Sunday, November 14, 2021

Quarta onda da Covid-19 na Itália

Nas últimas 24 horas foram detectadas 7.569 pessoas contagiadas pelo vírus, entre as 445.593 testadas. 36, as vítimas. Sempre há a possibilidade de subnotificação, considerando o número menor (que os cerca de 700.000 dos outros dias) de testes efetuados, o que é normal nos finais de semana. Óbvio que a subnotificação pode acontecer mesmo com uma quantidade maior de testes.

A previsão é do aumento da curva de casos até o Natal, quando se prevê 30.000 novos contágios por dia. A partir desse pico, a tendencia é cair novamente.

76,7% da população acima dos 12 anos completou o ciclo vacinal e a terceira dose, de reforço, tem boa adesão. Apesar da nova onda, os hospitais não registram internações em número superior ao dos últimos meses. A maioria dos casos fatais está na faixa de pacientes entre 30 a 49 anos e são raros os casos de quem tomou duas doses de vacina entre as vítimas.

Com o aumento do contágio, evidenciando o que chamam de “quarta onda”, tenho visto a volta do uso de mascaras nas ruas por pessoas de todas as idades. Ainda não chegamos à situação de quando as máscaras eram obrigatórias, mas a adesão voluntaria incentiva outras pessoas, e isso ajuda a evitar a propagação.

Sim, no-vax não são tão raros, mas é uma minoria realmente pequena. Barulhenta, mas pequena.

E se você quer rir um pouco e não leu tudo o que vem acontecendo na Itália, deixa eu te contar essa: há alguns dias um grupo de no-vax que protestava em praça pública fazia pressão para falar com as autoridades, diante de um dos prédios do poder. As autoridades aceitaram receber alguns representantes, mas, para entrar, precisariam mostrar o green pass – o certificado de vacina. Os três representantes prontamente mostraram e entraram.

 

Sunday, October 31, 2021

Fim do horário de verão italiano

O fim do horário de verão, na Itália, costuma dar problemas, mas muito menos que o início dele, em março. Claro, no último domingo de outubro pode-se dormir uma hora a mais, ao contrário de março, quando se dorme uma hora a menos, mas mesmo assim tem quem se lamente da mudança. As pessoas gostam de dormir. E de reclamar.

A Itália estabeleceu que a mudança ocorra às três da madrugada do domingo, o que evita a confusão da meia-noite e com os horários do transporte ferroviário e aéreo. Quem parte às três da manhã, não é mesmo? O problema é que muita gente gosta de problema. Existem algumas petições pedindo a extinção do horário de verão, apesar da economia de energia ser enorme, o que é algo muito sério nesses novos tempos de energia cada vez mais cara e escassa.

Avô, pai, mãe, cunhado, filho e filha, todos adultos, vivendo na mesma casa. O vô preferiu ficar acordado até às três para mudar as horas no relógio da cozinha e no despertador. Foi dormir à três e quinze, que na realidade eram duas e quinze, com o novo horário. A mãe acordou depois, para ir ao banheiro e aproveitou para mudar as horas. O pai, com a volta da mãe para a cama, perdeu o sono e foi zapear a tv enquanto esperava o momento certo, e foi a vez dele de consertar relógio e despertador. Voltou pra cama meia hora depois, quando a filha... Perderam a missa, o trem e o filho chegou tarde para abrir o bar. Todo mundo tinha atrasado os ponteiros e o almoço só saiu na hora da janta. Um mau humor terrível tomou conta da casa por uma semana.

Esse ano foi a minha vez. Não consegui acordar às três da madrugada e o relógio ficou no horário velho. E agora, o que que eu faço?

Monday, October 25, 2021

Azzurro

Desconheço os limites que separam celeste, azzurro e blu, na língua italiana. A mim parecem-me azuis, mas vai falar isso aqui, vai. A canção de Celentano diz “a tarde é ‘azzurra’ e longa demais, para mim” e, no entanto, o céu é sempre celeste. Tudo bem, a licença poética é permitida, mas que confunde, confunde.

Essas nuances linguísticas não dependem apenas da gramática, mas também da cultura. É comum ouvir associações para definir as cores na Itália: cereja, tortora, Cartier, palha, são apenas algumas. Até mesmo o branco pode ser sujo, gelo, leite e mais alguns outros nomes. Se você já viu uma tortora na vida, certamente vai saber, mais ou menos, que aquele tipo de pombo tem uma cor clara que oscila entre o cinza e o marrom, com um colar escuro. E mesmo quem nunca viu, mas cresceu aqui, sabe de que cor se trata. Um estrangeiro – eu! – vai ter mais dificuldade. E não só com tortora.

Fico imaginando o caos que seria se a Pantone (empresa americana de tecnologia gráfica que, entre outras coisas, se ocupa em identificar e catalogar cores e tonalidades) fosse italiana.

Existe uma cor chamada fucsia. Fucsia!

