Monday, April 12, 2021

Diário 9.4.2021

 Diário 9.4.2021

Giuseppe Verdi tinha raízes piacentinas. Nasceu aqui perto, em Busseto, na província de Parma, que na época pertencia ao Reino da França. Seus pais eram de pequenos lugarejos da província de Piacenza. Passeava muito por aqui e tinha sempre quem o hospedasse para uma temporada mais longa. Pois foi o veneziano Antonio Vivaldi quem resolveu tirar umas férias na cidade nesses dias. Trouxe as quatro estações – em minúsculo, por não se referir à sua obra mais celebrada. Tivemos do verão ao inverno, com direito a mangas curtas suadas a neve e cachorro tremendo sob o capote. Não, aqui na cidade não nevou, mas nas colinas mais altas da província. Só faltou a neblina. Talvez seja cedo demais para afirmar isso. Quem sabe amanhece que roubaram o mundo do lado de fora da janela.

*

E por falar em música, hoje acordei com uma canção que se ouvia em todas as rádios dos anos 70. “Não, eu não consigo/Acreditar/No que aconteceu/É um sonho meu/Nada se acabou...” Desde aquela época não ouvia o Márcio Greyk soltar a voz nesse sucesso. Hoje ouvi. Dentro da minha cabeça. O dia inteiro. Fuçando, descobri que muitos outros artistas gravaram “Impossível acreditar que perdi você”. Entre eles, o Fábio Junior. E lembrei quando o FJ apresentava o programa Hallellujah com o Silvio Brito, na TV Tupi. Volto ao Greyk, que continua trabalhando.

 

Todas as manhãs a música saía pelas janelas abertas a caminho da escola. Era um tempo de janelas abertas e meninada fazendo algazarra. Na volta, a mesma música se misturava com o barulho de panelas de pressão e perfume do feijão pro almoço.

 

É isso, os músicos não morrem. Agora, por exemplo, Vivaldi está vivinho ao meu lado. Vai começar a Primavera.

Sunday, April 04, 2021

Diário 28.3.2021 - 4.4.2021

Diário 28.3.2021

Domingo de sol, clima fresco. Dia ideal para passear pelas colinas da província, descobrir um restaurante... Não, esquece. Zona vermelha, dia de ficar em casa.

*

A necessidade de estar torcendo para o lado certo é um mal medonho. Mudar de ideia, se arrepender, descobrir-se errado e optar pelo correto evita o ódio. E o ódio cega, mata.

 

Diário 29.3.2021

Quinta-feira fui levar a Lu na casa da Bia para o retorno dela a Londres. Camisa de flanela, colete e jaqueta de couro. Ressabiado, joguei um casacão no banco de trás. Hoje fui trabalhar de camisa polo de manga curta e suei.

 

Diário 2.4.2021

Esse verão nasceu de sete meses.

 

Diário 3.4.2021

Oops! Tinha até esquecido do rabo do inverno. O tal verão morreu antes de começar. Pernilongo apressadinho, também.

 

Diário 4.4.2021

Domingo de Páscoa, sol, frio (2 graus de manhã), passeio com o Shivinha, máscara, ruas desertas, *gralhas bagunçando o coreto da tranquilidade, charuto, gin tônica, o peralta indo rosnar pra Eloá acordar e fazer carinho para ele dormir de barriguinha cheia, bacalhau com natas e vinho. E amanhã é feriado: Segunda-feira do Anjo, popularmente chamado de “Pasquetta.

* Gralhas são voláteis que passam o inverno em algum pub de Londres e só voltam quando os corvos resolvem tomar a primeira do ano e os enxotam.

Saturday, March 27, 2021

Diário 15.3 - 26.3.2021

 Diário 15.3.2021

Se só esse vento gelado deixasse para soprar durante o verão, e não nesse fim de inverno, ele passaria de maldito a bendito. Eu nem me importaria com a terra dos campos que ele trouxe para dentro de casa.

 

Diário 16.3.2021

Hoje o vento gelado fez uma mulher correr atrás da bolsa de supermercado pelo estacionamento e pelo meio da rua. Quando ela alcançou a sacola, o vento voltou a soprar forte e por pouco ela não voou como um balão. De longe, não tinha como ajudar. Aproveitei para rir muito.

*

A Bia escreve, fula da vida, que o Real Madrid foi jogar contra o Atalanta no estádio aberto Di Stefano, e não no Santiago Bernabeu – que é um estádio fechado, no meio da cidade. Ventava na Espanha também. A Lu responde que sempre preferiu o Barça. Está certo, ela sempre disse isso. Acho que a Lu nunca torceu pra time nenhum. Ainda pequena, ela esperava o campeonato terminar para torcer pelo vencedor. A Lu sempre foi mais esperta.

*

O que uma gaivota faz às onze da noite, voando e gritando (?) pra lá e pra cá? Não, eu não quero saber, não. Era só pra perguntar.

 

Diário 17.3.2021

O serviço de podas fez um bom trabalho um (uns?) mês atrás. O vento está provando estar acima desse tipo de julgamento. Os bombeiros continuam sendo acionados por galhos e árvores que sucumbiram a essa super brisa que joga o vírus para outra dimensão.

*

Descobri o lado brincalhão dos melros. Quando o Shiva corre atrás deles, voam baixo para atiçá-lo. Só quando chega muito perto é que voam para o alto. E acho que ele entrou na brincadeira.

 

Diário 19.3.2021

Dia dos Pais. Presentes, vídeo chamada, carinho.

*

Não me lembro de um período ventoso tão longo quanto esse. E o lugar onde o vento faz a curva deve ser longe pra caramba, ele não volta durante o verão, mesquinho! E por falar em verão, o golpe de cauda do inverno chegou com o vento. Acordar com zero grau me congela os ânimos.

