Friday, November 14, 2008

Afeto à distância

Em meados de 2000 o governo italiano estudava investimentos em países do terceiro mundo com a finalidade de reduzir a imigração clandestina. Um amigo argentino à época: “Eles vão construir semáforos pra gente poder trabalhar como flanelinha por lá mesmo.” Polêmicas e conjecturas se alternaram com os políticos que entupiam tvs e jornais, como se todos não soubessem tratar-se de mais uma cortina de fumaça. No ano seguinte o mundo mudou, o medo de imigrantes aumentou e o assunto sumiu.

Parte da população europeia aproveita cada desculpa para reafirmar que estrangeiro bom é aquele que permanece no próprio país, recebendo bem os turistas em viagens de férias ou de turismo sexual. Outra parte dessa mesma população não vê barreiras para uma convivência pacífica e civilizada. E é esta gente que engrossa as estatísticas da benificência e que vê na adoção a resolução de muitos problemas, seja por escolha ou pela incapacidade de gerar filhos. Nesses casos, a adoção de crianças estrangeiras acaba prevalecendo sobre as outras possibilidades, como a “adoção temporária”, nos casos de pais impossibilitados de educarem ou cuidarem corretamente dos filhos.

Mas existe uma outra solução, em que crianças do terceiro mundo podem ser adotadas à distância. Para isso, basta ser maior e não precisa ser casado. O candidato se apresenta a uma das muitas entidades que promovem a adoção à distância – sempre ligadas a algum movimento religioso e muito controladas – e contribuir com uma pequena soma mensal. Do outtro lado do mundo, esse dinheiro servirá para comprar alimentação, roupas e remédios a alguma criança, que não poderá deixar a escola e cujo responsável deve andar na linha. Não é incomum que um dos pais seja um presidiário ou que os pais sejam separados, mas quem for o tutor da criança deve realmente seguir uma vida exemplar.

Cartas e fotos serão trocadas e cartões de boas festas chegarão sempre pontuais. Uma visita, pelo menos, será organizada para possibilitar um contato pessoal do pai adotivo com a criança na realidade em que ela vive.

Nunca ouviu falar de adoção à distância e está achando que é uma nova moda? Pesquise na net o termo “adoção à distância” em qualquer língua e espante-se com o resultado.

E, não, não é como construir os semáforos do meu amigo argentino. É uma forma de se ocupar de alguém que necessita de ajuda. Conheço pessoas que financiaram até a faculdade do filho “adotado”. Um desses filhos – hoje dentista – mudou-se para a Itália para cuidar dos pais adotivos, um casal de operários aposentados, sem filhos, velinhos e doentes. A irmã, também dentista graças a uma outra adoção, é quem está cuidando do consultório com a ajuda da futura cunhada.

Nesses anos de Itália descobri como é imenso o exército de voluntários sociais e benfeitores, e de quanto esse exército é importante para a comunidade e para milhares de anônimos mundo afora. Por outro lado, nos últimos anos notei que os semáforos de Piacenza foram substituídos por rotatórias.
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4 comments:

Georgia said...

Allan, que bom que você teve tempo de fazer essa pesquisa e nos enriquecer com o seu conteúdo.

Eu tb como vc descobri como é grande o trabalho social que a Alemanha faz.
Geralmente quando alguma catástrofe acontece, a Alemanha é a primeira a chegar. E também em muitos casos de adocao em se tratando de criancas. Aqui tem um sistema de "padrinho", onde vc apadrinha uma crianca à distância.

Gostei de saber que o adotante de uma dessas criancas na Itália tem que ter um exemplo de vida.

Obrigada pela participacao.

Bom fim de semana prá você

Yvonne said...

Allan, achei interessante essa adoção a distância. O que me preocupa é como o europeu já não está mais suportando imigrante. Depois de uma crise mundial, isso é meio caminho aberto para uma nova temporada de guerras. Vamos torcer para que não aconteça nada.
Beijocas

luzdeluma said...

Allan, já tinha ouvido sobre este 'apadrinhamento'. No Brasil existe algo semelhante, em que você pode se responsabilizar mensalmente com uma quantia para custear os estudos de uma criança, num projeto denominado "Cata-vento". São abrigos para crianças de 07 a 16 anos que são retiradas das ruas ou que estejam em risco social.
No Brasil, a denominação clássica de 'adoção a distancia' é recusada pelo governo brasileiro, que considera legítimas somente as adoções diretas, mesmo que as vezes, o sentido seja o mesmo.
Bom fim de semana! Beijus

Manoel Carlos said...

Por motivações diferentes, muitas pessoas participam de atividades filantrópicas e o fazem com seriedade e correção.
No Brasil, o que há é muita pilantropia, intensificada no atual governo. Costumo dizer que na Era Lula, ONG virou Organização Neo Governamental, escoadouro milhões de reais.