Saturday, March 22, 2008

O Mercador de Água


- Giorgio! Há quanto tempo!

- Beppe, você na fila do supermercado? E comprando um pão, duas latas de cerveja e … o que é isso? Trezentos gramas de salame?

- Decidi que esse seria meu último jantar na cidade.

- Vai embora? O ricaço excêntrico da montanha, o playboy das mil festas, o dono da casa mais bonita da região, o magnata da água mineral…?!

- Vendi tudo. Faço minha última refeição sentado num banco da praça, apreciando as montanhas pela última vez, depois pego o carro, desço a montanha e vou dormir num hotel bem longe daqui. Hoje, 22 de Março, Dia Mundial da Água, caio fora e não volto nunca mais.

- …Até a engarrafadora?

- Uma nota preta. Depois da última ampliação a fábrica atingiu o pico máximo em pouco tempo. Nos últimos cinco anos trabalhamos no limite máximo da produção. Nunca se consumiu tanta água mineral. Só não contei aos novos proprietários que a principal geleira que fornece a água para as nossas fontes está reduzida à metade. Em cinco anos a geleira deixará de existir. Basta que a temperatura média aumente de mais 1 ºC.

- Mas você tem terras lá embaixo, com outras fontes jorrando.

- Aquela água não serve para nada. Algumas fontes já secaram, assim como os córregos que os agricultores desviaram para irrigar as plantações. O pouco que sobrou está contaminado por pesticidas e amianto.

- Amianto? Mas se nós o abolimos há anos?

- Pois é! Fizeram um buraco para enterrar o amianto, que se dissolveu com o tempo e contaminou tudo. Não tenho parentes, não me casei e não tenho filhos. Essas montanhas não têm as minhas raízes. Aliás, me sinto um barco. Volto ao mar.

- Você nasceu e cresceu aqui. Como pode “voltar” ao mar?

- Lembre-se de que meu avô era um marinheiro que se apaixonou pela camponesa. Por isso ele veio morar aqui. Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com essas montanhas, sempre preferi a água. Depois de ver todos os córregos canalizados ou desviados, o desrespeito pelas nascentes que nunca foram protegidas e hoje estão contaminadas por agrotóxicos, a terra explorada como se fosse um bem renovável e a paisagem mudar, perdi a vontade de viver aqui.

- Ei! Mas se foi a engarrafadora a começar tudo?!

- É verdade, temos boa parte da culpa. Quando meu avô comprou o primeiro pedaço de terra com as fontes, muita gente vinha se abastecer em troca de uns tostões. Quando ele montou a velha fábrica, juntou dinheiro e começou a comprar os terrenos com água, que na época custava como um prato de comida. Comprou quase todos, mas foram os avós dessa gente, os avós de vocês, que os venderam. E o que vocês fizeram? Derrubaram todos os bosques para plantar uvas ou para criar vacas e ovelhas. Foi a engarrafadora que transformou o vilarejo de camponeses em cidade. Quando a fábrica fechar, tudo isso aqui vai virar nada. Vocês que vivem aqui há gerações não terão coragem de abandonar a terra que sempre lhes pertenceu. Mas a montanha não será mais uma montanha, apenas um punhado de terra árida e contaminada. Não vou esperar esse dia chegar para ir embora.

- E para onde você vai?

- Comprei um navio dessalinizador de água e já consegui uma licença para aportá-lo no Kuwait. Vou vender água aos árabes, que tem petróleo e podem pagar.

- Mas dessalinizar água custa caro…

- Como o petróleo. Enquanto existir petróleo na região, terá água cara para quem puder pagar, do Paquistão a Israel.

- Sei não, mas acho que quando os árabes descobrirem que você é judeu, e os judeus descobrirem que você é um judeu que não respeita o sábado e come carne de porco, você vai se queimar com todo mundo.