*

Abre parênteses. Não tenho medo de tomar injeção, tomei tanta nos últimos nos que as veias estão cheias de válvulas. Porém, não consigo ver aplicar. Viro o rosto e pode espetar o quanto quiser. Quando, em 2019, passei 45 dias internado, a enfermeira mandou a estagiária aplicar. A moça desistiu na terceira tentativa, disse que não conseguia e pediu que a enfermeira aplicasse. Eu interrompi e pedi a ela para se acalmar, ou não conseguiria superar. Disse que continuasse tentando, com paciência e devagar para sentir a minha veia e, se não acertasse, para tentar de novo e de novo até conseguir. Ela se aclamou e conseguiu. Cinco tentativas depois. Fecha parênteses.

Pergunta: Precisa mesmo mostrar tanta gente sendo espetada na tv?

 

Diário 26.3.2021

O vento passou, a semana foi mais tranquila.

*

Essa zona vermelha tá uma zona.

*

— Você fala com o seu cachorro???

— Claro que falo!

— E ele entende?

— Deve entender, ele presta uma atenção que vou te contar.

Sunday, March 14, 2021

Diário do futuro - 11

 Diário do futuro – dia 67

Quero deixar registrado o meu protesto contra o que parece, mas não é. É comum encontrar carros com bancos de couro. Mais agradável ao tato, bonito durável e luxuoso, o couro é muito popular nos carros de luxo – e nem tanto – da Europa. Desde que o mundo é mundo, o homem aprendeu a falsificar (a coroa da rainha da Inglaterra tem um rubi falso). Com o couro não seria diferente. Alguns materiais apenas se parecem com couro; já outros, são praticamente idênticos. Difíceis mesmo de identificar. Imaginem que algumas bolsas, casacos, sofás e outros objetos, são de material similar e o fabricante tem o cuidado de costurar uma tirinha de couro em algumas costuras para que o consumidor pense ser a borda do produto, acreditando ser de couro.

 

Pois bem, a minha indignação vai para o material mais recente, coisa de uns quatro anos, que é exatamente igual ao couro. E pode até ser vendido como couro, dependendo da lei do país. Como é possível? Bem, a coisa começou assim: anos atrás algum gênio decidiu aproveitar as sobras de couro dos curtumes, estofadores, fábricas de móveis e todo estabelecimento que usasse couro em quantidade. A peça de couro, aquela com a forma do boi, costuma ter partes não aproveitáveis, seja por cicatrizes, dobras e outros defeitos. O descarte ia para o lixo até esse geniozinho de merda pegar tudo, triturar, misturar com uma resina elástica e cobrir com uma película plástica, normalmente aplicada a quente, por um rolo que imprimia o desenho imitando o couro. O resultado é que milhões de carros trafegavam com o volante despelando após o primeiro verão. Sabe quando você esqueceu do filtro solar e abusou do sol? Despela tudo, não é? Pois aqueles volantes despelavam igualzinho. É possível que você tenha visto um desses volantes. Pois bem, resolveram melhorar o material e expandir o uso para os bancos dos carros, só não tem mais aquela película.

 

O problema é que ao triturar o couro ele perde as fibras que mantinha a peça íntegra. Esse material é um aglomerado destinado a se desaglomerar. E estão usando isso em carros de luxo e caros. Eu deveria rir da situação e dar de ombros, afinal eu não tenho, e nunca teria um carro ou sofá de couro. O couro é a pele do animal. Pele faz rugas. Rugas precisam de tratamento especializado e o resultado não substitui a pele nova. Banco e sofá de couro só é bonito na loja. Quando usado, amassa, fica cheio de rugas, é frio no inverno, quente no verão e chato de limpar. Quero não.

 

Voltando a como eu deveria estar, eu não posso ficar feliz. Sou restaurador de couro e o meu trabalho sobre esse falso couro não vai durar por causa do material. Só para dar uma ideia, algumas marcas de automóveis tem um couro de primeira e é necessário muito tempo ou muita esfregação – entrar e sair do carro esfrega o banco – para que seja necessário um restauro. Mediamente uns duzentos mil quilômetros (o que aqui não é muito), enquanto esse novo material precisa de algo como trinta e cinco mil quilômetros. Em outras palavras, a restauração vai durar muito menos e o cliente vai duvidar da qualidade do meu trabalho. Que raiva!

 

No próximo capítulo vamos ver de que material são feitos os discos voadores. Não percam.

 

Diário do futuro – dia 68

Toda vez que algum parente, amigo ou conhecido é vacinado, fico feliz. Hoje foi a vez do Presidente Sergio Mattarella e da amiga Tatiana (mais alguém?). Só a vacinação em massa vai interromper o ciclo e impedir o aparecimento de novas variantes.

*

Ontem foi uma segunda-feira pesada. Hoje foi a segunda-feira de ontem. Vou lá fora buscar outra cerveja.

*

Já voltei.

*

Ele espera que eu saia do banheiro de roupa trocada e vá preparar o kit para o passeio. Guia, garrafa d’água, saquinhos plásticos, focinheira, casaco e o capote dele. Só então resolve levantar. Passa a noite dormindo entre o sofá, a cama da Lu, a dele e a nossa. Conhece a rotina da casa e se adapta a ela. Para subir na nossa cama, dá a volta e sobe por cima dela. Nunca entendi, mas é assim desde sempre. Rosna. Rosna quando quer carinho, rosna porque o carinho é no lugar errado, rosna se alguém o acorda, rosna quando tem que ceder o lugar. Rosna. Rosna tanto que rosna enquanto dá beijinhos. Rosnento.

*

Tenho que confessar uma coisa. Ontem escrevi que veríamos de que material são feitos os discos voadores. Infelizmente tenho que dizer que não sei. Eles até contaram, mas o som é irrepetível por mim, uma daquelas coisas que se quisesse imitar, teria que quebrar a garganta. E depois, de nada adiantaria. Não tenho a menor ideia que material é aquele.

 

Diário do futuro – dia 69

Ela decidiu que o relacionamento não podia continuar. Ele, furioso, decidiu “se vingar”. Espalhou pelo vilarejo, na província de Salerno, sul da Itália, cartazes com uma foto dela em pose sensual, possivelmente photoshopada, oferecendo prestações sexuais. Como o lugar é muito pequeno e todo mundo se conhece (todo mundo se conhece mesmo!), os moradores, chocados, arrancaram os cartazes e denunciaram à Polícia Postal (aqui o que não falta é polícia). Após uma rápida averiguação – termo policial – ele foi devidamente levado a uma hospedaria do governo.

