Tuesday, August 24, 2004

Agua e sabão

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Como disse Vinícius: “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental!”
Toda mulher quer parecer bonita e espera ser admirada. Vivem dizendo que o importante é o que há no interior, mas gastam horas com o exterior. Nenhuma crítica, apenas constatação. Gosto de apreciar o resultado, apesar de acreditar que a hora do cabeleireiro poderia ser partilhada com a leitura de um bom livro. Na Itália, quem diria, não é diferente.

Se o homem italiano está se tornando um tímido, a mulher italiana descobriu a necessidade de tornar-se mais agressiva. É a lei do mercado. Ou, a lei da selva. Na busca desesperada de um parceiro para a velhice, as mulheres italianas topam qualquer relação. E isso começa a assustar a ala masculina.

A população feminina italiana entre os quatorze e os cinquenta anos está à beira do colapso. Sem outras perspectivas além das fronteiras profissionais, elas viram todos os antigos valores serem destruídos, sem que novos valores surgissem em substituição, criando um vazio que as muitas interrogações não conseguem preencher. Ao contrário, só fazem aumentar o tamanho do buraco.

O normal, por aqui, é um namoro durar oito, dez anos. Depois disso a maioria termina em casamento; muitas vezes encarado pelo casal como mera formalidade moral. Se o fim do namoro acontece por uma separação, dificilmente os ex-pombinhos irão se casar. Como o próprio casamento (assim como o namoro) está se tornando uma convenção em via de extinção, o resultado é que novas famílias deixam de se formar, aumentando a ansiedade feminina.

Os italianos dão uma importância muito grande às relações familiares. Mãe, pai, irmãos, primos e outros parentes, fazem parte do cotidiano das pessoas assim como os automóveis. Com a diferença que não se pode trocar, caso o modelo não seja satisfatório ou apareça um outro, mais econômico. É muito comum encontrar lojas onde a mãe divide a administração com filhos e netos, além de fazer o almoço, buscar as crianças na escola e controlar as despesas pessoais. Quando a corrente se quebra e a imagem do fim da saga da família vem à tona, o elo culpado será sempre a mulher, que não conseguiu arranjar um marido. Se ela estiver solteira e sem um noivo até os trinta, trinta e dois anos ela simplesmente desiste.

Para enfrentar os desafios dos novos tempos, muitas moças decidem dedicar boa parte da juventude aos estudos. O Ministério da Educação Italiano verificou que sessenta e quatro por cento dos estudantes nos cursos superiores são do sexo feminino. A capacitação profissional feminina acaba exercendo uma inibição a mais no já acuado homem italiano. Após a universidade, começa a batalha para mostrar-se competente na esfera profissional e a dedicação costuma ser completa. Até que, numa bela manhã de sol, ela se descobre bem encaminhada na carreira; independente, como exigia a sua rebeldia; dona de uma conta bancária só com o seu nome; livre de decidir onde passar as férias; péssima cozinheira, mas …sozinha!

Uma das saídas encontradas é o casamento com estrangeiros.
Mais dóceis que os habitantes árabes do norte da África, os negros africanos não têm nenhum obstáculo que os impeçam de casarem-se com o tipo de mulher que o cinema e a Tv vendem como padrão de beleza universal. Óbvio que os motivos nem sempre são somente afetivos, mas deixo as considerações filo-socio-antropológicas a cada um.

Como os índios norte-americanos, as mulheres italianas se pintam e vão à guerra. Às vezes, pintadas demais. Vender cosméticos nessa terra dá dinheiro. Mas não somente cosméticos: academias, centros de estética, de depilação permanente, clínicas de cirurgia plástica e toda a chamada indústria da beleza, movimenta boa parte da economia italiana. Satisfação garantida ou suas rugas e celulite de volta.

