Wednesday, February 06, 2013

Racismo da cor da ignorância

O ex primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi aumentou a sua já enorme coleção de gafes. Apareceu sem ter sido convidado à comemoração do Dia da Memória na Estação Central de Milão, onde foi inaugurado um monumento à Shoah. A Plataforma 21, de onde partiram os deportados aos campos de concentração (principalmente Auschwitz), foi restaurada e aberta ao público no último domingo do mês passado, 27 de janeiro, data da chegada das tropas russas em Auschwitz, em 1945. (veja a reportagem aqui).

No final da comemoração (e em plena campanha eleitoral) Berlusconi deixou escapar um pequeno elogio a Mussolini, provocando a reação da comunidade hebraica, dos políticos e até mesmo do Papa (aqui).

Pouca gente percebeu que Berlusconi estava mais interessado nos votos dos simpatizantes de Mussolini que nos votos dos eleitores judeus, mas ninguém desperdiçou a oportunidade de atacar o ex primeiro ministro.

Apesar da lei italiana proibir manifestações facistas (como a saudação com o braço estendido em frente ao corpo – quase idêntica à saudação nazista), nada pode impedir a simpatia por quem quer que seja, inclusive por Benito Mussolini. Nada impede, também, que numa sociedade diversificada como a italiana o racismo seja tolerado. Sim, tolerado. Tanto quanto a idolatria por Mussolini, recordista de venda de calendários.

Noutro dia conheci um cliente com uma química contrária à minha. No carro dele vi um adesivo com a frase: “italiano si nasce, non si diventa” (ninguém se torna italiano, pois italiano se nasce). Era a mesma pessoa que discursava em voz alta numa roda de amigos no bar lotado sobre a raiva que tinha de estrangeiros, pela ordem: albanês, romeno, marroquino, terrone [quem trabalha a terra, caipira, pessoa do sul da Itália], prostituta (“todas as prostitutas nessa terra são estrangeiras, já repararam?”), cigano e os demais. Naquele dia, porém, tentando ser simpático, sem ter me reconhecido e entusiasmado pelo resultado do meu trabalho, perguntou se eu era estrangeiro. Sem interromper o que estava fazendo, respondi com muita naturalidade:

 ▬ Sou albanês.

▬ Ah, o senhor não tem cara de albanês! – espantou-se ele.

▬ Na verdade eu só nasci e cresci em Tirana. Meu pai era um cigano romeno – completei.

▬ “Era”? O seu pai é falecido?

▬ Sim, foi morto um dia antes de ser liberado na penitenciária de Bucareste, depois de cumprir mais de vinte anos de cadeia pelo estupro e assassinato da amante italiana.

▬ Ah, eu sinto muito...

▬ Eu não, ele teve o que merecia. Quem não merecia era a minha mãe.

 ▬ Sua mãe ainda é viva?

▬ Sim. Minha mãe é uma prostituta marroquina em Nápoles. Ela é muito famosa lá.

▬ ...! Sua... Sua mãe é prostituta? Quantos anos ela tem?

▬ Interessado, né? É o que eu digo: de maluco e filho da puta esse mundo tá cheio.
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14 comments:

Anonymous said...

A mim faltariam presença de espírito, audácia e paciência para fazer o que você fez. :)
Manoel Carlos

Thais Miguele said...

Ah, não! Vc não fez isso, fez? Kkkkk. Se for verdade, é hilário!!!

Lunna Guedes said...

Confesso que essas coisas me causam enorme cansaço. Respiro fundo e ignoro. Não teria a paciência que teve.
Aqui em São Paulo é comum ouvir o questionamento de algumas pessoas com relação ao pessoal que vem do nordeste. Há inclusive manifestações bastante radicais contra os "baianos" como dizem. Eu respiro fundo e tento lembrar que todo mundo tem direito a sua própria opinião, mas que causa cansaço, isso não há dúvidas. rs
Eu tenho minhas opiniões e devo dizer que geralmente vão na contramão da maioria. rs

bacio

denise rangel said...

Agora fiquei confusa: ficção ou realidade? Em todo caso, sua presença de espírito foi um tapa na cara bem dado.
abraço, garoto

meiroca said...

rs...rs... queria ter a mesma presença espirito, na maioria das vezes eu fico nervosa e acabo discutindo.
Abraços

myra said...

acho qe tem qe parar de falar deste sujeito imundo!!! amei o qe escreveu!!!!!
abracos e obrigada por todos teus comentarios:)

Raphinadas said...

Audaz e criativo! Adorei a história e também fiquei curiosa para saber se é ficção ou aconteceu, mesmo que isso não importe.
abraços.

Luma Rosa said...

kkkkkkkk você não fez isso!!
Muitas vezes me comporto em troca das injustiças que vejo por aí, noutras me calo, principalmente quando vejo que sou minoria em um ambiente. Você foi muito corajoso e o tal Berlusconi, é um representante mor desse outro italiano preconceituoso. Ambos devem falar mal, mas usufruem dos benefícios que os estrangeiros deixam para eles.
Beijus,

O Salto da Bota said...

Como eu disse no meu post... somos (brasileiros e italianos) parentes distantes. Basta trocar terrone por nordestino, Napoli pela Paraiba, fascista por um militar dos anos 60-70, prostituta por puta e Berlusconi por Lula (Berlusconi é imbativel). No fim das contas, o que nos revolta aqui, nos revolta também là...

Gaspar de Jesus said...

Ora aqui está, uma bela "historinha"
para animar este dia, em que nem apetece sair de casa, de tão mau.
Obrigado pela visita Roberto.
Tenha um bom domingo
G.J.

Taty said...

ahahahahaha adorei!!!!

Léia Silva said...

Hehehehe! Allan você é d+!
Queria saber a cor que ele ficou e se continuou a conversar:)
Quanto a Berlusconi, "abafa o caso", pois não aguento mais falar dele e o pior é que está crescendo! Aí é a hora que devo dizer o que está escrito no adesivo racista: "ninguém se torna italiano, pois italiano se nasce"!
Bjim
Léia

marcelo said...

Brilhante!

E parabéns pelo livro, certamente vou comprá-lo. Sem falar que serviu de dica para planejar o meu.

Forte abraço!

Elvira said...

Você falou isso mesmo ???!!!
Queria ver a cara dele.
Bjs.
Elvira