 

Nunca entendi o que leva alguns homens a pensar e acreditar que outra pessoa possa ser uma propriedade. Ela pulou fora? Somos mais de 7 bilhões de humanos, mais ou menos a metade é do sexo feminino, procura outra e esquece.

 

O que vai acontecer com a vida dessas duas pessoas? Quanto tempo de hospedagem vai ser preciso para ele entender a estupidez? Ou será que vai piorar, ficar com mais raiva ainda e decidir tratar todas as mulheres como objetos propriedades de alguém? Vai sair pior que quando entrou? Que sociedade nos tornamos?

 

Torço muito para que essa história termine aqui. Gente é pra se amar.

 

Ele: 17 anos.

Ela: 13.

!!!

 

Diário do futuro – dia 70

Os melros já festejam a primavera. Cantam e cantam, ignorando a presença dos habitantes da cidade. Ouriços sonolentos e debilitados pelo letargo, atravessam parques e ruas lentamente, ao contrário dos apressados javalis que rondam a periferia, lá onde a cidade deixa espaço ao campo, a dez minutos de bicicleta do centro da cidade, e por onde correm cervos, lebres e coelhos. Faisões tímidos ciscam os terrenos preparados em pequenos haréns, fugindo a qualquer aproximação com seus voos baixos. A nútrias, ou ratões-do-banhado, pastam calmamente nas margens de rios e córregos. A vida ainda não explode, apenas boceja com os olhos semiabertos. Só aquele tipo de cegonha que passa o dia imóvel, com uma das patas enfiada na neve desapareceu. Assim como a neve. Não tarda e as borboletas, pernilongos e outros insetos virão.

 

A vida segue. Cochilando e espreguiçando.

 

Diário do futuro – dia 71

“A mulher bala larga tudo e vai embora”. Esse era o título de um velho artigo de jornal. “Duas almas sentem que se amam, mas a regra não permite. Não lhes seria permitido exaurir o desejo de dividir suas emoções juntos porque ‘a regra do circo’ não permitia.” E foi por isso que a estrela e grande atração do circo decide fugir e viver seu grande amor.

 

Francesco De Gregori inspirou-se na notícia para compor uma música que entrou para o rol das grandes canções italianas. Um clássico. Ele convida à loucura de ignorar as regras e voar para viver a própria vida. Largar tudo por algo que não pode esperar para ser vivido.

 

O título original da música é “La donna cannone”. Link nos comentários.

*

La donna cannone (A mulher bala) – Francesco De Gregori

 

Butterò questo mio enorme cuore tra le stelle un giorno,

(Vou lançar meu grande coração entre as estrelas, um dia,)
giuro che lo farò,

(Juro que lanço,)

e oltre l'azzurro della tenda nell'azzurro io volerò.

(E além do azul da tenda, no azul eu vou voar.)
Quando la donna cannone

(Quando a mulher bala)
d'oro e d'argento diventerà,

(De ouro e prata será,)
senza passare dalla stazione

(Sem passar pela estação)
l'ultimo treno prenderà.

(O útimo trem vai pegar.)

E in faccia ai maligni e ai superbi il mio nome scintillerà,

(Na cara dos maldosos e soberbos meu nome vai brilhar)
dalle porte della notte il giorno si bloccherà,

(Das portas da noite o dia vai se livrar)

un applauso del pubblico pagante lo sottolineerà

(Que o aplauso d público pagante irá sublinhar)
e dalla bocca del cannone una canzone suonerà.

(E da boca do canhão uma canção vai tocar.)

E con le mani amore, per le mani ti prenderò

(E com as mãos, amor, vou te pegar)
e senza dire parole nel mio cuore ti porterò

(E em silêncio, ao meu coração te levarei)
e non avrò paura se non sarò bella come dici tu

(Não terei medo se não sou tão bonita como diz)
ma voleremo in cielo in carne ed ossa,

(Mas voaremos no céu em carne e osso,)
non torneremo più...

(Não voltaremos mais...)
na na na na na

e senza fame e senza sete

(E sem fome e sem sede)
e senza ali e senza rete voleremo via.

(E sem asas e sem rede voaremos para longe.)

Così la donna cannone,

(Assim a mulher bala)
quell'enorme mistero volò

(Aquele enorme mistério voou)
tutta sola verso un cielo nero nero s'incamminò.

(Sozinha para um céu escuro caminhou.)
Tutti chiusero gli occhi nell'attimo esatto in cui sparì,

(Todos fecharam os olhos no instante exato que desapareceu,)
altri giurarono e spergiurarono che non erano stati lì.

(Outros juraram e perjuraram que não estavam lá.)

E con le mani amore, per le mani ti prenderò

(E com as mãos, amor, vou te pegar)
e senza dire parole nel mio cuore ti porterò

(E em silêncio, ao meu coração te levarei)
e non avrò paura se non sarò bella come dici tu

(Não terei medo se não sou bonita como diz)
ma voleremo in cielo in carne ed ossa,

(Mas voaremos no céu em carne e osso,)
non torneremo più...

(Não voltaremos mais...)
na na na na na

e senza fame e senza sete

(E sem fome e sem sede)
e senza ali e senza rete voleremo via.

(E sem asas e sem rede voaremos para longe.)
 

Diário do futuro – dia 72

O Zuka me propõe amizade com pessoas que sempre foram amigas. Vou conferir e descubro que fomos desamigados. Na dúvida não peço amizade de novo, vai que o excluído fui eu... É raro, mas raro mesmo eu bloquear alguém. Se não curto nem comento, o algoritmo se ocupa em não mostrar mais. Eu acho. Claro que tem quem me desamigou, mas sou distraído demais para perceber. O chato mesmo é quando encontro comentário não respondido em postagem velha. Ah, Zuqinha!

*

— Por quê quando vou escrever lockdown eu sempre acho que é com a?

— Escreve lókidáum que não tem erro.

