Wednesday, December 20, 2006

A Formiga

Dona Dina é a vizinha simpática de oitenta e quatro anos. Morava no quinto andar com a família de um das filhas até que a neta cresceu e virou uma mocinha (sim, na Itália ainda existem mocinhas). Veio morar no primeiro andar, num dos seus muitos apartamentos vazios e a primeira coisa que fez foi elogiar o comportamento das nossas meninas. “Não se ouve um ruído. Parece que não mora ninguém ao lado.” Agradeci e fingi não saber que ela nunca lembra de ligar o aparelho auditivo.

Às cinco da manhã ela está de , passando aspirador, fazendo a massa que a neta irá almoçar, selecionando roupa velha para a caridade ou lavando as garrafas vazias que usará quando engarrafar o vinho. Vez ou outra nos traz frutas da casa de campo e recomenda de não jogar fora os pratinhos plásticos que ela reutilizará. Não joga nada fora. Como o elevador vai até o térreo, vira e mexe tá dona Dina subindo ou descendo a escada que leva ao porão com sacos e caixas de coisas que serão reaproveitadas. Jamais teve carro. Usa sempre o ônibus quando deve sair do bairro ou ir à casa de campo, apesar de ser a proprietária de meio quarteirão, o que significa que tem tanto dinheiro que nem sabe. Foi ela quem perguntou quantas horas são de carro até o Brasil. Foi difícil segurar o riso diante da cara de medo que ela fez quando explicamos que precisa pegar avião e que nãopara ir de carro.

Dona Dina é uma pessoa simples, acostumada a fazer tudo com as mãos e a não esperar por ninguém. Desde cedo aprendeu o valor das coisas e procura reaproveitar tudo o que puder ser reaproveitado. Certa vez a ouvi dizer: “ quem sobreviveu a uma guerra sabe o valor das coisas.” Dona Dina sobreviveu à segunda guerra.

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19 comments:

Yvonne said...

As pessoas que passam por uma experiência terrível como essa são diferentes. Sua vizinha passou por uma guerra e isso deixa marcas profundas na alma. Beijocas

Claudia said...

Se minha bisnona fosse viva tenho certeza q seria igual a ela.
A minha avó q veio da China tb reaproveita td, aprendi desde pequena a "reciclar"!

Flavio Prada said...

Dona Dina é ecologicamente correta, auto sustentável, impacto ambiental zero e como todos nós, pobres de nós, biodegradável.

Leila Silva said...

Olá,
Ela me lembra algumas vizinhas de Bruxelas...
Sim, ecologicamente correta.
Boas Festas!
Leila

Capedonte said...

Será que no submarino.com.br eu encontro uma vizinha dessas pra trazer aqui pro meu prédio? :D

Georgia said...

Allan, adorei esse seu post. Viajei legal. Fiquei imaginando uma vizinha dessas por aqui. Minha vizinha é super consumista. Realmente, qdo alguém passa por uma guerra seja ela qual for, se aprende a valorizar o q lhe passa pelas maos, como a D.Dina ai. Quem nunca trabalhou na vida, nao conhece o valor do dinheiro.
Obrigada por me visitar e volte, tem post de natal.

Um grande abraco

Mikas said...

É bom saber que existem pessoas assim... sem qualquer ponta de arrogância ou prepotência e com cuidado com akilo que pode ainda vir a ser aproveitado

Dalva said...

Ola! ai te pergunto, como q ela tem uma quadra dela?? Reciclar é otimo. Economizar sempre deu certo.

Ana Maria said...

Allan, reciclar é ótimo, levar uma vida simples e sem ostentação também é bacaninha. O difícil é encontrar o limite entre o bom senso e a pão-durice. Conheci gente que sobreviveu à Segunda Guerra e que se tornou um grande sovina, incapaz de presentear quem quer que fosse com medo de ficar pobres.

Yvonne said...

Allan, eu de novo só para lhe desejar um Feliz Natal e um ano novo repleto de paz e alegrias.
Beijocas

Alline said...

Allan, um Natal gelado e muito feliz para vc e suas três meninas.
E um 2007 cheio de coisas boas, as melhores possíveis.
Um beijo grande.

AnaBettaBlue said...

lembrou da minha querida vó... :')
em todos os detalhes. inclusive o fato de ser italiana.

flávio bem que disse tudo.

beijos. um Natal feliz e 2007 com tudo necessário para produzir boas receitas... :)

Anonymous said...

A guerra contribuiu para essa maneira de ser, mas o pessoal "antigo" não disperdiça nada! "Poupar hoje para não faltar amanhã"
Minha mãe tem essa idade e sempre nos lembra da história de pessoas que eram ricas, deixaram heranças e não ensinaram os filhos a trabalhar. Tudo foi se dilapidando e hoje em dia, não possuem nada. Alguns até vivem de favor.
E a Dona Dina é uma senhorinha ecologicamente correta!!
E talvez, se tivesse carro e não fosse tão ativa, já teria morrido!

Feliz natal!!! Beijus

Biajoni said...

FELIZ NATAL, NEGÃO.
PROCÊ E PROS TEUS.
:>)

Anonymous said...

Caríssmo! nessa véspera de Natal me dei de presente uma tarde inteira na internet lendo os queridos blogs. Que coisa boa voltar a te ler! Engordei dois quilos lendo as receitas; ri com seu esbarrão na própria mãe.. aliás, isso me lembrou o excelente filme Shyrley Valentine.
Bem, fica um feliz natal pra família toda e pra vizinha!
Angela (escritora, lemos, carneiro! síndrome de identidade total)

Anonymous said...

Allan, um feliz Natal para você e sua família!

(O feliz 2007 eu deixopra desejar na semana que vem, ahahaha!)

Ricardo M
rickmoon@gmail.com
www.homembaile.blogspot.com

Annie do Japão no Brasil said...

Oi... interessante seu post!
Olha acho importante darmos valor ao que temos e ao que podemos fazer... somos capazes nao e mesmo?
Adorei sua visita...
E o que fazes por ai?
Estou aqui pq meu mor acabou a universidade la no Brasil... nao tinha emprego e ca estamos...
Sou cabeleireira 11 anos na area...e agora operaria.
Bom fases da vida nao é mesmo?
Fica com Deus e beijinhos para ti

Manoel Carlos said...

Por vezes, tipos como Dona Dina são um contraste necessário com a sociedade de consumo que nos devora.

Sino, Claro Sino! - Carlos Penna Filho e Capiba

Sino, claro sino!
Tocas para quem?

-Para Deus menino
Que de longe vem

Pois se O encontrares
Traze-O ao meu amor.

-E que Lhe ofereces,
Velho pecador?!

Minha fé cansada,
Meu vinho, meu pão,
Meu silêncio limpo,
Minha Solidão!

Blém, Blão
Blém , Blão
Blãummmmmmm

Georgia said...

Passando só prá te deixar um abraco.


Georgia