Tanto para começar, em italiano se diz “fare lo spelling”, quando o verbo correto é “compitare”, que evitaria o uso do auxiliar fare. Depois, ninguém mais usa e pouquíssimos conhecem tal verbo. Acontece que o verbo compitare é defectivo, pois no imperativo só existem a segunda pessoa do singular e a segunda do plural (compita tu, compitate voi). O presente do indicativo é: “io compito, tu compiti, egli compita, noi compitiamo, voi compitate, essi compitano”. O cidadão de uma certa idade não se recorda das lições de italiano e muitas vezes se complica com a conjugação dos verbos; os jovens desconhecem a existência do verbo compitare e acham figo (legal) usar termos ingleses. Assim, adotou-se o “fare lo spelling” e basta. É como se eu passasse a escrever e falar “faça o spelling desta palavra”, em vez de simplesmente “soletre esta palavra”. Sem implicações com essas interferências nas línguas vivas. É somente uma constatação da submissão cultural.
Mas na hora de soletrar restou um bastião do orgulho italiano: eles não usam o alfabeto aeronáutico internacional, como no resto do mundo (Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Eco, Fox-troth, Golf, Hotel, Índia, Juliete, Kilo, Lima, Mike, November, Oscar, Papá, Quebec, Romeo, Sierra, Tango, Uniform, Victor, Whiskey, X-ray, Yankee, Zulu), mas nomes de cidades italianas, o que acaba complicando, pois não existem cidades italianas que iniciam por algumas letras e não há um padrão. Quem deve soletrar muito, como as telefonistas – cada vez mais raras – e agentes de viagem, acabaram consolidando algumas cidades e palavras, mas o cidadão comum normalmente se enrola.
Se você vier para a Itália e precisar soletrar o sobrenome, por exemplo, segue uma lista com as cidades e palavras mais usadas:
A come Ancona [ancóna]
B [bí] come Bergamo [bérgamo]
C [tchi] come Como [cómo]
D [di] come Domodossola [domodóssola]
E come Empoli [émpoli]
F come Firenze
G [dji] come Genova [djénova]
H [áka] come Hotel
I come Imola [ímola]
J [djêei] come Jolly [djóli]
K [káppa] come Kappa – (vai entender...) não usa nome de cidade italiana
L come Livorno
M come Milano
N come Napoli [nápoli]
O coem Otranto [ótranto]
P [pi] come Palermo
Q [ku] come Quadro, Quebec – não usa nome de cidade italiana
R come Roma
S come Siena
T [ti] come Torino, Trieste
U come Udine [údine]
V [vi] come Verona, Venezia
W [doppia vú] come Washingron [váshinton] – não usa nome de cidade italiana
Y come Yacht [iót], Yogurt [iógurt] – não usa nome de cidade italiana
Z [dzêta] come Zara [dzára], Zulu – não usa nome de cidade italiana
Por outro lado, usar o alfabeto internacional inventado pelos americanos, também é submissão cultural. Somos farinha do mesmo saco. Sim, americanos, pois usa-se “whiskey” e não “whisky”, A diferença é que whisky é aquele produzido na Inglaterra e na Escócia, enquanto whiskey designa aquele produzido na Irlanda e nos Estados Unidos. Bebendo e aprendendo. Na dúvida, prefira vinho.
Como ficaria o spelling com cidades brasileiras? …Alemãs?
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Sunday, October 31, 2010
Thursday, October 28, 2010
Jornal Fato Expresso
Para quem não sabe, morei muitos anos no Embu, também conhecido como Embu das Artes, em São Paulo. Foram muitas idas e vindas, entre Rio, São Paulo e Embu, antes de ir morar em Salvador. Minha mãe, pintora e antiquária, ainda mora lá, assim como meus três irmãos. Foi lá que conheci e casei-me com a Eloá, na época em que eu era sócio do Cláudio Zimmerli, “o alemão do strudel”, que mantém uma barraca de doces alemães na feira de artesanato dos domingos desde o início dos anos 70, além de servir diversos restaurantes e lojas em São Paulo.
Pois bem, o jornal “Fato Expresso”, que revolucionou a mídia embuense encerrou as atividades há alguns anos, mas o Márcio Amêndola e equipe jamais se conformaram. O resultado é que o jornal voltou em versão on-line e, imaginem, me convidaram para participar do projeto. Não tenho tempo nem para dar uma mudada no visual do blog, que dirá ter uma coluna semanal no jornal. Mas o Márcio não aceita não como resposta e o resultado é que estou lá. Ainda está tudo no início, mas o jornal não é de ontem.
Se os embuenses pensaram que estavam livres de mim…
:)
Pois bem, o jornal “Fato Expresso”, que revolucionou a mídia embuense encerrou as atividades há alguns anos, mas o Márcio Amêndola e equipe jamais se conformaram. O resultado é que o jornal voltou em versão on-line e, imaginem, me convidaram para participar do projeto. Não tenho tempo nem para dar uma mudada no visual do blog, que dirá ter uma coluna semanal no jornal. Mas o Márcio não aceita não como resposta e o resultado é que estou lá. Ainda está tudo no início, mas o jornal não é de ontem.
