Mostrando postagens com marcador estilo italiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador estilo italiano. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Como quebrar os ossos durante o inverno

 




Esporte é cultura, e cada cultura tem o seu. Já me diverti assistindo boiocross no interior da Bahia, jogando futebol de praia no Rio e vibro muito assistindo o “Six Nations”, torneio de rúgbi anual entre França, País de Gales, Inglaterra, Escócia, Irlanda e Itália. A edição do Six Nations deste ano começa no início de fevereiro. Sim, aprendi a gostar de rúgbi. E muito. Nestes dias de frio, tenho acompanhado a Copa das Nações Africanas, mas futebol é parte da minha endo cultura. E antes que me perguntem, estou torcendo pela bola.



                                                      Jannik Sinner - jovem campeão no esqui e no tênis

A grande sensação da temporada é mesmo a versão de inverno dos Jogos Olímpicos, que acontece entre os dias 6 e 22 de fevereiro deste ano, nas cidades de Milão e Cortina d’Ampezzo, Itália. A transmissão pela tv incentivou muitos jovens a praticar esportes como o curling (aquele onde uma “chaleira” deve deslizar sobre o gelo) e outros mais clássicos, como o esqui alpino. Aliás, o tenista italiano Jannik Sinner é um excelente esquiador e só optou pelo tênis profissional por causa dos longos períodos de treinamento no esqui, para participar de campeonatos tão breves, além de ter aprendido que era mais fácil se recuperar nos momentos difíceis de uma partida de tênis, que numa descida de slalom gigante, prova em que foi campeão italiano à idade de 7 (sete!) anos.

                                                                Curling

E aqui nasce uma outra paixão, que são as provas de esqui. Não todas as provas, apenas as mais breves: descida livre, slalom gigante, slalom e combinada. Alberto Tomba é o maior esquiador italiano com 50 títulos, entre olimpíadas e campeonatos mundiais; Federica Brignone ocupa o segundo lugar, com 37 títulos e Sofia Goggia, com 27 títulos, no terceiro lugar. Tomba encerrou a carreira em 1998, com 32 anos. Brignone vai completar 32 anos e está voltando de um acidente terrível durante uma competição em abril do ano passado, quando rompeu os ligamentos do joelho esquerdo, fraturas com múltiplos fragmentos de tíbia e perônio da perna esquerda. Está competindo nos diversos torneios que antecedem aos Jogos Olímpicos, que servem de preparação. Goggia, com 34 anos completados em novembro, tem muita carreira pela frente, mas vai precisar de muito banho de sal grosso. Torço por ela pela coragem, qualidade, tenacidade e... Bem, coragem de novo, vai.


Alberto Tomba e Federica Brignone

Sim, Sofia Goggia é uma grande esquiadora. E é muito destemida. Alguém empenhada a dar o máximo, mesmo correndo riscos e, constantemente, um pouco mais que o máximo. Ela coleciona acidentes importantes e menos importantes. Em 2022, sofreu uma queda durante uma competição, que acabou vencendo. 24 horas depois, numa outra prova, uma nova queda a levou ao hospital, a poucos dias das olimpíadas. 23 dias depois, levava uma medalha de prata nas Olimpíadas. A propósito, Goggia rompeu os ligamentos e o menisco do joelho esquerdo – pela primeira vez – em 2007, aos 14 anos.

                                                Soffia Goggia - Copa do Mundo 2021-2022

Fevereiro será um mês insone, assistindo as reprises noturnas do Six Nations e dos Jogos Olímpicos de Inverno, durante as madrugadas frias. Espero resistir heroicamente, sem criar atritos com a geladeira. E, se alguém puder, mande uma muda de arruda à Sofia Goggia. Vou torcer por ela.


domingo, julho 20, 2025

O Comissário Montalbano, de Andrea Camilleri, em português



    A Forma da Água (Record, 2002), Guinada na Vida (Record, 2005) e A Lua de Papel (Record, 2007) são três livros de Andrea Camilleri traduzidos em português, presentes de um amigo quando estive no Brasil em 2024. A excelente tradução é da jornalista e experiente tradutora Joana Angélica D’Avila Melo. Sempre tive receio de ler obras traduzidas que eu já tivesse lido na versão original e confesso que tive uma surpresa muito positiva. E matei uma velha curiosidade: como se traduz uma obra escrita num dialeto que não existe? 

