(Com a mão na boca)
Pescando no ‘Panema, perdíamos as horas e
contávamos causos. Peixes? Ah, era isso que tínhamos ido fazer... Quem se
importa? O barco à deriva, o churrasco na calma madrugada do rancho, a cerveja
gelada, as laranjas para martar a fome no barco e as aulas de nós, que de pesca
ele entendia. De pescar, um pouco menos.
Início ou fim da estrada?
Depende do ponto de partida.
A chegada não é o destino,
Senão o recomeço.
E se a estrada é limitante,
Caminhe pelos campos.
(Na primeira vez que a viu, disse: "vai ser a mãe dos meus filhos")
Foi, talvez, a pessoa mais inteligente que
conheci. Uma inteligência simples, prática e definitiva. Teimoso também. Trabalhador
entusiasmado, inventava soluções na sua 1020, a oficina de torno e solda
histórica e respeitada. Depois de observar e observar e observar, descobri que
ele estava para soldar a grade do lado errado. Disse a ele, mas nem piscou:
“não está”, retrucou sem se alterar. Pedi para que olhasse bem e ele balançou a
cabeça: “não está”, repetiu. Insisti, argumentando que ele teria que desfazer a
solda e isso poderia arruinar o trabalho de horas. Ele parou, olhou pra grade
no chão, virou-a do lado certo, ligou a máquina de solda e, com toda
tranquilidade: “agora tá do lado certo”. E soldou.
Senhor de muito amar,
Fiel na fé em si.
Acreditar no trabalho e na família,
Nas amizades sinceras e
joviais.
Acreditar, também, acredite!,
No ritual da cerveja,
Que a vida não é sofrer.
(Piacenza, Itália - Dezembro de 2009)
Não falava mal de ninguém. Tampouco era de
pedir opiniões; decidia e fazia, no tempo dele, do jeito dele, esperando que
fosse definitivo. Tudo o que fez, fez para durar. Nas relações, no trabalho, na
paz. Esse era um compromisso, não gostava de gambiarras ou situações
paliativas. E se nada é para sempre, já que a vida é provisória, pelo menos
aquilo que fazia deveria ser sólido, durável, de qualidade. Devia ser “1020”.
Se o destino não é clemente,
O sábio ensina a rir,
Observar, aprender e mudar
Sorrir é melhor que discutir.
Lutar não será alternativa,
Viver em pazes, ao contrário...
(Preparando o banho das minhocas)
Passeava na Itália como em casa. Comunicador
que era, encontrava novos amigos, rodava a cidade a pé, sozinho; ficava horas
na casa do amigo sem que ninguém soubesse dele. Nunca se perdeu na vida, foi a
vida a perder-se nele. Conversava com todo mundo, voltava para casa com
cálibres, ferramentas de precisão, brindes e as peças de reposição de que
precisava. Sem falar a língua. Era universal mas dizia-se caipira.
O mundo ideal será assim,
De amigos, gentes de bem.
Com quem se aprende
A ser uma pessoa melhor.
...E a devolver alguns peixes ao rio,
Pois o importante é a pescaria,
Não o peixe.
(O sorriso de sempre e aqueles olhos azuis que a convenceram)
E assim vem outra aula, a última, que ensina que
tudo acaba, um dia. A parceria de causos e cervejas fica pra depois, a pescaria
do tempo substituiu churrascos noturnos por lembranças. A vida vai à deriva e o
que fica é o velho barco de alumínio construído com as próprias mãos (como sempre),
emborcado nos fundos do quintal da oficina, com mais ferrugem que ferragens.
Aqui, até a saudade é 1020.
PS - Nessa carta AQUI já tinha falado da nossa
cumplicidade, em pescar, mentir e contar causos; já essa outra AQUI, foi uma
homenagem ao grande amigo, que deve estar rindo muito de todo esse
palavrório sobre ele e a falta dele, do meu esforço vão de dizer o indizível.
(A saudade tatuada na neta Luiza)
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