Sunday, March 03, 2013

3 de março de 1995



Querida Luiza Batata Luli Bijou,
Paz e saúde!

Foi assim: naquela sexta-feira sua mãe avisou ao Menezes que tinha decidido que você iria nascer. Como assim, “tinha decidido”? Isso mesmo, ela avisou que você nasceria naquele dia com ou sem ele, o médico. Lá fomos nós para o hospital no final da tarde e, no início da noite, na sala de cirurgias – Papi incluído – os médicos se divertiam como num bar. Jantei cedo num restaurante no Farol da Barra e voltei. O Menezes sorria.

No dia seguinte fui buscar a Bia e a vó Neza, com os presentes que a Bia tinha escolhido para você e para receber os presentes que você trouxe para ela. A sua estreia no palco maravilhoso dessa vida aconteceu numa noite linda de fim de verão. O clima era especial em Salvador naquele dia. O mundo estava em festa.

Foi assim: o excesso de trabalho restringia os nossos encontros a horários noturnos; você foi ficando arisca e chegou a ser batizada de “bicho-do-mato” pelo amigo Zé Guilherme. Olhar emburrado por trás das pernas da mãe, só manifestava carinho de madrugada, quando tentava me acordar com abraços e beijos e eu, desmaiava na cama: “beu zão” [meu amorzão], dizia você. Precisei sofrer um acidente e passar três meses de muletas em casa para fazermos as pazes, mas valeu a pena.

Foi assim: quando você ficou anêmica por não comer, tive a maior paciência do mundo com você no meu colo, reclamando, garfada após garfada; ensinei você a andar de bicicleta e caminhamos para a escola de mãos dadas. Acolhi você na nossa cama em noites mal dormidas, cuidando para não acordar sua mãe. Nos tornamos cúmplices nas brincadeiras sem nexo que inventamos. Seremos cúmplices na vida. Nós quatro.

Mas a menina arredia foi mudando, deixando de comer alho cru, de ir dormir sozinha no quarto escuro, de ser do contra. Como o grão de areia que vai se transformando em arco-íris no céu. As professoras elogiavam o senso de responsabilidade, a disposição para proteger os pequeninos e ajudar os outros nas lições. A bicho-do-mato foi cedendo lugar à bijou divertida e sagaz que seduziu até a professora maluca. Hoje você é cor e alegria, anunciando o pote de ouro que é conviver com você.

Fica combinado: as novas experiências ensinarão com sabedoria e leveza tudo o que há para aprender nos rumos dessa vida. Uma vida que recomeça todos os dias; que recomeça hoje, 18 anos após aquela noite fresca e mágica em Salvador.

Com amor,

Papi.
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11 comments:

Anonymous said...

Lindo depoimento! Feliz aniversário para a filhota! Inte! Cirlei

Rafael said...

Feliz aniversário pra vocês dois. :)

E então ela nasceu no Sanatório Espanhol, avistando a praia mais gostosa do mundo? O Espanhol que não é mais sanatório, é hospital, porque as pessoas têm sensibilidades estranhas hoje em dia?

Então mais feliz aniversário ainda. ;)

Georgia Aegerter said...

Que lindo Allan.

Tenho certeza que tua filha ficou emocionada.

Que outros anos venham e com muita saúde e felicidade.

Abracos

Elvira said...

Que lindinho.
Parabéns Luiza!!!!!

Bjs.
Elvira

Tati e Seus Nicola'S said...

Linda declaração de sentimentos.
Parabéns à sua filha.

myra said...

linda esta carta tao cheia de amor...merecido! Parabens a voce e a ela!
beijosssssssssssssssssssssss

Thais Miguele said...

Que linda declaração de amor! Parabéns a vc e a sua filhota!

X.F. said...

Linda mensagem!!

Minha vida na Italia... said...

Que lindo!!! quem não gostaria de receber uma declarçao dessas do pai, hem? infelismente eu já não tenho mais meu paizão. Quando vc falou em hospital Espanhol, imediatamente me veio umas ferias inequeciveis a qual passei em salvador pela primeira vez, em 2002. Ficando hospedada no hotel mar azul vizinho aquele hospital, me lembro bem que fiquei hospedada no ultimo andar que tinha um terraço, e que por muitas vzs eu ficava a observar o vai e vem das pessoas no hospital que tem um jardim bem grande...estou certa? grande abraço

O Embuense said...

O dom da escrita é impressionante. Grande escritor Allan! ... Genial!

Debby said...

Nossa Alan
Que belo seu post

E fui imaginando o farol da Barra, Salvador e a saudade foi aumentando :)

Adorando seu blog
Debby :)