Sunday, November 14, 2010

Quando a linguagem é um vício cultural

Quem estudou ou se interessa por Filosofia, sabe que a Dialética é um método de diálogo em que a contradição e a contraposição de ideias leva a outras ideias, numa explicação bem simplificada. Conversando sobre a Dialética com minha filha acabamos mudando de assunto e lembrei que existe um hábito comportamental que me intriga e me provoca: o costume de dizer “não” como primeira resposta em qualquer debate ou solicitação. E os italianos são mestres nessa arte de contrapor qualquer ideia com a própria convicção, com o objetivo de levar à ideia do que eles consideram correto, justo ou verdadeiro.

Sempre preferi ser diplomático e ponderar sobre as ideias divergentes das minhas. Vez ou outra descubro-me equivocado ou encontro uma sugestão mais racional, mais apropriada que o caminho imaginado por mim. Também costumo ouvir com empatia os pedidos e solicitações grandes ou pequenas, que fazem parte do dia a dia da nossa civilização. Sei dizer não, mas quando o faço tenho argumentos convincentes. Sim, tem quem tente se aproveitar ou abusar, mas só quem não entende que ser “bom como o pão” (expressão italiana) não chega a ser sinônimo de ingenuidade. Diplomacia, sim. Servilismo, não. Já o escritor Gore Vidal prefere deixar a diplomacia de lado: No final de uma longa entrevista respondeu à pergunta do apresentador sobre o que mais o impressionara do povo italiano. Vidal, que acabara de vender a casa que possuía na Toscana onde se refugiava para escrever, pediu desculpas pela falta de criatividade e preferiu parafrasear Jacques Chirac: “Governar um povo tão individualista como o italiano não é impossível. É inútil.”

Generalizações à parte, a verdade é que esse tipo de pessoa existe em todo lugar. O que não deixa de ser uma má notícia para os meus planos de ir-me embora pra Passárgada ou outro lugar onde só existam pessoas boas como o pão, afáveis e sorridentes. Essa impossibilidade de escapar é o que me obriga a tentar desvendar tal hábito para poder conviver, que mudar o mundo só aos 16 anos.

No caso italiano trata-se da cultura de ganhar no grito, que é diferente do caso brasileiro, por exemplo, no qual aos jovens é incentivada a arrogância e má educação. Pessoas que tentam impor o próprio ponto de vista não costumam dialogar com ninguém, conhecem apenas o monólogo. Normalmente um monólogo insistente. Observando com atenção, descobri que a grande maioria usa o “não” como defesa da própria insegurança e, na maioria das vezes, tenta convencer a si mesmo. Claro que existe uma minoria convicta, capaz de usar a cabeça não apenas para separar as orelhas, que deve ser ouvida. Mas estamos tratando de generalizações, ou não seria possível inserir a Filosofia nesse texto, mesmo tendo distorcido o significado da Dialética.

Tenho pensado muito em abandonar a diplomacia ao tratar com quem tem um “não” sempre engatilhado, mesmo quando a arrogância não é presente. Ou devo aprender a respirar melhor e relaxar?

14 comments:

myra said...

como diz G. Vidal, " é inutil"...sabe tem que aprender a dizer nao, as vezes é dificil, mas..
gosto mto, ja te disse de como voce escreve! e este texto é mto bom mesmo!
um gde abraço

denise rangel said...

Allan,
Gostei da expressão "bom como o pão” (vou passar a usar)! Tens razão: ser uma pessoa boa, chegada ao diálogo, que sabe ouvir o ponto de vista alheio, sem ser arrogante, não é, absolutamente, sinônimo de ingenuidade.
Aprender a dizer não com firmeza e delicadeza, é uma arte. Infelizmente, impera a cultura do grito. Mas a experiência nos ensina a dizer não, pois não há mais lugar para servilismo, depois de uma certa idade, quando já sabemos o que queremos, ou que é mais adequado, dependendo da situação.
Ah, quando achar o caminho para Pasárgada, me conta! :)
abraço, garoto

Ana Maria said...