    Andrea Calogero Camilleri (1925-2019) era siciliano de Porto Empedocle, na província de Agrigento. Escritor, roteirista, diretor, dramaturgo e mais uma infinidade de qualidades que tomariam muitas linhas e eu acabaria me perdendo. O certo é que ficou doze anos sem publicar um livro. Foi seu pai, num leito de hospital, quem o convenceu a voltar a escrever, depois de ouvir uma ideia que o filho tinha para um novo romance, mas que não se achava capaz de fazê-lo em italiano. O velho, então, sugeriu que ele escrevesse como o havia contado, no dialeto siciliano deles. A luta para fazer com que o texto fosse entendido por todos e recheado da cultura local, o obrigou a inventar o vigatês, o dialeto da cidade fictícia do Comissário Montalbano. Aliás, Vigata faz parte da província de Montelusa, outra cidade siciliana inventada. Dessa vez, por Pirandello. É uma língua mais interessada em guiar o leitor por sons e semelhanças com o italiano, que simplesmente misturar dialetos com a língua oficial. Enfim, um trabalho doido. “Não se trata de encaixar palavras em dialeto dentro de frases estruturalmente italianas, mas sim de seguir o fluxo de um som, compondo uma espécie de partitura que em vez de notas utiliza o som das palavras. Para chegar a uma mistura única, onde não se reconhece mais o trabalho estrutural que existe por trás. O resultado deve ter a consistência da farinha fermentada e pronta para se tornar pão.” 

    Conheço muitos leitores seriais italianos que nunca leram um livro dele, por acharem complicado e cansativo ler em vigatês. Sugiro sempre que experimentem, que o texto é intuitivo e, se tiverem dificuldade, podem consultar o dicionário [dizionario] no site vigata.org . Depois de alguns livros, o dicionário tem pouca serventia. Partes dos textos é escrito em italiano, mas nem sempre são dominantes. 

    Certa vez, como exercício, escrevi um texto dividido em quatro capítulos no estilo camilleriano: “Partênope”. Deu uma mão de obra...! 

 Partênope I de IV 

 Partênope II de IV 

Partênope III de IV 

Partênope VI de IV 

    A RAI, rede pública de tv italiana, produziu alguns episódios da saga. Camilleri imaginava Montalbano como um homem alto, magro e de bigode. Resmungou quando soube que o ator Luca Zingaretti seria o intérprete. Zingaretti não tem bigode, é careca, não é magro e tem 1,65 m de altura. Coincidentemente, foi aluno do escritor. Deixou-se convencer e gostou. Os romances precisaram ser adaptados à tv. Entre outras coisas, os palavrões e o dialeto desapareceram, mas o elenco é ótimo e deu conta do recado. Visível na RaiPlay, em italiano. 

    Voltando à tradutora, ela optou por esmerar-se no conteúdo, deixando a forma aparecer em algumas palavras “estranhas” salpicadas no textos. Ainda bem! Se ela quisesse entrar no espírito dialetal, teria que escrever um dicionário antes. O resultado é um trabalho impecável, capaz de capturar o leitor com a mesma força do autor. Se você não conhece o Comissário Montalbano, recomendo sanar essa lacuna. 

    São romances policiais (giallo, em italiano, que é a tradução italiana de amarelo, e é como são chamados os livros policiais aqui). Além disso, vai conhecer um pouco da cultura siciliana e se divertir um bocado. Crimes, a presença da máfia no quotidiano, amores e amantes, coincidências, interferências e pirraças entre órgãos da polícia. Tem de tudo. Ninguém consegue largar o livro antes do fim. Prepare-se para viciar e boa leitura.

domingo, dezembro 15, 2024

Francesco De Gregori – Titanic – tradução




Essa música, de Francesco De Gregori, cria bem o clima no navio antes da interrupção da viagem. A melodia brinca com ritmos caribenhos e a história é vista por diversos personagens, onde até mesmo os da terceira classe estão felizes. Está inserida no álbum Titanic, lançado em 1982. Em poucas palavras, aproveite a vida antes o iceberg.

