Monday, April 12, 2010

Pronúncia italiana – ad, ed, od

“Salve, Allan.

Obrigado por seu instrutivo comentário sobre particularidades prosódicas do italiano. Assim como nenhum italiano adulto será capaz de aprender a pronunciar como nós o a nasalizado pelo til (anão, visão etc.), tampouco um brasileiro adulto é capaz de pronunciar distintamente cappelli ("chapéus") e capelli ("cabelos"). Aprendi isto em voo de retorno ao Brasil, quando tentei explicar, no despacho da bagagem, que naquelas duas grandes caixas vinham chapéus comprados lá pela Virgínia. A balconista arregalou os olhos (delineados, lembro bem), porque, aos ouvidos dela, eu estava declarando trazer para o Brasil duas caixas cheias de cabelos. Deixei em Fiumicino o orgulho (aliás imerecido mesmo) de haver estudado um pouco de italiano antes da viagem para, pelo menos, me fazer compreendido no essencial.

Outros cacoetes, estes mais fáceis de corrigir são os de converter os fonemas finais átonos /e/ e /o/ em, respectivamente, /i/ e /u/ ("quênti", "áldu"), particularidade dialetal que, salvo desconhecimento meu, não aparece nem na fala dos mais ignorantes dos italianos. (Aliás, um único reparo em sua lição: a pronúncia figurada de ciao não é um dissílabo hiatal "tcháo" em vez do ditongo "tcháu"?).

Sugiro que noutra lição você comente também ligaduras fônicas, como a da conjunção ed usada em lugar do e na precedência de vogais. Aliás, em matéria de ligadura, particularidade brasileira muito comum é enfiar um fonema /i/ entes do /s/ inicial duma palavra estrangeira, com resultante acréscimo incidental de uma sílaba. Italiano emenda, por exemplo, pizza speciale (para soar "pizzaspetchale"), ao passo que o turista brasileiro, tipicamente, pronunciaria "pizza ispetchiáli", com o erro adicional de passar o adjetivo para o plural. Vemos dificuldade igual na aprendizagem brasileira não apenas do italiano, mas também na do inglês: "superistar" em vez superstar etc.

Por estas e outras é que o latim daqui acabou ficando tão diferente do latim daí, e também por que os dois remontam assim tão longinquamente à língua avó. Ah, mas donde veio o latim?

Abraço,

A.”

O Aldo tem razão, a aula deveria ser de pronúncia italiana e italiano diz “tcháo” com a letra o. Brasileiro – como bem lembrou o Aldo – é quem tem o vício de trocar o o pelo u. Aliás, agradeço-o pela correção e pela lição, enfatizando o que foi escrito por ele: para pronunciar corretamente o italiano é preciso evitar o hábito brasileiro de “converter os fonemas finais átonos”. Acreditem, esse cacoete causa muita confusão e interrompe a informação, pois o interlocutor italiano tentará interpretar o que foi dito e perderá o fio da meada. Em italiano a letra e será sempre pronunciada como e, e não como i; assim como a letra o jamais será pronunciada como u. E, não, nenhum italiano comete esse tipo de erro, mesmo o mais ignorante.

Mas vamos aproveitar a dica do mestre e falar sobre as ligações fônicas formadas por ad ed e od antes de vogal. Em italiano, as duas conjunções e e o, e a preposição a, consentem a adição de um d para ligarem-se eufonicamente à palavra seguinte, quando essa começa com vogal. A regra limita esse uso apenas para quando a vogal inicial da palavra seguinte é a mesma da conjunção ou da preposição. Por exemplo:
ad aiutare [ádaiutáre] – a ajudar
ed esclamò [êdesclamó] – e esclamou
od obbligare [ôdob_bligáre] – ou obrigar

A regra também prevê a ausência do d quando a palavra seguinte possui um d, o que causaria uma cacofonia, como em a Adamo – a Adão; e educato – e educado; o odore – ou odor. Mas vivemos em um mundo em que as regras perdem valor a cada dia. Está se tornando difuso o uso indiscriminado da letra d, nesses casos. Portanto, não se assuste se lendo um jornal italiano ou numa conversa entre italianos deparar-se com formas como ed anche [êdánke] – e também; ad esempio [ádesémpio] – a exemplo; ed io [êdío] – e eu. Afinal, o italiano é uma língua viva e esse povo é repleto de criatividade. Tão criativo que se permite, por exemplo, a criar palavras novas mesmo em outras línguas, como a muito usada footing, palavra inexistente em inglês mas que por aqui é usada no lugar de camminata – caminhada.

De resto, esta regra tornou-se muito maleável nos teclados de escritores italianos famosos. E se eles podem… Fica então valendo a eufonia como limite último ao uso do d: se soa agradável, não é errado. Esperando que a sutileza auditiva seja uma qualidade distribuída com equidade. E se você achou a palavra eufonia no dicionário, mas não a palavra eufonicamente, considere duas coisas: o português é uma língua tão viva quanto o italiano, e eu vivo na Itália o tempo suficiente para me deixar contaminar por esse tipo de criatividade.

10 comments:

Juliana said...