— Quarentena me parece longo demais. Não quero ficar em casa quarenta dias.

— Lockdown é muito down. Poderia ser locklight, softlock, softrock...

— Nós já temos um destruidor de ânimos em casa, não precisamos de algo down.

— Esse é o verdadeiro blackstorm! O nosso Blackdown.

— Que lockdown que nada! Esse é lôkobrown.

— E se invés de lockdown você escrevesse zona vermelha?

— Não vou responder é nada! Vou mudar de assunto e falar de comida.

 

Diário do futuro – dia 73

Em março do ano passado eu escrevia o primeiro “Diário do fim do mundo”, esperando que a quarentena terminasse num par de meses e que tudo voltaria ao normal. Passamos diversas fases de medidas de contenção da pandemia, acompanhamos erros e acertos, teorias furadas, negacionismos, a chegada das vacinas – Viva a Ciência! – e perdemos muito. Perdemos pessoas, rotinas, tempo e paciência. Só não perdemos a esperança.

 

Hoje nos preparamos para voltar à situação daquele dia. A partir de amanhã estaremos trancados em casa novamente. Não aprendemos nada. Não aprendemos com a China, que trancafiou milhões de pessoas em casa. Não aprendemos com a Nova Zelândia, que no primeiro sinal decretou uma quarentena que nos deveria servir de lição. “Ah, mas a Nova Zelândia é uma ilha...” Oras, toda cidade é uma ilha. Araraquara é uma ilha e o isolamento da cidade está provando que mesmo em meio ao caos do país, é possível tomar medidas eficazes.

 

No dia 1º de janeiro eu estava cheio de bons propósitos a ponto de rebatizar essa escrita de “Diário do futuro”, acreditando que esse 2021 seria um ano muito melhor. Bastaram 74 dias para que o meu otimismo fosse engolido pela cratera da realidade. A campanha de vacinação se arrasta por aqui e por todo lugar. A vacina é a única solução para a espécie que se autointitula “evoluída”, mas que não é capaz de viver no coletivo. Basta o anúncio de maior restrição da circulação para que os bares e restaurantes italianos fiquem entupidos de pessoas evoluídas, que querem aproveitar o último gostinho de liberdade. Para alguns desses – e para os que os cercam – será realmente o último. Acompanho as notícias brasileiras de praias lotadas, bares que burlam as medidas, festas clandestinas e o número de vítimas que só faz crescer. Tudo isso tem um efeito devastador em quem se tranca em casa, em quem adota as medidas de proteção, em quem se preocupa. Tenho andado muito abalado com toda essa situação, só posso torcer e esperar.

 

Esse diário termina aqui. O futuro em que acreditava só acontecerá quando a humanidade se reconhecer como um único organismo, que as nossas atitudes individuais, boas ou ruins, têm efeito no planeta. O diário passa a ser esporádico, quando a vontade de partilhar algo positivo aparecer, mas já não será um compromisso cotidiano.

 

Fique bem.

Friday, March 12, 2021

Diário do futuro - 10

 Diário do futuro – dia 60

Que segunda-feira corrida! Depois a gente não entende como não consigo arrumar tempo para tomar vergonha na cara e emagrecer.

*

Pelo andar manco da carruagem (carruagem com roda quebrada manca), vou acabar tomando vacina quando sair de moda. Fizeram a maior história no fim de dezembro pela chegada da vacina e no fim vai muito devagar. Fico feliz por quem já tomou. Vou repetir para não parecer frase feita: fico feliz por quem já tomou, só acho que a Itália podia acelerar um pouco as coisas e nos vacinar também. Minha mãe tomou a primeira dose e aguarda pela segunda. Fico feliz pela minha mãe. Pelas mães que já se vacinaram e pelos filhos. Dá um alívio... Não resolve tudo, mas o peso que tira...

*

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

 

Diário do futuro – dia 61

O gato, para arranhar o coração, presenteia com flores.

That’s all folks!

 

Diário do futuro – dia 62

Uma meia é uma meia, coisa de pouca importância. Mas se não dobrar a costura da meia para baixo do dedo mindinho, o mau humor vai tomar conta do dia. Pior: no final do dia a dor vai estar matando. O problema é esquecer de dobrar a costura da meia para baixo do dedo mindinho e ficar procrastinando a reparação, botando a culpa na correria do dia, na mão de obra de desamarrar o sapato, na vergonha de tirar o sapato no local de trabalho.

*

Vacina, cadê você?

 

Diário do futuro – dia 63

Lucio Dalla completaria anos hoje. Claro que você já ouviu alguma música dele! Algumas canções dele estão entre as minhas favoritas, no universo musical italiano, como Piazza Grande, Canzone, Caruso, Anna e Marco. Esta última, aliás, tenho certeza de ter sido influenciada pelo Verismo, um movimento literário italiano da segunda metade do século XIX. Curiosamente, a música de Dalla mais conhecida no Brasil não me agrada. Prefiro a versão de Chico Buarque, sob o título Minha História. O título original em italiano seria Bambino Gesù, mas a censura o fez modificar parte da letra e o nome. 4 Marzo 1943 é como ela foi apresentada ao público e é a data de nascimento dele. Nos deixou de presente uma obra deliciosa. Comemore ouvindo uma música dele.

*

Esta manhã ouvi uma entrevista surpreendente. A jornalista Daria Bignardi conversou com o professor Giorgio Vallotigara, titular da cátedra de neurociência da Universidade de Padova. Autor de diversas publicações acadêmicas e do livro “Pensieri dela mosca com la testa storta” (Pensamentos da mosca com a cabeça torta). O prof, entre tantas experiências, mostrou a abelhas algumas gravuras de Picasso e Monet. Quando a abelha se dirigia a uma obra de Picasso, ganhava um pouco de água açucarada. Com a de Monet, não recebia nada. O treinamento deu resultado e o inseto escolhia sempre Picasso. O curioso foi quando substituíram as obras por outras duas que ainda não tinham sido mostradas à abelha e ela, mesmo assim, escolhia Picasso. O resultado foi a conclusão de que os insetos reconhecem alguns mecanismos psicológicos que normalmente só atribuímos aos humanos, como a capacidade de se reconhecer como indivíduo em si. Sinto-me tremendamente aliviado. Conscientemente não gosto de caminhar nem mesmo sobre plantas (mato, grama...), imagine fazer mal a uma vida, pernilongos à parte. Deixo o link da entrevista – em italiano – nos comentários.

