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sábado, maio 30, 2026

Tempo doido

Sexta-feira atípica. Até dez dias atrás, o frio nos fazia torcer por dias mais agradáveis. Afinal é primavera. A prima da Eloá veio com a filha aproveitar o clima ameno. Ela mora em Sampa, a filha, nos Estados Unidos. Cobertas e casacos. Carregaram a Eloá pelo Norte da Itália por dez dias. Comeram, beberam (pouco – a filha tem obsessão por água. Já cogitou viagem pra tomar a água local do destino...), foram pra spa, visitaram parentes, saíram da Itália e a festa chegou a fim com um mundo de fotografias, boas lembranças e o coração quentinho.

Segunda e terça foram dias tão cheios e corridos, que acordei na quarta agradecendo por ser sexta-feira. Não era. Quarta e quinta o ritmo foi muito, muito maior e perdi a noção do tempo. Nem sabia em que mês estamos, mas continuava a achar que todo dia era sexta-feira. Ou sábado. Não era. Hoje, vejam só, não tive um serviço sequer. Girei que nem barata tonta, que nem.

As hóspedes, que levamos para conhecer Cremona (aqui pertinho) na semana passada, se agasalharam e se entusiasmaram com a cidade de Stradivarius e com a nossa Piacenza. Compensaram com o calor pornográfico dessa semana, daqueles que faz arrepiar o estômago só de pensar em casaco.

Para concluir, minha filha avisou que não vai trabalhar na segunda-feira.

— Ué, por que, filha?

— Porque tirar folga no feriadão?

— ...Feriadão?

— É, pai. Terça é feriado!

— Que feriado maluco é esse que aparece de repente?

— Festa da República, lembra? 2 de junho de 1946, quando o povo escolheu num referendo a república e mandou ao exílio a família Savoia que reinava na Itália.

— Lembro não. Na verdade, eu nem tinha nascido.

 

Sexta, sábado, domingo, segunda e terça. Cinco dias imaginando o que fazer para não enlouquecer com esse calor dos inferno.

 

 

domingo, junho 16, 2019

Cavalos suados


O sol filtra pelas frestas entre as tábuas e pela porta entreaberta. A poeira move-se num lento e desordenado movimento dentro dos fachos de luz. Sombras pelos cantos, silêncio no ar. Metade da manhã já se foi, como tudo, de resto. O calor não chega a incomodar, só as lembranças.

Aproximando o nariz, as pranchas que formam as paredes cheiram a madeira velha. Madeira de muitos anos, de uma árvore que morreu e deixou o melhor de si como abrigo. Foi sendo consumida pelo tempo até perder todas as farpas e arestas para, apesar da rigidez, tornar-se macia ao tato, rachaduras arredondadas.

O chão de terra batida, tantas vezes pisado, parece cimento. Nenhum sinal de cascos ou botinas. Nenhum sinal. Só a rigidez desse chão que cedo ou tarde tudo cobre. A superfície que nunca esteve em outro lugar senão aqui e que, ao mesmo tempo, nos liga uns aos outros. Acima e abaixo dela. Um jovem passa correndo lá fora. Não, não é real. É só uma dor que paralisa a respiração e cria mais uma sombra nesse dia ensolarado.

Tudo cheira a esterco e, talvez até por isso, é agradável. Depois de hoje, não será mais possível apreciar novamente esse cheiro, tenho certeza. Como o perfume agradável que se mostra insuportável após o primeiro minuto. Madeira, esterco, suor de cavalo, palha seca e feno. Movendo-se os cheiros se alternam, ora mais nítidos, ora só a memória.

Fardos desfeitos de palha seca, espalhados para impedir a umidade e dar aconchego aos bichos. É uma palha dura que espeta e acolhe ao mesmo tempo. É possível passar uma tarde largado sobre ela, partindo os talos secos com os dedos, se questionando sobre dores e perdas, torcendo para que o coração pare de repente. Quem sabe se a palha protege e conforta? É provável que exista um momento em que não se precise mais de conforto nem consolo, a palha se torna inútil e desapareça pelos ventos, absorvida pelo solo, destino do mundo, destino das ideais que levam jovens para longe das palhas e dos estercos que não os trazem de volta.

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sexta-feira, maio 24, 2019

Maio na Itália

A surrealidade virou cotidiano. Nesse mês já tivemos frio com temperaturas invernais, neblina – neblina em maio! –, chuva, muita chuva, neve e ventania. Finalmente hoje parece que a primavera chegou. Os pernilongos, ainda não. Devem chegar amanhã, aposto. Até vi algumas andorinhas, as que sobreviveram. Sim, porque as que vieram antes foram dizimadas. Na última vez que tivemos um maio assim, era novembro.

Esse também é o mês das primeiras “corridas” de carros antigos, o que torna os centros das velhas cidades em paisagens românticos e coloridos. Como as flores que teriam florescidos, não fosse o clima. E é, também, o mês do Firo d’Italia, a corrida ciclística de rua mais importante da península e uma das mais importantes da Europa. Nunca ouviu falar? Não se preocupe, você está em companhia de milhões (talvez, bilhões) de pessoas. Mas aqui é um dos maiores eventos esportivos que ocorre anualmente.


