Lembro do angu que a dona Petronilha nos preparava, em Petrópolis. Meados dos anos sessenta, nossos pais viajaram e a velha senhora cozinhava angu ao meio-dia e à noite. Depois de uns dias – dois? Quinhentos? – ninguém aguentava mais o cardápio monocromático. Implorávamos para que eles voltassem antes da próxima refeição. Passei a adolescência sem suportar o cheiro de fubá: bolos, doces, angu ou polenta possuíam a cor de uma lembrança que preferia não ter. Cresci, mudei e voltei a gostar. Acho que foi com o Angu do Gomes, nas noites cariocas. O melhor do mundo, digo eu.
Setembro é o mês da “Festa dell’Asino” na cidade vizinha de Pontenure. Ensopada, a carne de asno vai muito bem com polenta e vinho tinto. Deve cozinhar lentamente com muito tempero: vinho tinto, cebola, cravo-da-índia, cenoura, salsão, noz-moscada, sal e azeite extra virgem de oliva. Intercalando camadas de carne em pedaços com os demais ingredientes, deixa-se marinar por 24 horas na geladeira. Depois, forno por umas quatro horas e polenta feita na hora. A festa surgiu no dia 31 de Agosto de 1901, quando, para fazer renascer uma antiga festa da cidade, alguém teve a ideia de fazer um asno com asas descer da torre dos sinos na praça da cidade. A notícia teve o efeito esperado e um pobre asno – sob protestos – foi baixado da torre com um gancho escorregando por uma corda até o outro lado da praça, para divertimento da multidão. O autor teria sido o poeta Valente Faustini e o ensopado de asno com polenta que virou tradição é uma iguaria como poucas. É o que dizem.
Outra especialidade local, herdada dos invasores franceses assim como o dialeto piacentino, é o consumo de carne de cavalo. A “picula ad caval” (ou picula di cavallo) é uma tradição culinária piacentina. 600g de carne de cavalo picada-quase-moída, 100 g de cebola batidinha, 250 ml de vinho branco seco, 300 g de tomates sem pele, 250 de pimentão, 40 g de banha de porco, um punhado de ervas aromáticas (alecrim, sálvia, salsinha, manjericão), um dente de alho, sal pimenta do reino. Refogando a cebola e a carne na banha até dourar, basta adicionar os demais ingredientes e cozinhar em fogo médio por uma hora. Polenta e vinho tinto. Fica-se em dúvida entre o ensopado de asno e a carne de cavalo, de tão bons que são os pratos. É o que dizem.
Depois de um Verão sufocante, nada como uns dias de chuva, que é tudo o que esperam os gulosos piacentinos. Passada a chuva todos saem para coletar funghi (plural de fungo). Varandas, quintais e até os tetos dos carros servem de secador para os funghi colhidos e cortados em tirinhas, espalhados sobre uma grelha. Uma vez secos são colocados em vidros para serem usados até a próxima colheita. E há quem congele funghi inteiros para ralar sobre o risotto, como se fosse queijo ralado. Qualquer um pode colher funghi, basta tirar a licença e saber reconhecer os comestíveis. Já o tartufo, uma trufa muito apreciada, só pode ser localizado por cães especialmente treinados. Se funghi é um daqueles produtos que fazem os italianos virarem os olhos, o tartufo é uma especialidade muitas vezes superior. É o que dizem.
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