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quinta-feira, setembro 02, 2021

Agosto acabou

          


   

        Agosto acabou.

Durante trinta e um dias, agosto está em nossas vidas. No resto do ano, longe de séculos, léguas e lembranças. A vida recomeça com o fim de agosto, com os temporais e granizo. Tudo é muito forte em agosto. Até a saudade. Agosto é longo, mas sempre acaba. Restam fotos de viagens, sabores, segredos, novos perfumes e caminhos descobertos. Férias, trânsito, frasco de protetor solar pela metade, passe livre de vacinação, caminhar na areia, conselhos ignorados, peixe devorado à beira mar, água, vinho, cerveja, sonhos. Projetos.

A Europa toda se organiza para as férias de agosto. Quem escolhe o mar, quem a montanha, quem os lagos, quem se esconde. Até quem decide ficar em casa precisa verificar o que vai estar fechado durante as férias e se abastecer com antecedência. Sempre é preciso se organizar. Escolher destino, reservar hotel, restaurantes, passeios, lugar na praia (tem muita praia que só tem acesso a pagamento. Se não reservar antes, vai ficar de fora), planejar orçamento, verificar restrições sanitárias, revisar o carro, comprar passagens, decidir horário da viagem, enfim, toda uma vida à parte. E quanto mais caro o lugar (destino, hotel, restaurante), maior deve ser a antecedência da reserva. Cansados de enfrentar situações desconfortáveis, muitos optam por julho ou setembro, quando o turismo menor leva, de carona, os preços para baixo. Pernilongos, não. Pernilongos estão sempre em alta no verão europeu. Menos nesse ano. Num único dia de qualquer dos verões passados, levei mais picadas de mosquitos que em todo o verão de 2021. E um – só um mesmo – inseto foi a vítima do para-brisa nas nossas muitas andanças de agosto. Não é reclamação, é susto mesmo.

         Agosto acabou e já é setembro.

sábado, agosto 10, 2019

Pior que meio-dia


Foi a Kamani, quando ainda morávamos em Lauro de Freitas, cidade colada a Salvador, a me ensinar a caminhar sob o Sol. A rua onde morávamos era de chácaras, sítios e casas com grandes terrenos, num bairro chamado Granjas Reunidas Ipitanga. Não tinha calçamento, eram ruas de terra. Quando a levava para passear – sim, ela passeava e eu apenas a acompanhava, guia bem segura na mão. Ela decidia o itinerário –, escolhia a parte com mais sombra da rua, favorecida pelas árvores das chácaras. Na sombra, diminuía a velocidade, que aumentava, e muito, quando passávamos por trechos sob o Sol. Muito inteligente a nossa akita fujona.

Vinte e um anos depois, levo o Shiva para passear em Piacenza e procuro a parte sombreada das ruas, quando o calor é sufocante. As ruas do centro não têm árvores, mas os muros são altos o suficiente para formar um caminho mais fresco, com o pavimento com temperaturas que não queimem as patas do meu amigo.



Acontece que o verão aqui é muito quente, o clima da Planície Padana é um dos mais inóspitos do mundo, cercado por montanhas (Alpes e Apeninos) que impedem correntes de vento e muita umidade, por conta dos rios, riachos e torrentes. Andar na rua depois do almoço, durante o verão, é a certeza de uma sauna a céu aberto. Não é para os fracos.
 
Ao meio-dia o Sol está à pino e a temperatura deixaria o inferno ruborizado. Mas por volta das três, quatro da tarde, quando o Sol aqueceu os muros e as casas rentes à rua (característica da cidade) fica realmente impossível caminhar. Melhor sair depois do pôr do Sol, pelo menos para não ter a estrela de fogo cuspindo fogo sobre a cabeça. E aí tem um outro truque: é necessário saber a posição do Sol durante a tarde, ou atravessar a rua para verificar qual lado é mais fresco. A parte que foi aquecida pela manhã terá muros e paredes mornas, enquanto a parte ensolarada à tarde, estará com paredes refletindo todo o calor acumulado. Isso lá pelas dez da noite. A diferença – medi, não duvide – chega a ser de até quinze graus. E faz uma grande diferença. 

No inverno o Sol só passa pela parte de trás do nosso prédio, mas no verão o Sol quase roda por todos os lados. Certo, no inverno nós procuramos a parte ensolarada. Mas se você vier para a Itália nos meses de verão, use a sabedoria da nossa saudosa Kamani. Você vai me agradecer. Em dinheiro, de preferência.


domingo, julho 20, 2014

Manhã de domingo na Itália


Olho o céu de brigadeiro e exclamo:
Não!!!, um outro dia de calor infernal!
[se te mandarem ao inferno, venha visitar a Planície Padana no verão]

*

"O teu cérebro é feito de gordura."
...Hein? Mas não era a minha barriga?

