Monday, October 04, 2004

Adaptações

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Minhas filhas começaram a aprender a ler muito novas, a partir de três meses de idade. Através do livro “Como Ensinar Seu Bebê A Ler”, do doutor Glenn Doman (livro terminantemente desaconselhável às grávidas!), descobri que ler é uma função mais fácil que aprender a falar, pois exercita a mesma capacidade de interpretar símbolos, sem a necessidade de articular vocábulos. É o próprio Glenn Doman a informar a idade ideal para iniciar as lições. Não se trata de literatura. Portanto, espere uma primeira parte excessivamente explicativa, que serve para informar ao leitor o processo que levou o Dr. Doman e sua equipe às conclusões sobre a capacidade de ler de recém-nascidos.

O mesmo livro, aqui na Itália, possui apenas metade do material da versão original e indica que a leitura deva ser iniciada aos três anos. Foi completamente modificado para que não restasse nenhuma dúvida sobre o momento correto para ensinar a criança a ler. Duvido que alguém da equipe do Dr. Doman tenha autorizado tal mutilação.

Os americanos compram o pé-de-moleque brasileiro, que, para ser consumido na terra do Tio Sam, deve ser ligeiramente salgado. Em troca nos mandaram o Mac Donald, adaptando os sanduíches ao paladar brasileiro (e parece que agradaram!). Para serem degustados pelos italianos, os famosos hambúrguers foram divididos em duas finas camadas, o que lhes permite atingir o ponto bem-passado do hábito local. Sal, nem pensar! Os diversos molhos que normalmente acompanham cada um dos sanduíches sofreram grandes adaptações, com pouquíssima cebola, nenhum alho e pouco condimento. Bem ao gosto do freguês. Como os salários da rede de fast food é o mais baixo da península, os balconistas costumam ser adolescentes na primeira experiência profissional, geralmente gordinhos e gordinhas que tiveram dificuldades em encontrar emprego em outras empresas. Parece um verdadeiro exército de consumidores de katchup com sanduíche, katchup com batata frita e katchup com katchup. Chega a ser cômico a anti-propaganda involuntária dos funcionários.

Nomes estrangeiros são um caso à parte. Para evitar a contaminação da raça e da cultura, Mussolini proibiu os nomes em outras línguas. O hábito permanece até hoje. A família real inglesa é composta pela Rainha Elisabetta, Príncipe Filippo e Príncipe Carlo, o mesmo nome daquele outro estrangeiro famoso, Carlo Marx. Nosso Oscar Mão-santa, do basquete, foi rebatizado como Óscar. E não adianta discutir.

Recentemente li um artigo que jogava areia na pizza italiana. Ela teria sido inventada na Grécia, e não em Nápoles, na Itália. Não tive interesse em aprofundar-me no assunto e jamais comentei a matéria. Até fiz questão de esquecer o nome do historiador que fazia tal afirmação. Seria uma provocação grande demais para um povo que acredita na origem siciliana da laranja, e não no Oriente, como todos os cítricos. É verdade, os italianos são muito bons em adaptar hábitos alimentares de outros povos. Deu certo com as massas e com o tomate. O vinho também não fica atrás, mas começo a perder a isenção para julgar assuntos gastronômicos nessa terra. Conto com a vossa compreensão, mas acho que no caso da pizza eles não suportariam.

A cerca de uns dois anos, o escritor Georges Bourdoukan, atendendo a uma minha solicitação, enviou-me, gentilmente, cópia da matéria intitulada “O Divino Plágio”, publicada pela revista Caros Amigos. Começava assim:

“A Divina Comédia de Dante Alighieri, quem diria, é um plágio. Foram necessários quase seiscentos anos para que isso fosse descoberto e a revelação viesse a público. Talvez este tenha sido o mais longo e fascinante plágio de que se tem notícia. O autor da façanha foi um dos maiores eruditos europeus do fim do século passado e inícios deste, o professor e arabista espanhol Miguel Asin Palácios, cuja obra La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia, publicada 1919, despertou enorme inquietação e uma viva polêmica.
E muita indignação dos italianos que tudo fizeram para que ela não fosse editada na Itália.”