 

Titanic

 

A primeira classe custa mil liras, a segunda cem,

a terceira dor e susto.

E cheira a suor da escotilha e cheiro de mar morto.

Senhor Capitão me escute bem,

Eu tenho as mil liras boas e prontas,

Na primeira classe quero viajar neste esplêndido mar.

 

Tem também minha filha de quinze anos

e em Paris comprou um chapéu,

Se nos convidasse para jantar em sua mesa hoje à noite,

como seria bom.

E com a orquestra que nos acompanha

Com esses novos ritmos americanos,

Saudaremos à Grã-Bretanha

com um copo nas mãos

E com o gelo dentro do copo

Faremos um brinde tilintante,

À esta viagem global,

À esta lua gigante.

 

Mas quem disse que na terceira classe,

que na terceira classe se viaja mal,

Esse beliche parece uma cama de casal, é melhor do que no hospital.

Nós, de cafonas, sempre fomos chamados

mas aqui nos tratam como cavalheiros,

que quando chove você pode ficar dentro,

mas com bom tempo saímos.

 

Neste mar tão negro quanto petróleo

Para admirar esta lua metálica

e quando as sirenes soam,

quase parece que canta o galo.

Quase parece que o gelo

que temos no coração vai lentamente

derretendo

no meio da fumaça deste vapor

dessas férias em alto mar.

E gira, gira, gira, gira a hélice gira,

gira, que chove e neva,

para nós, jovens da terceira classe

que para não morrer vamos para a América.

 

E o operador de rádio em sua torre,

os longos dedos azuis no ar,

E transmitia saudações e esperanças

para este cruzeiro extraordinário.

mensagens de saudação recebidas

em quase todas as línguas do mundo,

se comunicava entre Viena e Chicago

em pouco menos de um segundo.

 

E a garota de primeira classe,

apaixonada por seu chapéu,

Quando o viu dançando à noite,

o achou muito bonito.

Talvez por causa daqueles olhos de gelo

tão difíceis de evitar,

pensou "Talvez com um pouco de coragem,

antes do final eu vou deixá-lo me beijar".

E como é bela a vida esta noite, entre o amor que atrai

e um pai que reza,

para nós, garotas de primeira classe

que para se casar vamos à América,

para nós, garotas de primeira classe

que para se casar vamos à América,

para nós, garotas de primeira classe

que para se casar vamos à América.

 


domingo, junho 04, 2023

Trilha sonora italiana - Pino Daniele - Napule è


 

Pino Daniele era um músico de muito sucesso na Itália, falecido em 2015, com sessenta anos. Sua música mais famosa, “Napule è”, foi lançada em 1977 no seu primeiro disco, quando havia apenas dezoito anos. Toca nas rádios ainda hoje. O curioso é que ele cantava muito em dialeto napolitano. 

Abaixo, deixo a letra em napolitano, traduzida em italiano e em português. No vídeo acima, um dueto dele com Pavarotti. 

Napule è (em dialeto napolitano) 

Napule è mille culure 
Napule è mille paure 
Napule è a voce de' criature 
Che saglie chianu chianu 
E tu sai ca' non si sulo 

Napule è nu sole amaro 
Napule è addore e' mare 
Napule è na' carta sporca 
E nisciuno se ne importa 
E ognuno aspetta a' sciorta 

Napule è na' camminata 
Int'e viche miezo all'ate 
Napule è tutto nu suonno 
E a' sape tutto o' munno 
Ma nun sanno a' verità 

Napule è mille culture 
(Napule è mille paure) 
Napule è nu sole amaro 
(Napule è addore e' mare) 
Napule è na' carta sporca 
(E nisciuno se ne importa) 
Napule è na' camminata 
(Int' e viche miezo all'ate) 
Napule è mille culure 
(Napule è mille paure) 
Napule è nu sole amaro 
(Napule è addore e' mare) 

 (em italiano) 
Napoli è mille colori 
Napoli è mille paure 
Napoli è la voce dei bambini 
che sale piano piano 
e tu sai che non sei solo 

Napoli è un sole amaro 
Napoli è odore di mare 
Napoli è una carta sporca 
e nessuno se ne importa 
e ognuno aspetta la fortuna 

