Wednesday, March 29, 2006

Centenário

Caros e Caras,

Paz e saúde!

Descobri onde era o guichê da Varig e saí. Maurice havia parado o carro cheio de malas no início do terminal 1 do aeroporto de Malpensa, em Milão e aguardava conversando com a Eloá e as meninas. Acenei para chamar a sua atenção. A uns três metros, uma loura simpática e magra como um palito acenou de volta e me cumprimentou sorrindo. Eu ainda gesticulava quando o rapaz a alcançou e pude ouvi-lo perguntar quem era, enquanto entravam no aeroporto. “Sei ! – respondeu ela – Deve ser um .” Virei-me e reconheci a Michele Huntzinger (personagem da TV e ex-mulher do Eros Ramazotti) dentro de um jeans que deixava claro o que é que a baiana tem, mas a loura suíça, não.

Distraído e distante das coisas que acontecem do outro lado do oceano. Do escândalo que demitiu o Palocci, da atriz que morreu, da guerra dos supermercados, da ocupação militar da favela, dos novos sucessos musicais ou das primeiras rugas da Teresa Collor. Essa é uma desvantagem de quem vive fora do país: Ficar desinformado sobre o quotidiano de casa e não ter a endocultura do novo país. “Lembra daquela propaganda que passava quando a gente era pequeno?”, mas eu era pequeno em outro lugar. “Fulano de Tal, que fazia sucesso nos anos setenta, em Rimini…”, mas nos anos setenta eu morava no Rio. “Você não sabe qual a capital da região de Molise???”, não, mas eles também não sabem qual a capital do Tocantins. E la nave và…

Minhas filhas conversam sobre os imperadores romanos com a mesma desenvoltura que eu conversava sobre Getúlio no Catete. Conhecem as lutas travadas às margens do rio Po, mas não as do Araguaia. Reconhecem no rádio o grupo Negrita mas não têm a menor idéia quando ouvem o Quinteto Violado. Nunca ouviram falar de Piná, Amyr Klink ou Flávio Cavalcanti, mas conhecem todas as fofocas envolvendo a Raffaela Carrà, o Marco Pantani ou o Mike Bongiorno. E la nave và…

Às vezes sinto-me arrancado com raízes e tudo para ser replantado em um vaso ou num viveiro. Por maior que sejam os cuidados nunca será a minha terra e faltam joaninhas. Não tem garoto jogando bola perto nem descalço pelo chão. As coisas vão mudando em casa e eu vou mudando aqui, longe. Mais algum tempo e vou até lembrar da propaganda da infância de alguém ou do novo fulano que fará sucesso em Rimini em uma década qualquer. aprendi que a capital do Molise é… qual é mesmo a capital do Molise?

Mas, alguém, por gentileza, pode me informar quais grandes comemorações o governo brasileiro preparou, se patrocinou filme hollywoodiano e biografias várias, exposições e atividades em parceria com o governo francês, mostras, palestras e feriado nacional. Enfim, se o governo brasileiro organizou uma grande festa para comemorar os cem anos do vôo daquele aviãozinho em torno da Torre, ou se tudo se resumirá a um simples selo comemorativo. Por favor!

Ciao.

24 comments:

Milton said...

Este post, para mim, vai para a categoria das grandes obras dos blogs. Conseguiste ser saudoso, conciso, triste, inteligente, bem humorado, desalentado e muito, muito humano em poucas linhas.

Enorme abraço, meu amigo.

(Quando vou a lugares públicos, todos acenam ao grande Milton Ribeiro...)

Pat said...

Lindo post! Sei exatamente o que vc sente...morei em Roma por seis anos e tive as mesmas sensações. Parabéns!
Quanto ao governo brasileiro...que governo?
Bjos.

maray said...

Ô Allan, o governo brasileiro tem preparado uma festa sim, mas não é pra quem vc está pensando. É uma festa em que a gente só entra com a grana e os votos. A comilança é com eles.
E quanto às raizes, bom, tendo terra ou água, a gente vai criando novas, aqui e ali :)

Brasiliano said...

Oi Allan, as vezes fico de boca aberta ao ler seus posts e perceber que existe alguem que vive esses pequenos conflitos culturais e endoculturais de modo identico ao meu. Fiquei sabendo que pra comemorar vamos ter nosso primeiro astronauta no espaço, com a operaçao que se chama exatamente "Centenario", uma comemoraçaozinha que custou aos bolsos do governo U$ 10.000. E viva o social!!!

