Sunday, July 02, 2006

Treinamento

Numa das muitas palestras do professor Marins que assisti, lembro de um caso clássico, que ele não cansava de repetir. Vivendo entre os aborígenes da Austrália, chegou a participar de caçadas de emu, um pássaro similar ao avestruz, mas um pouco menor. Contava o antropólogo que na noite anterior a tribo ensaiava o que deveria acontecer com danças e representação, onde não faltava alguém no papel do animal, objetivo da caça. No dia seguinte saíam para o que haviam se preparado e treinado no ritual e ele, ainda não habituado a esse tipo de comportamento, indicava pegadas de outros animais. Os primitivos e decididos anfitriões respondiam-lhe que estavam caçando gnus e que ele não se importasse com outros indícios. O dia terminava como todos já sabiam que terminaria, com os aborígenes levando os emus abatidos para casa.

Para quem não entende de futebol, o técnico Carlos Alberto Parreira é como uma jaca colhida no interior da Bahia: alguns podem apreciar e reverenciar, mas não tem nada a ver com a caçada aos emus do outro lado do mundo. A seleção brasileira acaba de perder para o time da França e, com isso, foi eliminado da Copa do mundo de futebol. E essa é uma oportunidade para aprender algo.

Quando, em 1994, o mesmo técnico sagrou-se campeão com um time que não empolgou, todos criticaram o seu estilo. Até então não se vira uma seleção brasileira tão fora dos próprios padrões, jogando um futebol tão medíocre. Pois ele, abdicando das lições de coesão e espírito de equipe do técnico Luís Felipe Scolari, campeão com o mesmo Brasil no mundial de 2002, acabou cometendo o maior erro de todos: privilegiar as partes em detrimento do todo. Durante um mês treinou um time com as maiores estrelas do futebol obrigando-os a um esquema que valorizava talentos individuais e não o conjunto. Tudo corria na direção certa até enfrentar um time de verdade. Então ele mudou o esquema que havia criado e treinado, para permitir uma maior mobilidade dos jogadores sacrificados. Ora, ele saiu para caçar emus e no meio do caminho resolveu caçar capivaras, sem lembrar que não existem capivaras na Austrália. E muito menos na Alemanha, sede do mundial.

Posso entender que as pressões do patrocinador o tenham obrigado a manter o imenso Ronaldo em campo, apesar de visivelmente fora de forma, mas desconfio das suas boas intenções quando ele decide manter em campo o jogador Kaká, que declarou às tvs italianas estar fora das condições ideais de jogo, ou simplesmente muda o esquema ensaiado ao qual os jogadores foram condicionados. Gostaria de vê-lo treinando o Kwait, a China ou qualquer outra seleção longe do Brasil, assim como jacas e capivaras estão longe da Austrália.

Desde que me entendo por gente sou amante do futebol e não posso admitir o tipo de futebol proposto pelo técnico Parreira. Pelo menos não para a seleção brasileira. Prefiro perder mas jogar um futebol bonito de se ver, pois o futebol é espetáculo tanto quanto o teatro e o cinema. E eu pago para vê-lo: exijo um show à altura dos protagonistas.

Posso desculpar Marcelo Lippi que decidiu manter o jogador Totti em campo, apesar da sua condição inadequada, assim como Scolari está perdoado por levar à Copa um jogador como Figo, próximo à aposentadoria: faltam-lhes alternativas à altura. O que não acontece com um time como o do Brasil.

Agora é aguentar a gozação e torcer por Portugal.
Avante Scolari!

Se você é um dos que realmente não entende nada de futebol, talvez os vídeos abaixo possam esclarecer o que entendo por futebol arte.

Djalminha


Garrincha


Brazil soccer

14 comments:

Daíza said...

Estás coberto de razão... que jogo mais feinho!!!

Sandra said...

Feinho?? MEDÍOCRE! Só não perdemos antes por completa falta de sorte dos adversários... Parreira, vá para o inferno!!!

tesco said...

Pelo menos vamos nos livrar do Parreira, não?
Abraço.

Juliano said...

No UOL há uma enquete em que, nesse momento, 78% dos internautas culpam Parreira. Essa busca ao culpado não me agrada muito.

O esquema tático seria outro, se o técnico fosse outro? Com certeza. Mas que o Brasil estava mambembe, desorientado e sem noção (como o Roberto Carlos arrumando o meião enquanto Henry cabeceava para o gol) foi de amargar.

Para quem se preparou - como eu - desde o primeiro jogo para essa fatalidade, até pode achar que o Brasil foi longe demais. O Brasil foi muito ruim desde o princípio. E - sem querer ser o advogado do diabo - é estranho, após a derrota, todo mundo responsabilizar o Parreira (a Sandra que me desculpe...:).

[Afinal de contas, parece que ninguém gostava do futebol burocrático do Parreira; mas, dado o sucesso de 94, suspeitavam que poderia acontecer o mesmo agora... e aí todo mundo lhe dava uma colherzinha de chá...]

E fica aí uma dúvida no ar: será que ele sai? Quem entra no lugar?

***

Torço para Itália e Portugal passarem a final.

E viva Scolari!

***

O gnu não é um bicho parecido com um boi?

***

Excelentes vídeos. A hora de mostrá-los que foi péssima, heheheheheh...

Um abraço!

Solange said...

Bacana teu blog, boa sorte aí na Itália.....bjs
www.soso.omeu.com.br

Alline said...

Concordo em número, gênero e grau contigo, Allan!

Beijinhos

Marco Aurélio said...

Nunca vi NENHUM jogo a não ser o de ontem onde um time só consegue chutar contra o gol adversário aos 45 min do segundo tempo.

Um abraço

Marco Aurélio

maray said...

não entendo de futebol. Mas torci. Pela argentina, pelo brasil e agora torcerei por portugal. Apesar de não entender de regras de futebol, percebo quando um time tem gana de ganhar ou não. A argentina lutou até o fim. Nós perdemos o ânimo aos 5 minutos. Parece brinquedinho a pilha de camelô. Imita o de verdade mas a pilha acaba rapidinho rapidinho...

Donizetti said...

Itália x Portugal também seria a minha "final perfeita". Doeu no peito ver estes vídeos ainda de ressaca por ontem hehehe

Flavio Prada said...

Os filminhos ai são um show. E enquanto o resto do mundo copia a gente a gente copia o resto do mundo, ou ao menos o Parreira faz isso. E ainda copia mal. Bem, deixa pra la.

Solange said...

Obrigada Allan pelo carinho e apoio....Que bom que vc gostou e mais ainda que vc se interessou...é de pessoas assim que o mundo precisa e urgentemente...rs....Uma bela semana pra vc e te cuida.....Volte sempre.....bjs

Manoel Carlos said...

Djalminha teve a melhor fase no Palmeiras, bicampeão brasileiro.
Alex, seu substituto é igualmente um gênio do futebol, ambos foram preteridos na seleção e, quando convocados, foram expostos a situações de desgaste.

VinaXavier said...

O Alex tinha que ser convocado. Foi ignorado pelo Parreira mesmo tendo números superiores aos intocáveis Kaka e Ronaldinho Gaúcho. Passe, assitência e finalização superior ao das estrelas. O que o Zidane fez no jogo só o Alex tinha capacidade de fazer, cadenciar e distribuir o jogo, mas nem convocado foi. Já vai tarde Parreira!!! Vaza animal!!!

Anonymous said...

It absolutely not agree