Sunday, August 04, 2013

Cutucada verbal



Italiano gosta muito de parecer mais europeu do que já é, como se a Itália estivesse mais ao norte, ali pros lados da Holanda e da Bélgica e, apesar de orgulhar-se por ser a Itália o berço do latim, mãe de outras línguas,  deixa claro que o italiano é uma língua única. Concorda?

Uma das diferenças entre brasileiros e italianos está no contato físico. Apesar do italiano ser festeiro e de gesticular teatralmente, os contatos no dia a dia na Itália respeitam uma certa formalidade, sabia? Já o brasileiro gosta mesmo é de um abraço apertado, tapinha nas costas e beijinhos no rosto, não é mesmo? Mas esse tipo de comportamento não deve ser repetido por aqui, ok?

O mesmo vale para quem gosta de cutucar, entendeu? Sabe aquela pessoa que cutuca com o cotovelo ou com a ponta dos dedos? Pois é, aqui também tem. Mas como o contato físico nem sempre é apreciado, usa-se a cutucada verbal, fui claro? E se você ficou na dúvida sobre o que eu chamo de “cutucada verbal”, vou logo esclarecendo: hein?, não é mesmo?, hum?, entendeu?, fui claro?, né?, e aí?, concorda comigo?, ok?, então?, sabe? ...(A lista é longa). Pior quando a cutucada é dupla, física e verbal.

Quem cutuca espera uma resposta, obriga a uma tomada de posição ou ponto de vista. A cutucada verbal tem sempre uma interrogação e a resposta deve concordar com a opinião do cutucador. Caso contrário a cutucada pode virar um soco, uma agressão: “Ah, você não sabe de nada!” [“non capisci un cazzo!”] Minha tática para evitar atrito e mal estar: basta um sorriso. O silêncio costuma falar mais, nessas horas. Entre a cutucada física e a verbal, prefiro a distância. Também fujo das perguntas fechadas (aquelas que só permitem uma resposta: “você não vai fazer isso, vai?”) e me defendo no silêncio. Afinal, a pergunta já se respondeu e o interlocutor só espera que eu concorde.

Se o tempo não me trouxe sabedoria, ao menos se ocupou de transformar a minha elegante diplomacia num gélido silêncio. Aprendi que não preciso responder nem ter opinião sobre tudo. Hoje sou mais zen: que cada um fale a besteira que quiser e será reribuido com um sorriso. Basta calar e sorrir, que sorrir foi das poucas coisas que restaram do jovem dândi. 
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20 comments:

myra said...

OTIMO OTIMO OTIMO OTIMO!!!!! e mto certo!!
beijao!

Claudio Costa said...

Sabedoria com humor. Gostei.

Claudio Costa said...

Sabedoria com humor. Gostei.

CASA DE FIFIA said...

kkk adorei essas postagem.
queri saber escrever assim.

http://fifiacrocheta.blogspot.it/

baci

Sandra said...

Boa!! Nem sempre quem cala, consente, mas o silêncio muito nos diz. Abs

Thais Miguele said...

Conselho de ouro!!!

Denise Rangel said...

Obrigada, Allan! Vou adotar pra vida.
Abraço, garoto

Bruxa do 203 said...

Muito melhor ficar quieto e não dar espaço para briga e discussão sem motivo.

Eu até gosto de uma certa formalidade e distância, isso também ajuda a evitar problemas.

Lúcia Soares said...

Gostei muito do texto.
Temo que seja uma "cutucadora verbal". Vou me policiar. rs
Boa semana.
(leio você no blog da Georgia.)

Elvira said...

Eu também não gosto que me cutuquem.

Sobre os tamancos, eu pensei que fosse proibido por causa dos paralelepípedos. O pessoal poderiam tropeçar e se machucar. Depois iam colocar a culpa na prefeitura.

Bjs.
Elvira

lili said...

Detesto gente que cutuca com as mãos.

Luma Rosa said...

Oi, Allan!!
Vou seguir o conselho: Na dúvida, sorria!
:)
Quanto as cutucadas físicas, odeio! Se ela é repetida, tenho vontade de bater! Acho que é uma das poucas coisas que me tira do sério. A minha reação é responder também na cutucada, até que a pessoa perceba a inconveniência.
Boa semana!!
Beijus,

Anonymous said...

Aos dezoito anos eu sabia que só existia uma verdae e eu era seu dono.
Com o tempo aprendi que existem muitas verdades e a minha é apenas mais uma e que até pode mudar.
Por isto comecei a ser um pouco complacente e paciente.
Mesmo assim às vezes corro o risco de ouvir: "que sorriso irônico é este?".
Manoel Carlos

Léia Silva said...

Sorriso e silêncio na maioria das vezes são as melhores respostas, mas se me cutucar com o cotovelo ou com as pontas dos dedos verá dentes serrados e grandes rugas entre os olhos!

Inaie said...

Eu nao sabia que Italiano não "pega". Eu me desacostumei muito do contato fisico durante as conversas, mas assim mesmo tenho fama de quem fica botando a mão nas pessoas.
estranho, pq qdo alguém me toca, eu pulo de susto.
Acho que desacostumei que me toquem, mas nunca desacostumei de pegar???
hmmmm

Roseane Viana said...

Muito bom saber disso!
VIvendo e aprendendo na blogosfera, adoro!

Carolina (Bichinha na Italia) said...

Essa questao da cutucada verbal è isso mesmo! A impressao que tenho è que, quem cutuca verbalmente: ou tem falta de argumento (e por isso pergunta sempre para tirar o foco de si mesmo) ou pq pensa que o outro nao està no seu mesmo nivel de raciocinio.
Mas no caso de MUITOS italianos, convenhamos: è falta de argumento mesmo!!!

PS.: Ontem fui a Milao e passei por Piacenza... ai fiquei pensando: è Piacenza, Vicenza o Cosenza onde o Allan mora? hehehe

Abraço

Bah said...

Nossa, detesto quando alguém fala me tocando, me apertando, me dando tapinhas... eu detesto ser tocada enquanto estão falando comigo, exceto pelo namorido, mas mesmo assim irrita rs

Kisu!

Dayanne Guerra said...

Allan, brilhante! É com o tempo que adquirimos o conhecimento e a experiência nos mostra que não precisamos dar ou impor nossa opinião sobre tudo e a todos. Podemos guardar só para nós. Concordo plenamente com você. Um sorriso vale ouro. : )

Sissym Mascarenhas said...

Allan,

Muito interessante estas dicas sobre comportamento. A medida que o tempo passa, menos aprecio contato fisico. Odeio quando quero falar com alguem e preciso toca-la, entao sou super discreta e muito educada porque é algo que não suporto fazer nem receber. É esquisito, porque sou muito meiga, atenciosa, tambem calorosa, mas costumo manter distancia. Deve ser meu lado alemã!

Beijos