 

 

https://www.capital.it/articoli/tutti-hanno-una-coscienza-anche-le-api-e-le-farfalle/

 

Diário do futuro – dia 64

“Metade da Itália passará à zona vermelha a partir de segunda-feira.”

Lascô!

“O ministro assinou o decreto e somente a região Campania passa a zona vermelha. Lombardia, Emilia-Romagna e demais zonas laranja permanecem como estão, mantendo os focos vermelhos inalterados. Dessa forma, permanecem em zona vermelha Bolonha, Modena...”

Ufaaa!

“Olha a chuva!

Uhhhhh!

Já passou!

Ahhhhh!”

E assim vamos vivendo. Pra falar a verdade, nem lembrava que zona é essa. Isso tá uma zona.

Tenho sempre cópias da auto certificação preenchida com os meus dados. A ponte sobre o rio Po, aqui na cidade, separa as regiões Emilia-Romagna e Lombardia. Por motivo de trabalho eu posso passar de uma região a outra, mas quem se lembra que cor é essa ou a outra?

Escolas fecham. Não, não fecham mais. Quer dizer, Milão decidiu, ontem à tarde, não abrir as escolas hoje. Assim, sem pré-aviso.

Isso tá uma zona. Só não me perguntem de que cor.

 

Diário do futuro – dia 65

Clima doido.

Um dia me assusto com o calor de vinte graus, dia seguinte um vento gelado corta a carne. Três anos atrás, nevava. Um ano atroz, ninguém ligava pro tempo. Tínhamos coisas piores ocupando a nossa atenção.

Por que esse vento não dá as caras no verão?

Clima doído.

*

Sobre o gaveteiro dos talheres, na cozinha, existe uma cesta – às vezes tigela de aço – onde deixamos alho, cebola, batata e louro. Fui guardar o saca-rolhas na gaveta de baixo e praticamente enfiei o nariz na cesta. Certifiquei-me que a minha falta de olfato é sarcástica e seletiva quando descobri a confecção de cebolas descascadas que ela trouxe. Levei alguns segundos para descobrir de onde vinha aquele cheiro de lixo apodrecido no inferno.

*

Sabadão e eu correndo pra lá e pra cá, dançando entre um cliente e outro. As ruas do centro, observei de longe, estavam lotadas. Todo mundo de máscara, sem dúvida, mas a distância entre a gente permitia beijar. Beijos trágicos.

*

Se eu tivesse uma banda de rock, poderia ter esse nome: Beijos Trágicos.

 

Diário do futuro – dia 66

Fui membro do blog “Faça a sua parte”, lá pelos anos 53.000 a.C. Dava uma ,trabalheira danada esculpir as pedras para os posts que publicava. Não tanto pela dureza do material, mas porque tinha um monte de gente fera ao meu lado. Cientistas, jornalistas, ambientalistas sérios, que estudaram anos, se formaram, fizeram doutorado e estavam constantemente se atualizando. Postava e saía correndo. E lia tudo, absorvia o conhecimento que a turma partilhava com uma fome de conhecimento que vocês nem imaginam. Eu era o pinguim que escapava das orcas naquele iceberg de conhecimento. O Faça me deu a noção do quanto eu não sabia, do quanto precisava aprender. Foi com aquela turma que a Lua começou a ruir.

 

“Esse menino vive no mundo da Lua”, dizia minha mãe. “Esse cara vive no mundo da Lua”, diz ela agora. Pois a minha Lua acabou, se desfez. Fico apavorado com a quantidade de gente que acredita em conspirações (Elvis e Michael Jackson estariam vivos? De verdade que você faz parte dessa turma?), que negam a situação e que – arre! – “normalizam” a morte de milhares de pessoas. E não me refiro a quem nunca passou pela porta de uma universidade, que esses se protegem e se desculpam na ignorância. Mas aos que estudaram, que leem ou leram mais que a média, que são competentes nas áreas que atuam e que têm acesso a informação. Confesso que eu não sei a diferença entre sangue venoso e arterial. Claro que poderia agora googlar e descobrir, mas é argumento que não domino, vou parecer presunçoso falando disso (e se Noel Rosa, ex-estudante de medicina também não sabia e não tinha Google pra consultar, não chega a ser um escândalo). Quando eu não sei nada do assunto, calo a boca e aprendo.

 

Já não me reconheço nos meus sonhos, esqueci meus projetos, abandonei meus planos. Estou focado em sobreviver, em proteger quem me está próximo, em torcer pelos outros. Espero que essa situação acabe. Assim como espero que os pinguins reconheçam os poucos icebergs e se protejam. Somos todos pinguins. E as orcas são reais.

Tuesday, March 02, 2021

Diário do futuro - 9

 Diário do futuro – dia 53

Notícias provincianas (da edição de hoje do Libertà, o jornal de Piacenza e província)

— Durante o fim de semana, a polícia efetuou uma ostensiva operação de controle em todo o território. Visava não apenas a prevenção e repressão em áreas sensíveis, aumentando a segurança percebida, como verificar a obediência às medidas de contenção do vírus.

— Um jovem de 24 anos foi parado na Strada Provinciale 412, em Fiorenzuloa D’Arda, a bordo de uma Mini. Foi constatado que guiava com duas vezes a taxa de álcool e denunciado por guiar completamente beubo.

— Rodando por Piacenza como passageiro do veículo de um amigo, um cidadão de origem marroquina, sem residência fixa, foi levado à delegacia por não ter respeitado o mandato de expulsão. Foi levado à delegacia e aguarda a providência da justiça local, em audiência prevista para hoje.

— Um jovem de 18 anos foi notificado às autoridades como consumidor de drogas, após ter sido flagrado com alguns gramas de haxixe, em Trevozzo.

