Sunday, October 12, 2008

O caso da mozzarella

“Mande notícias.”, “cadê você?”, “você anda tão sumido…”. Considerando os incontáveis e-mails que reclamavam o meu sumiço – nem tão incontáveis assim: foram três – resolvi contar desde o início.

Tudo começou na última semana de agosto. Fazia um calor terrível e o sol, que às oito da noite ainda brilhava la fora, só piorava a situação. Noite ideal para uma insalata caprese, com mozzarella di bufala campana DOP, tomate e folhas de manjericão. Sem truques; só fatiar tudo em rodelas, ajeitar no prato e comer. Um fio de azeite de oliva extra-virgem. Minhas três meninas preferiram sorvete e fiquei sozinho na cozinha. Retirei a mozzarella da geladeira para que atingisse a temperatura ambiente. Cortei os tomates, lavei o manjericão e abri o primeiro saquinho de mozzarella. Escorri o soro, fatiei, montei o prato e abri o outro saquinho para que o soro escorresse, deixando a segunda mozzarella em cima da pia. Degustei cada fatia vagarosamente. O calor derreteu a dúvida entre cerveja ou vinho: cerveja. Estupidamente gelada, como desaconselha qualquer bom entendedor de cerveja, como eu. Preparei o segundo prato e fui fatiar a… Cadê a outra mozzarella? Sumiu. A pia estava limpa e vazia, procurei pelo chão, esvaziei o armário em baixo da pia, a lata de lixo continha só os dois saquinhos vazios de mozzarella, vasculhei, procurei, investiguei e refiz cada passo três vezes. Nada. Minhas filhas me encontraram revirando a cozinha e perguntaram o que eu fazia. Contei tudo e recebi a ajuda de duas excelentes caçadoras de mozzarellas perdidas. Em vão. Nos dias seguintes vigiava as formigas, esperando que me levassem à entrada do buraco negro que – tenho certeza – existe em algum canto da minha cozinha. Todas as manhãs entrava e vasculhava com o olfato, de olhos fechados. Nada.

Nesse meio tempo o mundo não parou. A Alitalia faliu, apesar das promessas do governo de que isso não aconteceria. O mesmo governo que está oferecendo o que restou da companhia na bacia das almas. Perdi dias pensando nisso.

Um incêndio destruiu completamente o prédio da OBI, um hipermercado de bricolage. Em uma cidade onde muitas empresas estão a alguns euros da falência e algumas, alguns euros depois, a notícia de cinquenta funcionários que correm o risco de perder o emprego assusta a escaldada comunidade piacentina. Solidarizei-me com o movimento sindical que luta para manter os empregos.

Começou a temporada de caça, que vai até janeiro próximo. Nunca gostei ou tive passarinho em gaiola, peixes em aquário ou cães acorrentados. Entendo quem caça para comer por falta de opção; sou carnívoro mas não aprovo a caça esportiva. Além disso, os caçadores são as únicas pessoas autorizadas a entrar, sem pedir licença, nas terras e quintais de qualquer um. Colocar um placa que proíba a caça custa muita burocracia e leva anos. Fico horas, indignado, refletindo se não seria possível caçar os caçadores.

Aconteceu, em Piacenza, o primeiro Festival do Direito, com muitos temas delicados sendo debatidos: a Europa entre o direito e a política; mobbing; a ilusão da segurança; Seriam os juízes os patrões da vida?; a responsabilidade dos médicos e hospitais; saúde e segurança no ambiente de trabalho; procriação; a sociedade da vigilância, foram alguns dos assuntos que esquentaram o festival. Na realidade discutiu-se muito sobre votos aos imigrantes, regras claras para regular a imigração, direito da mulher, incluindo poder dar aos filhos o sobrenome da mãe, direito à manifestação política e religiosa dos grupos radicais e conflitos entre culturas e o direito. As faculdades de direito nunca tiveram tantas matrículas. Depois da lei promulgada para esvaziar as penitenciárias, que reduz a pena antes mesmo do primeiro dia de cadeia do réu, o direito nessa terra tira o sono de qualquer um. E esse qualquer um sou eu.

