Saturday, January 20, 2007

Piacenza, 25 ºC

Sexta-feira, 19 de janeiro de 2007. Meio-dia e meia e o calor e céu limpo me fazem lembrar um personagem de Andrea Camlleri. Sento na mesinha fora e peço uma cerveja; tenho preguiça de ler o jornal. Não tem nenhuma notícia boa e prefiro informar-me pelo rádio do carro que acaba de estacionar, ou através dos comentários dos outros clientes. Acendo um charuto e tomo calmamente a cerveja. Do Outro lado da rua uma senhora redonda aguarda o ônibus. Ela não tem certeza se a observo ou se leio o jornal sobre a mesa; me fixa insistentemente. Finjo ler. “Nós pensamos nisso”. O motorista toma o seu café dentro do bar e sairá quando faltarem dois minutos para a partida do ônibus.

O rádio está sintonizado numa estação que dispara notícias e comentários. Quem precisa de jornal? Karem Amer, de 22 anos foi preso no Egito por ter escrito em seu blog palavras consideradas ofensivas à reputação do Estado daquele país. Havia criticado a discriminação sexual e religiosa. Na Tunísia, Zouhair Yahyaoui foi torturado para fornecer a senha do site onde publicara um questionário irreverente sobre o presidente Zine Abidine ben Ali. No Irã, diversos blogueiros foram presos e acusados de insultar o Líder Supremo. Guillermo Farinas, jornalista independente em Cuba, foi preso após reivindicar o direito de livre acesso à internet. Tenho a impressão de que o jornalista da rádio vive o dilema de proclamar a liberdade de informação e o regozijo pelo castigo aos que tentam usurpar-lhe o ganha-pão. “Nós pensamos nisso”.

A senhora do outro lado da rua parece ter-se convencido das minhas mangas curtas e tira o casaco. Há a pressão psicológica para usar casacos, luvas e cachecol no mês de janeiro e é difícil liberar-se. “Nós pensamos nisso”. Alguém fala sobre os efeitos do furacão Kyrill no Norte da Europa. Furacão? Que furacão? O dia ensolarado e quente pega todos de surpresa e muda costumes. Há alguns dias a temperatura vinha subindo e ficava em torno dos dezoito graus, muito acima da temperatura média do inverno italiano. Exatamente um ano atrás havia caído 50 centímetros de neve. Toda semana os meteorologistas afirmam que o inverno finalmente chegará e que a neve irá cair no dia seguinte, em algumas regiões. Mas a primavera resiste e eu peço outra cerveja.

O motorista sai do bar, me cumprimenta e comenta: “bella giornata!Tiro os óculos escuros, concordo com a sua observação e respondo com um sorriso ao aceno da senhora redonda no ponto do ônibus. Partem o ônibus e o carro com o rádio ligado. Folheio o jornal e conto dez páginas com a campanha do Governo para amenizar as críticas ao plano econômico. “Nós pensamos nisso” é o slogan com o qual tentam justificar cortes e mudanças de alocação de recursos. Da janela do ônibus a passageira solitária sorri sozinha. Fico para terminar calmamente minha cerveja, divagando sobre as dificuldades de ser meteorologista e governo neste país.

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15 comments:

maray said...

Acho que a meteorologia está mudando, melhor dizendo, o clima, por nossa culpa. Mas os governos, pelo menos da américa latina não. Por nossa culpa, também. Nestes últimos anos parece que temos uma nova fornada de herdeiros de fidel. Todo mundo fala mais que a boca, jogando farofa pra todo lado, sem nada consistente e todo mundo está dando um jeitinho - que afinal não é privilégio só de brasileiros- pra ficar no poder o maior tempo possível. Valha-me deus, das mudanças climáticas e dos "novos" dirigentes latino-americanos...

BeInspired said...

Allan, acredito que o problema não possa ser resolvido apenas com atitudes individuais. No entanto, a resolução da esfera econômica e politica só será efetiva se mudarmos nossos hábitos de vida. O que tenho feito além das atitudes individuais (andar mais de ônibus e bicicleta, reduzir consumo de água, usar aquecimento solar no sistema de água, reduzir consumo de plástico, entre outros) é fazer pesquisas de projetos de lei para redução de emissões e propor melhorias junto aos nossos deputados. Difícil, mas é um começo, né? Além disso estou com o meu blog, que divulga a idéia de um progresso sustentável. Em fim, alguns artigos que leio caberiam melhor no "Faça a sua parte", e em momentos aportunos lhe repassarei.

PS: Morei na Itália em 2004. É assustador essa temperatura que vcs têm presenciado...

BeInspired said...

Sobre os selos da campanha.
Vocês já tem alguém para fazê-los? Eu poderia pedir a um cara muito bom para fazer isso, mas não sei como anda a agenda dele. Até mais!

Claudio Costa said...

Há muito - muito - tempo, cometi um poema (se é que se pode chamar assim). Deste eu me lembro: "Com razão duvida o padeiro / se a vida se torna um inferno / ou um forno mal regulado". Premonição.

D. Afonso XX, o Chato said...

Pelo menos - e por enquanto - temos a cervejinha para ajudar... abs

Denise Arcoverde said...

Ê vidão... :-)

Flavia Sereia said...

Agora vc imagina o calor que está fazendo aqui nos trópicos.

O brasileiro reclamou quando o site do you tube foi suspenso por uma sentença judicial, imagina o que passa esses blogueiros dos lugares citados que nem podem expressar o que sentem e pensam.

Alline said...

Allan,
Segue um link sobre um artigo na Revista Ciência Hoje que fala sobre aquecimento global:
http://cienciahoje.uol.com.br/65301

Beijos e vamos nós fazendo a nossa parte :-)

Yvonne said...

Allan, lendo o seu post de hoje me senti bem melhor por morar no Brasil. Apesar de toda essa confusão que temos por aqui, pelo menos temos democracia. É inadmissível alguém ser preso por ter um blog. Quanto ao tempo, assunto que tem sido objeto de vários posts recentes sobre o aquecimento global, estou a cada dia que passa mais preocupada ainda. Beijocas

Georgia said...

Allan, é uma lástima que vivemos séculos tao diferentes entre outros povos.

Aproveite o seu verao!!!

Abracos Georgia

Manoel Carlos said...

"sobre as dificuldades de ser meteorologista e governo neste país" e sobre as dificuldades de sofrer com os erros de ambos? No caso dos primeiros, são apenas erros de informação, eles mesmo não são responsáveis pelos atos que afetam o clima. No caso dos governantes, não há justificativas.
De qualquer forma, do cotidiano, que você observa com perspicácia, saiu uma grande e sensível crônica.

sandra said...

Difícil, não? Se não fala, é alienado. Se fala, é punido.

Agora, charuto????

Beijos

p.s. Obrigada, meu anjo, pela força e presença.

Anonymous said...

Boa semana

denise said...

Allan, tá aí a prova de que a Internet e seus blogs têm a força que assusta os poderosos(?). Enquanto ainda podemos falar, colocamos a "boca no trombone". A campanha está indo bem. Talvez esse trabalho de formiguinha possa não reverter o processo já iniciado, mas pelo menos estamos fazendo nossa parte.
abraço, garoto

nora borges said...

Allan, que bom poder voltar aqui!
Na Espanha, finalmente neva. Mas o clima até domingo era de Primavera.
Dizem que o fenômeno já se repetiu outros anos, há mais de 50 anos atrás.
Teu texto está tão bem escrito... quase podia ver o sorriso da senhora redonda e solitária!
Beijos