Napoli è una passeggiata 
nei vicoli, in mezzo agli altri 
Napoli è tutto un sogno 
e la conosce tutto il mondo 
ma non conoscono la verità 

Napoli è mille colori 
Napoli è mille paure 
Napoli è un sole amaro 
Napoli è odore di mare 
Napoli è una carta sporca 
e nessuno se ne importa 

Napoli è una passeggiata 
nei vicoli, in mezzo agli altri 
Napoli è mille colori 
Napoli è mille paure 
Napoli è un sole amaro
Napoli è odore di mare

 (em português)

Nápoles é mil cores 
Nápoles é mil medos 
Nápoles é a voz das crianças 
que sobem devagarinho 
E você sabe que não está sozinho 

Nápoles é um sol amargo 
Nápoles é o cheiro do mar 
Nápoles é um papel sujo 
e ninguém se importa 
e todos esperam pela sorte 

Nápoles é um passeio 
nos becos, no meio dos outros 
Nápoles é tudo um sonho 
e sabem disso em todo o mundo 
mas não sabem a verdade 

Nápoles é mil cores 
Nápoles é mil medos 
Nápoles é um sol amargo 
Nápoles é o cheiro do mar 
Nápoles é um papel sujo 
e ninguém se importa 

Nápoles é um passeio 
nos becos, no meio dos outros 
Nápoles é mil cores 
Nápoles é mil medos 
Nápoles é um sol amargo 
Nápoles é o cheiro do mar

sexta-feira, agosto 26, 2022

Gastronomia e música estrangeira

             Absorver uma nova cultura é fascinante, mas demanda tempo. Passei algum tempo aprendendo a comer pisarei e fasö e tortelli di zucca. Confesso que faltou coragem com a picul ad caval.

Pisarei e fasö é o prato piacentino por excelência. Como manda a tradição, é uma receita pobre, de aproveitamentos. Pisarei é uma massa à base de pão velho e fasö é feijão, no dialeto piacentino. Servido com abundante molho de tomate com cebola e toucinho de porco, está presente em todas as casas e nas muitas festas espalhadas pela província (ô povo pra gostar de festa!). Picul ad caval é carne moída de cavalo com cebola, cenoura, pimentão e, é claro, o “ouro piacetino” pistà ad grass: toucinho batido com alho e salsinha. Já os tortelli di zucca é uma massa recheada com abobora, ricota, grana, salvia, manteiga e noz moscada. Nos casos dos pisarei e fasö e tortelli di zucca, me incomodava o sabor adocicado. Aprendi a gostar e hoje procuro nas festas. Já a picul ad caval não tenho vontade nem coragem de comer carne de cavalo.

Pelo lado cultural, também tive um início de relação conflituosa com Lucio Battisti, o músico que, segundo David Bowie, era o maior cantor pop do mundo, junto a Lou Reed.  Battisti é endeusado por aqui. Merecidamente, concordo agora.

Falecido em 1998 com apenas 55 anos, vendeu 25 milhões de discos. Tendo escrito, composto e produzido para outros músicos, exerceu enorme influência no que veio depois. A parceria com Mogol – grande autor do universo musical italiano (lembra de “Minha História” do Chico?) – foi o auge da sua carreira.

Pesquise Lucio Battisti nessa rede, se tiver curiosidade. Vale a pena. Levei um tempo para dizer isso, mas digo com sinceridade: vale a pena, Lucio Battisti vai ser sempre um monstro sagrado da Música. Da Itália e do mundo.

Deixo aqui a letra e a tradução (minha) de uma das músicas que gosto. Não a que mais gosto, pois sou avesso a listas de preferências.

