Thursday, September 01, 2005

O Italiano

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Ele pára o carro no meio da rua como quem vai pedir uma informação. Pergunta ao primeiro estranho que passa se ele mora por ali. É óbvio que aquele rapaz de aparência humilde não mora no bairro, a não ser que se trate do caseiro de uma das casas. Diante da resposta negativa ele diz que o sujeito não mora porque não quer, pois poderia, se quisesse. O outro sorri meio sem graça e solta uma expressão de esperança. Algo como um “quem dera…” Mais cinco minutos e ele descobre se se tratava de um honesto trabalhador ou se o cidadão tem ficha na polícia. Mas ele já se divertiu o bastante: pergunta por uma rua inventada, ouve o outro dizer que não conhece, agradece e vai embora, sorrindo com a pequena traquinagem.

Muitos italianos foram morar no Brasil no período pós-guerra, em busca de oportunidades que a Europa em construção não podia oferecer. Há os que ouviram dizer da necessidade de mão-de-obra cara e partiram. Também sei de italianos que ganharam a viagem como prêmio pelo diploma obtido e deixaram os pais esperando o retorno até hoje. Poucos retornam. A sedução do Patropi e das bonitas teresas é algo que os fascina e contribui para o lento e alegre êxodo. Um grande amor também fez do Brasil a terra prometida para muitos italianos – e ainda faz. No caso dele, ninguém sabe ao certo qual fora o motivo. Nem mesmo ele se lembra mais, tantas foram as estórias. Nem importa. O que importa é que ele escolheu onde e como levar sua vida, coisa que muito poucos conseguem.

Ele descobriu que basta querer ser brasileiro para sê-lo. E o quis, mas com reservas. Casamentos, filhos e netos substituem a naturalização que ele prefere não ter. Impossibilitado de encontrar o bom vinho da sua terra a preços civilizados, aprendeu a beber uísque, que era o que os grã-finos – da época em que ele chegou – bebiam. Trocou a dieta mediterrânea, à base de massas, verduras e peixe por feijão, arroz, churrascos e todos os acarajés que conseguir comer. Não toma cerveja por preguiça de ir ao banheiro. É um italiano que gosta de acreditar-se brasileiro.

Certa vez, com um amigo e testemunha de algumas estripulias, bolava meios para sair da montanha russa em que se habituara a viver, num daqueles momentos em que o carrinho se encontra parado ao final de uma brusca descida: o frio na barriga só não é pior que a consciência da lentidão da subida, e da sensação fugaz de poder ver o mundo lá do alto por apenas alguns instantes. Mas os planos não chegavam a ocupar um espaço além das noites quentes regadas a uísque com gelo. Até descobrir que fora dos trilhos podia escolher o próprio caminho. Não, não é uma metáfora para dizer que ele escolheu uma vida à margem da lei. Isso ele nunca fez, apesar de viver no extremo limite. Apenas escolheu um meio mais seguro para subir devagar e sempre, sem o risco de uma queda.

Diante de um relato difícil, prefere não dar conselhos a estranhos. Ou o mesmo conselho a um amigo mais de uma vez. Dá de ombros e sentencia que todo mundo prefere quebrar a cara por conta própria. Quando se trata de dificuldade financeira, cita sempre um seu conhecido que compra algo caro, como um relógio novo ou um carro cada vez que sem encontra em dificuldades. Afirma que, sob pressão, é possível encontrar uma saída inusitada ou não percebida antes. O tal conhecido conseguiria resolver a situação antes do vencimento do pagamento do bem adquirido. Mas ele costuma dizer-se insatisfeito, e alega que se papai do céu acreditar que ele não necessita mais de ajuda, pode deixá-lo entregue à própria sorte para ir cuidar de alguém mais necessitado.

Sair com ele pode ser uma situação de risco: tem o hábito de pechinchar até por ninharias. O vexame é certo. Reclama não só do preço, mas também da margem do comerciante (que pode ser somente a baiana do acarajé), da qualidade duvidosa do produto, da falta de sensibilidade do balconista que dificulta a venda, e todos os argumentos que puder inventar para fazer o outro sentir-se culpado tentando explorar a pobre vítima que necessita daquela ferramenta, ou daquela dose de uísque. Mas tem, também, o hábito de pagar todas as contas antes que você lembre em que bolso colocou a carteira.

Às vezes discreto, noutras vezes o folclórico italiano. Gozador, não perde a oportunidade de fazer piada com qualquer situação. A cada dia, tem menos paciência para discutir pontos de vista diferentes dos seus – que podem mudar ao sabor do vento só para provocar – o que lhe dá um ar arrogante. Imperativo, costuma ser o centro das atenções onde quer que vá. Folclórico, gozador, impaciente, provocador, arrogante e imperativo: como não gostar de um cara assim?

Com o tempo, aprendeu que pode adaptar seu comportamento em função da ocasião. É capaz de agir como o típico baiano, que finge não conhecer um assunto que domina, evitando perder tempo com quem não quer. Assim como é capaz de dar uma aula sobre um assunto que não conhece, e convencer. Escolhe as poucas pessoas com quem dividir almoços, piadas e situações, instituindo um pacto de amizade e lealdade. Sem reservas. Talvez seja um duro golpe no ego dele, mas hoje, depois de uma história com tantas estórias, ele é mais um brasileiro que gosta de acreditar ainda ser italiano.

Ciao.

8 comments:

luma said...

"Cada um sabe a dor e a alegria de ser o que é".
Bravo!!!
Beijus,

Viva said...

Amigos, amigos; defeitos a parte.

Afonso said...

Parece comentário sobre alguém conhecido... abs

Flavio Prada said...

Allan, me parece que voce está generalizando. Nem todos os italianos tem esse comportamento. Somente os que estão vivos tem.

Sandra said...

Caro Allan

Acompanho, anônima, seus textos há muitos meses... Você e muitos outros... Até criar coragem de criar meu blog e "pôr a cara a tapa".

Obrigada, mesmo sem saber... E mande o Flávio, esse italiano falsificado, tomar muita caipirinha em plena Praia Grande num feriadão prolongado para ele aprender a "ser" brazuca!!!

Beijos...

Manoel Carlos said...

Há vezes que o colonizador torna-se colonizado.

I said...

Muito bom!Esse (proto)tipo que descreve, de repente, vi-o!

Anonymous said...

OHH! Dio mio ! opsss quero dizer
meu Deus !
Parabens Allan por tamanha sensibilidade e em tão caprichosa descrição . Espero que um dia voce descreva tambem o Brasileiro que agora, com a inversão de valores está indo pra fora do pais e lá na Italia bebe vinho e come peixe...
Será que vai virar um Italiano Brasileiro?
Um grande abraço
Walter