Thursday, March 17, 2005

Novos Ventos

Caros e Caras,
Paz e saúde!

…E de repente tudo mudou. É como se os gnomos estivessem brincando e, na confusão, alguém esbarrou no botão que desliga o inverno fazendo a primavera chegar antes do tempo.

Domingo passado a chuva e o vento gelado nos convenceram a protelar o último passeio sobre a neve. Na segunda-feira o sol e o calor de vinte graus derreteram nossos planos para este fim-de-semana. Os últimos cinco dias foram muito agradáveis mas causaram alguns transtornos: as últimas reservas nas estações de esqui foram canceladas; as pessoas preocupadas com a moda ainda não haviam comprado a roupa adequada à nova estação; frutas e legumes típicos do inverno começaram a apodrecer nos mercados e o prefeito, indeciso, controla continuamente as informações meteorológicas antes de decretar que os aquecedores sejam desligados.

Saindo para um charuto, parei em um café para fazer boca de pito. O sujeito que entrou em seguida olhava de modo tão insistente para a malha leve que eu usava sobre a camisa, que não consegui evitar de encará-lo. Constrangido, tirou o pesado casaco que usava, sorriu e disse:
- Depois de tantas coisas negativas que o inverno provoca, demoro a me convencer quando ele vai embora…

É somente quando o inverno acaba que conseguimos nos lembrar que ele não dura para sempre, que neve, lama e vento gelado participam das nossas vidas apenas por um curto período do ano. Como gatos escaldados somatizamos o medo de sair de casa sem um casaco de pena de ganso. Aliás, tenho muitas dúvidas de que todos esses casacos sejam realmente feitos com penas de ganso. Todos os anos são milhões de casacos expostos na vetrines com cartazes anunciando “vero piumino”. Haja foie gras!

Mas a debilidade dos ventos do Norte cede lugar ao do Sul, quente vento africano soprado pela linha do Equador, provocando outras transformações à velha Europa, ora aquecendo-a acima do imaginável, ora refrescando-a.

A eterna cortejada Rússia acaba de confirmar Putin como porta-voz da nova classe milionária dos Urais. A mesma turma de novos-ricos que começa a participar da alta sociedade centro-européia através de maciças aquisições de imóveis e times de futebol, com fortunas conseguidas através do petróleo russo, atraindo para si as luzes dos holofotes das festas providenciadas para torná-los acessíveis.

A Espanha cai de joelhos em memória aos acontecimentos de um ano atrás, arrastando todo o continente para uma reflexão coletiva lembrando os mortos das explosões de 11 de março de 2004. No momento da eleição, o primeiro-ministro Aznar pagou com o cargo a leviandade de tentar transformar a desgraça em plataforma eleitoral, acusando o ETA como responsável pelos ataques. Soou estranho a todos que apenas duas horas depois das explosões, sob o movimento dos que socorriam as vítimas, a polícia espanhola já houvesse individuado alguns dos envolvidos através de uma mochila que não teria explodido. O governo espanhol ainda tentou uma saída honrosa, alegando que os presumíveis terroristas da Al Qaeda teriam contado com o apoio logístico do ETA. Não colou.

Rei morto, rei posto. Silvio Berlusconi, sempre de olho nas eleições (qualquer eleição), convoca constantemente os chefes de governo dos principais países europeus a formar uma política comum contra o terrorismo. Para não ser deixado de lado, como ocorre cada vez que Inglaterra França e Alemanha se reúnem para decidir os destinos do continente, Berlusconi sugere que participem do vértice os sete maiores países, o que incluiria obrigatoriamente a Itália e a própria Espanha.

Se a nova Espanha surgida das urnas foi firme sobre a decisão de retirar seus soldados do Iraque, numa atitude responsável de quem reconhece o próprio erro e escolhe a convivência pacífica, como fez o Japão depois de Hiroshima e Nagasaki, a Itália continua indecisa, ora afirmando ser o principal aliado dos Estados Unidos, ora informando que planeja a retirada do Iraque. Usa tal argumento como moeda de troca, numa tentativa de manter o Sr. Berlusconi como principal interlocutor e centro das relações entre Estados Unidos e Europa.

