Saturday, April 15, 2006

Carta da Itália

Caros e Caras,

Paz e saúde!

Escrevo essas mal traçadas linhas para atualizá-los e para desculpar-me. Nesses anos vivendo na Itália fui relapso nas minhas comunicações e desatencioso com os amigos. Esqueci de dizer que estamos bem, que gostamos de estar aqui e que nos adaptamos com facilidade. As meninas cresceram e tornaram-se lindas princesas. Um dia, serão as rainhas dos próprios castelos. Eu e a Eloá nos tornamos mais serenos, mais cúmplices – se é que isso é possível. O único atenuante que posso oferecer como defesa à minha escassa comunicação, é que esse foi o período necessário para absorver o impacto inicial. Nesse meio tempo fizemos muitas descobertas: aprendemos que o primeiro mundo tem muito do terceiro, e que em muitas coisas o nosso país nem chega a fazer feio como imaginávamos. Chegamos mesmo a fazer bonito em muitas ocasiões. Descobrimos, também, um país maravilhosamente rico de cultura, história, arquitetura e sabores. Piacenza, a cidade onde moramos foi fundada no ano 208 a.C., e era velha quando os primeiros europeus pisaram no solo brasilis. Ela é cheia de tradições e sabores, que temos nos empenhado em descobrir em exaustivas pesquisas eno-gastronômicas.

A origem latina que une os dois países nos faz semelhantes em muitas coisas, mas alguns costumes se perderam ou se modificaram na travessia do Atlântico. As diversas culturas que buscaram no nosso país o pedaço de paraíso a conquistar, somaram-se aos povos nativos e ajudaram a aprofundar algumas diferenças. De resto, é tudo gente, tudo sentimento. Aqui como . Com o tempo, as referências se perdem ou se misturam, e a sensação de eterno turista vai ficando cada vez mais forte.

Selecionando alguns detalhes do quotidiano, vamos fazendo nossas comparações, mas temos encontrado uma enorme dificuldade em identificar até que ponto somos diferentes. Os novos amigos têm colaborado na construção daquilo que um dia poderá ser a nossa saudade, assim como sentimos falta de tudo que deixamos para trás. (Aliás, começo a ter implicância com essa palavra: Todos os dias alguém me pergunta se não sinto saudadeassim, em português. Parece ser a única palavra que eles conhecem do nosso idioma.) O mundo em que vivíamos nem é mais o mesmo, vai mudando e absorvendo todas as novidades numa velocidade mensurável pelos cronômetros de Fórmula 1, o que nos impede de criar novas tradições.

O inverno é o período em que a vontade de voltar confunde as nossas emoções, apesar da insistência dos amigos em nos ensinar que o frio não paralisa o quotidiano. No verão as coisas são mais tranqüilas. Tem sempre uma piscina pública por perto, onde qualquer pagante pode freqüentar. Isso sem falar nas férias em praias lindas e cheias de gente, onde um mar de línguas se mistura. Se o calor aumenta muito, basta um passeio pelas montanhas, o que pode ser uma boa desculpa para conhecer a culinária específica de cada província. Aprendemos até que o mofo que envolve os salames locais é sinal de qualidade e saúde do produto. O que importa é o conteúdo. duas coisas não nos convencem: vinho tinto frisante e a falta da cortesia típica de garçons e balconistas brasileiros, que tanto encantam turistas estrangeiros.

O italiano é um povo bizarro. Desconfiado e curioso, mas pouco informado sobre o mundo que gira fora dos confins da península em forma de bota. A geografia deles restringe-se aos países da Europa ocidental e à América do Norte. Qualquer pedaço de terra não representado nos mapas dessas regiões será majestosamente ignorado. Apesar disso, esse é um povo que gosta de viajar, conhecer outras culturas e provar novas emoções. Desde que a passagem de volta esteja garantida. É verdade que muitos acabam escolhendo não voltar, quando vão ao Brasil, por exemplo. Mas esse é o sonho de todo italiano: viver em um país tropical, sem neve. Antagônicos, esses italianos, não? A neve é bem-vinda na settimana bianca, a semana de férias de inverno na montanha, para esquiar. Diferentemente dos esquimós, que possuem dezenas de palavras para o termo neve, neve, na Itália, significa esqui e frio; num jeito de simplificar tudo para facilitar a compreensão. O mesmo hábito faz com que todo brasileiro seja chamado de carioca.

Poderia, ainda, contar da diferença existente entre Norte e Sul, que num país pequeno como a Itália chega a impressionar. Mas para quem vive no Brasil e está acostumado às diferenças entre zona sul e zona norte, ou entre o Sul Maravilha e o Nordeste, não chega a ser uma novidade que mereça registro.

Aos poucos, eu e minhas meninas vamos reconhecendo que o mundo é uma imensa colcha de retalhos, unindo pessoas, bairros, cidades, regiões e países. Somos apenas um imenso conjunto de pequenas províncias, cada um buscando defender as próprias tradições, os próprios valores. Também nós, ao atravessarmos o Atlântico, vamos perdendo nossas referências, nosso provincianismo; absorvendo novos costumes, difundindo os nossos. Ao mesmo tempo, essa imensa colcha fragmenta as províncias existentes, adaptando-as, transformando-as em partículas cada vez menores, até que cada um se torne uma província única, interligando-nos às outras pessoas através de uma rede virtual, que sequer possui mal traçadas linhas.