Sunday, September 19, 2021

Vacina é a melhor prevenção

 Os nomes são fictícios.

Mariinha e Miguel choraram quando ele foi estudar fora. Com os anos, as trocas de cartas, os telefonemas e a vida em comum foram diminuindo até desaparecerem. Se reencontraram na festa do padroeiro, dois anos atrás. Ela já não tinha os quinze anos de então, mas trinta e um. Ele acabara de se separar. O sentimento juvenil – que nunca tinha ido embora – renasceu. Mariinha ainda morava com os pais; Miguel, que herdara a casa dos avós, trouxe experiencia profissional e algum dinheiro do exterior. Planejaram uma vida juntos, anunciaram bodas. Mas veio a pandemia e os planos foram suspensos. Finalmente as vacinas chegaram. Finalmente. Infelizmente ela sempre foi do grupo de pessoas que não podem ser vacinada, além dos anticorpos muito baixos. Miguel, ao contrário, se recusou a se vacinar. De nada adiantou o choro dela, os pedidos para que ele se vacinasse para ajudar a protege-la. Irredutível, não se vacinou. Nem entendeu que essa é apenas a primeira de outras pandemias que virão. Destruída, ela resolveu pôr um fim na relação. Cinco dias depois foi internada já em estado grave. Desesperado, ele tentou visita-la no hospital. Tentou. Testou positivo e continua assintomático. Nunca mais a viu. Ela faleceu um mês depois da internação, no dia em que completaria trinta e três anos. O arrependimento dele não vai servir para nada, por toda a longa vida que provavelmente terá.

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A partir do dia 15 de outubro o green pass (certificado de conclusão do ciclo de vacina ou os resultados de testes negativos a cada 48/72 horas) será obrigatório para todos os trabalhadores italianos. Isso inclui servidores públicos, empregados da iniciativa privada, autônomos e profissionais liberais. Casos especiais serão tratados como tais. Desprovidos do passe não poderão ser demitidos, mas suspensos, sim. O que comporta desconto do salário. O vírus só será vencido quando toda a população mundial for imunizada, impedindo o aparecimento de novas variantes.

Thursday, September 02, 2021

Agosto acabou

          


   

        Agosto acabou.

Durante trinta e um dias, agosto está em nossas vidas. No resto do ano, longe de séculos, léguas e lembranças. A vida recomeça com o fim de agosto, com os temporais e granizo. Tudo é muito forte em agosto. Até a saudade. Agosto é longo, mas sempre acaba. Restam fotos de viagens, sabores, segredos, novos perfumes e caminhos descobertos. Férias, trânsito, frasco de protetor solar pela metade, passe livre de vacinação, caminhar na areia, conselhos ignorados, peixe devorado à beira mar, água, vinho, cerveja, sonhos. Projetos.

A Europa toda se organiza para as férias de agosto. Quem escolhe o mar, quem a montanha, quem os lagos, quem se esconde. Até quem decide ficar em casa precisa verificar o que vai estar fechado durante as férias e se abastecer com antecedência. Sempre é preciso se organizar. Escolher destino, reservar hotel, restaurantes, passeios, lugar na praia (tem muita praia que só tem acesso a pagamento. Se não reservar antes, vai ficar de fora), planejar orçamento, verificar restrições sanitárias, revisar o carro, comprar passagens, decidir horário da viagem, enfim, toda uma vida à parte. E quanto mais caro o lugar (destino, hotel, restaurante), maior deve ser a antecedência da reserva. Cansados de enfrentar situações desconfortáveis, muitos optam por julho ou setembro, quando o turismo menor leva, de carona, os preços para baixo. Pernilongos, não. Pernilongos estão sempre em alta no verão europeu. Menos nesse ano. Num único dia de qualquer dos verões passados, levei mais picadas de mosquitos que em todo o verão de 2021. E um – só um mesmo – inseto foi a vítima do para-brisa nas nossas muitas andanças de agosto. Não é reclamação, é susto mesmo.

         Agosto acabou e já é setembro.

Wednesday, July 21, 2021

Cronologia estranha a ser lembrada

 



Cinco da manhã e ele quer passear. Vinte graus e uma brisa fresquinha. Focinheira presa à cintura, saquinhos higiênicos, garrafinha d’agua para lavar o pipi dos muros, paredes, postes e pilastras, coleira e peitoral (que com ele é melhor não arriscar).

O número de novos casos de Covid volta a crescer. Os de internações e vítimas, caem. O tal comitê prevê para agosto até cem mil novos casos por dia, mas com baixo índice de ocupação hospitalar. Ou seja, a vacinação está dando resultado. Ultrapassamos 51% da população acima de 12 anos com o ciclo completo.

Ele corre no jardim como se o gramado fosse infinito. Busca odores e vestígios de outros cães, gatos, pássaros, esquilos e o que mais passou por ali. Para no meio de uma corrida, como um carro dando cavalo de pau, e vai examinar minuciosamente um cheiro que só ele sente. Às vezes mija em cima, às vezes volta a correr.