Depois do primeiro grito de independência feminista, a mulher italiana transformou seu comportamento e hoje decide seu próprio caminho. Algumas, não têm a menor idéia do que fazer com a conquistada igualdade, mas já não existem tabus de nenhuma natureza. Poucas famílias no sul da Itália ainda exigem o noivado dentro de casa, enquanto o presidente Ciampi vai à Tv, defender a retomada dos valores matrimoniais, como premissa para a manutenção dos laços familiares e a sobrevivência e perpetuação do povo italiano.

A presença feminina ocupa todos os espaços do cotidiano, dividindo com o homem mesmo as tarefas mais pesadas. A única exceção é a construção civil, além de uma tímida participação na política. Na Tv, Poucas mulheres conduzem programas sozinhas, mas são muito utilizadas como ornamento e aceitam todas as piadas e comportamentos que as coloquem como mero objeto do desejo. Ou seja: podem ser feministas o quanto quiserem, mas vivem numa sociedade altamente machista, a qual devem respeitar, amar e preservar.

Depois dos seios de silicone e dos lábios artificialmente carnosos, que, mais que moda, tornaram-se uma epidemia deplorável com resultados idem, uma nova tendência começa a ganhar terreno: a da cara limpa, com imperfeições naturais (até já, bisturi!) e roupas mais casuais. Enquanto não surgir a necessidade de uma nova mudança, soprada pelo efeito misterioso do próximo ciclo do El Niño, a mulher italiana acreditará estar no caminho para a redescoberta da personalidade perdida.

O lado positivo da emancipação e da perda dos valores da mulher italiana, pode ser verificado nas estatísticas oficiais: a drástica redução de matrimônios (e nascimentos!) tem provocado uma idêntica redução dos divórcios. Mas nesse ponto deixo as considerações filo-socio-antropológicas…

Ciao.

12 comments:

Anonymous said...

Oi Allan, tudo bom?
Mais uma vez vim te fazer uma visita...

Anonymous said...

Sim, Vinicius tem toda a razão, a beleza é e sempre será fundamental.
Também é verdade que toda mulher quer ser bonita pois, isso se tornou uma das principais qualidades que a sociedade admira, e quem não quer ser admirada e aceita na sociedade? Obs; e nem todas dizem que o importante é o que há no interior, é politicamente correto pensar assim, e quase todas tem a noção de que esse ditado não condiz com a realidade é só historia para boi dormi. (eu sei que esse tema não é o principal do seu post mas, não resisti em comentar sobre esse assunto) Felicidades!

Mineiras, Uai! said...

Allan, aqui no Brasil temos notado o mesmo fenômeno de "mulheres em pânico por estarem sozinhas". E o pior que a cada ano que passa, mulheres mais jovens passam a fazer parte desta turma de desesperadas que não podem ver um homem sozinho que partem prá cima com vontade. Eles estão cada vez mais cheios de si, pois não precisam fazer nenhum esforço prá conquistar uma mulher. Não precisa ser bonito, nem rico, nem inteligente. Basta ser homem e estar sozinho. Nem precisa estalar os dedos, é só chegar no lugar que no mínimo umas 5 "caem matando". O que acontece: os relacionamentos sérios quase que não existem mais, e surge um mal estar geral, uma depressão, pois tanto os homens, quanto as mulheres, acabam sempre sós. Haja Prozak! Só morando na Inglaterra mesmo, porque pelo menos lá nem precisa se gastar dinheiro prá comprar anti-depressivo!
Um abraço
Ana Letícia
http://mineirasuai.blogspot.com

Ps.: Colocarei um post hoje no blog remetendo ao seu "il mercatto", que achei muito interessante... Só p/ te informar, ok?

Rafael Galvão said...

É impressão minha ou a coisa tá feia pras mulheres do mundo todo?

Não que eu esteja reclamando. Mas a impressão qeu tenho, já há algum tempo, é que esse desespero (perfeita a definição: "a busca de parceiros para a velhice") é ruim pra todo mundo.

Desregula o mercado, sabe como é.

Claudio Costa said...