— Em Monticelli D’Ongina a polícia prendeu um cidadão egípcio de 23 anos por tráfico de drogas. Foi surpreendido no momento que entregava um papelote de cocaína a uma feirante de 41 anos. Após registrar o boletim de ocorrência, o jovem foi acompanhado à própria habitação, onde aguarda a audiência prevista para hoje.

— A polícia de Bettola multaram quatro pessoas que consumiam (o que tinha pra ser consumido) dentro de um bar, às 19h30 de sábado, contrariando o decreto que estabelece o funcionamento de bares e restaurantes até às 18h00. O proprietário também foi multado.

— Ainda em Bettola, mas no domingo, quando toda a região passou à zona laranja e, portanto, bares e restaurantes não podem servir comida e bebida para consumo no local, mas apenas para viagem, a polícia multou o proprietário de um restaurante e os quatro clientes que almoçavam tranquilamente. Foi expedida uma solicitação para o fechamento temporário do local.

— Ainda no domingo, nas curvas da deliciosa Strada Statale 45, às margens do Rio Trebbia, nas proximidades de Bobbio, três motociclistas foram multados. Eram de outra região e não tinham justificativa para estarem ali.

 

Todas as multas partem de 400 euros.

 

Diário do futuro – dia 54

— E aí, Allan, quanto é?

— Bom, esse aqui é 70; aqueles dois, 20 cada um e já são 150.

— ...Hã?

— Tem mais aquele, que seria 30, mas pra você são 50. E já são 240...

— Ei!

— Hoje é dia 23 do 2 de 21, que somados dá mais 65. São 380, no total.

— Péraí, que matemática...

— Ah, ia esquecendo. Tem mais a idade do Papai Noel... Qual é a idade do Papai Noel, mesmo?

Ô. Ô...! Eu perguntei o preço, não os números da loto.

— Tá caro?

— Cê num tinha me dito que era 120, tudo?

— Se você lembra, perguntou pra quê?

*

Ô Allan, brigada! Você me salvou de fazer um papelão com o cliente. Já pensou eu entregar o carro pro cliente com o banco novinho que acabamos de substituir, com um furo de chave de fenda.

— Magina, tem nada de agradecer, não. Era só um furinho...

— Furo. E num lugar tão visível. Eu teria que trocar. Quanto é?

— Tá maluca?

— Não, Allan, fala aí. Quanto eu te devo?

— Mas se você já pagou?

— Não, sério mesmo. Cê me tirou dum apuro.

— Tô falando sério, você já pagou.

— ...Quando?

— Ontem. Ou depois de amanhã, num lembro.

— Allan...

— Claro que pagou! Eu lembro como se fosse hoje. Era quarta-feira de um sábado à tarde.

— ...Hã?

— Faz o seguinte, põe na conta. Quando chegar a um euro, eu pago.

— Você me paga?

— Tchau! Da próxima vez, traz um chá ou um copo de grappa.

*

Meus clientes sofrem, mas se divertem.

 

Diário do futuro – dia 55

Pelo jeito vamos ter um hiato entre o inverno e o verão. Há uma semana eu levava o Shiva para passear na hora do almoço, com casaco de capuz, que é pra evitar congelar as orelhas. Hoje, camisa polo de manga curta.

*

Comprei gnocchi com recheio de gorgonzola e um pedaço de gorgonzola para comer com a filha. Sabe como é, molho de gorgonzola e grana combina com gnocchi de gorgonzola. A filha foi para a casa do namorado e comi o gorgonzola com pão. A filha voltou e comprei mais gorgonzola e a novela se repetiu. Hoje abri a geladeira e vi o gnocco abandonado naquele frio. Vai só com grana e manteiga, mesmo. Ponderei que o gnocco, fresco, poderia estar além do prazo de validade. Melhor não conferir. Se tudo andar bem, amanhã vou bisbilhotar a embalagem no lixo para saber se estava vencido ou não. Mas estava bom.

*

—Allan, eu queria te preguntar uma coisa, mas não sei se você vai se ofender.

— Sou hétero, não faço nada de imoral ou ilegal, sou extremista fanático da oposição de qualquer e todo governo e não tenho dinheiro para emprestar. Fala aí.

— Calma, eu só queria saber se você é argentino!

— Por quê?

— Porque eu sei que entre argentinos e brasileiros não corre bom sangue e não queria levar um soco no nariz. Você é argentino, né?

— Tira a máscara.

 

Diário do futuro – dia 56

Daí que o bode escorregou e ficou pendurado no abismo. Situação muito estranha, pois bode que é bode não escorrega nem fica pendurado em abismos. Além disso, o bode conhece bem a região, está acostumado a fugir da onça e a beber água no rio quando o jacaré não está por perto. O bode é – digamos assim – macaco velho. E sofre de vertigens; nunca se aproximou do abismo. Como aconteceu dele estar pendurado no abismo, eu não sei. Eu só sei que foi assim.

 

O sol esquenta a moleira do bicho. Olhos estalados, boca fechada, que bom cabrito não berra. No caso, bode. Mas tá lá, na beira do abismo. Ninguém sabe, ninguém viu como foi; coisa estranha mesmo. Não dá pra subir, pra baixo tá muito longe e também não dá pra ficar ali. E o bode que nem é de filosofar, quer apenas sair dali. Aguçando bem as orelhas, sente um respiro e farejar logo ali em cima. Mudo estava e mudo permaneceu.

 

Lá em baixo a água tem movimentos suspeitos. O bode estala os olhos e elimina definitivamente a alternativa de mergulhar lá de cima. Jacarés também não fazem escândalo. Nem quem ronda ali em cima. Presas e predadores são sempre silenciosos. Até a grama do bode cresce sem barulho. Um mundo mudo de armadilhas e escorregões, o importante é não dar na vista. E disso o bode sabia muito bem. Só não sabia como tinha ido parar numa situação daquelas, como iria sair e se escaparia de ser devorado. Em todo o caso, o silêncio é ouro. Matutar quieto. A torcida para ele tomar a decisão errada e deixar a pele é só o que existe. Matutar quieto.