Brasiliano said...

retificando....os 10 dias que nosso astronauta brasileiro vai passar no espaço custaram U$ 10.000.000, sò nao sei se com ou sem IVA.

Isabela said...
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Paulo Nunes Jr said...

Allan, muito bacana seu post como sempre acertou em cheio! E' gente, imigrar nao é facil mesmo...e nao interessa o pais...esses conflitos sempre vao existir. E sentimos da mesma forma...as vezes voce sente falta de coisas que no Brasil nem lembrava que existia.

abracos, Paulo Jr.

Manoel Carlos said...

A mesma sensibilidade... Allan, não adianta voltar, você e os lugares mudaram.
Sobre nosso grande inventor, tentarei reproduzir um trabalho que Flora fez na escola, quando tinha 13 anos, e transformou em postagem.
Muitas pessoas, desde pequenas, são educadas com verdades absolutas. Deus existe e ama você. O dinheiro não traz felicidade. Comer chocolate dá espinha e quebrar espelho dá azar. Se você não se comportar, o lobo mau vai pegar você. E assim por diante.
Essas verdades nunca estiveram presentes em minha infância. A existência de deus sempre foi uma questão polêmica em minha casa. Eu não acreditava quando minha professora dizia que ia me dar nota ruim se eu não parasse de conversar, e, quando meu irmão me dizia que as minhas bonecas é que tinham comido o chocolate, eu ria dele.
Entretanto, tive sim, A Verdade Absoluta. Incontestável, acima de toda e qualquer verdade. A única certeza que eu tive, durante toda a minha vida.
Santos Dumont inventou o avião.
Simples. Santos Dumont era um brasileiro e ele inventou o avião. Voou ao redor da Torre Eiffel, triunfante e tinha um avião muito legal chamado "14-Bis".
E foi assim que eu aprendi. Meus pais me contaram que ele se suicidou, provavelmente por sua invenção ter sido usada na guerra. Esta não era tão verdade e incontestável quanto a primeira, mas, para mim, sempre fez sentido, embora "Santos Dumont inventou o avião" reinasse, absoluta, acima de qualquer outra certeza.
Meu mundo caiu, outro dia mesmo. Li que Santos Dumont não tinha reconhecimento internacional. Inventou o avião e ninguém nunca agradeceu. Deram o mérito aos tais irmãos Wright, que têm uma data sendo comemorada por aí.
Tá, eu sei. Os irmãos Wright voaram sim, mas eles não tinham autonomia e dirigibilidade, como Santos Dumont. Um avião não é um avião se você não puder decolar sem catapultas e não puder controlá-lo pelos céus sem se descabelar completamente.
Mas não sei. É demais achar que o Santos Dumont, um brasileiro, seria reconhecido por uma coisa dessas. Quer dizer, somos brasileiros. Estamos muito ocupados sambando em Buenos Aires (nossa querida capital, segundo alguns), quando não estamos jogando futebol. Segundo a CNN, como assim, um excêntrico brasileiro(sic) inventor do Avião?
Visitem este site ou este aqui se quiserem saber mais alguma coisa sobre A Verdade Absoluta.
Agora me dá licença que o sol aqui em Buenos Aires está lindo e eu preciso sambar e jogar futebol e não-inventar aviões, como boa braZileira que eu sou.
Adios, muchachos.

Viva said...

Allan, nunca morei fora do Rio. No entanto, pude sentir toda a angústia e saudade de um imigrante através da beleza e sensibilidade do seu texto. Parabéns!

Leila Silva said...

LINDO texto, Allan.
De uma sensibilidade!
Acho que sei exatamente do que você está falando, tenho a mesma experiência, só que eu não tenho filhos, não tive que educar ninguém fora da minha cultura. Acho que isso faz com que você reflita muito mais sobre a questão. Mas já observei muitos imigrantes ao meu redor, o pior é que muitos não analisam nada, vão tocando o barco, não aprendem de forma 'aceitável' a língua de escola dos filhos e não se informam sobre nada do novo país. Vai ficando uma coisa confusa a relação com os filhos, com a escola. Como vc vive em uma cidade relativamente pequena não deve ter contato com este tipo de imigrante brasileiro. Às vezes me dá pena dos filhos. Muito diferente do seu caso e de outros que conheço, gente mais educada (no sentido de mais conhecimento). Bom, é um assunto complexo o que vc abordou. Parabéns sinceros por essa crônica. Abraços

Ana Maria said...

