Saturday, October 16, 2004

Um dia eu venci o Aldo Pereira

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Dois de outubro foi aniversário da Eloá (que recebeu esse nome em homenagem a avó, que era mais velha que a ex-esposa de Jânio Quadros). Entre os presentes que ganhou – incluindo uma bicicleta para substituir aquela que lhe foi furtada – há um CD: Ney Matogrosso interpreta Cartola.

Minha memória funciona sem aviso prévio, quando funciona. Enquanto encomendava ao balconista o CD para o final da tarde, lembrei de um Ney que expunha seus trabalhos em couro numa recém iniciada feira de artesanato na cidade de Embu, na Grande São Paulo, onde eu morava. Minha mãe, pintora e antiquária, foi uma das artistas que aderiu ao movimento artístico que o escultor Assis e o poeta e pintor Solano Trindade haviam decidido transformar em realidade, atraindo vários outros artistas plásticos à então pacata e bucólica cidadezinha. A feira não possuía mais de vinte expositores, entre alguns dos artistas que iniciaram o movimento e uns poucos artesãos (encontrei o Cristo em 2002, único remanescente hippie que expõe desde o início). Foi pouco antes do início do grupo Secos & Molhados, cuja maquiagem extravagante influenciou o grupo de rock Kiss (e não o contrário, como muitos pensam). Belonzi, o coreógrafo e figurinista do grupo (e da Rita Lee), também freqüentava a cidade à época. Muitos anos depois, Belonzi vendeu uma casa no então longínquo bairro da Ressaca ao meu irmão Dawidson, que mora lá até hoje.

O Embu da época era uma convergência não só de artistas, mas também de intelectuais. Jornalistas, arquitetos, poetas e músicos perambulavam pelas ruas de terra ou paralelepípedos do centro do lugarejo. E a cidade se resumia a umas poucas aglomerações espalhadas pelo imenso verde da região. Ali no centro, onde morávamos, havia um restaurante que funcionava também como ponto de encontro, bar, sorveteria e, mais tarde, discoteca. Era no Garrafão que eu desafiava os jogadores de xadrez nas tardes de sábado. A cada semana aparecia alguém para ser derrotado. Já nem prestava atenção no nome, título ou idade da vítima. Meia hora, quarenta minutos, e mais um jogador humilhado. Revanche: aumenta a humilhação. Melhor parar. Poucos paravam. A vingança: sábado seguinte trago o Fulano e acabo com essa festa! No sábado seguinte, humilhava o Fulano também! Começava a pensar em russo…

Certa vez decidiram fazer alguma coisa. Aquele garoto de quinze anos precisava de uma lição. Sérgio – o dono do local – juntou-se ao escultor Zé Figueiredo, ao desenhista e caro amigo Joel Câmara (que freqüentava o restaurante em troca de um mural que ele levou anos para terminar, levando o Sérgio à exasperação) e ao advogado Ênio, para, juntos, estudarem todas as jogadas e, enfim, derrotarem o jovenzinho arrogante que ameaçava humilhar a guerra-fria, batendo russos e americanos de cambulhada. Foi o jogo mais longo. Uma hora para vencer o incrédulo quarteto. Cuspiam marimbondo, juravam vingança! Mas tinham juízo: não pediram revanche. Eu sorri e pedi outro milk shake: “De chocolate e bem batido, por favor.”

Sábado seguinte o Ênio trouxe um amigo para tentar a sorte. Era um jornalista. Eu conhecia os jornalistas pela barba e pelo cheiro forte de cigarro, mas o sujeito não fumava e achei aquilo esquisito. Provavelmente aterrorizado pelos relatos do amigo Ênio, o cidadão levava longos minutos pensando após cada jogada minha. Minutos que me pareciam dias. De longe e sem esperança, os eternos derrotados torciam pelo desconhecido. Observavam o relógio com o canto do olho, controlando quanto tempo resistiria. Eu fingia não vê-los e apenas oferecia meu sorriso de ser superior. A certa altura da partida, o sujeito olhou-me (tinha evitado encarar-me todo o jogo) e disse com voz baixa, mas sem timidez: “Xeque-mate!” Dois minutos observando o tabuleiro para convencer-me. Revanche. Dessa vez ele precisou de apenas quinze minutos para repetir a sentença. Compreendi ter encontrado outra pessoa capaz de jogar em meio à confusão barulhenta do Garrafão.

Só voltei a freqüentar o lugar quando virou discoteca. O jornalista Aldo Pereira apresentou-me seu filho Cássio, de quem tornei-me amigo, e ofereceu-me outras oportunidades de revanche. Geralmente na sua casa, à entrada do ex-clube Para Todos, alguns poucos quilômetros mato adentro. Apesar do silêncio do lugar, dos chás e mimos que a sua mulher Virgínia oferecia a mim e ao Cássio, jamais ganhei uma única partida do Aldo. Mas depois de conhecê-lo na intimidade, isso deixou de ser uma humilhação.

