Sunday, August 02, 2009

Amigas

Segunda-feira, 7 e 15 da manhã. Elas batem papo animadamente enquanto esperam a abertura do supermercado, às 7 e meia. São sempre as primeiras clientes a entrar. Lá dentro, escolhem frutas e verduras com cuidado; poucas, mas bem selecionadas. No balcão de frios pedem apenas “mezz’etto” (cinquenta gramas) de presunto cru ou coppa. Pães, apenas dois. Quando chegam ao caixa agem como se não se conhecessem. A primeira leva sempre uma sacola de pano; a outra, lhe torce o nariz e prefere os sacos plásticos vendidos a cinco centavos de euro, que ela diz reaproveitar. Parte do ritual, a moça no caixa pergunta:

– Quantos sacos?

– Um só. – Responde.

– Olha que não cabe…

– Eu só pago um. Dou um jeito de caber.

A caixa lhe dá um saco, que ela, ao tentar abrir, descobre serem dois. Ela olha para a caixa – que finge uma cara séria – e diz, dando de ombros:

– É o destino…

A caixa pisca para o cliente seguinte, espectador da cena divertida. Ela divide a compra nos dois sacos e sai.

Caminham devagar até a rua onde moram, comentando as notícias do jornal da manhã, as receitas do dia anterior, os prazeres e desprazeres dos netos, gatos, filhos, maridos, noras, vizinhos e políticos locais. Nessa ordem. Planejam o almoço com os produtos frescos que encontraram. Voltarão à tarde para escolher o jantar. À noite, depois de arrumadas as cozinhas e os maridos, sentarão à mesa que elas mesmas colocaram embaixo da árvore, na pracinha do bairro, e jogarão briscola com as outras amigas. Até às 11, 11 e meia, quando o calor desses dias é substituído por uma brisa fresca, que permite abrir as janelas e refrescar um pouco as casas antes de dormir.

Até sexta-feira a rotina não muda. Ou muda pouco, com alguma consulta médica ou um novo dentinho de um neto a ser comentado. Quem separou de quem, a briga de madrugada no bar, uma relação extra-conjugal do político da vez ou a mocinha que tenta fazer carreira do modo mais fácil são assuntos corriqueiros, mesmo que não passem de invenções só para ter assunto.

Sábado é il giorno di mercato (o dia da feira). Saem cedo para escolher peças de roupas selecionadas com a mesma atenção que merecem as frutas e verduras no supermercado. Saem cedo para não serem vistas pelas amigas. Voltarão mais tarde para comprar temperos, frutas, queijo, produtos biológicos e alguma peça para substituir no fogão quebrado. Nesse momento, fazem questão de parar para conversar com quem encontram, mesmo que isso atrase o almoço. Afinal, é sábado.

Domingo é dia de missa. Passaram a tarde de sábado preparando a massa que servirão no almoço das respectivas famílias. O dia correrá calmo mas rico de novidades, como o sermão do padre endereçado a algum pecador, ou a nova asneira de uma das noras. Elas se encontram na pracinha e caminham para a igreja, meia hora antes do padre. Dentro da igreja, deixam aos jovens todo o auxílio à preparação da cerimônia. Permanecem sentadas no primeiro banco, conversando em voz baixa até que a igreja fique lotada e o padre inicie a missa. Os cotovelos impedem que qualquer um lhes tire a honra de receber a comunhão antes dos demais fiéis. Saem às pressas, como se atrasadas. Sentam-se em uma das mesinhas do café na praça principal e tomam um café demorado. Às vezes um pedaço de crostatta di marmelatta. Voltam para casa – conversando sempre – e se despedem. O domingo com a família se prolongará até a hora de dormir e cada uma estará presa com os próprios netos, filhos, gatos, maridos, noras. Nessa ordem. Mas amanhã é segunda-feira e a vida recomeça.

7 comments:

evipensieri said...

Oi Allan.

Adorei seu post. Conforme ia lendo comecei a imaginar a cena na minha mente.

É assim mesmo. Pelo menos é como eu tenho guardado na minha lembrança ...

Bjs.
Elvira

Juju - ano IV said...

Allan

como vc escreve a gente vai viajando nas palavras e a cena enche os olhos, dá até pra sentir o cheiro do café e ver o sorrisinho da moça do supermecado.

lindo, adorei!

beijo
Ju

Georgia said...

Allan, adoro esses seus contos italianos. Muito bom.

A cena da sacola plástica, entao...muito boa.

Boa semana

Marco said...

Muito sutil Allan, é um conto? Ou seria uma olhar pela janela para espiar a vida? Gostei do cotidiano que se desenhou aqui pra mim. Mesmo sendo rotina, foi curioso. Belo cenário. Grande abraço

Lunna Montez'zinny said...

A-D-O-R-E-I...
Fiquei aqui vendo cada cena atentamente e sabe que lembrou-me a infância quando eu ficava observando os adultos e suas "confusões" corriqueiras. Sempre tive mania de espiá-los e aprender suas "confusões"...
Grata pelo presente, beijos e boa semana carissimo

Luma said...

:D Quase iguais as comadres portuguesas e acho, um dia todos nós seremos assim, metódicos e cheios de manias! Nada contra a rotina com felicidade!! Beijus

Juju - ano IV said...

gostei tanto do seu texto que quero pedir para publicar (com referência é obvio) num blog coletivo que participo, o Jiló com Miolo

http://jilocommiolo.blogspot.com

aguardo sua autorização

obrigada!
beijo
Ju