Eu também não sabia o que era "mara", via todo mundo falando isso e descobri que vem de um programa de televisão. É uma abreviação de "maravilhoso" ou algo assim.

Seria ótimo encontrar esse lugar!! Bem perto do meu trabalho tem uma biblioteca e uma sala de informática, usadas por jovens e crianças. Só ouço gritos, ninguém cuida dos computadores, jogam os livros em qualquer lugar, ficam com os pés em cima da cadeira. Um horror!!

Ri muito com a "cultura de ganhar no grito". Até hoje tenho medo de gritos!!!

Carlos Medeiros said...

Ouvi dizer que o italiano de um modo geral é muito agitado, faz tudo com pressa, como se o mundo fosse acabar. Não sei se procede.

Sissym said...

Allan, perfeita colocação.

Dizer NÃO ao iniciar uma frase é um péssimo vicio de linguagem, é a negação usada quando na verdade se deseja falar que sim. Esquisito isso, concorda?! Estudei isso na faculdade. Contudo, tais vícios são tão dificeis de serem mudados, porque de alguma maneira estamos sempre sendo bombardeados seja ouvindo ou lendo.

Procuro me policiar o meu modo de falar, sabe por que? Ahhhh uma pessoa de minha familia tem o pessimo habito de começar frases assim e sempre tem uma respostinha que começa assim: "não sei", usa isso viciosamente e sem perceber.

Como não gosto da maneira que ela fala, mesmo sabendo que o faz sem maldade nenhuma, penso sempre como estou falando.

Voce ainda se referiu aos jovens brasileiros. Eles são os aprendizes de adultos arrogantes. A sociedade está cada vez mais individualista. Há pessoas que por terem um condição social mais privilegiada se sentem no poderio de pisotear quem estiver na frente.

Beijos

Juliana Rossa said...

Oi Allan!
Não sei se vc sabe, mas depois de quase dois anos na Itália passei um ano e meio no Brasil, antes de retornar para cá novamente.
Notei que meu modo de ser mudou um pouco depois do “estágio” em terras italianas.
Eu sou uma “coração mole” e isso fazia, as vezes, que algumas pessoas se aproveitassem do meu estado para abusar.
Hoje digo mais NÃO e aprendi a não sentir culpa por isso.
Acho que a solução é bom senso. Nem oito nem oitenta.
Bj!

maray said...

Acho que existem certas palavras que a gente insiste em por no começo das frases pra ter tempo de pensar no que vai dizer. Eu odeio quem começa frases com ..."bom, ..." porque sei que vem discordância logo a seguir e um monte de contra-argumentos. Apesar do "bom" por si só não ser "mau" ( meu deus, essa foi horrível!)
Meu marido é italiano. E fala alto pra caramba. E é cheio de argumentos. Como discutir com ele? Aprendi que é só falar, feito criança: "porque sim" que acaba qualquer discussão. Mas só uso isso em legítima defesa da honra e quando me sinto acuada. Acho. :D

Meg said...

Allan, sempre acho que um post, para quem sabe escrever como vc, resulta de uma situação bem "circunstanciada" (ops).
Eu imagino que sabendo de tudo isso, há tempos, vc escreveu a respeito agora, parece que numa situação limite.
Digo isso, por que essa oposição ou contraposição como vc sugere está longe de ser dialética, que em si, é uma arte e do ponto de vista do conhecimento é extremamente criadora e criativa.
Parece mais a má-vontade "in limine" coisa que tem outro nome, ou a imposição de um ponto de vista, justamente pra matar a *discussão*. O que é, além de desagradável, aterrador.
Mas eu queria que um dia vc escrevesse sobre o outro extremo: as pessoas que não sabem dizer *não*.
Ah! eu sofro, sofri, e queria não sofrer mais com isso.
Esses preâmbulos todos é porque esse post bateu fundo em mim.
Até imprimi.

Mille baci, querido.

Anonymous said...

Tio

vc ainda nao entendeu q precisa escrever mais simples pra num confundir as pessoas. a moça ai de cima nao viu que vc tava escrevendo dessa tal di letica soh pra infernizar as ideias.

