Wednesday, May 13, 2009

A Ilha

Aos poucos a terra foi desaparecendo até que restou aquela tripa no meio do oceano. O povo que ali vivia se dividia entre ‘de esquerda’ e ‘de direita’, entre sul e norte, ainda que fosse impossível identificar onde era o norte ou o sul. As poucas bússolas giravam sem referência; o sol e as estrelas a cada dia nasciam numa direção. Tinha-se a impressão de que o último pedaço de terra deste mundo flutuava sobre um lento vórtice.

Eles a chamavam “Nossa Terra”, pois tinha sido proibido referir-se ao lugar como uma ilhaera uma ilha – e todos eram orgulhosos da própria cultura. “A única sociedade que sobreviveu”, diziam. De resto, discordavam de tudo. Nada era decidido, todos objetavam e denunciavam complôs. Até mesmo quando decidiram construir a nave discutiram e se acusaram mutuamente de plágio, espionagem e processaram-se em uma disputa pela autoria da ideia, que não chegou a conclusão alguma. Foi porque todos se sentiam donos do projeto que o navio foi construído. [E porque – dizia-se à boca miúda – a ilha também iria desaparecer.]

Construíram um imenso estaleiro flutuante, capaz de suportar o navio que abrigaria toda a população. Áreas de lazer, atividades produtivas e, é claro, muito conforto. Para evitar novas acusações e espionagem, a estrutura foi dividida à metade, direita e esquerda, e um tapume escondia o que cada parte fazia. A esquerda caprichou na biblioteca, no salão de debates e nos diversos bares para onde convergiriam as muitas facções partidárias. A direita não deixou por menos no suntuoso e único restaurante, no salão de festas e no palanque eleitoral

O tempo passava e a barulheira era infernal, vinte e quatro horas por dia. Na data marcada a grande nave estava pronta. Coberta, mas pronta. A direita desejava fazer uma grande festa, mas a esquerda achou um desperdício e começou a derrubar o tapume. O povo foi subindo aos poucos, deixando aquela tira de terra que começava a alagar. Como previsto, o peso dos moradores fez a estrutura ceder e o navio começou a flutuar.

Os líderes das duas partes se encontraram no meio do navio e tiraram as últimas peças que dividiam a nave. Finalmente todos no mesmo barco

A direita logo apresentou seus planos de navegação, mas a esquerda discordou:
▬ Iremos na direção em que aponta a proa. Fácil!

A direita deu de ombros:
A proa aponta para a direita. Iremos pra .

Fomos nós que construímos a proa. – Retrucou a esquerda – Pilotamos nós o navio. Para a esquerda!

então se deram conta de terem construído duas proas. O navio não tinha popa nem motores ou leme.

Vocês tinham os operários e a matéria-prima. Por que não fizeram a popa e os motores? – Questionou a direita.

Mas se as indústrias e os engenheiros estavam nas mãos de vocês… – Acusou a esquerda.

Mas se as fábricas ficavam no sul, a parte pobre e esquerda da ilha

Mas se eram vocês a ter o projeto nas mãosBlá, blá, blá

Acontece… Blá, blá…

Blá…

A terra começava a desaparecer, a nave flutuava à deriva e a discussão ameaçava não ter fim. As vozes iam desaparecendo na imensidão daquele oceano único, azul-escuro como a noite que começava a cair. No horizonte grossas nuvens se formavam. E eles rumavam para a tempestade.

Blá, blablá, blá!

Blá, blá…
 .

16 comments:

Dentro da Bota said...

Adorei o textoooo!!!
Bacione

Gi!

Anonymous said...

Gosto muito do que você escreve, sobretudo quando descreve aspectos culturais dos lugares, inclusive culinários. Contudo, este foi seu texto de que mais gostei. Alegoria maravilhosa!
Manoel Carlos

Georgia said...

Estamos indo passar 10 anos numa ilha deserta, explico tudo no blog...

Abracos

Silvia said...

Posta no Faça. Tudo a ver.

Carlos Medeiros said...

Esquerda, direita, boa essa. O mundo dividido causa ruínas a ele mesmo.

denise rangel said...

Para pensar. Eu tenho a Amazonia, a Africa tem a sede, e por aí vai. Os seres humanos(?) só se reúnem para guerrear. O fim do mundo visto deste jeito até parece utopia.
abraço, garoto

Meire said...

Mandou bem Allan!

Bjs

Beth/Lilás said...

Oi, Allan!
Agora tô vendo na sua lista de blogs ao lado que és leitor do figuraça e excelente escritor Branco Leone!
Também curto muito aquele desbocado!
abraço carioca

Li said...

Oi Allan querido! Obrigada oela visita! Que grata surpresa te encontrar. pois ñe criei um blog novo, vou te adicionar lá pra ficar mais facil te achar
bjs!

Anonymous said...

Oi Allan, você viu que festa incantevole delle piazze?
Partecipe também, será um prazer.
Um abraço.
Fatima

Claudio Costa said...

Que estranha tendência à auto-destruição que possuem os seres falantes!

Roseane, said...

Que interessante...é a terra e os seres humanos...assim mesmo!!! Bjks

Anonymous said...

Que bela porcaria de texto. Um bla-bla-bla sem nexo. Muita graspa.

Magui said...

Gesticulavam muito?

Segunda impressão said...

O blá blá blá dos homens que se perdem em pequenas disputas, não deixam a salvo nem mesmo uma ilha. Discussões inúteis, divisão...tudo consiste em verdadeira perda de tempo.

Marco said...

Nós somos mesmo uma ilha, não acha? Melhor eu não dizer isso, vai dar motivo para novas discussões. kkkkkkkkkkkk