Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens

domingo, junho 29, 2025

O casamento de Bezos e Veneza

 


Acho meio complicado escrever a respeito dos protestos em Veneza, blindada para o casamento de Jeff Bezos. Pelo menos não antes de entender o que Veneza se tornou.

Veneza é rica em obras de arte, tem uma história fascinante e uma cultura única no mundo; não é famosa apenas pela óbvia peculiaridade de surgir sobre a água. Como toda grande cidade turística, o acesso deve ser regulamentado, só não pode e não deve se tornar um privilégio exclusivo de milionários.

A cidade não é mais onde vivem os venezianos. Nas últimas seis décadas, mais de três quartos dos residentes do centro histórico (a parte insular, que a tornou famosa) se transferiram, e uma parte dos que restaram é provavelmente fictícia por motivos fiscais. O turismo intenso é o que provocou essa migração. Por outro lado, não vejo alternativa séria à sobrevivência da cidade. O fluxo de dinheiro movimentado pelo turismo é o que paga a conta da manutenção da cidade, transformando-a num lugar inóspito aos residentes, com preços perenemente nas altura, principalmente no quesito moradia, seja na compra de imóveis que em aluguéis.

A “Serenissima Repubblica di Venezia” pertence ao mundo. Até aqueles que têm poucas possibilidades devem poder visitá-la e desfrutá-la, apesar da quase impossibilidade de se gastar pouco com o que quer que seja. É uma situação difícil de inverter e que devemos ser prudentes quanto a esses tipos de fruição que podem colocá-la em risco, como o trânsito próximo dos grandes navios de cruzeiro, por exemplo. O que não é o caso do casamento que blindou a cidade nessa semana.

Por mais que Jeff Bezos possa parecer antipático, acho que Veneza só tem a ganhar com isso. Certamente em termos de visibilidade (mesmo não precisando), mas também em economia, desde a doação de três milhões (poucos? bem, no entanto, são três milhões a mais), ao uso de recursos e produções locais, ao dinheiro que os hóspedes deixaram na lagoa durante esses três dias.

Claro, depois de ver todo o alvoroço que se armou, talvez algum outro bilionário que pensava em usar Veneza como cenário para algum momento importante, decida que a dor de cabeça não vale o resultado e repense, mas os poucos venezianos que ainda gerenciam atividades econômicas na cidade imagino que esperem que não.

De qualquer forma, afirmar que Bezos não deveria se casar em Veneza porque isso prejudicaria o planeta me parece uma besteira; afirmar que ele não deveria se casar em Veneza porque deveria pagar mais impostos é um absurdo, pois imagino que ele pague os impostos que exigem dele; afirmar que ele não deveria 'alugar' Veneza porque é rico é coisa de mendigos invejosos; protestar porque ele se casa em Veneza e depois pedir qualquer coisa na Amazon é coisa de idiotas.

domingo, março 30, 2025

O Ramadã é uma festa de cores e sorrisos


   

  Começou o horário de verão e o dia amanheceu lindo. Finalmente um domingo de sol. Tirei o Berto do sofá e fomos passear, pouco antes da nove (uma hora mais tarde, por conta da mudança). Levei-o ao jardim perto de casa – aquele onde foi encontrado o Klimt roubado – e, depois, ao Faxhall, que é uma rua paralela à nossa, fechada ao tráfego, construída sobre os antigos muros da cidade. Muitas árvores, bancos, dois parques infantis, três bares e muita gente. Mas não àquela hora de uma manhã de domingo, quando costuma ser ocupada por tutores e cães e gente correndo. Hoje tinha uma multidão em roupas de festa comemorando o fim do Ramadã. Uma multidão mesmo. É um espetáculo de sorrisos, crianças por todas as partes, adultos, idosos e muita cor. Fico maravilhado com as cores das roupas de alguns e sequer pensei em fotografar. Estava apenas apreciando a alegria deles.

    Caminhávamos tranquilos, no ritmo do Berto que quer cheirar tudo. Fui parado umas cinco vezes por pessoas que me perguntavam se eu sabia o que estava acontecendo. Esclarecia que era a comemoração do fim do Ramadã e seguia em frente. Uma moça com a mãe e um cachorro se disse indignada, que era um absurdo. Acenei com a cabeça e prossegui com meu fiel farejador na direção contrária. Mais adiante uma senhora atônita também me parou para perguntar:

— O que está acontecendo?

— Estão festejando o fim do Ramadã, Senhora.

— Ah...! É hoje? E de onde saiu toda essa gente?

— Essa gente deve morar na cidade ou próximas.