- Eles vão ter pouco contato comigo. Depois, aquela é uma zona de eternos conflitos e ninguém vai se importar com quem lhes vende o que há de mais precioso em zonas de guerra: a água. Além disso, toda aquela população produz detritos (fezes e urina) em quantidade industrial e não possuem o tratamento adequado, contaminando ainda mais o solo já pobre e a pouca água na superfície ou subterrânea. A água vai valer cada vez mais caro na região. Eles vão me deixar em paz e vou viver como um nababo num navio que tem até piscina e boite.

- Sempre desperdiçando água.

- É verdade, nunca liguei para essa economia de formiga.

- Eu fecho a torneira quando escovo os dentes, uso apenas o necessário na irrigação e procuro economizar sempre. Renovo constantemente um estoque de alimentos secos, farinha, sal e açúcar para enfrentar um período de dificuldades, dessas que chegam sem avisar. É assim que age um verdadeiro homem da montanha, com prevenção e economizando cada tostão. Você sempre foi esquisito. Prefere beber cerveja que o vinho produzido aqui, além de perdulário. Você realmente não pertence a essa terra.

- Vocês são um bando de formigas. Um dia serão um bando de formigas secas numa terra árida. Mas vocês estarão em boa companhia, muitos rios importantes estão secando pelo uso excessivo de suas águas para a agricultura, represas, por poluição e pelo descuido das nascentes.

- Criamos uma associação para organizar o cultivo sustentável que prevê a recuperação dos córregos e nascentes…

- Tarde demais. Vocês plantaram sem respeitar nascentes e córregos e contaminaram tudo. Dez anos atrás pensei em montar uma segunda unidade e mandei analisar a água dos terrenos lá embaixo. Descobri que tudo estava irremediavelmente contaminado, por isso decidi ampliar a fábrica onde está.

- E se o petróleo acabar?

- Faço como fiz aqui: antes que acabe, vendo o navio para algum maluco e vou viver em Las Vegas.

- Mas Las Vegas é no deserto. Tem até racionamento de água.

- Las Vegas é um oásis no meio do deserto. Depois, o racionamento lá funciona só para quem é morador. Eu serei um permanente turista, mudando de hotel em hotel para mergulhar em todas as piscinas.

- Mas por que Las Vegas?

- Há anos entrei numa sociedade que construiu gigantescas cisternas subterrâneas naquela região. Quando a coisa apertar aquela água vai valer como ouro.

- Mas por que Las Vegas?

- Na primeira vez que estive em Las Vegas vi um out door que não saiu mais da minha cabeça. A publicidade era apenas uma imensa foto com uma garrafinha de cerveja e um copo pela metade, com aquelas gotas escorrendo geladas e uma frase curta: “Economize água”.
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18 comments:

Lulu on the Sky® said...

Se o homem não fizer nada, infelizmente não teremos água no futuro.
Tb já fiz minha contribuição no dia de hj.
Big Beijos e Feliz Páscoa!

Maria Augusta said...

Gostei do modo como você descreveu esta previsão do "apocalipse", infelizmente não é uma ficção. É isto mesmo que nos espera se não reagirmos imediatamente.
Abraço e Boa Páscoa.

Roseane, said...

Que imprtessionante...o pior é que isso pode acontecer mesmo. Nesse mundo cruel, ainda tem muita gente egoísta. Mas existem as blogagem coletiva que nos abrem os olhos e a boca.

jufacchin said...

Oi,
Acho que nunca comentei aqui no seu blog por pura falta de tempo,porem leio seus posts todos.
Gosto muito da maneira que vc narra a Italia e suas particularides. E a cada texto aumenta ainda mais a minha assiduidade ao blog. Parabens, com certeza tens uma lista de posts que merecem ser referenciados.
Auguri e bom domingo. Ciao

BethS said...

Infelizmente não haverá agua nem pra fazer cerveja...
Adorei esse post.
Estou na blogagem tambem.
Beijo

Lucia Freitas said...