 

Emozioni

Lucio Battisti e Mogol

 

Seguir con gli occhi un airone sopra il fiume e poi
Ritrovarsi a volare
E sdraiarsi felice sopra l'erba ad ascoltare
Un sottile dispiacere
E di notte passare con lo sguardo la collina per scoprire
Dove il sole va a dormire
Domandarsi perché quando cade la tristezza in fondo al cuore
Come la neve non fa rumore

E guidare come un pazzo a fari spenti nella notte per vedere
Se poi è tanto difficile morire
E stringere le mani per fermare qualcosa che è dentro me
Ma nella mente tua non c'è

Capire tu non puoi
Tu chiamale se vuoi emozioni
Tu chiamale se vuoi emozioni

Uscir dalla brughiera di mattina dove non si vede ad un passo
Per ritrovar se stesso
Parlar del più e del meno con un pescatore per ore ed ore
Per non sentir che dentro qualcosa muore
E ricoprir di terra una piantina verde sperando possa
Nascere un giorno una rosa rossa

E prendere a pugni un uomo solo perché è stato un po' scortese
Sapendo che quel che brucia non son le offese
E chiudere gli occhi per fermare qualcosa che
È dentro me
Ma nella mente tua non c'è

Capire tu non puoi
Tu chiamale se vuoi emozioni
Tu chiamale se vuoi emozioni

 

(Tradução)

 

Seguir com os olhos uma garça sobre o rio e depois

Descobrir-se voando

Deite-se feliz sobre a grama ouvindo

Um descontentamento sutil

E à noite passear com os olhos a colina para descobrir

Onde o sol vai dormir

Perguntar-se por que quando a tristeza bate fundo no peito

Por que a neve não faz barulho?

E dirigir como um louco sem farol à noite para ver

Se é afinal tão difícil morrer

E apertar as mãos para deter algo dentro de mim

Mas que na tua mente não há

Entender você não pode

Tu chame-las se quiser, emoções.

Tu chame-las se quiser, emoções.

Sair do pântano pela manhã, onde não se vê um passo

Para reencontrar-se

Jogar conversa fora com um pescador por horas a fio

A fim de não sentir que por dentro algo morre

E cobrir uma muda verde com a terra esperando que possa

Um dia nascer uma rosa vermelha

E socar alguém só porque foi um pouco rude

Sabendo que o que machuca não são as ofensas

E fechar os olhos para deter algo dentro de mim

Mas que na tua mente não há

Entender você não pode

Tu chame-las se quiser, emoções.

Tu chame-las se quiser, emoções.

https://www.youtube.com/watch?v=prve6-_j834

segunda-feira, outubro 25, 2021

Azzurro

Desconheço os limites que separam celeste, azzurro e blu, na língua italiana. A mim parecem-me azuis, mas vai falar isso aqui, vai. A canção de Celentano diz “a tarde é ‘azzurra’ e longa demais, para mim” e, no entanto, o céu é sempre celeste. Tudo bem, a licença poética é permitida, mas que confunde, confunde.

Essas nuances linguísticas não dependem apenas da gramática, mas também da cultura. É comum ouvir associações para definir as cores na Itália: cereja, tortora, Cartier, palha, são apenas algumas. Até mesmo o branco pode ser sujo, gelo, leite e mais alguns outros nomes. Se você já viu uma tortora na vida, certamente vai saber, mais ou menos, que aquele tipo de pombo tem uma cor clara que oscila entre o cinza e o marrom, com um colar escuro. E mesmo quem nunca viu, mas cresceu aqui, sabe de que cor se trata. Um estrangeiro – eu! – vai ter mais dificuldade. E não só com tortora.

Fico imaginando o caos que seria se a Pantone (empresa americana de tecnologia gráfica que, entre outras coisas, se ocupa em identificar e catalogar cores e tonalidades) fosse italiana.

Existe uma cor chamada fucsia. Fucsia!

quarta-feira, junho 02, 2021

Divin Codino - Roberto Baggio

 


 

Diante da TV naquela final de Copa do Mundo, vibrei de alegria quando a bola passou sobre o travessão. Taffarel estava batido, não teria defendido aquele pênalti e o calvário teria continuado. Mas Baggio errou, Brasil campeão. A casa estava cheia de balões verde-amarelos, vestíamos camisas da seleção, cantávamos e ríamos muito. A Luiza ainda não tinha nascido, a Bianca estava prestes a completar dois anos e usava uma camiseta maior que ela. “Brasil! Brasil!”