— Mas assim tantos? Nunca vi tantos juntos. Quando me mudei pra Piacenza não era assim.

— Bem, eu moro aqui tem mais vinte e cinco anos e já tinha muito muçulmano.

— Tantos assim?

— Menos, mas tinha bastante.

— E quem é essa gente? O que elas fazem aqui???

— São parte importante da economia italiana: produzem e consomem. Geram receita...

Parei quando percebi que os olhos dela não tinham como se esbugalhar mais e ameaçavam saltar para fora. Melhor, porque a continuação seria informar que algumas daquelas pessoas que a assustavam tinha comerciante, agricultor, operário, prestador de serviços e que os filhos deles seriam os médicos que cuidariam dos nossos filhos e netos, engenheiros, professores, operários, empresários e blá-blá-blá. Melhor assim, ela resolveu sair do Faxhall e pudemos continuar o nosso passeio.

    Na foto feita pela a Eloá, voltamos ao Faxhall para tomar um aperitivo no Bar Americano.


domingo, outubro 31, 2021

Fim do horário de verão italiano

O fim do horário de verão, na Itália, costuma dar problemas, mas muito menos que o início dele, em março. Claro, no último domingo de outubro pode-se dormir uma hora a mais, ao contrário de março, quando se dorme uma hora a menos, mas mesmo assim tem quem se lamente da mudança. As pessoas gostam de dormir. E de reclamar.

A Itália estabeleceu que a mudança ocorra às três da madrugada do domingo, o que evita a confusão da meia-noite e com os horários do transporte ferroviário e aéreo. Quem parte às três da manhã, não é mesmo? O problema é que muita gente gosta de problema. Existem algumas petições pedindo a extinção do horário de verão, apesar da economia de energia ser enorme, o que é algo muito sério nesses novos tempos de energia cada vez mais cara e escassa.

Avô, pai, mãe, cunhado, filho e filha, todos adultos, vivendo na mesma casa. O vô preferiu ficar acordado até às três para mudar as horas no relógio da cozinha e no despertador. Foi dormir à três e quinze, que na realidade eram duas e quinze, com o novo horário. A mãe acordou depois, para ir ao banheiro e aproveitou para mudar as horas. O pai, com a volta da mãe para a cama, perdeu o sono e foi zapear a tv enquanto esperava o momento certo, e foi a vez dele de consertar relógio e despertador. Voltou pra cama meia hora depois, quando a filha... Perderam a missa, o trem e o filho chegou tarde para abrir o bar. Todo mundo tinha atrasado os ponteiros e o almoço só saiu na hora da janta. Um mau humor terrível tomou conta da casa por uma semana.

Esse ano foi a minha vez. Não consegui acordar às três da madrugada e o relógio ficou no horário velho. E agora, o que que eu faço?

domingo, dezembro 01, 2019

Hospital italiano


Gianni tem 72 anos, mas parece ter um vinte a menos. Média estatura, magro, sorriso fácil. Ele e a atual esposa – vinte anos mais jovem – são ciclistas apaixonados. Viajam de bicicleta por toda a Europa. E foi justamente uma bicicleta que o trouxe até aqui. No sentido figurado, ao menos. Passeavam numa tarde de domingo pela val Trebbia quando decidiram ir para a val d’Aveto e encontraram uma cratera. No final das contas, foi uma ambulância que o trouxe. Nenhum osso quebrado, só uma luxação num dedo da mão esquerda e um enorme hematoma nas costas, o que minimizou o joelho inchado e os muitos arranhões. Alguns leves, outros, profundos. A forte dor nas costas o impossibilitava de ficar em pé, que dirá de caminhar. Os muitos exames não revelaram traumas na cabeça, só no bolso: a bike de mais de seis mil euros acabou no ferro velho. Gianni tem apenas três dedos na mão direita. Uma prensa hidráulica lhe esmagou a mão trinta anos atrás. Tinham-na dada por perdida e seria amputada. Foi o médico bebum, idoso e desacreditado quem decidiu que meia mão era melhor que nenhuma. O indicador foi transformado numa pinça para permitir pegar objetos. E Gianni estava lá, adaptado e feliz. Feliz por não ter quebrado nada, feliz pela sua esposa passar quase o dia inteiro com ele, feliz com a meia mão. Fez amizade com todo mundo, sorrindo e batendo papo.

— Gianni, você precisa se esforçar. Procure levantar e caminhar um pouco, mesmo com alguma dor.
Ele olhou o médico e não disse nada. As pupilas e narinas se expandiram, a respiração mudou de ritmo. Só olhava.