(Prova 1000 Miglia 2015 - etapa de Piacenza) Allan Robert PJ


Essas provas de rua são profissionais e organizadas por equipes com corredores de toda parte do mundo. Numa mesma equipe podem correr estrangeiros, o que importa é a qualidade e experiência. Cada equipe tem um capitão e diversos gregários, empenhados a proteger o capitão, obedecendo a tática da equipe. Tática?, você estará perguntando. Sim, não basta ser bom no pedal, tem que agir como equipe. São vinte e um dias, mais dois de descanso, para cobrir 21 etapas, num total de 3.579,8 quilômetros e uma média de 170 quilômetros por dia. Existem etapas mais fáceis, médias e difíceis (pense em pedalar montanha acima, através daquelas estradinhas estreitas com “acostamentos” (isso não existe naquelas estradinhas estreitas) cobertos de até dois metros de neve). Por isso, as equipes devem contar com especialistas “escaladores”, que dão o melhor de si em subidas e com velocistas, para as etapas planas.

O capitão é o corredor com mais experiência, escolhido para vencer a prova pela equipe. Andar de bicicleta na cidade é mais fácil – e perigoso – que uma prova de rua/estrada. Quinze, vinte minutos no pedal e o passeio foi bom. Mas nessas provas ciclísticas, é importante endossar trajes e capacetes aerodinâmicos, além da bicicleta levíssima, altamente tecnológica e cara pra burro. A resistência do vento é algo inimaginável para o ciclista amador. E aí é um dos pontos importantes da tática de corrida. Os gregários devem ir na frente, revezando-se quando o ritmo cai e deixando o capitão em posição protegida do muro de ar que vão quebrando. Isso na teoria, porque os adversários têm a mesma tática e vai todo mundo embolado, sempre respeitando a formação voo de cisne. Vez ou outra, alguém tenta uma fuga. Que pode acabar com uma vitória, um lugar ao pódio ou lá atrás, quando acaba o fôlego do corredor ou corredores fujões.

 (Giro d'Italia 2010 - etapa de Piacenza) Allan Robert PJ

Tô tentando me concentrar no giro pra não pensar na guerra pelas eleições para o Parlamento Europeu, domingo dia 26. Não, gente, melhor falar que nesse mês tem um monte de evento acontecendo na cidade, muito festeira, aliás. Um mineiro que veio fazer um curso de cirurgia com um renomado otorrinolaringologista daqui, se surpreendeu com a quantidade de festas. “Rapaz, aqui tem mais festa que em Belo Horizonte”, disse ele. Mas domingo é depois de amanhã e estou ansioso e com medo dos rumos dessa velha Europa. Melhor ir ali fora e aproveitar essa noite fresca de primavera. Ainda sem pernilongos. Mas na eleição vai ter. Aposto.

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segunda-feira, maio 05, 2014

Sei lá, sabe?



Tem dias que estou meio estranho, mas não é esse o caso. Quem anda estranho mesmo é o clima. Esse costumava ser o período da primavera, dos dias frescos e noites amenas. O problema é que parece que nada funciona como deveria.

Normalmente os aquecedores já teriam sido desligados antes do meio de abril, mas maio avança e eles continuam acesos. Ainda bem, pois dormir com o frio dessas noites seria complicado. Nem os pernilongos deram as caras, ainda. Tenho certeza de que o verão vai começar de repente, sufocando todo mundo com a umidade da Planície Padana.

Acho que eu preferia como era antes, com as estações definidas e o clima sem essa indecisão. Hoje foi difícil entrar no carro antes que ele esfriasse. O Sol começa a se por e o frio já me dá boa noite. Tá tudo errado. E nem é só com o clima.

Quer saber? Vou abrir um vinho.

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domingo, abril 20, 2014

O ovo de Páscoa



O hábito de presentar ovos é antigo. Os persas já trocavam simples ovos de galinha para comemorar a primavera no hemisfério norte. Logo depois, os egípcios, que consideravam o início da estação como o início do ano. Também gregos e chineses tinham o costume de presentear com ovos no início da primavera, ocasionalmente decorados com pinturas rudimentares. Na Beócia (antiga região grega),  foram encontradas estátuas de Dionísio com um ovo na mão, como símbolo do retorno à vida. Sim, o ovo é o símbolo da ressurreição e da fertilidade: parece uma pedra, sem vida, quando – na realidade – está abrigando a metamorfose que se revelará em uma nova vida. Pelo mesmo motivo, representa o renascimento, o início de um novo ciclo. De dentro para fora.

Os ovos coloridos da Páscoa remetem às cores da primavera, mas a ideia de fazê-los de chocolate é o que mais me fascina. Melhor de tudo: nos últimos anos já chegam aos supermercados com ofertas e descontos – crise? Decidi que vou guardar as notas deste ano e comparar com os preços do ano que vem. Os empresários italianos estão descobrindo o ovo de Colombo. A cada ano novos produtores de ovos de Páscoa apresentam ao mercado os produtos “exclusivos” a preços especiais. O que eles fazem com as sobras é um dos mistérios do Universo.

Junte ao ovo as muitas lendas sobre o chocolate: o deus azteca Quetzcoalt – assim como Prometeu fez com o fogo – teria roubado dos deuses as sementes para dar aos homens uma bebida energética e, por isso, teria sido banido. Outras lendas contam de uma princesa ou serpente. O chocolate ainda teria sido usado pelos astecas como elixir, oferenda em sacrifícios, moeda de troca e afrodisíaco. Montezuma bebia uma infusão de sementes de cacau torradas e moídas, pimenta, canela e baunilha, antes de ir para o seu harém. A mesma bebida que ofereceu ao conquistador espanhol Hernando Cortez, confundindo-o com um deus.

O ovo tem a forma de um olho. O olho que vê a vida dentro de si, vê o futuro. Que a Páscoa seja cada vez mais um momento de renascimento. A oportunidade para ressurgir numa nova vida, com as curvas amenas de um ovo, com o doce amargo cheio de energia do chocolate.

Boa Páscoa!
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