Wednesday, June 02, 2021

Divin Codino - Roberto Baggio

 
Il Divin Codino il Film su Roberto Baggio uno dei migliori ...

 

Diante da TV naquela final de Copa do Mundo, vibrei de alegria quando a bola passou sobre o travessão. Taffarel estava batido, não teria defendido aquele pênalti e o calvário teria continuado. Mas Baggio errou, Brasil campeão. A casa estava cheia de balões verde-amarelos, vestíamos camisas da seleção, cantávamos e ríamos muito. A Luiza ainda não tinha nascido, a Bianca estava prestes a completar dois anos e usava uma camiseta maior que ela. “Brasil! Brasil!”

Apesar da alegria, algo me incomodava. E não era só a dor pela morte de Senna, ainda recente. Não gosto da loteria dos pênaltis, mas é a regra. Não, o mal estar era causado pela imagem de Baggio com as mãos na cintura e cabeça baixa. Sabia pouco sobre o italiano, mas tinha aprendido a respeitá-lo e admirar o futebol que ele jogava. As informações se acumulam com o tempo, vão grudando na memória aos poucos. Roberto era um jogador talentoso e distanciado. Não era aquele tipo de jogador que sai sempre com o time para festejar, nem se dava bem com alguns treinadores. Só não era mais discreto por ser Baggio. Onde quer que fosse. Quando chegamos na Itália Baggio ainda jogava. Ainda bem.

"Il Divin Codino" é o filme que conta parte da sua história. Emocionante, é o que posso dizer. Para quem está familiarizado com o futebol italiano, as cenas com os treinadores Arrigo Sacchi e Carlo Mazzone são reveladoras da personalidade do jogador; para quem não está ou não entende muito de futebol, o filme vale pela trajetória do jogador mais amado da Itália, pela sua história pessoal, cheia de conflitos internos, com treinadores, com o pai duro.

Baggio, que nunca se deu paz pelo pênalti perdido (um dos três pênaltis perdidos naquela final, mas ninguém se lembra dos outros dois jogadores), assistiu o filme: “chorei o filme inteiro”.

 

Assista ao vídeo da música de Diodato em homenagem ao jogador e trilha sonora do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=bH9jTb3MU8I 

 

L'uomo Dietro Il Campione

Più di vent'anni in un pallone
Più di vent'anni ad aspettare quel rigore
Per poi scoprire che la vita
Era tutta la partita
Era nel raggio di sole
Che incendiava i tuoi sogni di bambino
Era nel vento che spostava il tuo codino
Che a noi già quello sembrava un segno divino

Era cercarsi un posto in mezzo a un campo infinito
E poi trovare la gioia
Quando il tempo ormai sembrava scaduto
Era cadere e rialzarsi ascoltando il dolore
Sentire come un abbraccio arrivarti dal cuore
Di chi ti ha visto incantare il mondo con un pallone
Senza nascondere mai
L'uomo dietro il campione

E poi c'è tutta la passione
E quella cieca e folle determinazione
Che la destinazione
A volte è un'ossessione
Le cicatrici e i trofei
A ricordarti chi sei stato e cosa sei
E maglie stese ad asciugare
Sul filo di un destino che oggi può cambiare

E lì a cercarsi un posto
In mezzo a un campo infinito per poi trovare la gioia
Quando il tempo ormai sembrava scaduto
E poi cadere e rialzarsi accettando il dolore
Sentire come un abbraccio arrivarti dal cuore
Di chi ti ha visto incantare il mondo con un pallone
Senza nascondere mai
L'uomo dietro il campione

Che poi Roberto in fondo tutto questo amore è pure figlio del coraggio
(Figlio del coraggio)
Di quel campione che toccava ogni pallone come se fosse la vita
Lo so potrà sembrarti un'esagerazione
Ma pure quel rigore
A me ha insegnato un po' la vita

O homem por trás do campeão

Mais de vinte anos numa bola
Mais de vinte anos esperando aquele pênalti
Só para descobrir que a vida
Era toda a partida
Era no raio de sol
Que incendiou seus sonhos de infância
Era no vento que movia sua trança
Que já parecia um sinal divino

Procurando um lugar no meio do campo infinito
E encontrar a alegria
Quando o tempo parecia ter chegado ao fim
Era cair e levantar ouvindo a dor
Sentir um abraço vindo do coração
De quem te viu encantar o mundo com uma bola
Sem nunca esconder
O homem por trás do campeão

E então há toda a paixão
E uma determinação cega e insana
Esse o destino
Às vezes é uma obsessão
As cicatrizes e troféus
A recordar quem você foi e o que você é
E as camisas penduradas para secar
Num fio que hoje pode mudar

E ali procurando um lugar
No meio do campo infinito para então encontrar alegria
Quando o tempo parecia ter chegado ao fim
E cair e levantar aceitando a dor
Sentir um abraço vindo do coração
De quem te viu encantar o mundo com uma bola
Sem nunca esconder
O homem por trás do campeão

Que afinal, Roberto, todo esse amor é filho da coragem
(Filho da coragem)
Do campeão que tocava cada bola como se fosse a vida
Eu sei que pode parecer um exagero
Mas aquele pênalti
Me ensinou um pouco a vida

 

Monday, May 24, 2021

Profissão Mulher

Itália, maio de 2021.