Oi Allan!
Sabe, eu tive um professor de italiano em Verona que era bem rígido com a pronúncia. Ele fazia o aluno repetir com ênfase as letras duplas e quando falávamos ispagnolo, por exemplo, sempre chamava a atenção.
Por isso, muitos italianos conseguem identificar que somos brasileiros devido a esses leves deslizes que cometemos.
Mas acho que mesmo assim somos bravos, porque conseguimos pronunciar qualquer fonema, mesmo que ele não existe na nossa língua.
Abraços!
(Obs.: se você não é professor, poderia muito bem ser. É muito didático!)

myra said...

bom dia Allan, otima liçao! e como Juliana diz voce poderia ser - se nao é - professor!
um gde abraço,

Ágatha Alves said...

Nossa Allan me lembro que a minha prof o que mais corrigia era a pronuncia, até entrar na cabeça que não é como o portugues assim como vc falou, o O nunca será U e o E nunca sera I, se assim esta assim se le. Hoje não cometo tantos erros assim, mas como ja faz um tempo que não pratico acabo esquecendo algumas palavras simples que usamos no dia-a-dia.
Sabe que nunca consegui entender quando se usa o ed, ad, od, mais sempre entendi o significado nas frases mais quando vou escrever não sei quando usa-las.
Sempre que leio textos seus assim me da uma grande nostalgia, estou pensando em pagar o curso, pq antes não pagava e vejo que aprendi até que bastante por ser um curso de graça de italiano. Me faz muita falta.

Beijão

Ana Maria said...

Adoro essas aulas do seu blog, já imprimi várias. São sempre úteis.

Aiii uma coisa que eu acho muito feia no português é justamente essa troca do O pelo U e do E pelo I. Como eu falo espanhol, não tive problemas com isso na hora de aprender italiano. Agora vou começar a praticar mais a pronúncia das letras duplas, mesmo que não fique perfeito, pelo menos pronciar direitinho a gente pode tentar.

Novamente, obrigada pelas aulas!

Lili Detoni said...

Olha só!!! Amanhã terei mais uma aula de Italiano e nem estava com muita vontade de ir... Mas, depois de ler sua postagem, fiquei animada a aprender, aprender, aprender! Realmente, essas letras duplas e mais o "ed" me deixam louca de tantas dúvidas!!! Mas, o aprendizado é maravilhoso, e o que importa é aprender sempre, né? Por isso, com certeza irei à minha aula amanhã e me lembrarei de todas essas dicas tão valiopsas!
Abraço da Lili!

Anonymous said...

Duas excelentes aulas. Claras e objetivas. Grato.

Manoel Carlos

anamaria said...

cada post uma lição. ótima aula. abçs.

deco said...

Olá Allan,

ótima lição. Acho que o vilão de muitos aprendizes de outras linguas será sempre os vícios. No italiano o E e o I alteram a forma singular ou plural das palavras e as letras duplas muda a forma de pronúcia e, sonsequentemente, o significado.
Vale lembrar tbm a troca do L pelo U. Lembro que minha professora de espanhol falava: L com a lingua no céu da boca, inclusive no meio da palavra. É verdade, pessoas que falam espanhol tem um pouco mais de facilidade nesses aspectos. Mesmo assim, ainda somos melhores do que qualquer americano, chinês ou japonês.
Bom, é isso...
Ciao (com O no final)

Georgia said...

Allan, recebi um email seu assim, mas nao abri os links que vem inserido neste seu possível email. Como nao li nada por aqui a respeito estou pensando que pod ser um vírus que ao clicar nos links aqui citados o PC se contamina.

Se vc nao enviou nada assim, faz uma alerta aqui no seu blog.

Achei estranho o tipo de escrita nao me pareceu ser um texto teu.


Aqui o email:


Pessoal,

Há alguns dias sou colaborador do site de turismo Minube (www.minube.pt). "Colaborador" significa que eles me pagam para escrever. Pouco, mas pagam. Aquele conhecido esquema em que conta o número de visitas, posts clicados, etc.

Mas o que gostaria de dizer é que inadvertidamente enviei um spam, ao tentar verificar se alguém da minha lista de contatos do gmail já era presente no site do Minube. Se você recebeu nestes dias um convite a visitar o Minube, desculpe, foi um spam automático gerado pelo site em meu nome. Se você não recebeu, provavelmente seu sistema anti-spam funcionou. Caso você tenha mais de um e-mail, sinto muito dizer que estou escrevendo para todos os contatos da minha rúbrica e provavelmente você receberá uma cópia desta em todos os seus endereços (assim como deve ter recebido o spam anterior), mas se serve de consolo, eu também recebi. :)

Aproveito para informar que o Minube não é uma comunidade, mas um site que dá dicas sobre cidades no mundo inteiro através de quem mora no local, ou já visitou o lugar. Isso possibilita obter informações que muitas vezes não estão nos guias, com dicas de quem vive a realidade local. Se quiser, visite o site antes da sua próxima viagem e busque informações sobre o seu destino. em português: www.minube.pt; em espanhol: www.minube.com.

Desculpem pelo spam e abraços a todos,

Mateus Olivier said...

Ciao Allan! Esta é uma dúvida que há muito habitava minha mente, porém só recentemente é que "tomei coragem" para acabar de vez com essa tormenta! Enfim, sua explicação me ajudou muito! Grazie!