Ele
contava histórias do tempo da guerra. E
sorria um sorriso
tranquilo de quem há muito fez as
pazes com o passado. Riu muito ao contar quando uma bomba
explodiu na oficina onde
trabalhava, segundos depois dele ter saído
correndo, avisado pela sirene que lhe
berrava nos ouvidos; riu ainda mais quando contou
da segunda bomba, que caiu
no momento em que ele
espiava por trás da parede da casa vizinha para observar os estragos na oficina, e o deslocamento do ar o
jogou longe.
As pizzas saíam do
pequeno forno a lenha no quintal em quantidade industrial. A fome também era industrial (ou foi o Stefano
que se mostrou tão bom pizzaiolo
que acabou
atiçando a vontade de quero mais); o chá gelado
e a cerveja substituíram o
vinho. Uma lembrança puxa outra e as risadas
continuaram. Contou de ovos
escondidos na palha do estábulo da vizinha. Ovos devidamente
esvaziados através de um furo de agulha e
habilmente chupados pelos garotos que
cuidavam da propriedade da ávara senhora;
contou como dançavam à noite na penumbra, ao som do gramofone quebrado que
obrigava ao voluntário da vez a manter o aparelho em movimento;
contou dos bailes rastapés e dos
poucos salões de festas que
sobreviveram, num dos quais conheceu
Irene, a mãe do Stefano.
A primeira tempestade de Verão da temporada vai deixar saudades. Raios e trovões movimentavam
a mata que nos
envolvia. A Benê empenhada em nos fazer sentir a vontade na imensa varanda da casa de campo, de onde
observamos a chuva chegar
trazendo mais alvoroço que água. Nem as galinhas se
incomodaram com a chuva que caía junto com a noite. Guido
e suas histórias
lembram Seu Zé, que tem o mesmo tipo de sabedoria simples e a mesma simpatia lúcida. Ele só evitou
falar dos irmãos, mortos na praça.
Chuva de relâmpagos, boa companhia, boa pizza e
Guido que contava das dificuldades e do
racionamento; que cada um tinha direito a 150 gramas de pão por dia, um
cubinho de manteiga duas vezes por semana, um maço de cigarro e meio quilo de carne por semana, e que quem
tivesse perdido o ticket ficava com fome. Tempos duros
esquecidos na abundância das pizzas. No final,
“confundiu” uma garrafa de grappa com uma de
laranjada e brindamos
aos dias de hoje. Deu um gole e
exclamou: “Que bomba!”
.
meu querido Allan um texto muito lindo e cheio - malgrado aqueles tempos - de poesia...
ResponderExcluire uma bela ironia final:)
abraço sincero
Belíssimo texto é finésima frase : " E sorria um sorriso tranquilo de quem há muito fez as pazes com o passado. "
ResponderExcluirSeremos um dia capazes de um sorriso destes ?
Corrigindo " Belíssimo texto E finésima frase ... "
ResponderExcluirDelícia de ler. Parece até que conheco o Guido.
ResponderExcluirQue maravilha sao essas pessoas que envelhecem tao bem e nos passam a esperanca que nem tudo está perdido.
Excelente este seu conto ALLAN !!!
ResponderExcluirAbç
G.J.
Guido deve ser uma pessoa agradecida e por isso sorri de tudo que passou. Me fez lembrar de "A Borboleta", versos do poeta italiano Tonino Guerra:
ResponderExcluir"Feliz muito feliz
tenho sido bastantes vezes na vida
mas acima de tudo quando fui libertado
na Alemanha
porque comecei a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer"
Bom fim de semana!!
Allan,
ResponderExcluirAcho incrível como vc consegue ver poesia em tudo. Pensando bem, a vida é poesia para quem é de paz.
Allan, gostei da parte quando fala sobre os raios e trovoes que movimentavam a mata que os envolvia e que "nem as galinhas se incomodavam com...", tudo visto e sentido de maneira simples.
ResponderExcluirSobre o direito a gramas de pão por dia, minha familia já passou por guerra, já ouvi historias, inclusive do pós guerra na Alemanha, era assim mesmo.
Beijos
tio,
ResponderExcluirescreve mais, tio
pedro luis