Sunday, July 17, 2005

Semeando Raízes

Caros e Caras,
Paz e saúde!

O ipê roxo que a Eloá plantou está imenso. Ela ainda estava na faculdade quando levou a muda e, junto com o pai, plantou-o na calçada lateral da casa de esquina onde ainda moram meus sogros. A mesma casa por onde hoje correm Bruno, Fernando, Bárbara e Júlia. A mesma casa que um dia viu correrem as minhas Bianca e Luiza e as outras primas Isabella e Elisa. A mesma casa por onde correram Eloá, suas irmãs e seu irmão. Tem ainda alguns limoeiros, uma primavera, um pé de acerola e até um pé de alumã que eu levei da Bahia. Tinha uma goiabeira enorme.

Por onde andarão meus primos e tios? Há muito não os vejo. No dia em que chegamos ao Brasil, para nossas curtas férias de três semanas, Paulo Sérgio se casava. Difícil imaginar aquele meu primo se casando. Um menino pequeno, meio tímido, cabelos cacheados e um sorriso doce que lhe davam um ar de anjo, não podia estar se casando. Pelo menos eu não consigo imaginá-lo adulto. E os outros, por onde andarão? Alguns eu nem conheço. Culpa dos meus avós, que tiveram oito filhos. Quatro homens e quatro mulheres. Culpa dos meus pais, que escolheram mudar-se para a longínqua São Paulo. Longínqua naquela época, mas mesmo assim, longe dos tios e primos. Culpa minha, dono de alma cigana que me impele ao movimento. Rio, Petrópolis, São Paulo, Itaquira, São Paulo, Embu, Macaé, Embu, São Paulo, Rio, São Paulo, Cotia, Embu, São Paulo, Rio, São Paulo, Embu, Salvador, Assis e Piacenza.

Em Itaquira, na fazenda do meu avô, ajudei a plantar muitas árvores. Depois, espalhei árvores em um monte de outros lugares. Tenho mão boa para plantar. Gosto de sentir a terra sob meus pés descalços, enquanto decido o melhor lugar para a muda: que distância estará da água; qual o trajeto do sol; que tipo de raiz produz (se superficial, longe de casas e muros; se profunda, pode ser utilizada como sombra no quintal); se necessita de outra para frutificar; se tem vento. Uma vez plantada, cuido dela até que ela possa arranjar-se sozinha, passando a contar só com a chuva. De vez em quando, volto para ver que está tudo bem, ou para uma podada corretiva. Até mudar de cidade. Algumas devem estar enormes como o ipê roxo da Eloá, mas não creio que tornarei a vê-las.

Primos, tios e tias. Pessoas que um dia fizeram parte da minha infância, imensos como um ipê roxo que eu espero rever um dia. Tia Arinda, deixe de ser preguiçosa e mande uma foto do Tarcísio. Aproveite para atualizar-me dos casamentos nos últimos anos: quem casou com quem; quem é filho de quem; quem é pai de quem. E aproveite para dar beijos na minha tia Gina, na tia Carmélia e no tio Vítor, assim como nos respectivos maridos (meus tios) e na tia Ení. Que meus tios Firmino, Vital e Batista já se foram. São raízes da minha memória. E as esposas deles? E meus primos?

Férias servem para descansar, conhecer novos lugares e pessoas. Crescer. Nessas férias fomos rever a família. A minha e a da Eloá, que hoje são a família das nossas meninas. O tempo foi muito curto e não conseguimos rever todos. Pelo menos ganhei uma prima nova, que a Eloá me emprestou. Cleide (Cleidão) é uma pessoa cheia de vida. Dessas que tomam suco de pó-de-mico no café da manhã e não sossegam o dia todo, levando um sorriso sincero a todos que encontra. Mas e os outros, aqueles que não conseguimos rever ou conhecer? Espero que tenham sol e chuva na quantidade certa. E raízes profundas.

Minhas filhas ajudaram a plantar árvores em Salvador e Assis. Que outras cidades receberão suas sementes? Onde deixarão suas raízes? Um dia, assim como com as muitas árvores que plantei, elas também saberão se arranjar sozinhas. Haverá sol e chuva na quantidade certa e elas crescerão, darão sombra e irão espalhar suas próprias raízes. Um dia, elas serão grandes como um ipê roxo na calçada lateral da casa de Assis.

Ciao.