Todas as referências em italiano que encontrei sobra a obra, sugerem que ela, na realidade, promove uma comparação entre hábitos muçulmanos e a obra maior da língua italiana.

Músicas estrangeiras que ganham versões antes mesmo que aquelas originais sejam tocadas nas rádios, pratos de outras culturas que se transformam em características regionais locais, obras modificadas para atender às exigências de uma censura prévia coletiva. Tudo isso poderia significar uma tentativa de tapar o sol com a peneira ou de puxar a brasa para a própria sardinha, mas pode, também, significar uma enorme capacidade de adaptar-se e de adaptar tudo ao próprio estilo, num exercício cármico de manter viva e unida uma sociedade que um dia impôs sua vontade ao mundo, na esperança de voltar a fazê-lo.

E vocês, o que acham? Eu confesso não ter opinião formada sobre esse argumento e não sei se isso possa ter alguma importância. Na dúvida, relaxo e gozo.

Ciao.

19 comments:

Leila Silva said...

A Divina Comédia...um plágio? Dios mio!
Caro Allan, como vai? Eu ando com muitos problemas técnicos aqui no Brasil, custo a alimentar o meu blog e deixar esses recados...mas o seu blog está melhor que nunca. Por favor, quando deixar recados lá no `cadernos da Bélgica´deixe também o link para o seu blog, ok? Abração
Leila

Anonymous said...

Allan..
Morando ha quase 5 anos no Centro Italia, eu entendo muito bem este teu Post..
mas devo ficar caladinha..sou casada com italiano,
deu pra entender nè..
Em certo assunto è "meglio stare zita".
Um abraço
Meire

Claudio Costa said...
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Claudio Costa said...
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Claudio Costa said...

Os temas abordados são interessantes, mas comentarei a questão do "plágio dantesco" e da "antropofagia italiana". As grandes obras da humanidade (principalmente as artísticas), embora produzidas por um único autor, têm certas características universais (ou transculturais), que revelam a contribuição do conhecimento compartilhado pelos contemporâneos. Porque? Exatamente porque é impossível ao indivíduo isolado inventar "ab nihile". Parece-me que Domenico de Masi, em sua obra "Criatividade" afirma isso, mas como não estou com tempo para localizar a citação, fico com o "parece". O próprio Freud, conquanto mereça todos os lauréis pela "invenção da Psicanálise", bebeu em muitas fontes, copiou alguns e, por incrível que pareça, pinçou a palavra "inconsciente" de uma mulher escritora (cujo nome se perdeu, para mim, há alguns anos).
Se houve plágio no argumento, a escrita é bem própria do Alighieri, não há dúvida.
Quanto à "antropofagia" ou capacidade de assimilação dos intalianos, creio que isto é uma grande qualidade e é o que garante a permanência da cultura "regional". Todo sistema muito fechado tende à entropia e a desaparecer... E por aí vai. Nossa! quase que faço um post aqui em seu pedaço... boa provocação, a sua.

Anonymous said...

Allan,
Melhor ser copiado que copiar. O plágio, às vezes, pode acontecer de modo inconsciente, o que não é o caso do Dante. O livro citado pelo Bourdoukan é inascessível para quem não possui um razoável conhecimento da religião muçulmana e dos escritores árabes de antes do Divina Comédia. Fico muito surpreso a cada visita no teu blog, você passeia pelos argumentos, provocando-nos a rever nossos conceitos e conhecimentos, de um modo sutil, como um bisturi que aos poucos talha profundo. Gostei.
Lenine.

Karenin said...

