Friday, October 06, 2006

Piacenza

Era o ano de 218 a.C. O exército romano gozava de boa saúde e expandia as fronteiras do próprio império. Os generais, especialistas em estratégia militar e acostumados a antecipar e prevenir, decidiram montar um acampamento avançado que servisse como base para o Norte. Escolheram um ponto às margens do rio Po. Região de clima inóspito, húmida e quente no verão; húmida e gelada no inverno. O ar abafado pela falta de vento, os insetos, as frequentes enchentes do rio, neve, neblina e uma vasta planície que impedia esconder grandes tropas, completavam a certeza de que aquele seria o local inadequado à nova empresa. Mas os generais romanos foram em frente e montaram a base militar ali mesmo. Poucas pessoas habitavam no lugar, não mais que duas dúzias de casebres espalhados numa área de cinquenta, sessenta mil metros quadrados. Ninguém com menos de sessenta anos, os únicos a não provocar reações hostis aos diversos soldados, saqueadores e conquistadores que atravessavam a região. Num rasgo de sarcasmo, batizaram o acampamento romano com o nome de Placentia, a queprazer. O tempo se incumbiu de lhe alterar o nome até o atual Piacenza.

Moramos na principal avenida do centro. Os prédios têm sempre cor de poeira: ocre, cimento ou tijolo à vista, mas a triste fachada dos imóveis esconde jardins e pátios internos de encher os olhos. A vinte metros de casa, na esquina com a Corso Vittorio Emanuelle II (a mais chique entre as ruas do centro) a pizzaria Mare Chiaro, a mais antiga da cidade. Virando à esquerda na Corso, a poucos metros da primeira, existem outras duas que vendem pizzas em fatias, que abrem às seis e meia da noite e fecham às duas, sete horas e meia depois, o máximo de horário continuado que um trabalhador italiano pode fazer. Num raio de duzentos metros são seis sorveterias, vinte cafés, quatro restaurantes, sete cinemas, cinco teatros e sete livrarias. Na via Giuseppe Verdi, a rua de trás e a poucos metros do Teatro Municipal, a Antica Osteria del Teatro, um dos cinco melhores restaurantes italianos.

O hábito de comer carne de cavalo, comum na França, também foi adotado por aqui. Os açougues de carne equina são dos poucos que sobrevivem à pressão dos supermercados, mas não conseguem nos seduzir. o costume da bicicleta, principalmente no centro histórico, contagiou-nos à primeira experiência.

Nomes como o próprio Verdi, Napoleão, Maria da Áustria, o temível Aníbal e tantos outros que por aqui passaram são os responsáveis pelo dialeto local, afrancesado e incompreensível, como às vezes incompreensível é a alma dessa gente desconfiada e reservada. Provinciano, o piacentino precisa sair e conquistar algo fora para perder o ar caipira que o antigo acampamento romano imprime nos seus moradores. esse nativo arredio ganha ares de homem do mundo, como bem demonstra o famoso e simpático filho da terra Armani.

Salames, queijos e vinhos locais são de qualidade e delicados. Os pratos típicos, também. E tendem para o doce como os tortelli di zucca, com abóbora, ou pisarei e faso’, uma massa com feijão. Mas a posição geográfica da cidade, entre Parma e Milano, a uma hora de Bologna ou Genova, se incumbiu de difundir outros hábitos. Ao menos os culinários.

Shows; feiras; jogos no estádio aos sábados, que o Piacenza está na segunda divisão do campeonato de futebol; jogos no ginásio aos domingos, que o Piacenza está na primeira divisão do campeonato de volei; concertos; sagras diversas; piscinas; eventos ao ar livre e iniciativas várias. Tudo para tirar essa gente com mais de quarenta anos de dentro de casa e permitir a circulação do ar, reduzir o consumo de eletricidade e dos produtos anunciados pela televisão. E eles vão. Desde que haja a perspectiva de uma pizza ou algo paracolocar entre os dentes”. De preferência, acompanhado por um bom copo do Gutturnio frisante produzido na região.