*

Muitos povos não consomem laticínios. Leite é alimento de bebê. Laticínios me dão dor de cabeça. Então, escolho quando vale a pena ter dor de cabeça e tenho só um pouquinho por dia (meio quilo de Parmiggiano pra acompanhar a cerveja, a mão lambuzada de Gorgonzola, um pote gigante de sorvete...) e evito quando posso.

*

Café da manhã, nada de manteiga ou queijo: pão com azeite extra virgem de oliva italiano.
E não é que é bom?
.

domingo, julho 06, 2014

A fauna de verão



E quem é que tem coragem de confessar as próprias descobertas infantis? Sim, porque achei infantilidade minha ficar surpreso com a existência de pernilongos na Itália, anos atrás. O que eu esperava? Que no primeiro mundo fosse tudo possível e perfeito? [cá entre nós, precisamos urgentemente rever o conceito de “primeiro mundo”].  Frio, calor, temporais, secas e – por que não? – pernilongos: tudo igualzinho. E é assim que tem que ser.

▬ ...Quem é esse tal de Lunedil?

Noutro dia li que “as mudanças climáticas já estão tendo impacto sobre a economia americana.” Como assim, “já”? Só descobriram agora? Quando o ciclo natural do planeta é alterado, todas as atividades são afetadas (sim, eu sei que o ritmo natural do planeta é de mutação constante, mas a ação humana tem acelerado o processo). Perguntem aos pernilongos como a vida deles mudou nos últimos anos. Chegam sempre adiantados ou atrasados. Para garantir a sobrevivência da espécie, estão modificando o ritmo de procriação [teoria minha, nada de científico, mas merece ser estudado].

▬ Róbsu! Ô Róbsu!, quem é esse tal de Lunedil aí, Róbsu?

▬ Lunedì, ele se chama Lunedì.

▬ E quem é esse cara?

▬ Amigo meu, ‘cê num conhece não. Ele só vem quando ‘cê num tá’qui.

O certo é que os pernilongos perturbam um bocado e eu ainda não descobri a utilidade deles. Se servem para alimentar andorinhas e outros pássaros, eu toparia dar comida às aves em troca da extinção deles, os pernilongos. Melhor não, quem garante que a boa vontade se perpetuaria?

▬ E por que ele só vem nos dias que eu um tô?

▬ Sabe que ele perguntou a mesma coisa de você? E, depois, quê isso? Tá cum ciúmes ou quer conhecer o cara?

▬ Ih, cara, sai pra lá! ...Eu, com ciúmes? Sai pra lá, lubisomem!

▬ Então eu apresento ele pra você.

▬ Eu não. Vê lá se eu quero conhecer alguém que chama Lunedil!

▬ Lunedì, ele se chama Lunedì.

▬ O acento no nome dele tá errado. Num existe crase no i.

As gerações futuras teriam dificuldade para entender porque escolhemos alimentar os pássaros em troca da extinção dos pernilongos. As aves seriam extintas e, aí sim, o mundo ficaria uma merda. Melhor deixar os pernilongos.

▬ No caso dele, tá certo assim. Lunedì é italiano.

▬ ...Piorou.

▬ ‘Cê num gosta de italiano?

▬ Quem gosta de massa é pedreiro, eu sou gente fina.

▬ Que mais que ‘cê num gosta?

▬ Galinha.

▬ ‘Magina!, nós comemos frango ontem.

▬ Frango tem carne macia, eu não gosto é de galinha. Galinha, pra mim, só de batom e salto alto.

▬ Tá ficando muito enjoado.

Quando estive em Angola descobri que reclamava de barriga cheia: lá sim que tem pernilongos. Na volta, aprendi a fazer um repelente caseiro que funciona de verdade: coloque uns 30 gr de cravo da Índia em 100 ml de álcool e deixe em local escuro por uns quatro dias; coe e dilua em 500 ml de óleo de amêndoas (ou outro óleo para o corpo); passe quando for encontrar com pernilongos. Eles vão detestar e evitar chegar perto.

▬ Prest’enção, cara! ‘Cê pegou um peixe!

▬ Oba!, hoje vamos comer peixe na brasa.

▬ A brasa tá acesinha, só esperando ele.
                                                                                               
▬ ‘Bora pra casa comer esse peixe , Sexta-feira?

▬ Nós já estamos em casa, Róbsu. Nossa casa é uma ilha.
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