Saturday, August 28, 2004

De praças e estátuas

Caros e Caras,
Paz e saúde!

É possível avaliar a história de um país pela quantidade de praças e estátuas que possui. Uma considerável quantidade de praças significa muito espaço para estátuas. Muitas estátuas equivalem a muitos feitos históricos, lutas, heróis e vitórias. Ou a existência de muitos artistas, como Aleijadinho e Michelangelo, por exemplo. Salvo as estátuas religiosas, ninguém ergue estátuas a um medíocre, a não ser o próprio medíocre quando no poder.

Seguindo esse tortuoso caminho da minha obscura teoria, uma luz opaca me orienta a deduzir que o Paraguai deve ser um país com uma, duas praças no máximo. Por outro lado, não posso dispor do mesmo frágil argumento contra Sadam Husein. Ditador, sim. Mas me recuso a chamar de medíocre alguém que tem sua fortuna avaliada em “lhões” de dólares (ainda que com poucas chances de poder desfrutá-la) e que, além de ex-amigo dos americanos, tornou-se o bode expiatório da maior fria envolvendo os ex-parceiros desde o Vietnã.

A vida de muitas cidades italianas gira em torno a uma praça. São pessoas que se encontram, crianças que brincam, a fina-flor do comércio que movimenta a economia da cidade ou vilarejo, bêbados, cães, multas, bicicletas, idosos, muitos idosos, a igreja...
Interessante notar que, com excessão das crianças que visitam as praças em excursões escolares, pouca gente sabe quem são e o que representaram os personagens imortalizados nas estátuas. Garibaldi ganhou, além de estátuas, ruas, praças e escolas. Mas ninguém soube contar-me por quê. E se espantam ao saber que sua mulher Anita, na realidade chamava-se Ana e que era brasileira. Sabem apenas que por alguma razão Garibaldi é chamado de “herói de dois mundos”. Gente estranha...

Ranuccio e Alessandro Farnese a cavalo (ambos) e um bispo (a pé!). São as três estátuas que compõem a Piazza Cavalli (Praça dos Cavalos), no centro de Piacenza. “É um bispo aí, que foi muito importante pra cidade. As estátuas com os cavalos são dos irmãos Farnese, que comandaram Piacenza até a última invasão dos húngaros. Uma das patas de ambos os cavalos está levantada porque, segundo dizem, acabaram de pisar na merda que os patrões fizeram na cidade.” Quem foi o bispo fico devendo para uma outra carta; quanto aos Farnese, na realidade eram pai e filho. Bastaria uma olhada nas placas nas bases das estátuas para descobrir que o segundo nasceu quando o primeiro havia trinta e dois anos e não cinquenta, cinquenta e cinco anos, que o permitiria de ser pai de ambos, com uma longevidade impensável à época. Quanto ao fato da pata que não toca o chão, trata-se de uma convenção na construção de estátuas: as quatro patas tocando o chão indicam que o personagem já não ocupava o cargo quando morreu; com uma das patas levantadas informa que o personagem ainda ocupava o cargo; duas patas levantadas, o personagem morreu em batalha. Ah, ia esquecendo: Piacenza jamais foi invadida pelos húngaros, mas pelos austríacos. E os Farnese não deixaram herdeiros masculinos, extinguindo a dinastia. Tais informações não despertam o interesse de alguém habituado a estar rodeado de história, como o meu amigo piacentino DOC das afirmações acima. (DOC em italiano significa Denominazione d’Origine Controllata, expressão encontrada em produtos – vinhos, salames, etc. – produzidos de forma tradicional, teoricamente controlados por um consórcio. É usado na linguagem informal como o nosso “da gema”.)

As praças das cidades históricas ficam repletas de estrangeiros e ninguém se lamenta. Ao contrário, o comércio recebe todos de forma indistinta e com o mesmo sorriso de plástico. Mas nas praças das cidades menos frequentadas por turistas a história é outra: os estrangeiros que se vêem não vão embora e nem sempre são bem recebidos. Especialmente neste momento curioso que vivemos: o congresso italiano estuda um projeto de lei que permitiria o voto aos estrangeiros que vivem de forma regular (não clandestina) no país. Umberto Bossi, da extrema-direita, sugeriu o linchamento sumário dos extra-comunitários em dias de eleição.

