Monday, December 05, 2005

Notícias Esparsas

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Normalmente escrevo as minhas cartas em pausas de quinze, vinte minutos. Estou tentando desenvolver o hábito de revisá-las, mas confesso que por enquanto não tem passado de uma saudável boa intenção. O trabalho, as meninas, os compromissos sociais e o desaconselhável hábito de levantar às quatro e meia para pedalar pelas ruas de Piacenza – o que me leva a ter sono às oito e meia, nove da noite, vencendo uma insônia hereditária – me deixam pouca disposição para, também em casa, passar muito tempo à frente do computador.

Se isso não justifica os meus erros gramaticais, espero que o esclarecimento do parágrafo anterior sirva, pelo menos, para aplacar o ânimo das críticas bem-humoradas sobre uma possível substituição da minha ironia, às vezes corrosiva, por uma pieguice digna de piedade. Na verdade estou tentando esclarecer a minha real intenção: desculpar-me pela pressa como as cartas às vezes – e somente às vezes – são escritas, deixando de lado não só uma possível revisão, mas também alguns pequenos detalhes que acabam se perdendo e que, uma vez editadas, lamento não ter recordado. Esta carta de hoje é uma pequena colcha de retalhos desses detalhes que me escaparam, que aproveito para contar após o encontro mega galático com a dupla Fávio Prada e Milton Ribeiro.

– O Ministério da Saúde italiano levantou que dez novos casos de AIDS são registrados no país a cada dia. Levantou mas não informou. Aqui não existem campanhas sobre a doença, a imprensa não divulga as estatísticas, as vendas de preservativos são dez por cento do volume vendido no Brasil (e devemos considerar a parcela da população brasileira em condições de comprá-lo) e a galera vai à luta às sextas e sábados completamente desinformada e desprotegida. Existe, ainda, uma rigorosa lei para proteger a privacidade do cidadão, o que impede um levantamento confiável de casos. A expectativa do Ministério da Saúde prevê que em cinco anos serão doze novos casos por dia. Uma recente reportagem mostrou jovens prostitutas do leste europeu ganhando a vida nas grandes cidades italianas. Segundo as afirmações das meninas, a grande maioria dos clientes prefere pagar o dobro do cachê caso a garota aceite a relação sem preservativo.

– Na região onde moramos, a arquitetura da parte central das cidades transforma as ruas e casa em pequenas fortalezas, enfeiando a cidade apesar da beleza de algumas construções. Existem poucos jardins na frente das casas, que costumam formar um bloco compacto de cimento com dois, três ou quatro andares. Da rua se vêem somente janelas, portas e os pesados e enormes portões, que serviam para dar passagem aos cavalos, lanças e bandeiras. Entrando pelos portões a visão muitas vezes surpreende. São os chamados cortile, a área interna invisível das ruas, com jardins, estacionamento e espaço para crianças. Alguns estão abertos para a visitação pública. E valem a pena!

– Um outro detalhe arquitetônico que me havia escapado são os ralos. Quer dizer, a ausência deles, já que as casas não os possuem. Portanto, nada de lavar banheiro ou cozinha, até porque água aqui custa caro e você irá provocar uma infiltração no teto do vizinho de baixo. Um esfregão, um balde, esponja e um dos milhares de produtos milagrosos da indústria da limpeza doméstica, resolvem.

– Um dos mais belos conjuntos arquitetônicos sobre palafitas, a cidade de Veneza enfrentava a peste no ano de 1502. Nada fazia crer que a população sobrevivente conseguiria safar-se sem a ajuda divina. Foi quando os gondoleiros decidiram fazer uma promessa de pintarem todos os barcos de preto em sinal de luto, caso a doença fosse vencida. A peste simplesmente desapareceu e até hoje as gôndolas, em respeito à promessa feita, permanecem pretas.

– A limpeza das ruas é uma coisa que chama a atenção por aqui. Existem recipientes coletores para cada tipo de material: papel, vidro, material reciclável e material orgânico. Quem, por esquecimento ou teimosia, deixa o carro estacionado na rua no dia e hora da limpeza (identificável por placas de trânsito), corre o risco de pagar uma multa, além de ir buscar o carro no depósito da prefeitura. Os garis são motorizados com pequenos e modernos veículos, que mais parecem uma pequena aeronave e varrem as ruas e calçadas durante a noite. Parece coisa de primeiro mundo!

– Limpeza de córregos na zona rural: O agricultor solicita a autorização à prefeitura e à polícia. No dia informado pelos órgãos públicos, uma viatura acompanha todo o serviço, para certificar-se de que possíveis objetos encontrados sejam recolhidos ao Estado. A vigilância faz sentido por causa das armas e materiais remanescentes da II Guerra espalhados por todo o território italiano. Ouvi dizer que alguns agricultores descobrem e não informam sobre bunkers e cavernas com armamentos e até veículos, à espera de uma nova invasão...

