Começou o horário de verão e o dia amanheceu lindo. Finalmente um domingo de sol. Tirei o Berto do sofá e fomos passear, pouco antes da nove (uma hora mais tarde, por conta da mudança). Levei-o ao jardim perto de casa – aquele onde foi encontrado o Klimt roubado – e, depois, ao Faxhall, que é uma rua paralela à nossa, fechada ao tráfego, construída sobre os antigos muros da cidade. Muitas árvores, bancos, dois parques infantis, três bares e muita gente. Mas não àquela hora de uma manhã de domingo, quando costuma ser ocupada por tutores e cães e gente correndo. Hoje tinha uma multidão em roupas de festa comemorando o fim do Ramadã. Uma multidão mesmo. É um espetáculo de sorrisos, crianças por todas as partes, adultos, idosos e muita cor. Fico maravilhado com as cores das roupas de alguns e sequer pensei em fotografar. Estava apenas apreciando a alegria deles.
Carta da Itália
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
domingo, março 30, 2025
O Ramadã é uma festa de cores e sorrisos
terça-feira, janeiro 14, 2025
A cozinha italiana não existe
Terminei a leitura do livro “La cucina italiana
non esiste”, de Alberto Grandi e Daniele Soffiati. Grandi
é professor de história da alimentação na Universidade de Parma. Soffiati é um
escritor e crítico de cinema, além de apresentador, junto a Grandi, do podcast
“DOI – Denominazione di Origine Inventata”, mesmo título do livro de Grandi,
publicado no Brasil como “As mentiras da nonna”. Eles esclarecem que a cozinha
italiana é boa por ser recente, e não por contar com séculos de tradição,
apresentando uma perspectiva diferente da ideia estática de “autenticidade”:
“A cozinha italiana é uma invenção recente e uma mentira do marketing.”
Existem
ressalvas, como o queijo do tipo grana (Grana Padano, Parmigiano Reggiano,
Trentingrana e Granone Lodigiano, entre outras marcas), mas uma coisa é afirmar
que a região produz queijo a séculos, outra coisa é dizer que o queijo do tipo grana
tem mil anos.
Com
uma bibliografia de respeito, explicam como a migração às Américas no fim do
século XIX representou um papel importante na formação de uma identidade
gastronômica italiana. A maioria dos emigrantes eram camponeses pobres e com
fome, que não compartilhavam uma cultura comum. Sequer a língua era a mesma,
pois os dialetos eram (e são) diferentes. Foi através da comida que os
italianos se reconheceram como povo. E aí entra em cena Pellegrino Artusi (1820/1911)
e as muitas edições do seu livro “A ciência na cozinha e a arte de comer bem”,
com receitas que circulavam entre as famílias mais ricas. Receitas que eram
modificadas a cada nova edição por sugestões das leitoras, que também sugeriam as
novas receitas adicionadas. O livro (que ultrapassou um milhão de cópias
vendidas, um verdadeiro best seller para um livro publicado pela
primeira vez em 1891) foi distribuído pelo Círculo Dante Alighieri aos italianos
expatriados e os levou a descobrir as receitas que nunca haviam experimentados
na Itália. Contudo, é preciso ponderar que uma receita publicada é apenas uma
pedra no quebra-cabeça da história culinária. Ela pode, por exemplo, ter
servido apenas para mostrar a habilidade de um chef da época, e não significa
que a população local, desnutrida e esfomeada, tivesse acesso a ela.
Um
argumento divertido é o que trata de inventar referências remotas para temperar
receitas e produtos (queijos, embutidos...): “Ah, mas o romanos já comiam a
feijoada” é somente uma das tantas lendas que se ouve por aqui. Lendas que
Grandi e Soffiati desmistificam. Alguns exemplos:
·
O panetone não foi
inventado por um ajudante de cozinha chamado Toni, em 1495. Foi o confeiteiro milanês
Angelo Motta, em 1919, a modificar a receita daquele pão doce simples, adicionando
as frutas cristalizadas e passas e alterando a fermentação para que ficasse
alto e macio. Do sucesso da confeitaria, nasceu a primeira fábrica do doce,
denominado Panettone Motta. O amado panetone foi desenvolvido e distribuído
graças a industrialização.