A Praça Quinze de Novembro, no centro do Rio, acolheu o início da barraca do angú do Gomes, que só abria à noite e virou mania; a Piazza San Pietro, no Vaticano, não tem bancos. Para sentar, sugiro a Piazza Navona ou a escadaria da Piazza di Spagna, em Roma; a Piazzale delle Crociate, em Piacenza, foi o local de onde partiu a primeira Cruzada da história; em São Paulo, gostava da confusão da Praça da Sé, no centro. Um mundo de gente caminhando apressada, como quem tem algo importante a fazer; Salvador tem a Praça Castro Alves, construída em declive com uma estátua do poeta, de onde é possível ver o imenso e verde mar da cidade.

A cada cidade, a sua praça. A cada povo, seus heróis.
Mas, como é mesmo o nome daquele famoso herói paraguaio?

Ciao.

13 comments:

Anonymous said...

Adoro sua maneira de descrever..
Moro em uma cidade pequena, e nosso passeio preferido è a Praça..
http://www.litoralepontino.it/webcam3.htm
confira neste site "che bel salotto"!
Um abraço
Meire (moro em Terracina e Fondi)

Anonymous said...

Allan lembrando que o endereço de meu Blog è
http://pensamentosepoesias.blog.tiscali.it/
Meire

Anonymous said...

Adoro sua maneira de descrever..
Moro em uma cidade pequena, e nosso passeio preferido è a Praça..
http://www.litoralepontino.it/webcam3.htm
confira neste site "che bel salotto"!
Um abraço
Meire (moro em Terracina e Fondi)

Rafael Galvão said...

Eu queria ter uma estátua de mim mesmo, mas de antemão já estou excluído. Se pudesse, minha estátua passaria os dias altiva na praça, dizendo silenciosamente: "La piazza è mia... la piazza è mia..."

Manoel Carlos said...

Em escolas brasileiras não ensinaram que fomos (junto com Argentina e Uruguai) os vilões a serviço dos interesses ingleses. Quem dera o Brasil tivesse um Solano Lopez.
Na Praça Tiradentes, a estátua é de Caxias, defensor de idéias antagônicas a Tiradentes, inclusive sendo o grande repressor dos movimentos nativistas pela Indepêndencia e pela República.
Há cerca de dez anos, cercaram as praças do Rio com grades. Ninguém mais pode usá-las.
Quem, ante a Ladeira da Preguiça, em Olinda, não senta um pouco num banco da praça?
A Pracinha do Diário, no Recife, e a Cinelândia, no Rio, dois exemplos de Centro Cívico-Cultural da Cidade.

Anonymous said...

Tem razão, só mesmo um medíocre para mandar fazer a própria estátua. Medíocre e megalomaníaco!

Frank & Gaia

Anonymous said...

Allan,
Eu moro em uma praça, mas não posso usufrui-la. Estou pensando seriamente em mudar-me para o interior...
Abraços,
Lenine

Anonymous said...

Allan,
Praças, ruas e jardins: tudo tinha sido projetado para facilitar a convivência em sociedade. No Brasil de hoje servem somente como residência aos que foram abandonados pela mesma sociedade que finge não ver, ou como cenário da violência a que estamos nos acostumando. Começo a sentir saudades da Europa...
Luiz Becker

Anonymous said...

Allan,
Só quem viveu na Europa sabe a importância das praças na vida cotidiana. Quanto a estátuas, bem, ...creio que cedo ou tarde todos viramos medíocres.
Abração,
Diogo

Anonymous said...

O número de estátuas em um país pode estar ligado ao tamanho da história deste país ou ao inchaço da sua pretensão. Sabemos que as estátuas , assim como a história estão envolta em lendas, e são muitas vezes solidificações de ilusões. Na falta de heróis, muitas vezes são feitas estátuas de bandidos. Muitas cidades têm estátuas de Lampião. Em minha cidade tem uma estátua de Maria Bonita. A de Lampião se jogou de cima do caminhão de transporte deixando a pobre Maria solitária na praça. Abraços.
Reginaldo Siqueira mblog.com/singrando

Anonymous said...

Sou uma enamorada das praças. Aqui elas são muitas, enormes como a Plaza Mayor de Salamanca, ou diminutas, como as pequenenias de Sevilla. Adoro todas.
Nora

Roberto Iza Valdes said...
This comment has been removed by a blog administrator.
Roberto Iza said...
This comment has been removed by the author.