Os números da Inglaterra assustam e o Boris - o espantalho na ventania - resolveu peitar a ciência decretando o fim de todas as restrições, esquecendo que na primeira vez não deu certo. A França decidiu que só se entra em bar, restaurante e transporte público, entre outros, quem tiver o green pass, que é o documento comprovando a conclusão do ciclo vacinal. A Itália avalia medida semelhante, depois que o agendamento da vacina teve mais de dois milhões de pedidos, num único dia, na terra do Macron. Já pensou, ter que apresentar o atestado cada vez que for ao bar tomar um café?

Dono de toda a curiosidade do mundo, vai cheirando o asfalto que as maquinas arrancaram anteontem (porque a época de obras é agora, no verão, quando a cidade está mais vazia e não tem a neve para atrapalhar). As enormes maquinas que dormem enquanto ele batiza-lhes os pneus. Vamos ao outro jardim para ele lutar com os irrigadores. Mordeu toda água possível e sucumbiu. Eles são insistentes e são muitos, os irrigadores. Melhor caçar ouriços em outro lugar.

Ontem, 20 de julho desse 2021 nefasto, foram registrados 3.558 novos casos e 10 vítimas. 11 novos pacientes foram internados e mais de 70% de quem precisou de internação eram pessoas que ainda não tinham recebido nem mesmo a primeira dose. Daqui em diante o comitê cientifico irá considerar principalmente o número de internações para avaliar que medidas tomar (como o retorno das restrições, por exemplo). Isso porque a enorme maioria dos infectados não necessita de cura médica. São pessoas vacinadas, assintomáticas, que permanecem em quarentena em casa até que um novo exame dê êxito negativo. Vacina, gente. Vacina.

Faz três minutos que ele está tentando desvendar o segredo do Universo contido na ponta daquela folha de grama. Mas a resposta deve estar em outro lugar. Na dúvida, ele come a grama. Por um momento, fica ali parado, focinho pra cima detectando algum cachorro a mil quilômetros daqui. Faz mais um pipi, abana a cauda e avisa que é hora de voltar pra casa. Fome, obrigado.

Sunday, July 11, 2021

Itália zona branca

Desde o dia 28 de junho todas as regiões da Itália converteram-se em “zona branca”. Uma decisão baseada em dados científicos, ou seja, em número de novos contágios para cada cem mil habitantes. Isso significa que as medidas anti-Covid foram relaxadas, mas não totalmente abolidas. Discotecas, por exemplo, continuam fechadas e o uso de mascaras continua obrigatório em locais fechados ou em caso de aglomerações. A maior conquista é justamente o caso das máscaras, que deixaram de ser obrigatórias ao ar livre. A sensação de liberdade é imensa, mas as pessoas continuam usando máscara pelas ruas. E isso é muito, muito bom. Claro que tem muita gente que prefere não usar, mas isso já acontecia antes mesmo da zona branca ser decretada.

 

O comitê cientifico que monitora os dados informou que o contagio deve aumentar consideravelmente, mas que o número de internações permanecerá baixo. Já nessa semana tivemos um aumento de novos contágios, passando da média de 400 novos pacientes diários para em torno de 1.500. O número de vítimas permanece na faixa de 20 por dia (12, hoje).

 

Os novos casos incluem pessoas vacinadas que, exatamente por estarem vacinadas, não necessitam de internação. São pacientes assintomáticos ou com sintomas leves que podem permanecer em casa, em quarentena, à espera do exame que indique a cura. Até a data de hoje, 10 de julho, foram mais de 4,27 milhões de casos e 127.768 mil vítimas. Com um total de 57 milhões de doses de vacina aplicadas, a Itália tem hoje 37,3% da população acima dos 12 anos com o ciclo completo (56% com pelo menos a primeira dose).

 

A Itália foi o primeiro epicentro da pandemia e foi abandonada pelos outros países europeus. Nenhum país enviou mascaras ou respiradores. Éramos os leprosos a serem evitados. Na época, pouco se sabia sobre o vírus, tateava-se no escuro, tentava-se de tudo a muita gente não sobreviveu. Com a chegada da equipe chinesa, com 30 toneladas de equipamentos e documentos, iniciou-se a recuperação do país. Quando equipes de Cuba e outros países começaram a desembarcar voluntariamente para ajudar, a Europa decidiu finalmente participar. E essa é uma parte da história que não vou conseguir esquecer nunca.

 

A parte positiva é que a Ciência respondeu de maneira formidável. Aprendemos muito e nos adaptamos, uma nova normalidade nos prepara para o futuro. Só posso torcer para que a humanidade entenda a relação de causa e efeito com o meio ambiente. Sobrevivemos. Sinta-se uma pessoa privilegiada.