"Conversando sobre a Dialética com minha filha acabamos mudando de assunto e lembrei que existe um hábito comportamental que me intriga e me provoca: o costume de dizer “não” como primeira resposta em qualquer debate ou solicitação."

pedro luis

Anonymous said...

2 anos de Italia. No começo, não entendia se o problema era comigo ou se as pessoas eram estúpidas gratuitamente. No final, admiro um pouco essa facilidade em dizer 'não'. Por outro lado, acho que eu me tornei uma pessoa mais amarga, em parte por isso. Mais que a negativa, me parece mais ofensivo o desdem deles ao dizer "non penso". è, nao fazem ideia mesmo. Essa falta de cultura e busca pelo mundo 'fora da Italia' (se é q existe, na concepção deles) os transforma em donos da verdade. Isolados na bota, pouco sabem o q o mundo acha deles, e continuam arrotando o que geraçoes passadas (e bota tempo nisso) fizeram. Hoje a Italia está seca na minha opiniao. Nao temos grandes atores, arquitetos, jovens talentos. Na tv, horas pra falar da 'ragazza de Clooney'... vazio, é tudo que vejo aqui. Viver do passado e sufocar a juventude me faz querer deixar esse pais pra tras. Individualistas incapazes de ouvir outras historias, senao as suas. Parece que sao os unicos que trabalham no mundo, e se lamentam todo o tempo. Triste ver poucas crianças nas ruas, e quando as vejo, sao estrangeiras- que sao mal vistas e recebem olhares de desaprovação dos velhos que infestam as ruas. No minimo assustador.

Jussara Gehrke said...

Allan,
Já há um tempo assiti na tv um programa do inglês Jamie Oliver (sobre gastronomia) viajando pela Itália, pelo interior da Italia, e a intenção dele era "recriar", "inovar" a comida, fazer as receitas de maneira original sem alteração no sabor, para que os preparos possam ser mais rápidos, mas ou menos isso.
Não sei se vc assitiu à essa série (tem o livro também) da viagem à Itália. E por onde ele passava encontrava sempre um 'não', ou seja, descobriu no final que é impossivel preparar uma receita italiana de modo criativo, todos, absolutamente todos os italianos só aceitam se a receita for tradicional, a comida da mamma!
Eu gosto da Itália, já fui mais apaixonada, mas como diz esse Anonimo de cima, o país vive do seu passado - claro que devemos guardar e respeitar nossa História - e parece que os jovens estão parados também.
Meu filho esteve visitando amigos nossos que tem filhos da idade dele - na época tinham vinte e poucos - e ficou impressionado porque grande parte dos jovens não tinham um email (isso quando aqui no Brasil já fervia a internet).
Então penso que esse modo de começar o discurso com o 'não' impede da própria pessoa crescer, ela nega o conhecimento, pior ainda, com arrogância, imaginando que ela é dona da verdade.
Lendo seu texto me lembrei de um professor da universidade que me deu uma dica ao corrigir um texto meu e que jamais esqueci e uso para tudo na vida: procurar escrever e falar pela forma positiva, quer dizer, explicar sem usar expressões negativas, evitar o não nos discursos e escrita. Valeu tanto que a partir daquela conversa sempre penso no que vou dizer para transformar o discurso em positivo.
Eita, escrevi demais para uma paulista no meio do calor baiano.
Allan, não venho sempre, mas quando venho encontro sempre um texto bacana, gosto muito da maneira que escreve e das suas reflexões. Sobre
a Dialética ficou devendo...
beijo
Ju

Jussara Gehrke said...

ah... foi o comentário

é que depois que escrevi tudo aquilo (e não copiei) veio esta mensagem: The requested URL /comment.g... is too large to process
ai eu pensei: f....
mas vim aqui e está aí

Anonymous said...

O que um bom post. Eu realmente gosto de ler esses tipos ou artigos. Eu não posso esperar para ver o que os outros têm a dizer.

Anonymous said...

Estive pesquisando na Internet tentando encontrar idéias sobre como obter o meu blog pessoal codificado, o seu atual estilo e tema são maravilhosos. Você código de sua própria ou você contratar um programador para fazê-lo para você pessoalmente?