segunda-feira, setembro 16, 2013

Sepultado em casa



Luca: ...ali, a chave treze está ali. Bem na sua frente.

Eu: na minha frente tem uma confusão enorme.

Luca: ...na caixa de madeira.

Eu: qual?

Luca: aquela baixa.

Eu: qual?

Luca: aquela em cima da bancada... da segunda bancada. A caixa coberta com um plástico.

Eu: Luca, quando é que você vai arrumar ese estábulo?

Luca: pra quê? Eu encontro tudo aqui dentro.

Eu: ah, é? E a mesinha do telefone?

Luca: bom, aquela eu ainda não achei. Mas que tá aqui dentro, ah, isso tá!

Eu: ...as almofadas daquela poltrona amarela? O abatjour de que você me falou? A furadeira que lhe emprestei...?

Luca: tá tudo aqui dentro. Provavelmente atrás dos móveis do meu tio. Falta coragem para resgatar. Atrás dos móveis do tio de Parma, não dos móveis do tio de Fornovo.

Eu: e pra quê diabos você coleciona tudo o que é velharia dos seus parentes?

Luca: um dia pode servir.

Eu: ‘cê acha mesmo que um dia vai precisar de tudo isso?

Luca: talvez, mas eu é que não vou jogar fora pra me arrepender no dia seguinte.

Eu: pelo menos jogue fora o que não funciona mais. Quantos compressores você tem?

Luca: cinco. Mas e se precisar de alguma peça? Posso usar as peças dos compressores velhos.

Eu: meio difícil. Só tem um compressor funcionando. Acho que você já canibalizou o suficiente.

Luca: e tem muita coisa que posso vender como antiguidade. Dia desses vou fazer uma grana preta.

Eu: dia desses não vai chegar nunca, duvido que você tenha coragem de se desfazer de alguma coisa aqui dentro. Nem vou me assustar se encontrar algum cavalo ainda vivendo por aqui.

Luca: cavalo, não, mas noutro dia achei uns gatos. Uma gata selvagem pariu aqui dentro e os filhotes começaram a se aventurar por cima da tralha.

Eu: acredito. Gatas escolhem parir onde têm certeza de que não serão perturbadas. Pelo menos devem ter acabado com os ratos.

Luca: tá maluco? Aqui não tem rato. Eu troco sempre as iscas para ratos. Mas tem muita ração para gatos.

Eu: aonde?

Luca: dentro daquela cristaleira branca. Três sacos.

Eu: e chaves treze, quantas tem?

Luca: umas cem, espalhadas por aí. Quer dizer, guardadas.

Eu: então, vê se acha uma delas, porque é a única que tá faltando nessa caixa.
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18 comentários:

  1. Já dizia um velho conhecido meu:
    "Quem guarda o que não presta sempre tem o que precisa."
    Embore não concorde, sempre guardei essa frase comigo :)

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  2. maray4:43 PM

    A frase que eu conheço a respeito é "quem guarda, tem". Eu completo que "tem tranqueira". Tenho uma filha assim. Pior até, porque ela responde às minhas argumentações com chantagens emocionais, tipo: "mas vc quer que eu jogue a única lembrança do vovô?"

    É duro, eu sei...

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  3. Olha... acumuladores podem ser precavidos, mas a coisa pode se tornar sem controle... rsrsrs, agora, basta jogar algo fora que realmente alguém dá falta...
    Eu vivo levando pitos dos meus aqui, porque logo dou um jeito de mandar para fora, rsrsrs.
    Abraços!

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  4. Medo de entrar em um lugar desses :-).

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  5. Eu não compartilho desta vontade de ter tudo e um pouco mais de coisas que nunca vou usar!
    Mas cadum, cadum!

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  6. ri muito!!!! achei otimo!!!
    beijos!!!!!!

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  7. eu também gosto de guardar tudo, imagine, que minha garagem estão tao cheia de coisas, que meu carro tem que ficar fora rs

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  8. Rolei de rir, Allan! Eu tenho uma amiga que herdou da mãe o poder de guardar qualquer coisa e ter uma casa do tipo entulho! Eu tenho aflição de visita-las, sequer aceito sentar!

    Contudo, eu tenho uma solução: me convide para ir aí, sou perita em jogar tudo fora, até o que não devia.

    Beijos

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  9. Já fui assim. Hoje, prefiro doar tudo o que não tem utilidade imediata.

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  10. Ahhh nao!
    Meu lema è MENOS E' MAIS!
    Sou super desapegada a bens materiais... se vejo que nao uso tem mais de 6 meses, dou, vendo, troco, jogo fora, mas na minha casinha?
    NEVER! Gosto de ar puro, liberdade e energia circulante! :)

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  11. Oi, Allan!
    Na hora que precisa, a preguiça de encontrar no meio da bagunça, fará sair para comprar.
    Eu sou um perigo para desfazer de coisas que pressumo desnecessárias...
    Beijus,

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  12. Pois é,Allan,eu tenho TOC e não ri nem um pouquinho pq sei como é difícil pra algumas´pessoas se desfazer de qualquer coisa...Tento jogar fora,mas é tão difícil que muitas vezes me pego procurando aquela roupa q já doei há muito tempo...Na verdade,isso é uma doença e como tal deve ser tratada.Inté!

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  13. Eu me identifiquei mesmo foi com a falta de organização. Coisas espalhadas por aí... até quem não guarda coisas desnecessárias tem esse problema!!

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  14. Anônimo2:00 AM

    Hehehe...
    Com tralhas não, porém com papéis sou meio "Luca".
    Se fôssemos racionais, criaríamos uma tabela de temporalidade.
    Manoel Carlos

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  15. Allan, aqui em casa o Luca é o marido, eu saio jogando tudo fora nas minhas arrumacoes, depois eu mesma me digo: ah que coisa que fui jogar aquilo fora agora tô precisando, rs.

    Acho que um pouquinho do Luca nao faz mal a ninguém, rs.

    Abracos ótimo texto, dei muita risada

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  16. Ai, Jesus! A filha herdou esta mania do pai! Eu vendo ou doo o excedente, e logo ela substitui por outras coisas.
    Difícil...
    Abraço, garoto

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  17. Nós devemos guarda o necessario,pois pra que tantas coisa, se não vou utiliza-las...

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