 

A tardinha ameaça a virar noite, quando todos os gatos são pardos. Bode, onça, jacaré e a plateia espreitam o escuro para adivinhar o futuro, mas o futuro ainda nem é madrugada. Quando o Sol despontar, nem bode, onça ou jacaré estarão lá. O presente será passado e o bode – se sobreviver – não vai se gabar. Nem fazer escândalo. Só a grama vai saber se deu bode na cabeça, que nem tem no jogo do bicho, só no jogo de vida e da morte. Sem Severina, sem nada.

 

Como aconteceu de o bode estar pendurado no abismo, eu não sei. Eu só sei que foi assim.

(Domingo, 15 de junho de 2014)

 

Diário do futuro – dia 57

Às cinco da manhã a Lua estava indo embora. Inchada, cheia de luz, silenciosa, no finzinho do firmamento. Os melros, menos tímidos, anunciavam o fim da noite. Logo eles cantarão até às oito, oito e meia, mas agora só fazem barulho até o Sol clarear o céu, empurrando o escuro para longe.

 

A primavera parece ter chegado sem avisar as árvores, secas e preguiçosas. Como acontece quase sempre, o frio deve voltar. Aproveitamos a temperatura mais agradável para passear mais cedo, eu e o Shiva. O resto da cidade dorme, os caminhões de lixo passam um pouco mais tarde, um ou outro carro passa silencioso e não há mais o vento frio que congela as orelhas.

 

Ele caminha relaxado, cheirando os cheiros que só ele identifica. Talvez ele preferisse viver fora cidade, ter outros cheiros trazidos pelo vento, poder correr livre e ganhar o mundo. O fujão. O mundo, definitivamente, não estaria preparado. Ele lê meu pensamento e abana a cauda. Caminhamos.

 

Diário do futuro – dia 58

Sobre o gnocchi de outro dia, não fui controlar a data de validade no lixo. Controlei no outro pacote que ainda estava na geladeira. Mas antes, almocei gnocchi outra vez e só depois fui verificar: estava vencido a dez dias. Bem que eu achei mais saboroso que os anteriores.

*

A Sardenha é a primeira região a ser classificada como zona branca, na Itália. Isso não significa que podem se aglomerar ou abandonar as máscaras, mas que as restrições foram relaxadas, os restaurantes podem reabrir à noite e as demais atividades como cinemas, teatros, museus, serão reabertos gradualmente. A partir de segunda-feira, 1º de março, os sardos voltarão a circular mais livremente, apesar de algumas pequenas cidades da região estarem em lockdown. Tomara que sirvam de exemplo e que em breve todo o país possa gozar de mais liberdade.

 

Enquanto isso, um amigo brasileiro me manda uma mensagem dizendo: “Coronavírus é igual chifre. Você explica, mostra, avisa, mas o cara não acredita.”

 

Diário do futuro – dia 59

Quando o domingo de sol pede passeio, o Shiva responde imediatamente. Ele nos faz acreditar que passaria o dia inteiro na rua, mas chega uma hora que o que ele quer mesmo é o canto dele, a água fresca da bacia dele e carinho. Só voltamos para casa quando ele pediu arrego. Não sem antes correr atrás de lagartos, cheirar tocas, amassar muito mato e mijar dois hectolitros.

*

Nada é difícil quando tudo é fácil.

Sunday, February 21, 2021

Diário do futuro - 8

Diário do futuro – dia 46

Sim, eu sei. Errei de novo os dias desse diário. Consertei nesse. E vou deixar o resto como está.

*

Pessoal [falso tom de entusiasmo para chamar a atenção], começou um novo governo na Itália. [Arregale os olhos como se fosse uma novidade, vai.] Draghi é o novo primeiro-ministro e juntou serpentes, raposas e gaviões num balaio de gatos que nem te conto. Se antes não tinha poltrona pra todo mundo, agora todo mundo tem poltrona. O país p r e c i s a  de um governo estável, só que o mau humor já começou. Pode demorar um pouquinho ou um poucão, é só uma questão de tempo. Vai dar merda.

*

Shivinha zen só durou um dia. Domingo já estava botando fogo na praça. Adoramos a Dafne.

 

Diário do futuro – dia 47

Brasil e Itália são duas obras de arte. A Itália é “A tentação de Santo Antônio”, de Dalí, pintada por Picasso. O Brasil é o rascunho de “Guernica”, de Picasso, rabiscado por Dalí.

 

Diário do futuro – dia 48

— Duas xícaras de açúcar.

— Duas? Vou colocar quatro, eu gosto bem doce.

— Vai ficar muito doce, ninguém vai aguentar comer.

— Três, então.

— …Ai! Vai ficar muito doce.

— Eu gosto, ué! Que mais?

— Quatro ovos.

— Ovos? E o colesterol?

— Não, já passou. Agora ovo faz bem, tá na moda.

— Então coloco cinco.

— Cê tem certeza que quer eu continue falando a receita?

— Ué, e vou fazer como? Quanto de queijo?

— Queijo? Tem nenhum queijo nessa receita não.

— Como não? Toda receita tem queijo. Queijo é vida, pode colocar até em receita de sorvete que fica bom. Vai ter queijo sim.

— Desisto.

— Desiste do que? ‘Xa de besteira e vai lendo essa receita aí.

— Num é melhor fazer da sua cabeça? Cê tá bagunçando toda a receita...

— Na-na-ni-na-não! Vai lendo que eu te sigo. Olha, tenho mel no armário.

— Mel, não. Cê já colocou açúcar demais, se puser mel também vai virar um grude doce pra cacete.

Ôxe! Mel é bom, dá sustança.

— Cê vai morrer de diabetes.

— Todo mundo tem que morrer de alguma coisa. Pelo menos vou morrer doce. E com uma pitada de canela.

— Pra quê canela?

— Pra dar um gostinho, ora. Eu coloco canela e pimenta do reino em tudo.

— E se eu pedisse pra doceria entregar...

— Que isso? Confia na minha capacidade culinária não, é? Já tô com a mão na massa, daqui a pouco a gente saboreia essa “diliça”. Abre uma gelada aí pra nós.