Muito bom este post, como sempre. Sua descrição da mulherada italiana está espetacular, até vou levar prá minha aula de Terapia Familiar, na Residência de Psiquiatria que coordeno. A gente tem discutido as transformações dos padrões familiares, o novo lugar da mulher na sociedade contemporânea, a questão do descrédito da figura paterna, etc.... Pois é, aprendi mais ainda com você. Voltarei sempre. Abraços, Cláudio.

Anonymous said...

Vai ver são os homens que não se adaptaram , ainda, à nova mulher. Mais uma coisa é certa, o tempo ideal de acasalamento entre os belos animais humanos é entre 18 e 25 anos. Depois disto as pessoas tendem a ficar exigentes e ranzinzas, descrentes e realistas em excesso. A tendência é não aceitar ninguém que apareça, que não seja maravilhoso. Destino: ficar sozinha.
Reginaldo www.mblog.com/singrando

Maria Odila said...

Olá moço.. ando lendo sobre os novos relacionamentos. Conhece Jurandir freire Costa? Sensacional e claro, atualizadíssimo. Não diz assim como vc, mas fala das mudanças e dos novos relacionamentos. Gostei de te ler. Bom saber que as coisas aí andam parelhas com as coisas daqui...rs
beijos
maria lá do digressiva

Anonymous said...

Oi Alan!
É impressionante a onda de peruice . As italianas são demais! Aqui, temos a RAI, e fico besta com a programação cheia de mulheres de rostos lindos, magras pra chuchu, mas MUITA mulher. Pintadíssimas. Nossas paulistas, que têm sua origem italiana, também gostam de uns dourados e onças. Meu filho, quando estava nos EUA me disse não ter namorado nenhuma americana porque teria de disputar com uma camada grossa de maquiagem e penteado até chegar à garota. Bem, estou em outra fase da vida, nada de maquiagem, deixando Deus pintar meus cabelos de branco ( confio nele, afinal, acertou com as orquídeas) sem ligar pra gordura, celulite. É bom ser livre. Mas, nunca entendi a questão da solidão. essa coisa de precisar de um companheiro, de querer casar por casar. Talvez, sei lá por quê, carma, sorte, personalidade, não tenha sentido essa falta. Hoje as pessoas podem estar com outras com mais verdade, sem terem de noivar, namorar casar, assumindo apenas um caso. Mas isso ainda infelicita! Como diria Asterix, esses romanos são uns loucos!

Manoel Carlos said...

Evidentemente não tenho como avaliar a precisão dos dados e informações de sua maravilhosa crônica, contudo é impossível não apreciá-la e até considerá-la verdadeira. Uma grande crítica de costumes. Excelente!

Anonymous said...

Allan, ainda nem tinha lido sua crônica quando escrevi EVAS la´no Língua de Mariposa.
Mas parece que "mentalmente" a gente está sintonizado, né? é asegunda vez que escrevemos sobre o mesmo tema, com enfoques diferentes.
Beijo
Nora

alex said...

ae meu kro amigo isto dai fikou
uma porkaria teve uma parte em
que sua pessoa diz que as lindas
italianas de "cinema, teatro e tv",
melhor dizendo "as belas", nao podem se casar com pessoa de pele negra por sentimento, por afeicao....
a meu kro amigo tenha do...
quale a diferenca entre o negro e o branco... a nao ser a cor.....
faca 1000 favores......
da proxima ve se nao da um deslize feio como este......
fui.....

anamaria said...

Oi, Allan. Esse seu post foi escrito há 4 anos mas está superatual. Aqui no Brasil tambem temos mais mulheres do que homens e a caça aos homens está desleal pois tanto mulheres jovens quanto maduras estão disputando homens tambem jovens ou maduros. As mais velhas tentam se equiparar às mais novas e o que vemos são senhoras vestidas e penteadas como menininhas. Os coroas tambem estão se vestindo como seus filhos surfistas não sei se por medo de envelhecer ou se para ser aceito nas tribos. Estranho, muito estranho. Interessante essa sua observação partir de um homem que nem é estudiosos de antropologia. Ótimo texto, Allan. Parabens.