1) Alle (nome fictício)

Aqui na cidade existem três oficinas de estofadores de automóveis. A mais antiga foi quem pariu as outras duas (e uma outra cujo dono faleceu em 2008). O velho estofador aposentou-se há dois anos, depois de mais de sessenta anos de profissão, deixando de herança à filha mais velha a oficina. Ela nasceu e cresceu ali dentro, andava em todos os encontros de carros antigos com o pai, pegou na tesoura aos três anos e nunca mais largou. Conhece tudo sobre carros, estofamento, couro, linha, medida do ponto da máquina de costura, tipo de tecido para cada modelo de carro e mais um universo de informações acumuladas em mais de cinquenta anos. Antes mesmo do velho sair da sociedade (ele e ela, que a irmã caçula pulou fora anos atrás), ela era a pessoa à frente da atividade. Sempre foi, a partir dos 25 anos. “A senhora tem certeza do que está falando?” e “e o que você sabe disso?” são as frases que mais ouve de novos clientes, de todas as idades. Os outros dois estofadores (que saíram dali, repito) não são questionados nunca.

*

2) Virna (nome fictício) é uma profissional que trabalha com diversos concessionários e comerciantes de carros na região. Ela chega no furgão superequipado para limpar o interno dos carros como poucos. Usar produtos ecológicos e biodegradáveis é uma das muitas exigências da licença para trabalhar em domicílio. Limpeza a vapor, ozônio e o tradicional “óleo de cotovelo”. Em duas horas, duas horas e meia, o carro da loja está pronto para a exposição. Quatro horas, se for um cliente particular, com uma limpeza mais profunda e um preço um pouquinho superior.

— Virna, pelamor, fia! Cê num pode trabalhar de graça. Aumenta seus preços.

— Aumento não, Allan. Mais caro ninguém me chama.

— Mas qualquer outro lavador cobra mais caro. E você vem em domicílio...

— Eu sei, mas ainda não consegui entender por que os clientes insistem em não querer pagar o que eu peço. E, se não aceito o que querem pagar, perco o cliente.

— Sabe sim. E vou te lembrar: é porque eles sabem que se insistirem, você cede; porque você é estrangeira e porque você é mulher. Seja firme. SE eu devo dar um desconto a um cliente, primeiro eu falo o preço cheio e depois explico o motivo do desconto. Uma vez feito o orçamento, cabô desconto.

— Imagina que as empresas de caminhões querem que eu faça a limpeza por cem euros...

— Tá doida? Os outros pedem duzentos e cinquenta.

— Pois é. E se fizer dez caminhões por mês, só pagam oitenta cada um.

— Para no nono e diz pra fazer o resto nos concorrentes.

— Foi o que eu fiz. Eles deixaram de me chamar e levam pro concorrente. O concorrente me chama, eu limpo por cem e ele cobra duzentos e cinquenta dos clientes.

*

3) A multinacional em que a Eloá trabalha não tem coragem de pedir aos Chefs homens para trabalharem sozinhos. Um Chef não lava louça e ganha mais que Uma Chef. Quem lava louça é ajudante de cozinha. Para a Eloá – carinhosamente conhecida como “boca de bomba” – também lhes falta coragem.


Monday, May 10, 2021

Comer com as mãos

O filho de um cliente me contou que não se sentiria a vontade de convidar-me para almoçar na academia de cadetes do Exército Italiano, assim como não convidaria nem mesmo seus pais, se isso fosse permitido. Por outro lado, convidaria o tio do pavê, só para vê-lo passar vergonha. Os cadetes, segundo ele, são punidos se não se comportam de modo exemplar à mesa. Disse, por exemplo, que comer banana ou laranja com as mãos é falta grave. São obrigados a usar garfo e faca e o fazem com habilidade.

Me incomoda quem se comporta de modo deselegante à mesa, mas tudo tem limite. Além disso, o uso das mãos, em alguns casos, é permitido e é o modo correto. Prefiro – e tenho muita companhia nisso – comer pizza com a mão. Frango frito (gente, que saudades de um bom frango à passarinho com alho!) é feito para lambuzar os dedos. Que devem ser rigorosamente lambidos. A maioria dos alimentos fritos pode-se comer com as mãos sem problema.

Existe uma relação sensorial com a comida que vai muito além do perfume, sabor e aparência. Crianças que aprendem a comer com as mãos, tocando alimentos inteiros ou em pedaços, invés da papinha em colheradas, crescem mais saudáveis física e emocionalmente. Uma fruta em cubinhos cria uma experiência muito mais pobre que aquela manuseada com as mãos. Não é por acaso que nas terapias de casal um dos exercícios é a pessoa oferecer à outra (a qual é afetivamente ligada) algum alimento com as mãos. Eu não lembro – e não quero googlar – do nome da atriz de Flash Dance, mas lembro da cena dela comendo lagosta com as mãos. Essa é considerada uma das cenas mais sexy do cinema!

Em todo caso, recomendo não aceitar fruta de sobremesa, caso receba um convite para almoçar em qualquer academia militar italiana.