Tuesday, March 01, 2005

Ela

Caros e Caras,
Paz e saúde!

▬ Será que ela não vem?
▬ Ela virá. Ela não pode me deixar esperando…
▬ Vocês dois estão malucos! Eu espero que ela não venha nunca mais.

Mas ela finalmente chegou. Não sem visitar todos, antes de nós. Mas chegou. Tímida e silenciosa. Provocando a tristeza de muitos e a alegria de uns poucos, como eu, que já não acreditava que ela viria: “Ela me esqueceu”, pensei. E sonhava com a falsa paz que a sua presença provoca. A mais doce ilusão. Uma consciente. Procuro seus olhos e ela não me vê. Só eu a vejo. E me sinto feliz como uma criança, a pele fria e o coração aquecido.

Noutro dia, sobre o Vesúvio, fazia-o parecer o Monte Fuji, escorrendo uma lava branca como o leite. Paralisou o trânsito em muitas estradas, provocando contratempos, atrasos e bate-bocas entre os políticos. Queriam que o ministro se demitisse, por causa dela. Pelos estragos na economia e na liberdade de locomoção que ela causou. De que adianta ser ministro e não poder controlar a natureza das coisas da natureza? Que dê o lugar a outro, da oposição. Mas ela nem ri da tragicomédia que provocou. Nem sabe ter causado mal-estar, tímida que é.

O melhor momento da sua chegada acontece na frente da escola. As crianças a adoram e brincam com ela. As mesmas crianças que um dia crescerão para detestá-la. Irão se irritar quando ela participar das brincadeiras. Paro e observo um menino de bochechas vermelhas. Ela o envolve e ele está sorrindo. Não existe nada, só ela e o menino. Ele esqueceu a mochila com os livros sobre a calçada e brinca feliz. Não pensa no horário da escola ou na própria escola. Não entende nada de contratempos ou de políticos. Talvez torne-se político, quando crescer. Naquele momento é somente um menino que brinca, com a felicidade faiscando nos olhos.

O pátio da concessionária está repleto de carros brancos. A mesma cor que predomina por toda a cidade. A imagem parece ter sido fotografada de um sonho ou copiada de um quadro surrealista. O pintor esqueceu as cores e decidiu usar a única que havia disponível. Não vê que assim as pessoas não entendem nada? Não conseguem distinguir as formas, a perspectiva. Até o imenso gramado da fábrica de cimento perdeu o cinza desta época do ano, e foi nivelado à calçada, à rua e ao pátio do estacionamento. É tudo um imenso manto liso e traiçoeiro, como a serpente que ataca por precaução. Parece que a neblina típica desses meses frios se solidificou. Parece um imenso bolo coberto de chantily.

Estava pensando em como o clima interfere no humor da maioria das pessoas, com poucas exceções. É difícil entender como ainda não nos habituamos às mudanças, depois de tanta convivência. Ou, definitivamente, não fomos programados para ser felizes no inverno. O Carnaval do verão é festa, corpos semi-nus que dançam e bom-humor pra dar e vender. O Carnaval do inverno não tem música, as pessoas caminham e a melancolia cobre as fantasias pesadas. Parece dia de greve. Ou a obrigação em manter tradições sem sentido.

Mas ela passa. Indiferente a tudo e a todos. Ignora até as minhas cartas. E, com certeza, não irá ler essa também. Não se trata de uma esnobe, apenas não tem consciência do amor e do ódio, dessas coisas da natureza humana. Ela é fria, mas de uma frieza diferente, que não é dos homens, apenas fria. É capaz de gerar emoções alheias, mas não de gerar calor. Não lê jornais, não se preocupa pelos amigos (terá amigos?), não se interessa pela previsão do tempo e não sabe da Isabella que está para nascer. Apenas passa.

Quando ela chega não perco a oportunidade de sair para fumar um charuto. Na realidade uso a desculpo para vê-la, para caminhar na sua presença, para senti-la. O hálito quente se mistura com o vapor do café. Depois, com a fumaça do charuto. E some tranqüilo na noite escura. Escura, não: o céu, sobre as minhas pegadas, ganhou o tom amarelo do reflexo das luzes no asfalto branco, na cidade branca. Paro e me sinto um bonequinho sobre o bolo de casamento. Mas a sensação de pureza com a sua chegada me conforta. É como a chuva que limpa e rejuvenesce, só que mais densa, mais pesada e mais eficaz. Deixa uma sensação de liberdade de respirar o ar limpo; o asfalto limpo, as árvores adormecidas prontas para acordar numa cidade mais limpa.

Assim como veio, ela se foi. Silenciosa. Agora, ela é apenas aqueles poucos pedaços espalhados aqui e ali, como a serpentina do Carnaval que passou. Nem cinzas. Só o branco, que vai perdendo lugar às outras cores tristes da cidade que ainda não despertou.

Ciao.

15 comments:

luma said...

Nossa! Comecei o dia bem! Aqui o tempo está maravilhoso, muito sol e calor, bem diferente da sua paisagem. Concordo, o clima interfer no nosso humor. Às vezes peço que chova no fim de semana para que possa descansar mais um pouquinho...beijocas, Luma

Fabiana said...

Que lindo! Eu também adoro a neve, apesar de tê-la visto só 2 vezes, ambas neste mesmo inverno europeu. Acho que a única coisa do inverno que faz as pessoas ficarem mais alegres, pelo menos aqui em madrid, que nunca neva, todo mundo sorrindo... Estou sentindo muita falta mesmo do sol, os europeus acho que estao mais "programados" pra aguentar a falta de sol, frio, chuva, vento... Mas eu que sou brasileira estou cheia de tristeza e tenho certeza que é culpa do inverno!