·
A Cipolla Rossa di
Tropea IGP é uma cebola com casca e estrias internas roxas. A Indicação
Geográfica Protegida (IGP) é um selo que pode ser dado a produtos com pelo
menos uma operação executada no território. Pois a cebola mais cara dos
supermercados italianos cumpre essa regra: o porto e a estação ferroviária
locais recebem a cebola colhida alhures, a embala e vende com a etiqueta e o
selo IGP. Na cidade de menos de seis mil habitantes de Tropea, na Calábria, não
se planta cebola. De nenhuma cor. Um outro produto muito consumido por aqui, a
Bresaola Della Valtellina IGP, da tradicional marca Rigamonti, foi adquirida
pela brasileira JBS e é produzida com carne 100% brasileira [o caso da bresaola
é informação minha e não está no livro].
·
A pizza, de origem
árabe, era consumida em Nápoles como comida de rua, nos lugares mais mal
frequentados da cidade. Não existia receita, cada um fazia como podia,
utilizando o que tinha de mais barato, modificando o pouco recheio quase
diariamente. Apesar disso, o primeiro estabelecimento a produzir e vender exclusivamente
pizza abriu em Manhattan. Os italianos que retornavam se assustavam com a
ausência de pizzarias na Itália.
Ainda evidenciam, os autores, o esforço em ligar a qualidade ao
território, à tradição e à capacidade transformar cada pedaço de terra italiano
em um único lugar possível para determinada receita, queijo, vinho, hortaliça,
embutido, etc.
Achei o livro muito mais didático e menos polêmico que o anterior, “DOI
– Denominazione di Origine Inventada”: Alberto Grandi é hostilizado desde o
lançamento do “DOI...” Chegaram a pedir o exílio dele, apesar dos muitos professores
e profissionais entrevistados no podcast, se mostrarem menos indulgentes com o
marketing em detrimento da história que Grandi. A invenção da tradição
tornou-se a tradição da invenção.
A última lição é a que eles deixam claro desde o início: a cozinha
italiana existe e é ótima, mas fruto da inovação, e não de receitas com séculos
de tradição. Como todas as outras.
domingo, dezembro 15, 2024
Francesco De Gregori – Titanic – tradução
Essa música, de Francesco De Gregori, cria bem o clima no navio antes da interrupção da viagem. A melodia brinca com ritmos caribenhos e a história é vista por diversos personagens, onde até mesmo os da terceira classe estão felizes. Está inserida no álbum Titanic, lançado em 1982. Em poucas palavras, aproveite a vida antes o iceberg.
Titanic
A primeira classe custa
mil liras, a segunda cem,
a terceira dor e susto.
E cheira a suor da
escotilha e cheiro de mar morto.
Senhor Capitão me
escute bem,
Eu tenho as mil liras
boas e prontas,
Na primeira classe
quero viajar neste esplêndido mar.
Tem também minha filha
de quinze anos
e em Paris comprou um
chapéu,
Se nos convidasse para
jantar em sua mesa hoje à noite,
como seria bom.
E com a orquestra que
nos acompanha
Com esses novos ritmos
americanos,
Saudaremos à
Grã-Bretanha
com um copo nas mãos
E com o gelo dentro do
copo
Faremos um brinde
tilintante,
À esta viagem global,
À esta lua gigante.
Mas quem disse que na
terceira classe,
que na terceira classe se
viaja mal,
Esse beliche parece uma
cama de casal, é melhor do que no hospital.
Nós, de cafonas, sempre
fomos chamados
mas aqui nos tratam
como cavalheiros,
que quando chove você
pode ficar dentro,
mas com bom tempo
saímos.
