Wednesday, August 23, 2006

Pressa De Viver

Casou-se tarde. Quando nasceu o primeiro filho estava à beira dos quarenta, mas continuava com aquela ânsia de viver. Fazia tudo ao mesmo tempo e com pressa, o que deixava as pessoas à sua volta sempre em estado de alerta. Tinha o hábito de tomar chá diversas vezes ao dia e chegou a comprar um pequeno fogareiro que ficava sempre acesso aquecendo uma chaleira com água. Tomava chá, fumava, bebericava um copo de vinho e comia pão e queijo em , tudo ao mesmo tempo enquanto trabalhava na pequena loja de secos e molhados que abrira. Aos poucos, com o progresso do comércio, foi-se especializando até transformar seu negócio em uma loja de calçados. Depois, vieram as pequenas filiais, as viagens constantes, o distanciamento do contato com a clientela e uma vida cada vez mais sem horários. Mal acompanhara o nascimento do segundo filho.

Naquela época usava-se o trem para viajar na pequena e pobre Itália, mas nenhum passageiro reclamava dos seus cigarros. Era um sinal dos tempos. Ele abrira lojas nas cidades litorâneas, mas continuava morando no alto da Toscana. Sentia-se um homem do interior, com valores conservadores. Mesmo assim, construíra sua casa em um ponto de onde se avista o mar. Falava pouco e fumava como um desesperado num tempo em que os cigarros com filtro ainda não existiam.

Nos feriados religiosos fazia questão de estar em casa e reunia toda a família para comemorarem juntos. Foi num almoço de Natal que ele fez a mais assombrosa declaração. A esposa, os dois filhos e noras e os cinco netos não estavam acostumados a ouvi-lo discursando e, de fato, o discurso foi muito curto: “Sou muito orgulhoso de poder ter dado a vocês as oportunidades que eu não tive, de ver meu neto caçula começando a faculdade no mesmo ano em que o mais velho se diploma. se vive uma vez. O que somos hoje não irá se repetir e não teremos jamais a oportunidade de refazer o que deveríamos ter feito. Algumas opções são escolhas nossas; outras, não podemos decidir. Precisamos aceitar a vida como ela é e temos a obrigação de tentarmos ser felizes. Nossa família é composta por estas pessoas com quem dividimos esse almoço sagrado. Ter uma família numerosa é uma bênção. A partir de hoje ninguém mais deverá fingir que não sabe que o caçula desta família é homossexual, assim como ele não deverá mais ficar constrangido de sê-lo. Feliz Natal à nossa família!” Disse isso e se levantou, foi até onde estava sentado o neto petrificado, abraçou-o e disse-lhe: “você é parte importante desta família.” O resto do dia ele passou na imensa sala com vista para o mar, conversando com os filhos e netos, não se importando com o constrangimento dos outros. Tirou o filtro do cigarro dos novos tempos, tocou o peito com a ponta dos dedos e esclareceu que o filtro faz mal. Tomou chá, vinho e comeu fatias de gorgonzola enquanto as mulheres serviam bolos, tortas e panetone.

Com os anos, vieram os problemas. O coração dava sinais de cansaço, a respiração se tornava mais difícil e o envolvimento com os negócios o estressava cada vez mais. Depois da morte da mulher a vida quase o deixou de vez. Foi obrigado a se aposentar e acabou internado. Estava com noventa anos. Os médicos informaram que não havia mais nada a ser feito. A deficiência cardio-respiratória era fatal naquela idade e a melhor coisa era levá-lo para morrer em casa. Ele convocou filhos e netos para informar que queria ser transferido para um asilo, onde gente especializada se ocuparia dele e que preferia não causar transtornos à família. De nada adiantaram os protestos. Fez apenas uma exigência: queria um quarto com uma varanda com vista para o mar.