As Jornadas do Patrimônio, evento que acontece em setembro em toda a Europa, permitiu-nos conhecer este ano o antigo monastério de Santo Agostinho, construido em 1573. Ocupado por Napoleão, acabou virando um quartel, que funcionou até 1995, quando foi definitivamente desocupado e entregue aos pombos. Parte da imensa – e bota imensa nisso – estrutura abandonada está sendo reformada para abrigar o Arquivo de Estado de Piacenza. Uma parte do terreno será transformada em um estacionamento subterraneo, se as descobertas arqueológicas permitirem, mas ainda sobra muita coisa a ser restaurada. A maioria dos piacentinos jamais havia visitado as instalações e ficaram impressionados com a jovem guia Bianca, de apenas 16 anos, que cumpriu muito bem o seu papel, esclarecendo dúvidas e respondendo a todas as perguntas com segurança. Dias lambendo a cria.

Quando pensei que o ano recomeçaria de forma monótona, eis que a economia mundial vai à falência e me assusta mas não me deixa surpreso. E me pergunto: onde diabos foi parar a mozzarella? Depois de mais de um mês, decidi encerrar as buscas.
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13 comments:

Anonymous said...

Acho que você terá de chamar Sherlock Holmes pra resolver o caso da muzarella desaparecida...Carlos Medeiros...http://grandeonda.blogspot.com

maray said...

Duas questôes: aconteceu-me caso semelhante com um suculento bife de filé, na época em que eu comia carne. Da pia direto pra goela do meu cachorro, sem deixar pistas. Vc tem cachorro? Ou gato?
Segundo: hoje, que já passei um bocadinho dos cinquenta, tendo a jurar por todos os santos que conheço e desconheço que faço as coisas e depois me provam que eu não fiz. La vecchiaia é bruta!
Beijão

Claudio Costa said...

O fato de você não enxergar a mozzarella que está aí só pode ser algo da ordem do évenement. Teoria pura, mas sem teoria quem há-de? (Olavo Bilac teria dito assim).
A mozzarella sumida in-existe e in-existirá para sempre, pois o discurso do desaparecimento a presentifica. Só não vê quem não quer. Ou quem quer demais. Comeu as duas e sonha com mais uma! O bom de tudo isso é que despertou meu desejo, aqui do lado de cá do Atlântico. E lhe digo: - há aqui uma mozzarella, é servido?

evipensieri said...

Nossa que mistério !!!

Será que não foi um gato ?

Bjs.
Elvira

anamaria said...

isso me acontece constantemente. Fico tentando descobrir o paradeiro de objetos que juro ter visto em algum lugar. Prefiro acreditar eque são duendes nos pregndo peças. Abçs.

Yvonne said...

Rapaz, pensei que você tivesse sido abduzido por algum ET, rsrsrs. Que mistério teria sido esse do queijo? Sabe qual é a minha teoria? Acho que você bebeu cerveja demais, beliscou os ingredientes e depois se esqueceu, rsrsrs.
Beijocas

Georgia said...

Allan, gracas a Deus que a vida continuou mesmo que sua mozzarela sumiu, hahahahha.

Cadê a mozzarela que estava aqui? O gato comeu...

Lembra dessa brincadeira? hahahhaha


Posso contar com vc na blogagem?

Abracos

denise rangel said...

Xi, você comeu a mozzarella e esqueceu. Acontece, com a idade, hehe. O mundo dá suas voltas e a gente fica sem saber quem mexeu em nosso queijo. E a fatia que levam é cada vez maior.
abraço, garoto

daiza said...

A vida é mesmo estranha. outro dia apareceu uma mozzarella aberta na pia aqui de casa. Como meu marido é muito distraído pensei que fosse mais uma das suas e comi. Ele nega até hoje.
Mistério....

acqua said...

A vida e suas muitas peculiaridades. Aff. E a economia do mundo segue (para onde é que o problema).
Moço, espero contar com vc no Abre Aspas II, ok? Vamos "poetizar" a blogosfera...
Abraços meus

Dentro da Bota said...

Passando para um oissss.....

Leila Silva said...

Mas que coisa, fiquei curiosa...se descobrir volte para deixar notícias. Não tem cachorro em casa? O meu adora queijo...não, você teria pensado nisso.
abraço

gilberto said...

Allan , acho que suas filhas participaram da festa rsrsrs
Abraços
Gilberto Dias