Sunday, May 13, 2007

Blade Runner

Não falo das máquinas projetadas para facilitar a vida e – teoricamente – deixar-nos livres para gozar melhor o tempo. Aquelas máquinas que torram o nosso suado dinheiro, mas que nos obrigam a questionar como fazíamos antes, sem elas. Máquinas de lavar, telefones e aviões: tudo isso é útil. Tampouco penso àquelas outras, que cada vez mais substituem braços humanos nas fábricas, cujos projetistas, sabiamente, evitam desenvolver com formas humanas. Nem daquelas que mexem com as nossas emoções e nos tornam obesos preguiçosos, como os televisores e os vidros elétricos dos carros, não. Estou me referindo às máquinas de uma geração mais jovem, que completam o trabalho de exterminar um dos últimos prazeres da nossa civilização. A minha guerra é contra as máquinas de distribuição automática de café, doces e salgados.

A Itália está se transformando num enorme fast food, com o que existe de pior nesse ramo. Sabe aquela gentileza empresarial de oferecer um café fresquinho e grátis ao visitante? Pois é, na Itália não existe. O fornecedor ou cliente terá tomado o seu café na máquina da sala de espera. E, se estiver com fome, pode fazer uma boquinha com salgadinhos, chocolates, doces e até sanduíches, além dos sucos, chás e refrigerantes. Tudo devidamente industrializado. Alguém está enchendo os bolsos graças a obesidade alheia.

Com exceção das escolas do ensino fundamental, onde são proibidas, as máquinas de guloseimas fazem parte da arquitetura italiana. “Precisa deixar um canto com uma tomada para a máquina de café.” Não raro, quem não tem tempo de sair para almoçar acaba se entupindo de calorias, química pastosa e formol (por que ninguém irá conseguir me convencer que um sanduíche de atum com maionese dure um mês sem aditivos). na sede da empresa onde trabalho são nove máquinas, que vendem muita coisa que médicos e nutricionistas aconselham evitar. O bar mais próximo fica a 30 metros da empresa. Apesar disso, as máquinas são reabastecidas a cada dois dias.

Os italianos nem se dão conta de que estão abrindo mão da alimentação sadia e diversificada que atrai milhões de turistas todos os anos. Vão acabar matando a galinha enriquecendo médicos e fabricantes da má alimentação

Estações de trem, shopping centers, faculdades, museus, e até nos diretórios dos candidatos às eleições municipais de 27 e 28 deste mês. Em todo lugar estarão as tais máquinas e os consumidores. Definitivamente, a Itália está cada vez mais parecida com os Estados Unidos. O que não é, necessariamente, uma coisa boa.

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13 comments:

Meg said...

Caro, carissimo Allan
Tenho sentido falata de você e ao mesmo tempo me penitencio por "esquecer" você às vezes.
Sempre quewro incluí-lo quando falo sobre blogs que oferecem receitas e são maravilhosos etc...
O seu, não oferece só isso, mas também uma reflexão sobre elas, sobre a forma de alimentação contemporânea, seus desvios, seus perigos.

Allan, não deixe de ir lá, tenho às vezes um tempo restritíssimo, mas sou fã do Carta.., você sabe.

E agora, aí o dia já vai se transformando em noite, la luce del sole...
E eu desejo a você una bellissima settimana.
Obrigada por seu belo comentário no Sub Rosa, verdadeiro presente.
Com afeto de sempre
Meg

denise said...

Definitivamente, isso não é uma coisa boa! Infelizmente, é uma lástima vermos que o poder econômico fala mais alto que o bom senso.
abraço, garoto

Flavio Prada said...

Eu tinha uma colega que não nos acompanhava depois do almoço no bar a 50 metros do escritório para o café. A gente passava por lá porque o café dali é realmente bom. Ela ia, sozinha, até o hospital que fica mais cem metros adiante, para tomar o café da máquina infernal. Deixar de tomar dos melhores cafés em boa companhia para ir tomar café de máquina dentro de um hospital pra economizar 20 centavos? Eu se fosse ela ficaria por lá. Desgraçada.

Manoel Carlos said...

A personalização de produtos é uma possibilidade, uma necessidade e um valor em tempos atuais, no Brasil inventaram até o anglicismo besta, customização, contudo, em caminho irracionalmente inverso, ocorre o que você tão bem constata.

daíza said...

Depois teve também a idéia de colocar máquinas para distribuição automática de frutas frescas nas escolas... mas logicamente tinha que dar zebra, né? Quem deixa de beber uma Coca prá comer uma maçã?
Besos

Georgia said...

Oi Allan, tudo bem com você? Você tem andado sumido. Muito prá fazer ou tem estado cansado? Nao sei te dizer mas tenho te achado um pouco triste, talvez preocupado nao sei. Apesar das letras serem de máquinas, nelas escondemos nossos sentimentos...
Seja o que for que esteja atrás delas, te desejo uma graaaaaaaaaaaande semana.

É uma pena que as pessoas estao deixando pequenas coisas que fazem a qualidade de uma vida. Como por exemplo beber um delicioso cafezinho depois do almoco. Eu nao dispenso.

Abracos Georgia

Ana Maria said...

nada substitui o cheiro delicioso do café feito na hora. sem falar que a máquina não bate-papo, não joga conversa fora.

Manoel Carlos said...

Allan, respondo aqui seu comentário.
Para saber o que algumas personalidades disseram sobre a Amazônia, por favor, veja: http://www.manoelcarlospinheiro.com.br/NEA/AmazoniaOpiniaoInternacional.pps

Dona Minhoca said...

Isso é um fenômeno mundial, infelizmente. É daí pra pior...

Paulo Nunes Jr said...

Essas máquinas são péssimas. Eu não consegui criar esse mal hábito desde o início e não as utilizo.

E você esqueceu de falar que muitas delas muito espertamente dão uns paus, diria com muita frequência, e não devolvem o troco, ou pegam as moedinhas e nadica de salgadinho, bolinho e o diabo a quatro. hehe

Abraços.

Rafael Reinehr said...

Argh! Café! Café! Café! Triste saber que isto está acontecendo na Itália. Espero - com poucas esperanças - de que este processo seja reversível. Sou vidrado em café. Enquanto meu estômago resistir, vou apreciá-lo calma e saborosamente, desde seu aroma, sua cor, seu calor e seu sabor. Café! Café! Café! Ainda terei uma espécie de Café Literário, mesmo que seja somente para receber os amigos, sem visar lucro... E não vai demorar...

Ana said...

Pois é, Allan, este fenômeno não é só na Itália, meu caro, mas é uma pena que também aí esteja ocorrendo... Fast-food só é bom pro dono do restaurante mesmo...
É tão difícil comer comida saudável ultimamente!
bjos

pianomanga said...

Ola Allan boa noite.
Encontrei seu blog agora, li somen
te o primeiro texto e gostei, volta
rei mais vezes. Quanto a alimentos
industrialisados, isto esta acaban
do com a saude da humanidade, se
nao veja: O pintinho sai do ovo, 40
dias depois esta na maquina tempera
do e assado. O peixe esta no super
mercado, duro qual granito a quanto
tempo ninguem sabe. Os bovinos e ca
prinos se desenvolvem as custas de
hormonios sinteticos. E assim e a vida que segue, haja saude. um abraco.