Acompanhamos a boiada nessa incessante caminhada, aonde quer que ela vá. Retribuímos os olhares desconfiados com sorrisos e acenos de cabeça e fingimos não notar os elogios. Somos gente do mundo. Mesmo sem entender uma palavra do dialeto local, nossos amigos são piacentinos. Mas são, também, brasileiros, africanos e de tantos outros lugares. Outras culturas. Somos gente desse mundo. Placentia, a queprazer.

Ciao.

16 comments:

AnaBettaBlue said...

respondendo à tua pergunta, sobre pastelina: http://www.gardenal.org/cherry/public_html/snack/pastelina.htm
se quiseres, te mando uns saquinhos.
beijos!

ah... e o meu desejo de conhecer tão pelo local, que é Piacenza... :)

Paulo Nunes Jr said...

Oi Allan, eu nao conheci Piacenza ainda nao... acho que passamos de trem quando fomos a Bolonha...acho que sim.

Enfim, a carne de cavalo tambem nao me seduziu nao! haha e outra coisa que fico intrigado ... porque os italianos fazem tanta greve? Nao vejo nada mudar muito nem tanta razao assim pra reivindicar...Reivindicar o que? Taxistas, advogados, farmeceuticos, jornalistas, etc que nao podem NUNCA perder o controle do monopolio e dos seus privilegios individuais em nome de um mercado mais aberto, com mais competicao, servicos de melhor qualidade a precos mais acessiveis?

Arrivederci.

Brasiliano said...

Adoro saber as origens das cidadezinhas italianas, sao sempre muito ricas de història. Aqui perto temos o comune di Mungivacca e tambèm o comune di Putta, fico curioso em saber as origens de ambos. Abraços!

Brasiliano said...

PS.: Se vcs nao gostam da carne de cavalo mudarao de ideia com essa dica. Vai ao açougue equino mais pròximo e pede striscette di cavallino condite al semi di finocchio e peperoncino. Faz na brasa e depois me diz! Abraço!

Cristiana Giustino said...

Pesquisei sobre café no Google (pra escrever um textinho) e vim parar nesse blog. Otimo!

Yvonne said...

Adoro ler posts de brasileiros que moram no exterior. É uma delícia aprender um pouco de cada país. Beijocas

sandra said...

oohh, coisa boa.

Manoel Carlos said...

"Se a aparência revelasse a essência das coisas, toda ciência seria supérflua" K.M.
Com sagacidade e sensibilidade você revelou muito do "seu" lugar.
O seu comentário em Agreste foi maravilhoso, em quatro linhas fez mais graça do que eu em oitenta parágrafos.

Diego Barreto Ivo said...

Não tem o que se falar, senão que é um bom texto bloguístico. Achei muito sagaz a construção deste post, que funcionou muito bem ao que se queria dizer.

Sua serenidade tem um grande resquício de radical.

Ciao.

Anonymous said...

Carne de Cavalo, eh?? não, não, obrigada!!
boa semana! Beijus

Roberta de Felippe said...

Será que existe diferença entre carne de cavalo e de égua, como há entre a de vaca e de boi? Hum... Tanti baci.

Milton said...

Bonita crônica. Gostei.

Flavio Prada said...

Eu estou me preparando para escrever post desse jeito. Estou estudando e logo logo publico umas cronicas assim, voce vai ver só.

Cris Bomfim said...

lindo texto... Explicativo e charmoso... Cá estou com água na boca! Quero ir para aí logo, logo!

Ah, muito obrigada pelas dicas...

E quanto ao meu blog.... esctranho. Nao consigo entender como vc está vendo ele aí...porque por aqui ele tá bonitinho e até longe da margem esquerda da tela...

Beijocas

Chico said...

Carne de cavalo ?

Já tive a chance, mas não rolou... QUem sabe um dia eu mude de idéia !

Mas aí eu lembro dos bichinhos.. Mesmo sem ter lembrado dos bois no churrascão do final de semana...

Estranho !

;^)

Hermenauta said...

Bonito, muito bonito. Parabéns!