Friday, November 21, 2008

Eu sabia!

Logo que chegamos em Piacenza a prefeitura resolveu restaurar uma praça do centro. A previsão era de três meses para a conclusão da obra, mas os moradores demonstraram um mau humor muito maior. Diziam que ninguém sabia quanto tempo realmente seria necessário para a conclusão da obra. O projeto previa reformar a praça, com bancos e jardins, além da substituição do calçamento das ruas que a circundam.

O trânsito foi modificado e todas as informações sobre a nova viabilidade foram publicadas nos jornais e nas tvs locais. No dia informado, a praça foi fechada e chegaram os calceteiros. No décimo dia os trabalhos foram suspensos e só foram retomados dois anos e cinco meses depois. Tinham encontrado fragmentos arqueológicos durante as escavações. Na Itália é assim. Quem cavar o quintal de casa corre o risco de ver a propriedade transformada em sítio arqueológico e não poderá nem mesmo cobrar ingresso. Encontrar bombas ou fragmentos bélicos também não é uma novidade. E é por isso que toda obra deve ser antecipadamente comunicada, assim como a limpeza de córregos ou áreas rurais só pode acontecer com a supervisão da polícia.

Piacenza é conhecida como “La Primogenita” – a primeira filha – mas não por ter sido o primeiro acampamento militar ao norte, lá no ano de 218 a.C. E sim por ter sido a primeira cidade a aderir ao documento que deu origem à unificação da Itália. Também é conhecida como sendo a cidade das igrejas e quartéis. À época de Napoleão não devia haver quartéis suficientes e o grande general decidiu transformar algumas igrejas em quartéis, quando ocupou a cidade. Foi assim que o Mosteiro de Santo Agostinho, a uns 470 metros de casa, foi transformado em quartel. O mesmo quartel desativado em 1995 e que visitamos em setembro, durante as Jornadas Europeias do Patrimônio, quando aproveitei para observar desconfiado o imenso buraco que a prefeitura está escavando para construir um estacionamento subterrâneo.

Bom, o final era óbvio: encontraram uma bomba da segunda guerra, próximo à outra descoberta, uma olaria que teria servido para produzir os tijolos do mosteiro, no século XVI. Não uma bomba qualquer, mas uma imensa, capaz de mandar todo o bairro pelos ares.

Como é costume nesses casos, um perímetro de 500 metros será evacuado neste domingo, 23 de Novembro, quando a bomba será desarmada e retirada. Caso fosse uma área livre de construções, o perímetro seria de 3 quilômetros. Se tudo correr bem, devemos abandonar nossas casas das oito da manhã até a metade da tarde. Prefeitura, Polícia Militar, Polícia Municipal, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Exército estão mobilizados e um refúgio foi organizado no ginásio municipal, a 6 km do local. Se tudo der errado, o preço dos alugueis deverá aumentar muito, a mão-de-obra dos pedreiros será super valorizada e não sei quando terei a oportunidade de escrever outra carta. Melhor levar o computador no porta-malas.

Na imagem anexa indiquei com a palavra “aqui” escrita à mão a localização da nossa casa. No centro do círculo, um soldadinho verde e a bomba, que, espera-se, não explodirá. Por míseros 30/40 metros.





9 comments:

maray said...

Boa sorte! Pra quem como nós brasileiros, está acostumado com bala perdida, uma bomba a gente tira de letra...mas boa sorte mesmo! beijos

denise rangel said...

Ah, vai dar tudo certo. Eles entregam a rua arrumadinha de novo?
Prepare-se para novas crônicas que isto vai render, hehe.
abraço, garoto

Yvonne said...

Concordo com a Denise, essa história ainda vai dar muito samba.
Beijcoas

Georgia Aegerter said...

Oi, estou vindo aqui te avisar que os posts sobre a blogagem coletiva estao todos em um único blog para faciliatr que deseja lê-lo.

O seu também está lá.

Entao, dá uma passadinha por lá vê se está tudo bem prá você como tudo ficou por lá com o seu post.

Aqui o link do blog: http://blog-blogagem.blogspot.com/

Te desejo um ótimo final de semana.

Abracos do Dácio e da Georgia

celecelestino said...

Bom dia , e aí , detonou? La cittá é ancora in piedi? Abraços

Georgia said...

Allan, passando para saber se nao houve nenhuma explosao por ai no dia de ontem.

Abracos e por favor, dê noticias...

acqua said...

Um amigo de meus pais uma ocasião ficou revoltado com a casa dele por causa de algo que encontrou no quintal ao tentar fazer uma piscina. Mas não lembro direito da história. Mas na Itália é assim mesmo, como o costume era enterrar cidades inteiras, sempre é tempo de encontrar coisas que a "história" enterrou. Abraços meus carissimo

evipensieri said...

E aí Allan ?

Já se livraram da bomba ???

Bjs.
Elvira

Vivien Morgato : said...

Allan, que louco isso.
Eu estaria em pânico profundo..