Sunday, February 21, 2010

Via Emilia

Lá pelo ano de 190 a. C. Piacenza era circundada dos celtas Boii, derrotados pelo exército romano mas que nunca chegaram à rendição e que se recusavam a assinar a paz com Roma. O risco de revoltas era muito grande, a ponto de obrigar Roma a construir uma estrada que ligasse Rímini, no Mar Adriático, a Placentia (nome romano da cidade), para permitir a movimentação veloz de tropas militares. Rímini, por sua vez, era ligada a Roma pela Via Flamínia. A cidade de Rímini é banhada pelo Mar Adriático, na Romagna, uma região histórica, linguística e geográfica da Itália setentrional.

Na antiga Roma o cônsul era um magistrado epônimo [que dava o próprio nome a uma cidade, região ou ano] eleito anualmente. Como tal, detinha o poder civil e militar. Foi o cônsul Marco Emilio Lepido (Marcus Aemilius Lepidus) quem comandou a construção da estrada, dando assim o próprio nome não só à nova via, mas à região que a circundava além dos limites da Romagna. Anos mais tarde, um outro trecho da Via Emília foi construído, ligando Piacenza a Milão, na Lombardia.

Piacenza, Parma, Modena, Bolonha e cidades vizinhas formam a parte emiliana da região Emilia-Romagna, enquanto a faixa litorânea abriga as cidades romanholas. As maiores cidades de fundação romana ou refundadas pelos romanos e atravessadas pela Via Emilia são Cesena, Forlimpopoli, Forlí, Faenza, Imola, Claterna (entre Imola e Bolonha, desaparecida no século VI após a guerra Greco-gótica), Bolonha, Modena, Reggio Emilia, Sant’Ilario d’Enza, Parma, Fidenza e Piacenza.

Paralelas à Via Emilia foram construídas a estrada de ferro que vai de Milão a Rímini e a Autostrada A1, também conhecida como Autostrada del Sole, ligando Milão a Nápoles. A Via Emilia é, ainda hoje, a artéria viária fundamental da Emilia-Romagna, apesar de em muitos trechos não passar de uma pista de mão dupla, sem acostamento – característica das estradas italianas – e mal conservada.

Na época da construção da Via Emilia as cidades eram verdadeiras fortalezas, cheias de soldados romanos, muros altos e jardins voltados para o interno dos terrenos murados das casas. Qualquer forasteiro era visto como ameaça e poucos se arriscavam às novidades trazidas de fora. A parte emiliana da região, aquela onde moramos, é o berço de uma gastronomia de tradições antigas, como as massas recheadas (tortelli) como cappelletti e ravioli, além do famoso fettuccini (ou tagliatelli). Zona de produção do Grana Padano e zona exclusiva do rei dos queijos, o Parmigiano Reggiano. Isso sem contar os embutidos, como as copas de Parma e Piacenza, os salames, presuntos, a mortadela e o culatello. Vinhos, como esquecê-los? Uma infinidade de queijos e outros produtos menos conhecidos fazem parte dos costumes emilianos. Os moradores das cidades muradas eram desconfiados, mas não bobos. A troca de receitas foi facilitada com a Via Emília e o comércio ambulante da época ajudou a espalhar as tradições locais, enriquecendo, modificando e transmitindo às gerações seguintes, técnicas, produtos e costumes que poderiam ter se perdido, como a cidade de Claterna, um dos poucos casos de cidade romana esquecida e quase intacta sob o que hoje é terreno agrícola.

Com a expansão das cidades e vilarejos, a Via Emilia acabou por transformar-se, em alguns trechos, em avenidas que atravessam as cidades, ou sofreu desvios para manter o tráfego pesado longe das habitações.

Quando vier à Itália e decidir conhecer de perto os sabores, a história e a cultura de uma terra rica como a Emilia-Romagna, evite a Autostrada, evite os trens e aventure-se pela Via Emília. A via romana das tradições. São quase 300 quilômetros percorridos em seis horas, mas é provável que você gaste muito mais tempo, se se deixar encantar pelos vilarejos, pelos vinhos e pela culinária que muda de cidade em cidade.

