— Abro sim, mas vou tomar cerveja não.

— Com esse calor? E vai tomar o que?

— Uma caca-cola ou um sal de frutas; o que achar primeiro.

 

Diário do futuro – dia 49

Uma menina brasileira, adotada por um casal italiano, foi acompanhada pelo pai até a estação, mediu a temperatura, que era normal e, de máscara, subiu no trem para ir à escola. Infelizmente espirrou duas vezes e uma passageira reclamou dizendo que eram os negros, como ela, a trazer o vírus para a Itália. Saiu à procura do fiscal do trem, voltou com um senhor com o uniforme que a fez descer na estação seguinte. Não era o fiscal, mas a menina teve que esperar meia hora pelo próximo trem. Chamou a família chorando. Vai terminar em pizza.

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Um em cada cinco profissional de saúde (médicos, enfermeiros e auxiliares) italiano escolhe não ser vacinado. Além do absurdo e do fato que não existe uma lei obrigando à vacinação, os administradores sanitários não sabem se os mantém na condição de acidentes de trabalho ou se simplesmente doentes. Plantar batata ninguém quer.

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A treinadora da seleção iraniana de esqui não pode viajar para o campeonato mundial que acontece em Cortina, na Itália. Uma lei do Irã estabelece que o passaporte é fornecido pelas autoridades do país, mas a autorização para a mulher viajar tem que ser dada pelo marido e ele recusou. Não reduz o mal-estar, mas a seleção italiana sempre teve treinador homem. “País que vai, costume que encontra” (ditado italiano).

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A partir de segunda-feira as cores das regiões, que estabelecem os tipos de medidas restritivas em função do vírus, vai mudar. Algumas que estão na faixa amarela voltam à laranja. Como a Emilia-Romagna, onde vivemos. Prevejo um fim de semana de orgia. Por outro lado, a região Valle D’Aosta, bem, mas beeeeeem no Norte, deve se tornar a única a ser classificada como “zona branca”, depois de três semanas com menos 50 novos contágios para cada 100 mil habitantes. Bom para eles, os valdostanos. Nenhuma pessoa de outra região poderá entrar lá.

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Se na Itália não existe uma lei que obrigue à vacinação, o Estado do Vaticano já avisou que os funcionários que se recusarem a tomar a vacina – que foi disponibilizada para todos os habitantes e dependentes – sofrerão consequências, que podem chegar à demissão. “País que vai...”

 

Diário do futuro – dia 50

Parei num semáforo e uma abelha pousou no para-brisa do carro. Fiquei com medo de a levar para longe ou dela desgrudar quando estivesse em movimento e se esborrachar no carro de trás. Virei à direita bem devagar e estacionei sob uma das árvores existentes, imaginando ser o bairro dela. A pequena permaneceu imóvel e desliguei o carro. Acho que dormiu. Desci com o cuidado de fechar o vidro para evitar que ela acabasse entrando, piorando a situação. Também não bati a porta para não assustar a bichinha. Não havia nenhuma outra abelha visível, as árvores ainda hibernam. Bom, pelo menos aquele tipo de árvore. Uns arbustos de um verde cansado devem ocultar a colmeia. Ou ela estaria dentro do telhado das casas, ou em alguma caixa de um apicultor das imediações, sei lá. Será que elas aguentam o frio? Migram? Mas migrariam coladas nos para-brisas, congeladas pelo vento?

 

Me imagino uma abelha, com baldes de madeira cheios de pólen. Baldes enormes e pesados. Mais pesados que todo o pólen recolhido e distribuído de planta em planta. O dia inteiro pra lá e pra cá, arrastando aqueles meio barris por sabe-se lá quantas horas. Acho que eu também escolheria descansar num para-brisa. Ufa, que cansaço!

 

Diário do futuro – dia 51

Tô aqui preguiçando nesse fim de sábado em família. Eu, Eloá, Luiza e Shiva, que a Bianca não pode vir a Piacenza. Ela mora na Lombardia e é proibido ir a outra região. Tudo muito tranquilo, temperatura de onze graus, cachorro passeado e mimado, etecetera e tal. Claro que a Lu saiu. Consequentemente, ela voltou, mas voltou com um sorvete. Era isso! Botei um sapato – dois, na verdade. Um em cada pé – e desci a escada vestindo o casaco e a máscara, atravessei a rua e fui comprar sorvete pra mim. Dois grandes. Chocolate amargo com creme crocante e chocolate amargo com tangerina e gengibre. Menos de um quilo de sorvete, que a essa é melhor não exagerar. Sábado terminando, ruas desertas, a turma dormindo e eu aqui, dando boa noite a você.

 

Diário do futuro – dia 52

Em 30 de janeiro de 2020 foram registrados dois casos de Covid em Roma. Um casal de turistas chineses testou positivo, foi isolado e curado em um hospital da capital. No dia 21 de fevereiro, a notícia de um primeiro caso em Codogno [kodônho], uma cidade da província de Lodi [lódi], na região Lombardia, a 12 quilômetros de Piacenza [piatchêndza], onde moramos. No dia seguinte, mais 60 casos foram registrados nas imediações de Codogno, com duas mortes confirmadas. Em menos de 72 horas da identificação daquele que foi considerado o “paciente 1”, Codogno foi isolada pelo exército.

 

Um ano se passou. O número complexivo de contágios é 2.809.246, com 2.324.633 pacientes curados e um total de 95.718 mortes. A catástrofe só não foi pior porque a Ciência fez um trabalho excepcional, os profissionais de saúde foram muito além do normal dia a dia, com sacrifícios exasperantes e pelas medidas restritivas impostas.

 

O cansaço de quem se isolou soma-se à frustração diante de atitudes negacionistas e do pouco caso de boa parte da população. A humanidade está perdendo a melhor oportunidade de aprender a se comportar como um único organismo. Estamos pagando caro pelas consequências e a conta ainda não acabou.

 

Negar a pandemia ou encontrar um culpado não fará com que ela desapareça. Irá, isso sim, nos deixar mais longe da lição que deveríamos ter aprendido e mais frágeis para as próximas.