Enrico foi largado no hospital. Pelas caras da esposa e da filha – acho que era filha – ficou claro que fora levado contra a sua vontade para o hospital. Passou os primeiros quatro dias deitado sem falar ou reagir, apenas alguns “não sei” quando o médico perguntou que remédio tomava para o coração, para o diabetes e outras questões de saúde. A mesma  bermuda, a mesma camiseta, barba por fazer e uma absoluta ausência do mundo. Vinte e quatro horas de silenciosa imobilidade por dia. Ia ao banheiro, pé enfaixado mancando, beliscava a comida que traziam, dormia e mergulhava na mudez. No quinto dia reapareceram a mulher e a filha. Levaram roupa limpa, pijamas, produtos de higiene e um pouco de conforto. Aos poucos descobriu-se que Enrico tem 74 anos, o pé direito em péssimas condições por causa da doença e um cateterismo que identificou a necessidade de uma angioplastia. Enrico serviu o Exército Italiano como paraquedista, trabalhou na construção civil e criou com a esposa as duas filhas. Aposentou-se e foi prestar serviço no bar da esquina. Cabeça dura, se recusava a ir ao médico e evitava passar perto de hospitais. Homem rude, um verdadeiro “duro”, Enrico. Sorriu quando recebeu a visita do neto de treze anos, internado por um pé quebrado no futebol, levado em cadeira de rodas ao quarto do avô. A outra vez foi quando um OSS (Operador Sócio Sanitário, o antigo auxiliar de enfermagem) se propôs a fazer-lhe a barba. Um sorriso de menino no espelho e um curativo no pequeno corte da lâmina de barbear. Um novo cateterismo, duas angioplastias e a proibição de colocar o pé direito no chão. A situação era complicada e teria que ser operado. Enrico continuaria internado, esperando a cirurgia. Ele mesmo declarou que não voltaria ao hospital, caso saísse. Descobriu-se que a esposa e filhas tinham ido todos os dias ao hospital naqueles primeiros quatro dias, que advertiram que ele não voltaria, que tinha sido levado praticamente à força, o que as fez abandoná-lo, no início. Enrico, emburrado atávico, mas de coração bom, diabético, cardiopata e silencioso.

Domenico velho de guerra. De família numerosa, recebia visitas o dia inteiro – inclusive fora do horário de visitas – de amigos, ex-funcionários, parentes e conhecidos. Reclamava. Casado a mais de cinquenta anos, dividia a atenção entre a esposa, os filhos, amigos e ex-colegas. Reclamava do sol, da chuva, do calor, do frio do ar-condicionado, da comida do hospital, da pouca atenção (sic) da equipe médica, da limpeza (duas vezes por dia), da política, do mundo e até de você, que nunca o viu mais gordo. Com 78 anos, era um eterno insatisfeito. Reclamava do colega de quarto, Enrico, que nunca falava, que ia ao banheiro e não o deixava limpo, que parecia um bicho, como se Enrico não estivesse ali, ocupando uma das três camas do quarto. “Aquele ali não é normal”. Nas poucas vezes em que não havia visita com ele, colocava ambas as mãos no peito, junto ao corpo e praticava  um lento e contínuo movimento com os dedos, fazendo o polegar deslizar nos outros dedos, do mínimo ao indicador. Se percebia que alguém notava, explicava que era um truque hindu para acalmar a mente. O diabetes tinha causado um estrago no pé direito e ele estava ali para uma nova cirurgia. Nos horários estabelecidos, as enfermeiras entregavam os remédios a cada paciente, tudo muito controlado. Ele agradecia, esperava a enfermeira sair, escondia os remédios que lhe foram entregues e tomava os que trouxera de casa. “Ah, esses médicos não sabem de nada. Esses remédios genéricos não têm a mesma eficácia dos de marca. Sou eu o meu próprio médico.”

O controle no hospital é rigoroso, tudo registrado e anotado, remédios com hora certa, dietas sendo respeitadas, limpeza, organização e cuidados acima do esperado.

Gianni voltou a andar quatro dias depois de dar entrada, com o auxílio de duas muletas. Mais uma semana, um procedimento cirúrgico para a aspiração do hematoma nas costas e tornou a caminhar normalmente, carregando pra cima e pra baixo um saco de drenagem com o tubo inserido nas costas. Recebeu alta poucos dias depois. Llivre da drenagem, comprou uma bicicleta nova e contratou um advogado para processar a prefeitura onde se encontrava a cratera. Atualmente está pedalando por aí.

Domenico foi transferido para outro hospital, sempre reclamando (mais de cinquenta anos de casado, santa esposa), para submeter-se à nova cirurgia. Vai reclamar até o fim dos tempos. E isso é tempo pacas!