14 comments:

D. Afonso XX, o Chato said...

Oi Allan,

Pois sabes que certa época andei me fazendo os mesmos questionamentos. Tanto fucei por onde andava a família, que acabei me tornando um genealogista amador e descobrindo antepassados jamais imaginados. Tudo isso resultou em contactar com todos da família e fizemos um encontro aqui em Porto Alegre. Veio parente do mundo todo. De lá pra cá já fizemos um segundo encontro e temos o terceiro para 2007. É muito bonito isso. É gratificante encontrar as raízes e seus ramos, aproveitando o teu post sobre plantar. Por falar nisso, na casa onde meus avós moraram, plantaram, quando meu pai nasceu há 80 anos, um pinheiro que está lá até hoje. As pessoas se vão e a natureza fica. Legal esse post, me identifico. abs

marcelo said...

Allan,

Parabéns pelo texto. Sou cada vez mais fã dos teus escritos.

abraço.

Rafael Galvão said...

Esse texto é como uma árvore daquelas que a gente planta pra dar sombra.

Claudio Costa said...

Ter filhos, plantar árvores e escrever um livro (ou um blog?), eis as tarefas de um homem. Compartihar idéias, sentimentos, valores... por isso estamos sempre aqui, te lendo e usufruindo de tanta poesia.

Flavio Prada said...

Isso sim que é um IP fixo. Identificável de longe. Quanto aos parentes, sorte sua que tem saudades. Melhor assim, nem queira matá-la. Meglio cosi, mi creda.

D. Afonso XX, o Chato said...

Oi,
Rapidinho só pra passar o novo endereço:
http://www.verbeat.org/blogs/afonsochato
abs

Roberta Febran said...

Pensei em algumas frases para comentar esse post mas, assumo, só o que consigo agora é ficar boqueaberta frente à sua sensibilidade. Genial, Allan. Abraço.

maray said...

Cheguei de viagem também. Meu filho me avisa: vai mudar de país. Há dois anos desatei em prantos quando se mudou de casa, pra casar. Agora, emprego e oportunidade irrecusáveis, muda-se de país. Esta minha família, que começou pequenininha, meu marido, eu, dois filhos, se solta, se alastra. E meu coração fica aqui, pequeninho, minhas asas de galinha choca vazias.
Dá dor e alegria. Espero que a nossa família seja assim como descreves: uma árvore grande, mas com boas raizes, que vento nenhum possa quebrar.
Família nem sempre é bom, mas quando é, é muito bom!

Manoel Carlos said...

Há palavras mágicas para certos povos, por exemplo, Paz era a palavra mágica para os soviéticos, afinal todos perderam um parente ou amigo na guerra.
Para nós, pernambucanos, Evocação é uma palavra mágica, incorporada ao nosso vocabulário cotidiano, com um significado que transcende à semântica, à semiótica e à semasiologia.
Este sensível texto evocativo me fez viajar por dimensões espaço-tempo desconhecidas, próximas às evocações pernambucanas.
Allan, para manter a analogia, você é planta de deserto que se mantém com gotas de orvalho; certamente um retorno, como o que agora faz, será uma recarga, tanto da energia que move o cigano quanto na nostalgia que o prende às raízes.

DO said...

Muito inteessante esta abordagem,Allan.

Abração!

Milton said...

Muito bonito. É cada vez mais raro e difícil este sentir-se emocionado, mas há fatos e afetos internos que foram tocados pela leitura do teu texto e que me deixaram com enorme saudade dos meus. Além do mais, houve uma semente de abacateiro que foi jogada por mim em um buraco (é isso mesmo) do quintal de alguém muito querido e que, soube, dará seus primeiros frutos este ano. Lembro de certa voz dizer-me ao telefone: pois é, o abacateiro que plantaste está grande; quem diria, plantado daquela maneira; como és prolífico, meu neto!

Anonymous said...

Oi Allan ...buon ritorno
um bonito texto esse inspirado claro no amor das raizes que todos nós temos. E estou na sitiaçao da sua amiga Maray ...meu filho tamben vai se mudar de pais . Vai pra Italia , onde já esteve de ferias e adorou conhecer Assis...
E lá se vai as raizes fincar em outras terras ...O mundo virou pequeno e nós tambem ...
Um abraço amigo
Walter

Mineiras, Uai! said...

Olá, Allan! Durante suas férias, nos presenteou com deliciosos e práticos dicionários português/italiano, e de A-Z pudemos conhecer um pouco mais da sua vida, da sua rotina... Agora, conhecemos um pouco mais da sua família, suas raízes, suas plantas e sementes. Não há nada melhor que a família, e saber de onde viemos, o que nos fez motivar a continuar a viver... Para onde vamos, ou porque estamos aqui, aí já são outros quinhentos, outras perguntas que não ouso tentar responder. Mais uma vez, obrigada pelo texto, pelos ensinamentos e pelas reflexões me proporcionadas nesta manhã chuvosa de BH. Beijão! Bom retorno à casa!
Ana Letícia
http://mineirasuai.blogspot.com

nora borges said...

Lindo texto, Allan!
Emocionante.