Pois é! A estação que chega antes do tempo não derrete apenas a neve do dia anterior, mas muda radicalmente as previsões para o próximo inverno. Uma nova Europa está se formando, descobrindo os efeitos das próprias atitudes e que não poderá contar para sempre com a ajuda providencial da América, cada vez mais envolvida e interessada em dilemas caseiros, além de ocupada na conquista do mundo. A fatia do bolo europeu torna-se cada vez menor para tanta fome. Melhor garantir mercados em outras bandas.

…Mas o problema que mais aflige neste início repentino de primavera é: que frutas e legumes consumiremos, se os horticultores não foram avisados da mudança do clima?

Ciao.

11 comments:

luma said...

Ontem estava revendo o filme "O indomado", velhinho de 1963 e o personagem do avó diz: "Conforme vamos envelhecendo as artérias vão endurecendo". Interpretação dúbia. Sabedoria adquirida pela idade ou por impossição da natureza? Aprender a respeitar a natureza, ela manda e desmanda. Veja aí o inverno que vai mais cedo e aqui esse verão que não acaba. Você dando adeus ao inverno e eu querendo que ele chegue logo.
Beijocas, Luma

Mônica said...

Allan, eu adoraria que no Brasil o calor tivesse 20 graus. Aliás, adoraria viver em um lugar (será que existe?) em que a temperatura fosse de amena para ligeiramente baixa. Mas tudo bem, São Pedro que faça como acha melhor. :)

Manoel Carlos said...

Durante a última semana, no Rio, parecemos picolés: expostos ao sol, derretemos.
Contudo, nossas convicções democráticas não se derretem, nem apodrecem junto com os atuais mandatários da Cidade, do Estado e do País, os quais proporcionam o lamentável espetáculo de abandono da rede de saúde e, num jogo de empurra, isentam-se das próprias responsabilidades, apostam na incompetência uns dos outros e, num descaso desumano, apostam no caos, para se denunciarem mutuamente.
Mudam as temperaturas, mudam as moscas, mas os excrementos continuam os mesmos.

Reginaldo Siqueira said...

Eis que de repente o inverno chega ao fim. Igual ao inverno de nossas vidas, que muitas vazes acreditamos que não vai acabar mas sempre tem seu fim. E lá na frente mais. Acho que esse foi meu momento Paulo Coelho. :)

luma said...

Ah! Reginaldo...espero que o inverno da minha vida nunca chegue...rs.
Allan, bom fim de semana! Beijus, Luma

Biajoni said...

eu lembro sempre de um filme, um dos meus preferidos, principalmente para DOMINGOS, quando leio seus textos, allan: APRILE, do nanni moreti. vc conhece? se não conhece, gostaria muito que assistisse e disesseo que achou. eu AMO aprile!

Anonymous said...

Estou pensando em morar no mato e plantar!
Angela

Milton said...

Por aqui, apertaram outro botão. Finalmente começou a chover e a temperatura ficou amena. Parece que a canícula acabou. Que bom.

Às vezes, penso que goataria que um russo bilhonário assumisse meu Internacional...

Grande abraço.

Claudio Costa said...

Sempre é bom voltar aqui. Em cada post você consegue associar acontecimentos diversos e nos dá um painel da vida. O inverno se vai, novos tempos virão. Mudam-se os ventos e, com eles, espera-se que o mundo se transforme. E cada um de nós vamos contando primaveras... até que o inverno chegue. Haja aquecedor.

golb said...

Eu que (lamentavelmente) sou muito branco, concordo com a Mônica. Uma semana de calor intenso (trinta e poucos graus, coincidindo com minhas férias) e o restante a vinte estaria de bom tamanho.

Tex Murphy said...

Eu morro de vontade de ver neve... mas deve ser horrível conviver muito tempo com ela.. hehe

Abraço!