Aldo Pereira escreveu para a Editora Abril a enciclopédia em fascículos “Os Bichos”. Alguns anos depois, escreveu também outra obra (sempre para a Abril): “Vida Íntima”. Jornalista obstinado, capaz de aprender línguas ou o que quer que seja sozinho, manteve uma coluna na Folha de São Paulo, na época em que a Folha era a “Folha”, sob o pseudônimo de Arquimedes Leite. Irônico e provocador, Aldo beirava o limite permitido aos jornalistas de então. E quando decidia ultrapassar tal limite, o fazia com subterfúgios, burlando a capacidade de compreensão dos censores de plantão.

Numa bela tarde de sol, levei um tabuleiro de Go à casa do Aldo. Ele não conhecia o jogo japonês e isso era uma surpresa. Ensinei-o, ganhei dele duas vezes e nunca mais jogamos outra partida. Meticuloso como de hábito, ele comprou livros e um tabuleiro. Estudou e informou-se. Deve ser um oitavo dan (sim, os grandes jogadores de Go no Japão têm até dan, como nas artes marciais).

A feira de artesanato do Embu cresceu e transformou-se, como a própria cidade. Pouca coisa lembra a cidadezinha tranqüila e aconchegante dos anos setenta. Pouca coisa resta de arte e artesanato na feira. Minha mãe continua lá, com seu antiquário e pintando. Meus irmãos e meu pai, também. Alguns poucos amigos, além da família, me ligam ao presente da cidade, mas já não a reconheço. Até o Aldo mudou-se há anos. E talvez nem se lembrasse mais do Garrafão ou do jogo de xadrez. A amizade é alimentada através de e-mails trocados.

Na paz do seu sítio em Itapevi (ainda moras lá, não?), o ativo jornalista Aldo Pereira, autor de livros e de uma vasta contribuição ao jornalismo brasileiro, carrega uma única certeza a cada vez que olhar o tabuleiro de Go: não haverá revanche!

Ciao.

PS – o post abaixo foi um e-mail enviado pelo Aldo, que me autorizou publicá-lo aqui no Carta da Itália. O post ficou um pouco longo, mas vale a pena. Mais abaixo, o texto da revista The Scinetist que ele enviou como anexo.

9 comments:

Rafael Galvão said...

Belo post.

Apesar de falar de xadrez. :)

Anonymous said...

Sempre imaginei que você fosse um tipo de intelectual enrustido, do tipo que escreve sem editar só para parecer mais ascessível aos comuns mortais. Agora eu tenho certeza.
Abraços,
Luis Becker

Anonymous said...

Allan, falando de Embu das Artes. Eu nao conheci Embu nos anos 70, realmente deveria ser muito mais interessante.
Conheci a uns 3 anos, junto com meu mariod que adora artesanato "brasiliano".
Foi um passeio gostoso e interessante.
Um abraço
Meire

Anonymous said...

Allan,
Fiquei com inveja de você por eu não conhecer o Aldo. E com inveja dele, pois nunca ninguém escreveu uma coisa tão bonita sobre mim.
Lenine.

Claudio Costa said...

Allan, impressionante como funciona nossa memória: as associações "livres" explodem e basta alinhavá-las. Mais impressionante, ainda, é poder compartilhar o que é pessoal dando um viés mais amplo do que o próprio umbigo: isso vejo nas suas "Cartas". Um grande abraço e... obrigado pelos comentários no PrasCabeças.

Mineiras, Uai! said...

Olá, Allan...
Considero o Xadrez um jogo genial, difícil, mas genial. No entanto, o "Go" eu não conheço não... Já tinha lido textos do Aldo Pereira em jornais, revistas, ele é muito bom. Vc ainda não confirmou se realmente ele se tornou um 8o Dan? rs
Mas que a sua "viagem" foi interessante, isso foi... como disse o papai logo acima: "associação livre de pensamentos..." O mais legal é vc conseguir organizá-los de forma que não nos perdemos ao lê-lo... Abçs, e obrigada por visitar o nosso blog!
Ana Letícia
http://mineirasuai.blogspot.com

Milton said...

Conheci rapidamente Embu no final dos anos 80. Fazia uns cursos num hotel fazenda lá. Diziam que o hotel fora freqüentado pela seleção brasileira nos anos 60. Era bom. Gostava de lá. Abraço.

Anonymous said...

Olá Allan, tô voltando. Bati os olhos neste post (depois de ter visto sua nota de apoio) e não vou ler agora o recente post nem o anterior, do Aldo. Gostei de xadre quando criança, mas talvez a falta de ter com quem jogar, não me fez desenvolver o jogo. Te digo em verdade (que bíblico!), começo a gostar mais de teus textos sobre o Brasil, que dos sobre a Itália (que já são ótimos). Vamos ter que te repatriar. Volto para completar as leituras.
Reginaldo Siqueira www.singrando.org

kirlyen said...

aldo pereira é meu avô e fico extremamente feliz por o sr. tê-lo citado!quem bom ver algo sobre ele ...vai mais um apartidinha de xadrez?