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terça-feira, junho 13, 2023

Shiva - 15.4.2014 / 12.6.2023

 





Shiva faleceu ontem, de insuficiência renal. No início do ano passado o veterinário Filippo Molina (que diversas vezes o curou, espetou, costurou e brincou sentado no chão da nossa casa, tornando-se não apenas um amigo, mas também o anjo da guarda do peralta) descobriu que ele havia um grave problema nos rins. Com a preciosa colaboração da veterinária Hilary Civettini e o pessoal do ambulatório Cer.Pa, buscaram todos os meios para retardar a evolução da doença e permitir a melhor qualidade de vida possível. Fica a nossa gratidão ao excepcional time de profissionais e à veterinária e nutricionista Rossella Di Palma, pelas suas dietas caseiras miradas. Estava bem, considerando os valores dos vários exames efetuados, até o mês passado. Aos poucos foi-se debilitando e nos últimos três dias apresentou um sério agravamento da sua condição. Estávamos em casa, enchendo-o de carinho, eu e a Eloá, aguardando a chegada do veterinário do coração, que o faria dormir. Foi antes, rebelde como sempre. 

Foram quase seis anos de muitas brincadeiras, dengos, catástrofes, lambidas, lutas, corridas, sustos, muito carinho, mergulhos no rio, beijos, passeios, uivos quilométricos, demolições, cafuné, ameaças, mordidinhas e vexames em público. Ah, Shiva! Sem você essa cidade será um tédio sem fim. 

 Com amor, 
 Sua família.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Feliz 2019!


Sim, fomos manipulados politicamente nos últimos anos. Não é exatamente uma novidade, mas nunca como antes fomos cooptados de forma tanto acintosa, invasiva e tão facilmente.

A mentira, o engano, a fraude, sempre fizeram parte da conquista e da manutenção do poder. Qualquer eleição, a invasão do Iraque que não possuia armas químicas, as duas Guerras Mundiais, a ascenção de Nabúlio, as diversas tramas registradas por Maquiavel (ou, melhor: Niccolò Machiavelli), a descoberta das Américas, o Império Romano, as Guerras Púnicas, Troia e antes de Troia. Em qualquer época e em todo lugar, ludibriar é uma arte praticada pelo poder.

A novidade é a rapidez da difusão e o alcance que um engodo pode alcançar hoje. Nunca houve tanta disponibilidade de informação – verdadeira e falsa – à disposição. Os meios que possuimos são armas poderosas nas mãos de quem fantasia propostas para os conflitos de todos os dias. O resultado é que o senso comum tomou o lugar do bom senso; criaram-se exércitos cegos e fieis, dispostos até mesmo a ações físicas em nome de uma rivalidade suposta. Sim, suposta. Porque os líderes rivais têm muito mais em comum do que nos deixam enxergar. A verdade inventada precisa ser transmitida e retransmitida velozmente, para que outras novas verdades sejam criadas e repassadas num fluxo sem fim, formando uma consciência cada vez mais sólida da falsa realidade, que só será contestada por infieis merecedores do limbo.

Paradoxalmente, a saída, a volta ao discernimento (que prefiro usar ao invés do termo desgatado “bom senso”), é utilizar exatamente as mesmas ferramentas dos aspirantes ao poder. E escavar a informação até o limite das forças, se recusar a fazer parte da corrente que alimenta o dilúvio das falsas notícias, criadoras de uma falsa honestidade e falsos salvadores. A informação deve ser pesquisada, vasculhada, verificada na fonte primária e certificada. Caso seja impossível ou você tenha dúvidas, não divulge, não compartilhe nem comente. Nem dê "like". Se você não se propõe a isso, torna-se a peça mais importante disputada pelos charlatões. Será manipulado sim, apesar de acreditar que não e que está do lado certo, decidindo com a própria consciência. Como o lado certo se escolhe antes de começar uma luta, é fundamental informar-se bem. É a única arma que possuimos.

E se você está aí se perguntando quem foi Nabúlio, aproveite para ir treinando. Pesquise. 

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sábado, julho 08, 2017

Neza




Essa é a história da Neza. Pensanso bem, é um cadinho da história da Neza mais o Zé, porque um sem o outro era nenhum. Gentes simples, como simples é a vida. Eram, também, epeciais. Não só porque cada pessoa è especial, mas porque eram especiais.

Juntos viveram e viveram. Deram duro para criar os filhos (sim, tiveram filhos) com exemplos de moral, amor e fé. Fé na vida, fé nas gentes. Ele, sempre concentrado no trabalho, quando tinha que trabalhar; concentrado no repouso quando tinha que descansar; concentrado na pescaria, quando ia pescar. Com a família no centro do mundo. Ela, atenta a tudo o tempo todo, com a família que cada vez mais se expandia, adicionando parentes, amigos e nescessitados.