Neste mar tão negro
quanto petróleo
Para admirar esta lua metálica
e quando as sirenes
soam,
quase parece que canta o
galo.
Quase parece que o gelo
que temos no coração vai
lentamente
derretendo
no meio da fumaça deste
vapor
dessas férias em alto
mar.
E gira, gira, gira, gira a hélice gira,
gira, que chove e neva,
para nós, jovens da
terceira classe
que para não morrer vamos
para a América.
E o operador de rádio
em sua torre,
os longos dedos azuis
no ar,
E transmitia saudações
e esperanças
para este cruzeiro extraordinário.
mensagens de saudação
recebidas
em quase todas as
línguas do mundo,
se comunicava entre
Viena e Chicago
em pouco menos de um
segundo.
E a garota de primeira
classe,
apaixonada por seu
chapéu,
Quando o viu dançando à
noite,
o achou muito bonito.
Talvez por causa
daqueles olhos de gelo
tão difíceis de evitar,
pensou "Talvez com
um pouco de coragem,
antes do final eu vou
deixá-lo me beijar".
E como é bela a vida
esta noite, entre o amor que atrai
e um pai que reza,
para nós, garotas de
primeira classe
que para se casar vamos
à América,
para nós, garotas de
primeira classe
que para se casar vamos
à América,
para nós, garotas de
primeira classe
que para se casar vamos
à América.
domingo, novembro 24, 2024
Berto
Esse é o Berto, o mais recente agregado à família, adotado tem quase três meses. O pimentinha do canil era um forte candidato à lista dos cães não adotáveis, por seu comportamento agressivo. “O Prefeito”, era como o chamavam no canil da cidade. À exceção da doce Teresa, mordeu todo o exército de voluntários e funcionários do canil.
Como manda a tradição, não fomos nós que o escolhemos, mas ele a nós. Ao voltarmos dos passeios que fizemos pelos campos em torno do canil, sempre sob a supervisão de Teresa, os temerosos operadores gesticulavam pelas nossas costas quando entrávamos: “mas que gente é essa? De onde vêm? Vão mesmo adotar a fera?...” numa mistura de estupor e revolta. Berto, indiferente, caminhava tranquilo ao nosso lado, com guia e peitoral, nos passinhos ritmados, tip tap, cauda balançando e direito a colo e beijinhos. “Mas que gente é essa?”
Teresa ria, sabia que nós teríamos a coragem de tirar o Berto de trás dos alambrados e oferecer a ele carinho, amor, cuidados e muitos lugares mais confortáveis para dormir. E muitos, muitos passeios. Ela nos acompanhou na adoção do Shiva, em 2017 e do Garcia, em 2014. Nos conhece bem.
Mas voltamos ao primeiro semestre de 2023 para contar como Berto chegou ao Canil. Depois de alguns dias vagando pelas ruas da periferia da cidade, finalmente o serviço de proteção animal conseguiu capturar o monstro de sete quilos, numa emboscada que reuniu funcionários experientes. Foi pego no laço; impossível se aproximar dele sem arriscar a pele. Sem microchip, foi anunciado de muitas formas (jornais, mídias sociais, etc.), esperando que o tutor fosse resgatá-lo no canil. Sim, teria que arcar com o custo da captura, da implantação do microchip e da multa, mas é assim que deve ser. Apesar dos muitos apelos e de todo mundo saber aonde vão parar os cães abandonados, ninguém se apresentou. E Berto – esse foi o nome que recebeu no canil – passou quase dois anos atrás de um alambrado, bem cuidado e protegido, e somente a Teresa que o levava a passear nos campos em volta da estrutura.