Enrico continua internado, aguardando a cirurgia. Poderia ter ido pra casa esperar a nova internação com tranquilidade e conforto, mas se sair, Enrico não volta. Ah, não volta, não.

------------

Obs.: val Trebbia e val d’Aveto são as zonas adjacentes do rio Trebbia e do riacho Aveto, respectivamente, e não apenas o vale dos cursos d’água.

.

domingo, abril 23, 2017

Democracia alheia



Dois mecânicos conversavam ontem, sábado, 22 de abril, num bar de Cremona, Itália.

▬ Seria legal se voltássemos a ter um rei.

▬ Tá maluco…?

▬ Um cara meio doido, que executasse quem se aventurasse a lhe fazer oposição.

▬ Entrou pro partido da monarquia? Eu é que não quero viver à sombra de um mandão decidindo a minha vida.

▬ Um rei com uma meia dúzia de ministros e mais os parentes e cunhados – que cunhado não é parente – livres de roubar. Um rei e seus quarenta ladrões.

▬ Da última vez não deu certo…

▬ Isso porque vieram com aquela conversa mole de igualdade, liberdade…

▬ E você acha correto deixar a nobreza roubar do povo?

▬ Seriam só uns quarenta, cinquenta. Hoje, quantos são? Dez mil, vinte mil?

▬ Ainda prefiro a democracia.

▬ O quê…? Não escolhemos em quem votar, votamos em quem decidem eles; reduzem os nossos benefícios e salários, enquanto os deles só aumentam; chamam de vagabundo quem trabalhou a vida toda pra se aposentar; decidem até o que podemos ou não fazer e criam leis para se protegerem… Se isso é democracia, então eu não sei o que é ditadura.

.

sábado, março 26, 2016

Preparação para a Páscoa - 2016

Check list de Páscoa:

- Igreja? R: tem uma em frente de casa

- tira-gosto? R:...esqueci

- comida? R: tem de montão

- ovos? R: tem. Inclusive de chocolate

- bacalhau? R: alguém vai ter que cozinhar


- colomba? R: comi


- cerveja? R: umas caixas


- amigos? R: só os que comem pouco e trazem cerveja


- pão de queijo? R: congelado (vale como tira-gosto?)


- vinho? R: e o que cê acha que eu fui fazer em Ziano Piacentino ontem?




domingo, outubro 20, 2013

Copo de geleia





Aqui em casa é proibido comprar Nutella em copo. Qualquer embalagem é permitida, inclusive as maiores (não, as gigantes não), só não pode ser em copo. Sabe aqueles copos promocionais cheios de desenhos ou com a marca do produto? Aqueles da geleia de mocotó? Aqueles que não quebram nunca e ficam lá no meio dos copos que custaram uma fortuna e que acabam sendo usados, quando as visitas são muitas? Pois é, aqui em casa é proibido comprar.

Algumas coisas merecem durar para sempre. Outras, não. Apesar da minha obstinação contra o desperdício e o descartável, o passado não pode ser arrastado no dia a dia. Mesmo que esse passado seja apenas um copo promocional inquebrável. E “inquebrável” explica tudo.

Levanto no meio da noite – sem acender luz, que me incomoda e me desperta – para beber água e adivinhe que copo pego no escuro?  Na hora de quebrar os ovos da receita e com as mão cheias de massa, sabe qual é o único compo limpo? Uma amiga das meninas vai à cozinha pegar um copo de suco ou chá gelado e... Sim, sempre ele. Já tentei guardá-lo diversas vezes junto com os copos de vinho, mas o copo reaparece sempre. Misteriosamente. Jogar fora, reciclar, deixar escorregar? Sou contra o desperdício e o descartável, lembra?

O primeiro copo decorado de Nutella durou anos e resistiu a muitas quedas. O último, comprado por falta de opção de outras embalagens durante uma crise de abstinência, no mercadinho próximo de casa, já completou alguns aniversários e vem participando do cotidiano familiar impávido e infrangível, rumo à eternidade.

Me peguei pensando porque não o mando à reciclagem, como todas as outras embalagens que vieram depois dele. Raspando um vidro de Nutella quase vazio, olhava filosoficamente para o copo e o imaginava em meio às chamas, junto a tantos outros vidros que derretiam e tornavam a ser simplesmente matéria prima, para outros vidros ou copos, tanto faz. Acho que ele resistiria e ficaria lá, atrapalhando o processo produtivo e impedindo o fluxo do mercado global.

Pensei em mandar de presente para você. Quer? Só espero que não quebre na viagem.
.