Allan, nascer num país e passar grande parte da vida em outro tem dessas coisas. A pessoa pertence a duas culturas e ao mesmo tempo a nenhuma. Paciência. Somos o resultado das nossas escolhas.

O governo brasileiro está, no momento, pensando em reeleição, em como escapar das CPIs e se esconder de tanta vergonha. Se é que tem alguma.

Manoel Carlos said...

Quanto à sua pergunta: sim,ela tem o Bloggagens

Anonymous said...

O vôo do 14-bis em 1906 não foi em volta da Torre. Você fez confusão com outro feito de Santos-Dumont. O vôo do 14-bis foi curtinho e em baixíssima altura, mas nem por isso menos importante e histórico. Ao contrário dos catlapultados e "secretos" vôos anteriores dos irmãos americanos, foi muito bem documentado e testemunhado.

José Luiz C. Fernandes

Axel said...

Allan, aqui na terra estão jogando futebol, tem muito choro muito samba e rock'n'roll, nuns dias chovem e noutros dias bate sol, mas o que eu quero te dizer é que a coisa aqui tá preta...
E segue com todas as letras (há ainda alguma coisa de Chico por aí, alguém lembra dele?)

Lara said...

Oi, Allan
Conheci seu blog "xeretando" nos favoritos de um amigo, o Marmota. Desde então, visito sua págian com freqüência e sempre tenho boas surpresas...
Não imigrei (ainda), mas saí do interior de Minas Gerais para viver na capital paulista. O resultado? Sinto tanta falta das joaninhas quanto você...
Um abraço!

Sandra said...

Está no 8o. lugar dentre 18... Tá ruim a colocação, Allan??? ahahahahaha

Beijão.

Marilia Mota said...

Allan,
Lindo post. Com tadas camadas e ressonâncias em mim que fiquei muda. Já vim aqui e li várias vezes e continuo sem palavras.
A primavera e o calorzinho chegaram aí? Aqui, sim.

marcelo said...

E o que aconteceria se voltasses?

Alguém disse (não lembro quem nem quando) que, ao deixarmos nossa casa (cidade, país), mesmo que voltemos, estamos condenados a sentir saudades do local onde não estamos. Para sempre...

Será?

abraço

Daíza said...

Nem sei o que dizer. Já falaram tudo! Grande abraço

Claudio Costa said...

Com fina ironia e sensibilidade, você conseguiu colocar em palavras os sentimentos que... que... não temos palavras para expressar. Isso, pra mim, é poesia. Ou melhor, Poesia, com P maiúsculo.

Flavio Prada said...

Allan, vamos organizar uma pizza em Riva nos proximos dias em alusão a politica brasileira. Paralelamente podemos participar de um congresso aqui na cidade que durante tres dias vai estudar e tentar descobrir qual é a capital de Molise. Acho que Molise não tem capital, deve ser por isso. Mas nós, que temos duas culturas e portanto, nenhuma, vivemos também com estes sentimentos de riqueza e de pobreza concomitantes. Belo Poste!

Mineiras, Uai! said...

Allan, pra variar, sua escrita é poética...
Ato à comemoração sobre o homenzinho que media 1,54 e pesava 50 kg, e foi o 1º ser humano a voar, pelo menos o que eu vi se resumiu a um programa do "Terra de Minas", que passa na Globo 11:55h de sábado. Até que foi bem legal e detalhado, mas não sei se foi exclusividade da Globo Minas ou transmitiu p/ todo o país.
Aqui em BH hj, a recomendação q ouvimos todo o tempo no rádio é NÃO SAIAM NAS RUAS! Manifestações mil, em conjunto com encontro do BID... afff Vamos ver no que dá!
Beijo
Ana Letícia

Diego Barretoivoski said...

Fiquei tempo sem aparecer, pensei que tivesse acabado. Não acredito que seja tão claustrfóbico estar longe do Brasil. Às vezes, quem sabe.

Anonymous said...

Bellissimo !!!!!!!!
Isso é que é TALENTO!!!!!!!
Bem, que eu disse la no blog da Daiza, que aqui tem brasileiros(as) nota 10! Olha um aqui!
*mesmo nao conheçendo você!