– Por falar em II Guerra, à época Mussolini proibira o uso de termos, nomes e expressões em línguas estrangeiras, especialmente o inglês. É por isso que até hoje na Itália se fala “Carlo Marx” e a família real inglesa é composta pela regina Elisabeta, principe Carlo e principe Filippo”, entre outros. Em compensação, estão substituindo diversas palavras italianas originadas do latim por expressões correspondentes em inglês, como dizer devolution em vez de devoluzione. É a fina-flor do Lácio na era da globalização. Assim fica mais fácil para os marines.

– E se você pensa em conferir tudo isso, terá que escolher o dia certo para comprar o jornal. Na maioria dos feriados os jornais não trabalham e as bancas ficam vazias, além das inúmeras greves dos jornalistas. Você terá de vir checar in loco. Neste caso, sugiro trazer sapatos com sola de couro, para evitar uma completa coleção de choques provocados por descargas de energia estática, infelizmente muito comuns do lado de cá.

Ciao.

13 comments:

Roseane said...

Olá, ontem teve o Encontro de Blogueiras em Brasília e foi comandado por Denise Arcoverde, é claro. Seu blog foi bem comentado e eu vi conferi. É uma delícia mesmo.

nora borges said...

Olá, Allan.
Não sabia que você iria encontrar-se com o Milton!
O post está ótimo, como sempre. aqui a energia etática é tal que levo choque até quando toco em Pepe.
Um horror!

Brasiliano said...

Ahhh, nao sou sò eu que tomo choques o dia todo quando encosto em algo metalico!! Dà pra explicar melhor isso Allan? Nao entendo o porque. Abraços

Flavio Prada said...

Allan, foi muito legal nosso encontro, o proximo é em Piacenza. As fotos do mega encontro eu ja postei la mas o endereço é novo:
http://www.verbeat.org/blogs/lixotipoespecial/
Até lá. Vou pensando aqui em um jeito de te pagar.

sandra said...

Allan, querido... Como você pôde deixar o Flavinho postar aquela foto do chapeuzinho??????

Se bem que, deixando ou não, ele ia colocar lá de qualquer jeito!! ;)

Beijão

Marilia Mota said...

Gosto muito de ler seus textos. São objetivos, interessantíssimos, ótimos mesmo. Não por acaso V. está nos meus favoritos.
Abs,
Marilia

Denise Arcoverde said...

É verdade, Allan, como disse a Roseane, você e o Flavio foram faladissimos, no nosso Encontro de Blogueir@s!!!

E quanta informação nesse post, hein?! excelente... não precisava revisão nenhuma!

Beijocas!

Anonymous said...

nada enigmática! nem pensar nisso.Apenas falta de tempo para escrever. Agradável manta de retalhos esta que nos serve aqui, no seu blog! Gostei sobretudo das descrições que faz da limpeza dos locais publicos...quem me dera que fosse assim aqui! sempre que saio à rua tenho que fazer gincana para não pisar cócó de cão , ha lixo a mais nas ruas que nunca são lavadas ,a não ser com a água da chuva.

Roberta said...

Ehi, Allan!
As ruas de Piacenza pela manhã devem ser mesmo uma serenidade só (e bem mais agradáveis do que revisar textos). Sabe que você falando em saúde me fez pensar em uma coisa... Um dos meus maiores medos relacionados à minha mudança "definitiva" para a Itália é em relação à minha saúde. Tenho muito medo de passar mal longe da minha família (pelo menos dos parentes mais próximos, que ficarão no Brasil), mas tive informações otimistas sobre o cuidado com os diabéticos na Itália. Um alívio, confesso. Beijo grande (dia 01/01 estréio meu site).

Flávia said...

Oi Allan. Estou visitando seu blog a primeira vez. Tudo muito interessante, o que escreveu.
Aqui onde moro, agora que tem coleta de lixo. A gente não costuma muito pisar em cocô de cachorro, pq não existe rede de coleta pluvial, então a enxurrada leva tudo embora. Massssss, eu tenho fé. Tanto é que o programa de combate a AIDS, aqui em Rondônia, chega a ser lindo de se ver. E agora também estão pegando pesado com o controle e combate a hanseníase e tuberculose, pois aqui ainda existem muuitos casos.
Beijoks e obrigada por nos disponibilizar informações tão interessantes.

Axel said...

Você é Allan. :) Basta.

Daisy Melo said...

Allan,
muito prazer em conhecê-lo.

passeando pelo "Cadernos da Bélgica" de Leila Silva, reparei que você postou um comentário- bem elogioso, por sinal (obrigada!!)- para o meu conto "A máscara" postado gentilmente pela Leila.
agradeço o comentário e, com certeza, passearei pelo "Carta da Itália" mais vezes.

mil beijos

Day

Milton said...

Qualquer hora destas, chegarei ao megagalático! Tenho que pensar em como me vingar dos repetidos posts difamatórios do Flávio...

Roma não é tão limpa, aliás, não é nada limpa.

Mas fiquei pensando em alguém que sai às 4h30 para pedalar com aquele frio. Nunca faria isto. Minha psiquê e o resto só estão acordados às 8h30 e olhe lá.

Grande abraço.

P.S.- Teu CD está sendo muito ouvido, viu?