Caro "Allano",
Se vale de consolo, os franceses também têm de suas "esquisitices". pois computador, que é uma palavra de origem inglesa (computer) na França virou ordenador (ordinataire). Já tentou dizer para italiano que a melhor pizza do mundo se encontra em São Paulo??? hehehehe, eu já, sempre falo em tom de brincadeira, mas digo. Vale lembrar, esse "over" protecionismo à língua talvez esteja fundado no fato de que a Itália é o único país do mundo em que se fala italiano. Até mesmo o holandês é falado em vários países. E voilá, gostei do post hoje! beijoca,

Rafael Galvão said...

A antropofagia italiana atingiu um limite ruim, IMHO. Não cria muita coisa, ao que parece.

Quanto ao computador, se não me engano a origem é francesa, mas como os ingleses se apropriaram da palavra, os franceses apelaram para o ordinateur. Povo engraçado, aquele.

Anonymous said...

Allan

Acabei de chegar do Barra Shopping, fui comprar o livro do Dr. Glenn. Valeu a indicação.

Beijos
Bel

cadê o ralo said...

Oi Allan!
Roubei o post 'o rosa choca' e publiquei la' no Sem ralo (Sem ralo). Grazie!
Um abraçao

Anonymous said...

Preservar a cultura é interessante... mas sem radicalismos, com certeza!

Anonymous said...

Preservar a cultura é interessante... mas sem radicalismos, com certeza!

Ninha - http://www.doislados.blogger.com.br

Anonymous said...

Assimilar a adaptar cultura é uma coisa que nós brasileiros conhecemos bem. Porém o que velo muitas vezes nos italianos é uma tedência a manipular a realidade: dificultar a edição de um livro que atingiria a veracidade de um clássico nacional ou perpetrar versões de obras antes que os originais cheguem à terra. Haveria aí uma herança facista de formar uma realidade ideal, mesmo que para isto seja necessário não reconhecer uma universalidade em uma obra ou pensamento? Terminariam criando uma frágil identidade nacional. Abraços.
Reginaldo Siqueira www.mblog.com/singrando

Milton said...

Já tinha lido este post ontem e não sabia o que comentar. Nos países hispano-americanos a situação não é tão diferente e sempre encarei isto como uma inútil defesa cultural. Mas não sei o que pensar. Sei só de uma coisa: teu comentário sobre a Ópera de Piacenza fez-me rir muito e deixou-me com vontade de te mandar... - assim cordialmente, como amigo diz para amigo - ...preciso completar? Grande abraço.

Rafael Reinehr said...

Hummm... Aprendi a ler com 3 anos. Com 3 anos e 1/2 lia listas telefônicas, placas de carro e classificados de jornal. É claro, nestes últimos anos evolui para leitura de Tio Patinhas e Almanaque Disney e recentemente tive algumas recaídas, afundando em Dostoiéwski e Nietsche. Plágios que antecedem originais, areia na pizza... Êta pôust "eclético"...

Anonymous said...

Cê tá ficando bom nisso, hein? :)
Abração,
Diogo

Milton said...

Destestaria qualquer mal entendido, entre nós, meu amigo. Entendi tua provocação e não fiquei nem um pouco irritado, imagine! Grande abraço.

Isabella said...

Allan, li que suas filhas começaram a ler ainda bebês.
Também tenho um exemplar do livro mas tenho encontrado dificuldades, na verdade acho que não estou acreditando que funcione e porisso tenho relaxado na minha autodisciplina. Poderia comentar algo sobre o assunto - como você fazia, se seguiu o livro ao pé da letra ou se adaptou; quanto tempo levou para perceber que elas estavam lendo?
Grata, Isabella

Anonymous said...

Talvez, senhor Allan , você desconheça aquilo que Backitin tenha chamado de dialogismo. O mais importante não seria a roupagem dada por Dante à sua magnífica obra ? Creio que a palavra plágio não está bem empregada, cuidado com as palvras elas são muitas e você, um só !
O mundo está cheio de está cheio de uma heresia crítica te quinta categoria.

Valteir Vaz
santo André sp