Chove e faz frio; na montanha voltou a nevar. É o adeus anual do Inverno azedando o humor italiano neste início de primavera. Curiosamente é o clima que mais me faz lembrar do Embu, em São Paulo. Sim, curioso porque no Embu também faz sol, calor e quase todas as outras manifestações atmosféricas. Noites frias e chuvosas embuenses, bebericando conhaque num bate-papo com amigos.
As tardes frescas da primavera italiana me lembram Assis, sempre em São Paulo. Horas e horas esperando o peixe que nem sempre mordia a isca, o que não chegava a incomodar a descontração ou as risadas provocadas pelos ‘causos’ narrados pelo seu Zé, sogro e amigo. Nem só de
memória gastronômica vivo eu, mas essa associação com o clima tem a capacidade de me fazer reviver momentos e lugares como nenhuma outra circunstância.
Algumas experiências são únicas, como a primavera em Sampa: saía de casa com pulôver e casaco na manhã gelada; por volta das dez o calor e a umidade provocavam uma sensação de coceira, como se milhares de agulhas me espetassem todo o corpo, numa agonia que me obrigava a ficar em mangas de camisa o mais rápido possível e sem saber o que fazer com os agasalhos incômodos. Lá pelas três da tarde, com o calor que fazia, ninguém suportava sequer olhar para os casacos e roupas de lã, amontoados em um canto qualquer. Voltava para casa cansado, com frio, os olhos vermelhos e ardendo, consciente de que a cena se repetiria no dia seguinte. O verão no Rio é inigualável, não só pelo calor mas pelo ar que se respira. Uma sensação de casa como em nenhum outro lugar, diferente do verão de Salvador, ventilado e festivo, mas onde me sentia sempre como alguém de passagem, apesar dos quase 12 anos vividos lá. Reencontrei o clima de Ilhabela aqui na Itália, na ilha d’Elba, talvez por ambas serem ilhas, mas em Elba não tem borrachudos.
Óbvio que a neve é uma ocasião especial e incomparável com os diversos climas no Brasil. Nem chego a ter certeza de que sentirei saudades dela. Ir trabalhar debaixo de neve está longe do meu conceito de divertimento. Depois, carioca que sou, prefiro o mar à montanha. E agradeço aos céus que nem todos pensam como eu.
Enquanto houver memória haverá história. Troquei o conhaque pelo vinho, o ar não é aquele do Rio nem a brisa é a mesma de Salvador. Na última vez em que seu Zé esteve aqui pescamos mais peixes que em muitas tardes à beira do Paranapanema somadas. As estações costumam ser mais marcadas e aprendemos as ocasiões em que se deve levar um casaco, ainda que por precaução. Mais uns dias e a primavera torna senhora da vida. E eu nem sinto saudade dos borrachudos.