Friday, June 17, 2005

Vou Tomar Cachaça De Rolha

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Madrugada de sexta-feira na Itália. No Brasil, ainda é quinta. A geografia da casa foi ligeiramente modificada. Malas na sala, o cheiro de limpeza na despensa vazia e a ausência das plantas alertam os meus sentidos para a viagem desta noite. A falta de ansiedade reflete o nômade que há em mim. Minha única dúvida é sobre o que ler durante a viagem, pois não faltam opções. Amanhã, a esta hora, estaremos chegando ao Brasil. Todos nós, inclusive o cabrito e o rato. De pelúcia.

Planejei não planejar nada. Só férias. Vamos perambular pelo Embu, tomar chopp na praça e fazer uma devassa em alguma livraria. Se encontramos um sebo decente, encaixotamos tudo e trazemos para casa. Vamos conferir o caos de Sampa e procurar um pôr-do-sol na Rubem Berta. Vamos comer pastel na feira. Enquanto avós e tios mimam nossas princesas, vou simplesmente não fazer nada com a Eloá. Há muito tempo não faço nada e isso me faz perder um pouco do baiano que aprendi a ser. Planejei jogar conversa fora com a família, com os parentes e amigos, ensinar besteira aos sobrinhos e fazer cosquinhas na Isabella, mais nada.

Sou carioca mas conheço São Paulo como poucos. Isto é, conhecia: a cidade jamais parou de crescer. Dizia ser professor de motorista de táxi e ninguém duvidava. São Paulo cresce sempre. Assim como o Embu, que perdeu todo o charme dos anos setenta, apesar da insistência da minha família e dos amigos que lá fincaram raízes. E do cheiro de strudel da casa do Cláudio. Vou jogar sinuca com o Cláudio. Creio que o único lugar que não muda é Itaquira, lugarejo entre o Rio e Campos, onde meus avós moravam antes de voltar para Macaé. Se mudou, prefiro não saber. O único modo de se chegar a fazenda em Itaquira era de trem, que parava na estação duas vezes por dia, ou a cavalo. Lembro de uma vez, voltava de Carapebus a Itaquira de trem com minha tia Carmélia. Tinha uns cinco anos e compramos um saco de biscoito de polvilho, que em alguns lugares é conhecido como biscoito de cuspe. O vento espalhava farelo de biscoito pelo trem e eu perguntei-lhe o porquê daquele nome. Minha tia explicou que usava-se um enorme tacho com óleo fervente, alguém subia em uma escada e cuspia. O cuspe fritava e virava o tal biscoito. “Mas não se preocupe, não. O óleo quente mata todos os germes.”, disse ela. Fiquei anos sem comer biscoito de polvilho. Já adulto, viajava com meu pai e compramos um saco de biscoito. Ele contou-me que ficara anos sem comê-lo porque uma sua tia havia-lhe explicado como era feito. Itaquira é como o centro de qualquer cidade italiana: não muda nunca. Prefiro não saber. Quando estiver no Embu, vou comer biscoito de cuspe com meu pai.

Serão três semanas de pura vagabundagem, sem a obrigação de provar dezenas de queijos, presuntos, copas e salames todos os dias. Não vou ter nem tempo de escrever minhas cartas, pois pretendo passar boa parte dessas férias pescando num barranco ou de barco, no meio do Paranapanema, sem lap top, luz elétrica ou gerador. Aliás, pescando, não. Que eu e seu Zé dificilmente pegamos alguma coisa quando vamos pescar juntos. Só quando vamos sozinhos, como todo pescador mentiroso que se preze. A única exceção aconteceu na Itália, quando pescamos uma fieira enorme de trutas. Os minguados barbadinhos em dias e dias de pescaria no barco que ele construiu, não contam. O que conta mesmo é a companhia isubstituível do seu Zé, meu sogro e amigo. Portanto (e como não teria sentido escrever uma carta da Itália estando no Brasil), fiquem sossegados: vocês também terão três semanas de folga.

Infelizmente vai faltar tempo para visitar amigos e parentes em Salvador e outras praias. Porto Velho vai ficar para uma outra ocasião. Assim como o acarajé da Cira, de Itapoã. Vou ter que me contentar com os deliciosos quitutes da Laura, no Embu. Com intermináveis churrascadas e com muito pão de queijo feito na hora. E quando cansar dessa vida besta, vou ler. Preguiçosamente.

Não vou fazer barulho. Vou evitar poluir e procurar proporcionar alguns bons momentos a quem estiver por perto. Numa atitude de consciência social, vou consumir produtos genuinamente nacionais. Nem os peixes correrão perigo comigo. Querem mais? Pra quê? Estou de férias.

Ciao.

11 comments:

Manoel Carlos said...

Nestas ocasiões costumo dizer: vida boa não quer pressa... desfrute.
Sem planejar você já fez quase um roteiro, imagine se planejasse.
Boa viagem!

Lucia Malla said...

Boa viagem, Allan! Eu tbm estarei em devidas ferias no fim de junho, e nao vejo a hora delas chegarem. Enfim...
E tbm estarei levando todos os meus tubaroes. De pelucia. Os de verdade, verei in loco. :-)
Um grande beijo e aproveite bem o Brasil.

marcelo said...

Boa viagem.

Eh estranho pensar que o tempo nao para enquanto estamos longe de um lugar. As oisas mudam, mas - no fundo - sao sempre as mesmas...

Ferias, para mim, so em outubro, na ai de onde manda tuas cartas, e depois o Natal e Ano Novo no calor abafado de Porto Alegre.

Ve so, estamos em junho e ja acabou o ano...

abraco e ate a volta.

Leila Silva said...

Oh, xente, entao esta' de ferias? Acabei de te escrever...se soubesse, tinha esperado. Boas ferias pra voce e toda a familia. Abracao

Claudio Costa said...

Boas férias, como de direito.... pernas pro ar que ninguém é de ferro, dizia o Ascenso Ferreira. Então...

Flavio Prada said...

Boas ferias Allan. Esses biscoitos de polvilho são uma das minhas taras e meus filhos herdaram isso. Isso me faz falta, biscoito de polvilho.

Ana said...

ah! que delícia! mais delicioso ainda pe ficar a planejar as férias!
boas férias e muitos biscoitos de cuspe! :)

Roberta Febran said...

Allan, espero que aproveite bastante, que faça uma ótima viagem e volte com muita coisa bacana para nos contar. Ciao!!!

Viva said...

Uma ótima viagem, Allan, aproveite bastante!

Marmota said...

Sensacional! Divirta-se bastante, e abstraia qualquer coisa que possa te lembrar problemas!!!

D. Afonso XX, o Chato said...

Salames, copas e queijos, puxa, acho que isso não deve cansar muito. rsrs Boa viagem. abs