Todos os dias alguém o visita. Ele convenceu o pessoal do asilo a fazer vista grossa aos cigarros e ao vinho que lhe trazem. Afinal, estava mesmo para morrer. Que fosse ao menos com um pouco de dignidade e prazer. Verão ou inverno, todos os dias às cinco da tarde alguém o leva de cadeira de rodas para a varanda, onde ele recebe suas visitas, fuma seus cigarros com vinho, chá e fatias de gorgonzola. Fala cada vez menos, apenas umas poucas palavras roucas, mas sorri quando chega alguém da família que ele reconhece e trata sempre pelo nome. Dias atrás, um dos bisnetos levou-lhe as fotos do casamento e informou-lhe que o mais novo representante da família está para nascer. Ele sorriu e, com gestos lentos, pegou um cigarro, tirou o filtro, bateu com a ponta dos dedos no peito e balançou a cabeça, antes de acendê-lo. O bisneto concordou: “eu sei: o filtro faz mal, vô.” Ao que ele retrucou sorrindo: “bisavô. Eu sou teu bisavô.”

17 comments:

Sandra said...

Eis-me aqui, em pé, a aplaudir o texto lindo! CLAP! CLAP! CLAP!

Yvonne said...

Tal qual a Sandra, também estou aplaudindo de pé essa grande maravilha. Beijocas

Capedonte said...

Eu, ao contrário do que comentam acima, não aplaudo de pé, muito menos parabenizo você pelo texto. Digo que é mal escrito, que de nada me interessa a vida de um velho e que muito mal ele viveu!

Só esclareço que em momentos como esse me pergunto, por que eu não faço um texto assim de vez enquanto? Ah! Inveja...

:) agora sem brincadeiras, muito bom... coisas de serenidade... http://back.wordpress.com/2005/09/26/pai-filho/ veja então porque tenho os motivos para essa inveja... :D ... olha eu fazendo brincadeira dinovo...

Leila Silva said...

Eu também adorei, Allan. Fiquei comovida com a parte do discurso...
Abraços

Ana Maria said...

Allan, vc escreve muito bem. O texto flui sem tropeços.
Acredita que fiz um post hoje falando de queijo gorgonzola? Super coincidência.
Beijos

Manoel Carlos said...

Allan, é um conto muito bom, tocante, verdadeiro, digno de ir para o papel.
Quanto ao seu comentário, você é capaz de imaginar o anúncio da formação do Atlântico feito pelas "emissoras brasileiras do Radio Jornal do Comércio, Recife, Brasil, Pernambuco falando para o Mundo".

Alline said...

Allan, que texto mais lindo e emocionante.
Que tal levar pro papel com outros tantos maravilhosos que já fez e fazer um livro, hein?

Grande beijo

guilherme mattoso said...

cara, primeira vez que visito esse blog e que texto fantástico acabo de ler! mundo bacana mesmo! abs, queirós.

Flavio Prada said...

Voce escreve cada vez melhor porque sempre tem comida pontuando a ação. Parabéns.

Paulo Nunes Jr said...

Que lindo o texto! E quem disse que o patriarca vai morrer? haha E capaz dele enterrar muita gente ainda! haha

Milton said...

Puxa Allan, belo conto, bela história. Completando o que o Flavio disse: a comido e um tocante tom nostálgico que deste graças a sei lá que artes!

Grande abraço.

Milton said...

Errata: a "comida". Comido foi o Flavio.

Juliano said...

Daí fico a pensar o quanto deve ser ruim a quarta idade sem filhos, sem netos, sem bisnetos.

***

Meu pai anda merecendo um neto.

***

Abração.

Roberta de Felippe said...

Eu queria ser rica, ter uma editora e poder publicar textos geniais de pessoas como você.

Denise Arcoverde said...

Lindo, Allan! e eu nao lembro de ter lido ficcao antes por aqui. Voce e' um super escritor!

Yvonne said...

Allan, eu de novo. Eu tenho alguns textos na manga porque por muito tempo eu tive um grupo no Yahoo que trocava crônicas, contos, etc. Salvei tudo que eu escrevi. Beijocas

Manoel Carlos said...

Em busca de atualização, deixo o abraço agrestino.