Manoel Carlos said...

Lírica descrição da neve.
Da relação ambivalente que as pessoas mantém com a mesma.
Como sempre, relato de um perspicaz observador.

Em geral, o branco é associado à paz...

maray said...

há uns tempos atrás ( verão passado) caiu uma chuva fortíssima, de granizo por aqui. Aí a televisão mostrou uma meninada perto de uma favela, chafurdando no granizo como se fora neve: os mesmos gestos, a mesma cara de alegria que as crianças européias: mas, de perto, quanta miséria e sujeira naquelas bolinhas de gelo nas sarjetas!
Afinal, criança é igual em toda parte, já os adultos ...
beijos

Anonymous said...

Enquanto isso, o calor nos mata! Nem uma brisa sopra em Cabo Frio. Frio como??

Nos amolece de calor, só quero sorvete, sorvete, sorvete!

Sim, o clima muda o humor. Quando morava nos EUA eu percebia isso , a mudança das cores e dos sorrisos.

Angela

marcelo said...

Estamos aqui, hoje, sobre uma inclemente tempestade de neve. As ruas, as arvores, tudo esta branco, pessoas tentam deixar as calcadas limpas. Vou de bonde para o trabalho e fico apreciando a paisagem. Eh meu primeiro inverno aqui, mas acho que ela - a neve - vai sempre me encantar com a sensacao de paz que causa. A mim, ao menos, que nao preciso dirigir para trabalhar.


abraco

Julie said...

Sei que voce nao gosta mas desta vez é obrigatorio: uma salva de palmas. Poesia pura. Lindo de morrer este texto.
Embora nunca tenha vivido a experiencia de "ve-la" ou "toca-la" (aqui ela nao cai nunca mesmo), imagino que vez ou outra deve mesmo ser uma experiencia interessante. E o Vesuvio coberto "dela" é um espetaculo. E ele està hà um bom tempo assim, branquinho.

Anonymous said...

Olá! Sempre que posso passo aqui, mas fazia tempo que não registrava minha passagem. Apesar do sul do Brasil já ter visto a passagem "dela", nunca vi nada além de geada - o efeito visual é parecido, mas imagino que não tenha nada a ver. Um dia ainda vou conhecê-la. Por enquanto, aproveito uma praia! Grande abraço!

Anonymous said...

Ah, sem essa de anonnymous. É o Marmota.

Reginaldo Siqueira said...

Li teu texto e sai para comprar um sorvetão de coco e tentar imaginar o que é isto. Apenas sou capaz de criar uma ilusão do que seria.
Em quantas tantas situaçõs me sinto um bonequinho em cima do bolo de casamento. Imagem poderosa. :)

rosemary said...

Oi,
E verdade a neve e uma coisa que "envolve" a gente. Eu que moro na colina (Oliveto-fraçao de Monteveglio-BO) estou ainda "godendo" o branquinho e o friozinho seco que ela traz. Pela primeira vez me joguei, mergulhei na neve e pensei num enooorme bolo recoberto de chantilly....OTIMOOOOOOOOOO. Os motoristas passavam e olhavam aquela "doida" e certamente comentavam: essa louca nao tem nada pra fazer... ma va lah!(respondia eu pra mim mesma e mentalmente pra eles)... Nao gosto do inverno, poderia hibernar tranquilamente.Sou do calor e nao vejo a hora de chegar a primavera e depois o verao BEEEMMMMM QUENNNTEE, mas admito que a beleza do inverno e "ela" que faz, ela e a atora principal. Gostei do que vc escreveu...pura poesia. Bacione. Rose

Milton said...

Que descrição linda, Allan! Escolheste um ritmo perfeito e o mantiveste até o final. Fico feliz quando leio algo tão bem executado. É como estou agora. Grande abraco.

Claudio Costa said...

Fizeste poesia com algo frio. E nos aqueceu o espírito. Se aqui em Belo Horizonte o tempo é meio doido, bem que poderia nevar. Mas não louco o suficiente. Enlouqueceríamos juntos, se aqui nevasse.

Mineiras, Uai! said...

Allan, desta vez vc se superou... Me transportei até a Europa, vi o Vesúvio, vi os carros no pátio da concessionária, vi as crianças brincando, vi os bonecos de neve, vi chantilly, bolos de casamento, vi uma cidade branca... Enfim, aqui em BH chove sem parar há 3 dias. Não aguento isso, odeio clima frio e odeio mais ainda chuva. Não sei se gostaria de conviver com "ela". Fico mal humorada mesmo no frio...
"Eu vi o menino correndo. Eu vi o tempo, brincando ao redor do caminho daquele menino. Eu pus os meus pés no riacho, e acho que nunca os tirei. O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei!"
Um grande abraço,
Ana Letícia
http://mineirasuai.blogspot.com

Denise Arcoverde said...

Que lindo, Allan! olha eu sou das que nunca cresceu e adora brincar na neve. Minha filha é muito mais "velha" que eu sempre reclamando da barra da calça que fica molhada, dos floquinhos caindo nos olhos. Eu adoro e basta cair uma nevezinha e vou correndo pra rua. Agora, pra manter minha boa relação com ela, eu tomei algumas providências, do tipo nunca morar em casa, pra não ter que tirar a neve da calçada, nem ter carro por todos os incômodos que ele traz na neve. Assim, seguimos em ótima convivência... :) beijos na Eloá!