O Zé era de um modo doce e educado, um jeito simples de resolver as coisas. A Neza era direta, instintiva, de sentimentos intensos e decidida. Beijava e brigava com a mesma energia, raiva e perdão. Eram opostos e diferentes que, unidos, beiravam à perfeição. Talvez por isso mesmo viveram juntos uma vida, mesmo depois que os filhos criaram, cada um, a própria família. Foi pra isso que criaram os filhos. 




Um dia o Zé foi embora, pescar em outros lugares que não fossem o ‘Panema. A Neza ficou só, na casa que agora era só dela, no canto dela. “Me deixa quieta no meu canto”, dizia. Os olhos já não refletiam o brilho de sempre. Passava o tempo esperando o tempo passar. Nem raiva nem perdão.

Domingo passado foi dia de festa, com músicas que ela não ouvia há muito tempo. Os olhos azuis do Zé cruzaram com os dela e a Neza entendeu como um convite. Ela aceitou e foi dançar com o Zé. Juntos de novo, estão lá dançando, como se não houvesse mais nada no Universo senão dançar. A Neza decidiu continuar a história deles, mesmo que o Zé decida ir pescar em outros ‘panemas. Ela vai atrás.

Porque o Universo é lugar de ficar junto. E de dançar.






segunda-feira, abril 04, 2016

Missa de sétimo dia



(Com a mão na boca)






Pescando no ‘Panema, perdíamos as horas e contávamos causos. Peixes? Ah, era isso que tínhamos ido fazer... Quem se importa? O barco à deriva, o churrasco na calma madrugada do rancho, a cerveja gelada, as laranjas para martar a fome no barco e as aulas de nós, que de pesca ele entendia. De pescar, um pouco menos.


Início ou fim da estrada?

Depende do ponto de partida.

A chegada não é o destino,

Senão o recomeço.

E se a estrada é limitante,

Caminhe pelos campos.



(Na primeira vez que a viu, disse: "vai ser a mãe dos meus filhos")





Foi, talvez, a pessoa mais inteligente que conheci. Uma inteligência simples, prática e definitiva. Teimoso também. Trabalhador entusiasmado, inventava soluções na sua 1020, a oficina de torno e solda histórica e respeitada. Depois de observar e observar e observar, descobri que ele estava para soldar a grade do lado errado. Disse a ele, mas nem piscou: “não está”, retrucou sem se alterar. Pedi para que olhasse bem e ele balançou a cabeça: “não está”, repetiu. Insisti, argumentando que ele teria que desfazer a solda e isso poderia arruinar o trabalho de horas. Ele parou, olhou pra grade no chão, virou-a do lado certo, ligou a máquina de solda e, com toda tranquilidade: “agora tá do lado certo”. E soldou.


Senhor de muito amar,

Fiel na fé em si.

Acreditar no trabalho e na família,

Nas amizades sinceras e joviais.

Acreditar, também, acredite!,

No ritual da cerveja,

Que a vida não é sofrer.



(Piacenza, Itália - Dezembro de 2009)





Não falava mal de ninguém. Tampouco era de pedir opiniões; decidia e fazia, no tempo dele, do jeito dele, esperando que fosse definitivo. Tudo o que fez, fez para durar. Nas relações, no trabalho, na paz. Esse era um compromisso, não gostava de gambiarras ou situações paliativas. E se nada é para sempre, já que a vida é provisória, pelo menos aquilo que fazia deveria ser sólido, durável, de qualidade. Devia ser “1020”.

Se o destino não é clemente,

O sábio ensina a rir,

Observar, aprender e mudar

Sorrir é melhor que discutir.

Lutar não será alternativa,

Viver em pazes, ao contrário...


(Preparando o banho das minhocas)

Passeava na Itália como em casa. Comunicador que era, encontrava novos amigos, rodava a cidade a pé, sozinho; ficava horas na casa do amigo sem que ninguém soubesse dele. Nunca se perdeu na vida, foi a vida a perder-se nele. Conversava com todo mundo, voltava para casa com cálibres, ferramentas de precisão, brindes e as peças de reposição de que precisava. Sem falar a língua. Era universal mas dizia-se caipira.

O mundo ideal será assim,

De amigos, gentes de bem.

Com quem se aprende

A ser uma pessoa melhor.

...E a devolver alguns peixes ao rio,

Pois o importante é a pescaria,

Não o peixe.


(O sorriso de sempre e aqueles olhos azuis que a convenceram)




E assim vem outra aula, a última, que ensina que tudo acaba, um dia. A parceria de causos e cervejas fica pra depois, a pescaria do tempo substituiu churrascos noturnos por lembranças. A vida vai à deriva e o que fica é o velho barco de alumínio construído com as próprias mãos (como sempre), emborcado nos fundos do quintal da oficina, com mais ferrugem que ferragens. Aqui, até a saudade é 1020.
                        

Amém!



PS - Nessa carta AQUI já tinha falado da nossa cumplicidade, em pescar, mentir e contar causos; já essa outra AQUI, foi uma homenagem ao grande amigo, que deve estar rindo muito de todo esse palavrório sobre ele e a falta dele, do meu esforço vão de dizer o indizível.


(A saudade tatuada na neta Luiza)

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