Bom, a hora da pizza está chegando e eu não pretendo deixar esperando aquele meu amigo espirituoso (característica cultural muito difundida por aqui). O assunto do dia é futebol e não posso perder a oportunidade de tripudiar: ninguém sabe o que irá rolar no próximo encontro.

Ciao.

24 comments:

Lucia Malla said...

Que texto maravilhoso, Allan! Uma joia rara sobre culturas. Amei!

Alline said...

Adoro quando você manda estas cartas com as suas impressões da Itália. Dá para sentir tudinho...

Denise Arcoverde said...

Clap, clap, clap... que post lindíssimo, Allan!!!

I said...

Olá Allan! trata-se de uma visita-telâmpago.Mas ja vi que tenho tantas coisas para ler ! um beijo de Lisboa para Itália .Até breve

Flavio Prada said...

Bravo. Me lembrei que me esqueci de te servir o limoncello. Que vergonha.

Anonymous said...

Allan
você é 'una persona squisita!'
(gente nao estou dizendo, que Allan é estranho, nao!!!)
Tudo, que você escreve é fantastico!
(apesar de você ter um modo de escrever diferente, da Anai e Daiza, uma coisa vocês têm em comum, é que descrevem à Itália exatamente, como ela É, e como é viver aqui!
Gente acho que eu ficaria horas a fio conversando com vocês.
Olha, que moramos, até um pouquinho perto! Eu moro no Friuli Venezia Giulia. Quem sabe se um dia nao, nos encontraremos!
Ciao!
Marta

Sandra said...

Allan, querido.

Não o encarei como um desabafo, mas um relato muito claro, sincero e tocante da vida de um estrangeiro. Muito lindo.

Beijão.

Claudio Costa said...

Adoro quando leio estes posts "psico-sócio-afetivo-antropológicos". Foi um enorme presente de Páscoa. Ciao.

Viva said...

Que sensibilidade, Allan! Maravilhosa sua crônica.

° Roberta ° said...

O italiano é um povo bizarro, concordo. E você leva consigo a leveza e sensibilidade do brasileiro, onde quer que esteja. Essa é uma das qualidades que mais admiro em você, como cronista e como humano. Beijos!

marcelo said...

O engraçado é que após passar apenas um ano e meio aqui no Canadá, tenho as mesma sensações e impressões que descreves. Não, na verdade não é estranho.

Todos sentimos as mesmas coisas, vivemos as mesmas experiências, em maior ou menor grau.

Alguns conseguem descrever isso com maior beleza. És um deles.

abraço e Feliz Páscoa

Maria Cecilia Manna said...

Allan

Os que me antecederam, escreveram tudo sobre o seu texto. Vc demonstra de maneira clara, objetiva e poética , o que passa pela sua alma e seu cuore. Escrever mais o quê? Um grande abraço! Maria Ceciia Manna

valter ferraz said...

Allan, obrigado pela visita no Livros&Afins. O Cláudio é ótimo, não?Agora vai nos brindar às quintas-feiras. Gostei muito do teu espaço aqui. Vontade de conhecer a Itáliua.Agora mais ainda.
Um abraço

Srta. Oliva said...

Lindo post.
Me deu uma vontade enorme de conhecer a Itália...ainda maior do que a que eu já tinha.

Vc descreve td tão bem!!!!Maravilhosamente bem!!
Lindo!

Bjos.
Ciao!

Rafael Reinehr said...

E que diferenças queremos encontrar nestes seres ora humanos, ora superhumanos que somos? Que, ou sabemos viver na delícia do exílio em nós mesmos ou então quedamos frente à potência do mundo sensível? Somos todos iguais, mas uns mais iguais que os outros, já dizia o poeta H. Gessinger... Uns mais iguais que os outros...

Juliano said...

Allan, só engrossando o coro: perfeito.

Marli said...

Oi Allan!

Eu sou descendente de italianos. Temho muitos amigos virtuais na itália e adoro tudo o que diz respeito. Vou voltar aqui outro dia pra ler tudo com calma. BJ

Axel said...

Êta mundo, imensa província formada por tantas nações... E tem vezes que o quarto do filho, ali no lado, já é uma outra nação.

Diego Barretoivoski said...

Essa visão sua, de cá-lá, é interessantíssima. Mas agora cheia de de nostalgia, como não vira. É momento ou eu não reparara? Só acho que não nos tornaremos uma província só com nada. E isso seria ruim, pense, você não poderia escrever cartas da Itália como as faz, que sentido haveria?

Ana Maria said...

O texto é muito bacaninha. E já que falou em futebol, pra que time vc torce aí na Itália? Ou será que nenhuma equipe substitui o Mengão? :-)

Manoel Carlos said...

c'est du déjà vu? Senti-me em viagem numa dimensão espaço e tempo estranha e familiar.

Cris Bomfim said...

Tenho planos de ir para a Itália no próximo ano e este texto me deixou mais ansiosa. Estou estudando o idioma, que é lindo que só. Preciso buscar uma coisa aí, antes que eu perca a paz. E tenho tantas dúvidas. tantas perguntas.

Adorei o texto.

Anonymous said...

Brasileiros no Exterior
descobri esse link, um trabalho escolar sobre brasileiros no exterior. deixo aqui como utilidade publica:
http://brasileirosnoexterior-comunidades.blogspot.com

Anonymous said...

Otimo seu blog viu. legal
;]