Bale, Allan! Grande post, história ótima. Pena que a situação seja tão ruim para todo lado.
bj

Leonor Cordeiro said...

Você sabe segurar o leitor, parabéns por sua competência e criatividade.
Até quanto teremos oásis?
Grande abraço!
Leonor Cordeiro

Georgia said...

Allan, amei o seu jeito de escrever este post. Os diálogos bem tracados.

Pois é, o maridao já cavou um poco por aqui de 18 metros de profundidade. Espero que o poco nao seque e que eu possa vender água, hahahhahaha!!!

Boa Páscoa!!!

Georgia said...

Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:
O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?

Que acontecerá no proximo dia 18 de abril, dia nacional do livro.

O post convocatoria voce pode ler no blog da Georgia (http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca (www.meiroca.com).

Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentario no blog da Georgia ou da Meiroca, para que possamos te incluir.

Participe e divulgue em seu blog.

Georgia e Meire

Meire said...

Bom dia Allan!

Desculpe a mensagem colada, mas é por uma boa cauda.

Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:

O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?

Que acontecerá no próximo dia 18 de abril, dia Nacional do livro.

O post convocatoria você pode ler no blog da Georgia (
http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca ( www.meiroca.com).
Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentário no blog

Georgia saia-justa-georgia.blogspot.com ou da Meiroca www.meiroca.com, para que possamos te incluir.
Participe e divulgue em seu blog.

Meire e Georgia

Luma said...

Allan, não gostei da história!! (rs*)
O escritor é muito bom mas a história é catastrófica!!
Todas as vezes que tento passar algum conhecimento e alertar as pessoas, elas se enfadam e dizem que são histórias que contam a muitos anos e que nada aconteceu. Só que elas não sabem que a natureza trabalha silenciosamente, assim como um fígado e quando reclama é tarde!!
Boa semana!

daiza said...

Allan!!!! Eu entendi que não foi crítica rsrsrsrs de repente, escrevendo o post, pode ter parecido que me ofendi? Precisam inventar um computador que dê também a intonação. Aliás, eu QUERO que me corrijam!!
Nóis mistura tudo mermo!! hehehehehe
Beijos e boa semanaaaa!!!

daiza said...

iiihhhh.... eu disse Intonação.... é um caso sério.

Gourmandise said...

Belo texto! Me incomodou pq é real...
abs,
Nina.

marcelo said...

Alan, meu caro,

Como médico, não tenho absolutamente nada contra os produtos a base de soja. O nível de cálcio é menor, mas para quem não pode consumir o leite desnatado é uma boa opção.

Confesso que essa minha implicância é mais "literária" (com a devida escusa por usar assim, em vão, a palavra literária) do que qualquer outra coisa.

grande e fraterno abraço!

Rafael Reinehr said...

Allan, enquanto vivermos neste mundo "masculino" e individualista, as soluções não chegarão. Fritjof Capra já alertava, há mais de 30 anos para o problema da água e da masculinidade e competitividade excessiva do mundo moderno. O que se faz? Não sei, ainda estou tentando descobrir.

Ana Maria said...

Sujeito esperto esse Georgio. Pena que há muitos Georgios por aí. Belo texto, as always.

celecelestino said...

Ciao Allan , bello e triste post , io vengo dalla Valcamonica , prealpi lombarde , ancora per poco forse , ricca d´acqua , Boario ( fegato centenario ), il comune dove vivo ... La maggior parte di energia idroelettrica in Italia viene dalla valle , i fiumi son ridotti a rigagnoli , le dighe catturano l´ acqua in cima ai monti e la precipitano attraverso condotte forzate , le un tempo famose trote del fiume Oglio oggi son seminate ( manco fossero pomodori )...Comunque se avrai tempo e voglia fatti un giro un fine settimana , i parchi delle incisioni rupestri sono uno spettacolo imperdibile ,pure il lago d´iseo e il lago moro , va be , scusa la lungheezza ...Abraços