No mapa, a linha azul mostra o percurso da Via Flamínia, que liga Roma, mais ao sul, a Rímini, no Mar Adriático. A linha vermelha é a Via Emilia, ligando Rímini a Piacenza, no trecho original, antes da construção da extensão até Milão.
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17 comments:

Josianni Teixeira said...

E' sim! Infelizmente aqui na Italia, as pessoas nao pensam no perigo e constroi casas sem pensar em nada, como nas zonas sismicas (Como L'Aquila) que construiram casas sem a proteçao justa, ou na Calabria, que sabiam que nao eram terreno adapto ... Enfim sao coisas que sabiam que poderia acontecer .... so que eles preferem deixar acontecer para depois agir!! Prevençao ZERO!!

Abraço!

maray said...

quando formos a Itália - e vamos - vou te azucrinar por indicações gastro-históricas! Fora conhecer a terra de minha avó materna- Nápoles- e a terra dos pai do meu marido- a Sicília. Nossa, só de pensar, tenho que juntar grana anos pra dar conta de conhecer toda nossa ancestralidade. Tem italiano pra caramba na árvore genealógica ;)

Anonymous said...

@Josianni
Ainda bem que no Brasil é um bando de gente inteligente que nem constrói favela nos morros não é?

Lili Detoni said...

Meu amigo! Como eu adoro ler suas "aulas" sobre a Itália! Parece que posso até "ouvir" sua narração! Estou lendo um livro que fala sobre a cidade de Cortona (Toscana), e estou a cada dia ficando com mais vontade de voltar e ver todas essas maravilhas que a Itália tem! Abraços!
Lili.

Vivien Morgato : said...

As dicas de quem mora e percebe efetivamente a cidade ( ou as cidades ) é sempre a melhor fonte de informações pra viagem.;0)

myra said...

meu querido Allan, que bem voce conhece a Italia! infelizmente tudo esta caindo...constroem somente para ganhar dinheiro...nao ha honestidade somente engano...e coitadas das pessoas que perdem as casa, cada vez acontecem mas desgracias...uma grande pena por este tao lindo pais..e linda gente...nao os "de cima"!!!!
beijao,

Jussara Gehrke said...

Allan, gosto de 'viajar' nos seus textos, boas informações também, quem sabe passarei pela via Emilia outra vez, já fiz essa viagem há muitos anos, realmente deliciosa, foi no verão de 84 e eu estava apaixonada, podia ser melhor?

beijo
Ju

evipensieri said...

Oi Allan.

A casa dos meus avós era na Via Emilia. Eu morria de medo na hora de atravessar quando voltava da escola.

Bjs.
Elvira

Marco said...

Não sei porque mas encontrei alguma semelhança para com as varzeas aqui de São Paulo que são veias de escape do Tietê e ficam alagadas quando as chuvas de janeiro castigam a cidade. Adivinhe a quem culpam por isso? hahahahaha
Grande abraço

Lunna said...

E até seguiria seu conselho, não no caso de conhecer, mas no caso de uma aventura, mas amo os trens e não consigo viajar pela minha Itália querida sem os seus trilhos, rs
Coisa de pele, nem tente entender. Bacio carissimo

peri s.c. said...

Allan
Quantos anos precisaríamos viver para nos deixarmos encantar por todos os vilarejos, todos os vinhos e todas as culinárias que mudam de cidade em cidade , na Itália ?

Georgia said...

Pena que você nao colocou imagem neste teu post, Allan.

Abracos

kharhan said...

Bom dia.
Estou colocando seu link no meu blog.
Ah sera que posso republicar algumas materias do seu blog?
Claro que colocarei os creditos e links.
Valeu.

ines bachiega said...

Mais uma vez me vejo no seu belo texto, mesmo sem ter passado por este lugar, especificamente. Você me dá gula da Itália...KKK
Quero voltaaaaar!!!

myra said...

e? nada? pena!!!! esperarei com paciencia!
saudades e um grande abraço,

Luma Rosa said...
This comment has been removed by the author.
Luma Rosa said...

Allan, um passeio de encher os olhos e a boca! Quando eu for, vou te chamar! (rs*)

Conhece o blogue do Pietro?

Beijus,