A quase dois meses da chegada do nosso pequenino, ainda não me conformo de não poder chama-lo de bagunceiro, peste, pilantra. Não, Berto é o cão mais doce que já tive na vida. Faz amizade com todo mundo, brinca com todos os cães que não tentam mordê-lo, é obediente, não faz bagunça, não destruiu nada e está aprendendo a brincar com alguns brinquedos. Apaixonou-se pelo Filippo, o veterinário que o examinou cuidadosamente, espetou duas patas e o pescoço (resmungou, mas não tentou morder e permaneceu quieto enquanto eu o segurava). Não late, não uiva e raramente rosna. Se um cão não aceita a aproximação e late, Berto aponta calmamente o focinho noutra direção e ignora. Ignora. Sem estresse.
E cá estamos nós noutra viagem sem
volta. Como manda a tradição, Berto não é um substituto. E esse é o tempo de
ele receber o nosso amor e carinho. E muito, muito cafuné. Que é só o que ele
pede.
quinta-feira, novembro 23, 2023
DOI Denominação de Origem Inventada - DOI Denominazione di Origine Inventata
DENOMINAZIONE DI ORIGINE INVENTATA Alberto Grandi (Mãntua, Itália – 1967) é um professor associado da Universidade de Parma. Ensina História das Empresas, História da Integração Europeia, História Econômica e História da Alimentação. Publicou diversas teses, artigos e livros, ficou famoso ao publicar em janeiro de 2018 “DOI – Denominazione di Origine Inventata”, livro que rapidamente transformou-se num best-seller. O sucesso foi tão grande que nasceu um podcast (em Italiano) com o mesmo nome, que já chegou à terceira estação.
domingo, julho 16, 2023
Cardápio sazonal italiano
Uma amiga escreveu sobre cardápio semanal de
restaurantes de São Paulo (Segunda: virado à paulista; terça:
dobradinha ou bife a rolê; quarta: feijoada; quinta: massa; sexta: peixe; sábado:
feijoada) e lembrei de uma
atitude que sempre me intrigou. Por que comemos feijoada no verão? Vejam bem,
sou carioca e adoro feijoada. Ia ao Largo da Carioca (ou na Lapa, ou em Santa
Teresa, ou no CADEG...) comer feijoada em qualquer época do ano. É costume
local e não abria mão, mas eu tinha vinte anos.
Nem pense em pedir um ‘cacciucco ala livornese’ ou uma
‘ribollita’ em restaurantes italianos, no verão (ou um ‘einsben’ ou ‘kassler’
na Alemanha). São pratos de inverno. Vão te prender na mesma cela dos
estrangeiros que pedem capuccino depois do almoço e dos que põem ketchup na
pizza. Aqui os restaurantes têm, pelo menos, dois cardápios: de inverno e de
verão. E não só pela sazonalidade dos vegetais, mas principalmente pelo clima.
A oferta de chocolate nos supermercados, por exemplo, é muito reduzida a partir
da metade da primavera e vai até o a metade do outono.
O Natal brasileiro é a época em que comemos castanhas
portuguesas, longos assados, carne defumada e muito, muito doce. Assim como no
hemisfério norte.
As trattorias e osterias são as melhores opções para
se comer bem, na Itália. Além de ‘pasta in bianco’ (sem molho) e um ou outro
prato típico, o menu é montado pela manhã, depois que a cozinheira ou
cozinheiro voltar do mercado. A escolha do que comprar leva em consideração os
produtos da época e o preço. Nessa ordem.
Um amigo italiano contou que foi visitar a filial brasileira da multinacional em que trabalha. Um rapaz simpático foi designado para ser seu cicerone. No último dia o acompanhante programou um jantar num restaurante e aproveitou para levar a esposa. “Você não pode sair do Brasil sem conhecer o prato típico da nossa cultura.” E lá foi o gringo se esbaldar com a nossa feijoada. Do restaurante foram direto para o aeroporto para as quase doze horas de viagem, quando se despediram. E do aeroporto italiano direto para o hospital. “A minha vingança será terrível”, disse. Vai se frustrar, brasileiro não dá bola para sazonalidade. Mesmo que passe mal.
Receita de cacciucco alla livorneseterça-feira, junho 13, 2023
Shiva - 15.4.2014 / 12.6.2023