Monday, July 20, 2009

Lunik 9

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar

A águia pousou no Mar da Tranquilidade. Olhos grudados na imensa tv, sentindo o respiro de um dos irmãos ao meu lado. Como é que meus pais saem em um dia tão importante? Também nunca entendi por que ninguém na escola comentava, além dos professores. “Mister Ed, o cavalo que fala”, era mais interessante. Talvez por ser o último programa antes do “Repórter Esso”, com o David Nasser e da musiquinha dos Cobertores Parahyba informando a hora de ir dormir.

Momento histórico
Simples resultado
Do desenvolvimento da ciência viva
Afirmação do homem
Normal, gradativa
Sobre o universo natural
Sei lá que mais

Minha mãe sempre disse que eu vivo no mundo da Lua e eu sonhava aquele monte de lata disforme voando no escuro. É a única imagem que me fascinava fora desse mundo água. Eu, que sonhava ser marinheiro. Depois, ir à Lua virou banal, os engenheiros demitidos voltaram a projetar eletrodomésticos e outras coisas mais úteis. Ela acabou meio abandonada nesses últimos 40 anos. A magia durou apenas um momento.

Ah, sim!
Os místicos também
Profetizando em tudo o fim do mundo
E em tudo o início dos tempos do além
Em cada consciência
Em todos os confins
Da nova guerra ouvem-se os clarins

Quatro décadas depois, esse mundo é menos poético e tem menos seresteiros e namorados. Paradoxalmente, nunca necessitamos tanto de sonhadores, artistas e amantes. E de místicos – desde que pacíficos.

Guerra diferente das tradicionais
Guerra de astronautas nos espaços siderais
E tudo isso em meio às discussões
Muitos palpites, mil opiniões
Um fato só já existe
Que ninguém pode negar
7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já!

A contagem regressiva parece não terminar. Ninguém sabe ao certo quando o “zero” irá aparecer, nesse infinito cósmico entre o “um” e o “já”. Vai-se a Marte, agora. Quem sabe que outros eletrodomésticos irão surgir.

Lá se foi o homem
Conquistar os mundos
Lá se foi
Lá se foi buscando
A esperança que aqui já se foi
Nos jornais, manchetes, sensação
Reportagens, fotos, conclusão:
A lua foi alcançada afinal
Muito bem
Confesso que estou contente também

De que adianta conquistar para em seguida abandonar? Já não bastam as informações nos jornais, cabeleireiros e Internet? Que mistérios pretendemos desvendar?

A mim me resta disso tudo uma tristeza só
Talvez não tenha mais luar
Pra clarear minha canção
O que será do verso sem luar?
O que será do mar
Da flor, do violão?
Tenho pensado tanto, mas nem sei

A Lua continua lá, como se nos pertencesse. Como se fosse uma nossa reserva, pronta a ser usufruída quando houver necessidade. Esquecida, mas à nossa disposição. O que será do mar, da flor, do violão? Talvez fosse o caso de voltarmos a observá-la como namorados.

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar

Em 40 anos muita coisa acontece, se cresce, envelhece e a tv não é mais a mesma. Alguns eletrodomésticos se mostraram inúteis, o mar nem era mar e não era exatamente uma águia. Pouca gente sabe quem foi David Nasser e aprendi que cavalos não falam. Continuo no mundo da Lua e decidi que um dia comprarei um barco, que se chamará Apolo 11 e serei capitão.

8 comments:

Luma said...

Ainda somos donos da 'nossa' história, mesma que muitos achem que não. Melhor seguir acreditando. Feliz dia do amigo! Beijus

anamaria said...

allan, você é um poeta.

maray said...

Deu uma sensação estranha...o LP dessa música, se não me engano dos tropicalistas, Caetano, Gil, Gal, do maestro Julio Medaglia, está no forro da minha casa. Encaixotado com outros montes, esperando sei lá o que.
Meu pai colecionava bebidas. Não deixava ninguém beber. Quando ele morresse, dizia, as bebidas animariam o velório. Ele morreu e a maioria delas estava estragada.
Talvez quando eu morrer, o "Tropicalia" anime meu velório.
Ou não. :)
Abração

evipensieri said...

Pois é Allan.

Um dia vão pousar em Saturno ...

Bjs.
Elvira

Gi said...

Adorei o Texto... espero que logooooo realize seu sonho.....

Abraços!

Leila Silva said...

Comi tanta 'prugna' no sul da França estes ultimos dias...
Uma delicia.

Abraços

Aninha Pontes said...

Sonhar é importante, e ter memórias de coisas bonta e importantes em nossa vida, nos mantém vivos.
Ah! lembrar da musiquinha dos cobertores Parayba, nos faz sentir todos de uma mesma época.
Sem nostalgia, mas com alegria das lembranças.
Um abraço

Segunda impressão said...

Muito legal o texto! Interessante e reflexivo.
Abraço.