiar escolhas difíceis, decidir vidas e mudar o rumo da história. Como fica impossível acender o meu charuto sob a água que cai, sigo em frente e preencho o espaço da fumaça com o observar.

Mas a palavra, a obrigatoriedade tácita de dar um nome, o definir o que é e o que não é amor é um exercício que repetimos em vão por muito tempo, até nos entregarmos às convenções ditadas pelo senso comum, que já etiquetou tudo para que possamos compreender melhor nós mesmos e os outros.

Como definir o comportamento entre amigos estreitos que compartilham experiências e que condividem o fato de desejarem a companhia um do outro? Ou a relação entre a senhora solitária e o cãozinho que age como se entendesse cada palavra dita, que a protege e que lhe faz companhia todas as horas do dia e da noite? “Amai-vos uns aos outros”. “Crescei e multiplicai” não seria um modo para fazer multiplicar também o amor?

Muitas vezes ouvi dizer que não se pode amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E como justificar o amor dos pais pelos filhos? “Ah!, mas aí é diferente”, dirá alguém. O cinema e a literatura podem adocicar a realidade das conveções e nos apresentarem personagens que se amam mas que acabam por viver separadas. Distantes, se apaixonam e casam e amam a nova pessoa que lhe estará ao lado sem deixar de amar a anterior. A arte copia a vida, como na magia do primeiro amor que muitos carregam para sempre, mesmo depois de tantas relações e tantos novos amores. E há quem se apaixone simultaneamente por mais pessoas e as ama com a mesma intensidade. Sim, por mais que tentemos contextualizar e encontrar alternativas lógicas aos limites a que fomos impostos, os sentimentos têm uma capacidade exponencial. O amor é maravilhoso, entusiasmente e contagioso. É possível amar o próprio cão, os irmãos e pais, os amigos, os filhos e a pessoa que nos está ao lado, sem que isso diminua o sentimento que nutrimos por alguém que já não faz parte de nossas vidas. O amor soma e se multiplica. Quanto mais pessoas se conhece, mais se risca um novo amor.

Confesso que é um conceito a ser avaliado e analisado com calma, e não sob uma marquise com um charuto apagado no bolso, fugindo da chuva sem um único bar aberto. Talvez por isso eu não consiga convencer meu amigo Carlo sobre o comportamento da Pina – diminutivo de Josephina. Ela ama o sobrinho dele que os visitou no último verão, do mesmo modo que ama o vizinho do terceiro andar. E o encanador que levou três meses para encontrar e consertar o vazamento no banheiro. E o professor de matemática do filho deles; o açougueiro que lhe separa sempre a melhor carne; o jornaleiro, o vendedor da loja de sapatos, o sacristão. Tento convencê-lo a abrir horizontes e buscar novas experiências; argumento que o casamento deles não acabou, mas que deverá ser visto sob uma ótica mais plurarista, mas ele abana negativamente a cabeça. Só consigo a sua anuência quando lhe recordo que tentativa de homicídio é uma acusação que lhe causará problemas sérios, a menos que a acusação não seja redimensionada se a Pina possuir o dom do perdão e compreender que Carlo estará se esforçando para aceitar serenamente a capacidade da própria mulher de possuir o mais nobre dos sentimentos em proporções bíblicas. Diluvianas, eu diria. Ame-a, Carlo. Para Pina é tão importante distribuir o seu amor quanto gozar a liberdade o é para você.

7 comments:

Dentro da Bota said...

Passando para um OISSSS!!!
E curtir o blog....

Tanti Saluti!!!

Gi!

Maria Augusta said...

Excelente, Allan! Também acho que o amor pode ser amplo e irrestrito, mas o amor "carnal" se convencionou que deve ser exclusivo para uma pessoa pelo menos na nossa sociedade...
Quanto ao comportamento da Pina, confesso que eu também não gostaria que meu marido distribuisse seu amor tão generosamente rs.
Abraços.

Izabel said...

Olá, Allan. Vim conhecer seu espaço.

Acredito que a uma série de sentimentos, denominamos Amor mas, o Amor verdadeiro é impossível descrever usando a linguagem. Acho que ele simplesmente é.

Um abraço.

Fiquei surpresa ao saber que aí não existe couve.

denise said...

É muito fácil dizer que amamos amigos, pais, filhos, a humanidade. Amar o parceiro conjugal é algo único e intransferível. Não sei se é cultural ou natural. Mas ainda acredito que só se ama uma pessoa de cada vez, jamais ao mesmo tempo.
abraço, garoto

Georgia said...

Xiiiiiiiiii! Coisa difícil! Eu sou muito no singular quando se trata de Amor. Amor de filhos, amor de amigos, Amor de Amor. Sou egoista quando amo, nao gosto de dividir o meu néctar, rs, assim como nao divido. Posso ser mil pessoas num momento singular, dependendo da fantasia que se deseja e quer, mas os personagens permanecem sempre os mesmo, ele e eu. Há tanta coisa que um casal pode descobrir, mas é mais fácil deixá-lo entrar numa rotina o que para algumas pessoas isso seria problema, como no caso da Pina. Ela está sedenta por aventuras...entao ela tem que levar o parceiro a uma aventura e nao se aventurar-se.

Boa quarta

Brunno Soares said...

Olá Allan, obrigado pela força na caminhada das telas, caminho longo ainda...
grande abraço

vc gosta de pintura?

Segunda impressão said...

Muito bacana! Ah, o amor e suas vertentes...
Lembrei disto: "A suspeita subtrai, a fé adiciona, mas o amor multiplica. Ele abençoa duplamente: aquele que o dá e aquele que o recebe". – C. T. Studd