Sunday, November 19, 2006

Tempos Bicudos

Domingo de manhã saio para fumar. O outono frio me obriga a um casaco mais pesado que o desejado. Mudo o roteiro e passo por ruas que me atraem pouco, por mudar. A fumaça é a mesma. A neblina, também.

Às vezes sou distraído. Na maioria das vezes, quero dizer. esbarrei na minha mãe e pedi desculpas sem reconhecê-la. Por sorte ela também não me reconheceu. Mas às vezes sou o melhor observador do mundo.

Notei a senhora na praça. Caminhava decidida rumo aos containers de coleta de lixo diferenciada. Jogou um vidro de azeite no coletor de vidros e duas latas no outro. O saco vazio, jogou-o naquele dos plásticos. Não havia mais nada nas mãos, nem uma bolsa, mas continuava parada ali e percebi que me olhava enquanto eu controlava os dois lados da rua antes de atravessar. Fingi não perceber e continuei em sua direção. Uns setenta anos, um metro e sessenta, sapatos pretos sem salto, saia em xadrez escuro muito abaixo dos joelhos, um casaco de pele e um pequeno e delicado chapéu fazendo conjunto com o casaco. Pelo brilho das peles deduzi que tinham acabado de voltar da lavanderia. Cabelos grisalhos e curtos. Ao passar-lhe ao lado, notei que lia o jornal do dia anterior, provavelmente encontrado na pilha de jornais sobre o coletor de papel. Lia a seção fúnebre.

Fui em frente, neblina adentro.

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21 comments:

Tata said...

nossa! parece um daqueles contos de suspense.. maior climão enigmático! rs
eu tmb sou desligada.. sei como é isso.. já nem ligo mais.. beijos!

Alex said...

alias, estou hah tempos pra te perguntar, o que faz na italia?

João Áquila Lima dos Santos said...

será que alguém da família morreu?

Parabéns pelo texto

Yvonne said...

Pois é, o que teria acontecido com a senhora? Beijocas

Ana Maria said...

Não sabia que você fumava. Adoro caminhar, mas quando faz frio, eu viro a mais sedentária de todas as pessoas.

Sandra said...

Vou contar uma história... Meu pai tinha um amigo, que apelidei, carinhosamente, de "papa-defunto". Ele ligava em casa primeiro para ver se o Sr. Pontes estava vivo e, depois, contar quem tinha morrido da velha turma da Fepasa. Notei que fazia uns dois, três, meses que ele não ligava. Pedi para meu pai ligar. Adivinha?? Ele tinha morrido. E nem nos avisou!!!!

Vai que ela também estava procurando amigos....

Beijos

Paulo Nunes Jr said...

Hum pelo menos era de dia hein? hehe Aterrorizante essa situacao!!!

Anonymous said...

Já passei por situações parecidas... Andar sozinho pela madrugada.. Sò nunca encontrei uma velhinha lendo obituário... ;^)

Podia continuar, fazer disso um conto..

;^)

Dalva said...

Meu caro, pare de fumar. sou ex fumante. E sei o q vc pensou ao ler. rsss... Ah, o texto é interessante mas triste. Vc escreve contos? hoje estamos com 5C... bruhhh...

Marconi Leal said...

As imagens ficaram todas em minha cabeça. E, não sei se foi a neblina (Amarcord) ou se foi a situação, mas me lembrei de Fellini. Abração.

Juliano said...

Sou distraidíssimo também. Ir para o trabalho de carro e voltar a pé, por exemplo, ocorre frequentemente. Só me lembro após o susto de chegar em casa e ver a garagem vazia.

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Allan, muito estranha essa senhora. Talvez já não esteja gozando de boa saúde psicológica. Triste, isso.

Alline said...

Allan, a Lígia não só trabalha na Reserva como também é minha vizinha. Mora no apartamento de cima do meu. Gosto muito dela, é super gentil e delicada.
Saímos sempre juntas para as "baladas" tefeenses. Vou falar com ela de vc.
Beijinhos

Viva said...

Sempre que morria alguém conhecido meu pai dizia: "Tá morrendo gente que nunca morreu". Quando chegou a vez dele, foi impossível segurar a frase dentro da boca.


Eu não sou velhinha mas tenho o hábito de ler o obituário. Por quê? Não sei.

diego said...

O cigarro nem sempre tem o mesmo sabor. Depende, talvez seja uma conseqüência de se estar mal disposto.

Roberta de Felippe said...

Será que não era um fantasma? Hahahaha...

Anonymous said...

Ela está bem mais próxima da morte que da vida. É a dura realidade e ler obtuário se torna normal quando temos um passado que dele participam pessoas que também estão próximas da morte.
Obrigada pelo carinho!! Beijus

Claudio Costa said...

Pra quem se diz distraído, o personagem prestou atenção em coisas demais...hehehe
O clima da crônica é ótimo e a descrição, cinematográfica, ou pictórica: Enxerguei a cena. Perfeito!

Georgia said...

Vc nao sonhou tudo isso nao???
Me fez lembrar as novelas de rádio...
Está muito bem escrito.
Desculpa a invasao, mas nao resisti quando li q vc está na Itália, pois eu estou na Alemanha, bem pertinho, nao?
Visite o meu blog, vou gostar de te encontrar por lá.
http://saia-justa-georgia.blogspot.com/

Abracos Georgia Aegerter

Milton Ribeiro said...

Gosto de textos misteriosos como este, de caráter semelhante ao das fotografias.

Mas fico pensando em como tu e tua mãe souberam daquele encontro...

(Nada de pato por enquanto, OK? Espere um ano e meio, no mínimo!)

Grande abraço.

Manoel Carlos said...

Milton fez a pergunta que eu faria.
No Brasil, a preocupação em decifrar quem era a senhora, estaria ligada ao palpite no jogo do bicho. Mesmo porque, aqui seria impossível alguém com casaco de pele, saído da lavanderia, pegar jornal no lixo.

sacanitas said...

allan fellini :)

adorei as nuances, os detalhes...

beijos
:*
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