Apesar da alegria, algo me incomodava. E não era só a dor pela morte de Senna, ainda recente. Não gosto da loteria dos pênaltis, mas é a regra. Não, o mal estar era causado pela imagem de Baggio com as mãos na cintura e cabeça baixa. Sabia pouco sobre o italiano, mas tinha aprendido a respeitá-lo e admirar o futebol que ele jogava. As informações se acumulam com o tempo, vão grudando na memória aos poucos. Roberto era um jogador talentoso e distanciado. Não era aquele tipo de jogador que sai sempre com o time para festejar, nem se dava bem com alguns treinadores. Só não era mais discreto por ser Baggio. Onde quer que fosse. Quando chegamos na Itália Baggio ainda jogava. Ainda bem.

"Il Divin Codino" é o filme que conta parte da sua história. Emocionante, é o que posso dizer. Para quem está familiarizado com o futebol italiano, as cenas com os treinadores Arrigo Sacchi e Carlo Mazzone são reveladoras da personalidade do jogador; para quem não está ou não entende muito de futebol, o filme vale pela trajetória do jogador mais amado da Itália, pela sua história pessoal, cheia de conflitos internos, com treinadores, com o pai duro.

Baggio, que nunca se deu paz pelo pênalti perdido (um dos três pênaltis perdidos naquela final, mas ninguém se lembra dos outros dois jogadores), assistiu o filme: “chorei o filme inteiro”.

 

Assista ao vídeo da música de Diodato em homenagem ao jogador e trilha sonora do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=bH9jTb3MU8I 

 

L'uomo Dietro Il Campione

Più di vent'anni in un pallone
Più di vent'anni ad aspettare quel rigore
Per poi scoprire che la vita
Era tutta la partita
Era nel raggio di sole
Che incendiava i tuoi sogni di bambino
Era nel vento che spostava il tuo codino
Che a noi già quello sembrava un segno divino

Era cercarsi un posto in mezzo a un campo infinito
E poi trovare la gioia
Quando il tempo ormai sembrava scaduto
Era cadere e rialzarsi ascoltando il dolore
Sentire come un abbraccio arrivarti dal cuore
Di chi ti ha visto incantare il mondo con un pallone
Senza nascondere mai
L'uomo dietro il campione

E poi c'è tutta la passione
E quella cieca e folle determinazione
Che la destinazione
A volte è un'ossessione
Le cicatrici e i trofei
A ricordarti chi sei stato e cosa sei
E maglie stese ad asciugare
Sul filo di un destino che oggi può cambiare

E lì a cercarsi un posto
In mezzo a un campo infinito per poi trovare la gioia
Quando il tempo ormai sembrava scaduto
E poi cadere e rialzarsi accettando il dolore
Sentire come un abbraccio arrivarti dal cuore
Di chi ti ha visto incantare il mondo con un pallone
Senza nascondere mai
L'uomo dietro il campione

Che poi Roberto in fondo tutto questo amore è pure figlio del coraggio
(Figlio del coraggio)
Di quel campione che toccava ogni pallone come se fosse la vita
Lo so potrà sembrarti un'esagerazione
Ma pure quel rigore
A me ha insegnato un po' la vita

O homem por trás do campeão

Mais de vinte anos numa bola
Mais de vinte anos esperando aquele pênalti
Só para descobrir que a vida
Era toda a partida
Era no raio de sol
Que incendiou seus sonhos de infância
Era no vento que movia sua trança
Que já parecia um sinal divino

Procurando um lugar no meio do campo infinito
E encontrar a alegria
Quando o tempo parecia ter chegado ao fim
Era cair e levantar ouvindo a dor
Sentir um abraço vindo do coração
De quem te viu encantar o mundo com uma bola
Sem nunca esconder
O homem por trás do campeão

E então há toda a paixão
E uma determinação cega e insana
Esse o destino
Às vezes é uma obsessão
As cicatrizes e troféus
A recordar quem você foi e o que você é
E as camisas penduradas para secar
Num fio que hoje pode mudar

E ali procurando um lugar
No meio do campo infinito para então encontrar alegria
Quando o tempo parecia ter chegado ao fim
E cair e levantar aceitando a dor
Sentir um abraço vindo do coração
De quem te viu encantar o mundo com uma bola
Sem nunca esconder
O homem por trás do campeão

Que afinal, Roberto, todo esse amor é filho da coragem
(Filho da coragem)
Do campeão que tocava cada bola como se fosse a vida
Eu sei que pode parecer um exagero
Mas aquele pênalti
Me ensinou um pouco a vida