Se os embuenses pensaram que estavam livres de mim…
:)
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Saturday, October 23, 2010
A dieta mediterrânea
Cada vez que a Esquadrilha da Fumaça se apresenta a imprensa a exalta como “uma das melhores do mundo”. Os italianos são menos modestos e consideram as “Frecce Tricolori” (Flechas Tricolores) a melhor equipe militar aérea acrobática. Cada país tem a sua equipe e cada uma é considerada a melhor. Os entendidos de aeronáutica militar são quase unânimes em afirmar que os melhores pilotos são os egípcios, israelenses e russos, mudando somente a posição hierárquica. Com a comida acontece o mesmo. Qualquer Nutricionista famoso em visita ao Brasil irá declarar que a dieta brasileira com feijão, arroz, carne e salada é perfeita. Exatamente o mesmo discurso que terá feito na semana anterior no Japão, França ou Grécia, mudando apenas os alimentos.
Os italianos se vangloriam da dieta mediterrânea que caracteriza a região. E com razão, quando a dieta é levada a sério. A dieta mediterrânea é um modelo nutricional baseado no consumo de pão caseiro, frutas, verduras e legumes da estação, cereais, peixe, ervas aromáticas, azeite de oliva e vinho. Paradoxalmente os habitantes da zona onde essa dieta é mais difusa (Itália, Grécia, Espanha e a França setentrional) consomem uma quantidade relativamente alta de gorduras, mas têm, contudo, índices de doenças cardiovasculares muito inferiores em relação a outros países. A explicação é que a gordura animal ingerida é compensada pelo azeite de oliva, que, segundo alguns estudos, diminuiria os níveis de colesterol no sangue. Nutricionistas italianos defendem que o consumo moderado de vinho durante as refeições atue como um fator protetivo, provavelmente por causa dos antioxidantes contidos no vinho, especialmente o tinto. Segundo a pesquisa LYON, realizada pelo American Heart Association (AHA) a dieta mediterrânea reduz em 50% a taxa de mortalidade por doenças coronárias.
Os alimentos sugeridos e que encontro na casa de quem leva a sério a própria alimentação, não deveriam faltar nas demais casas. Erva-doce (que no Rio chamamos “funcho”), de preferência fatiada crua, sem sal e com um fio de azeite; verduras verde-escuro (taráxaco, rúcula, couve, espinafre, etc.) cruas; leguminosas como vagem, fava, lentilha, grão-de-bico, etc. O feijão branco gigante não pode faltar; frutas da estação em grande quantidade; peixes pequenos ou médios da região, pois os peixes maiores acumulam metais pesados (como o mercúrio) até serem pescados. Uma sugestão especial é o polvo, que se congelado antes fica mais fácil de cozinhar; azeite de oliva com moderação; pão caseiro sem a adição de gordura animal, com pouco sal e, de preferência, com farinha integral e outros cereais além do trigo; as ervas aromáticas ajudam a acentuar o sabor quando se cozinha com pouco sal. Uma sugestão pessoal é a adição de uma pitada de canela, mas os italianos não saberiam viver sem alecrim e sálvia. Outras ervas são comumente usadas, mas será quase impossível encontrar um prato de carne ou peixe sem alecrim; quanto ao vinho, os especialistas recomendam o tinto. Uma dose para as mulheres e duas doses para os homens. O que não significa que, vez, ou outra, não se possa sair da dieta e deliciar-se com os queijos e embutidos tentadores que às vezes temos que afrontar.
No momento em que escrevo esta carta estou fazendo uma santa feijoada (juro!). Sou onívoro e consciente de que comemos carne demais, mas confesso que meus hábitos alimentares mudaram muito nesses anos de Itália. Continuo acreditando que a Esquadrilha da Fumaça está entre as melhores do mundo e, pensando bem, feijão, arroz, carne e salada é uma alimentação bem completa. Quem sabe a partir de segunda-feira nos animamos e começamos uma dieta? Topa?
Os italianos se vangloriam da dieta mediterrânea que caracteriza a região. E com razão, quando a dieta é levada a sério. A dieta mediterrânea é um modelo nutricional baseado no consumo de pão caseiro, frutas, verduras e legumes da estação, cereais, peixe, ervas aromáticas, azeite de oliva e vinho. Paradoxalmente os habitantes da zona onde essa dieta é mais difusa (Itália, Grécia, Espanha e a França setentrional) consomem uma quantidade relativamente alta de gorduras, mas têm, contudo, índices de doenças cardiovasculares muito inferiores em relação a outros países. A explicação é que a gordura animal ingerida é compensada pelo azeite de oliva, que, segundo alguns estudos, diminuiria os níveis de colesterol no sangue. Nutricionistas italianos defendem que o consumo moderado de vinho durante as refeições atue como um fator protetivo, provavelmente por causa dos antioxidantes contidos no vinho, especialmente o tinto. Segundo a pesquisa LYON, realizada pelo American Heart Association (AHA) a dieta mediterrânea reduz em 50% a taxa de mortalidade por doenças coronárias.
Os alimentos sugeridos e que encontro na casa de quem leva a sério a própria alimentação, não deveriam faltar nas demais casas. Erva-doce (que no Rio chamamos “funcho”), de preferência fatiada crua, sem sal e com um fio de azeite; verduras verde-escuro (taráxaco, rúcula, couve, espinafre, etc.) cruas; leguminosas como vagem, fava, lentilha, grão-de-bico, etc. O feijão branco gigante não pode faltar; frutas da estação em grande quantidade; peixes pequenos ou médios da região, pois os peixes maiores acumulam metais pesados (como o mercúrio) até serem pescados. Uma sugestão especial é o polvo, que se congelado antes fica mais fácil de cozinhar; azeite de oliva com moderação; pão caseiro sem a adição de gordura animal, com pouco sal e, de preferência, com farinha integral e outros cereais além do trigo; as ervas aromáticas ajudam a acentuar o sabor quando se cozinha com pouco sal. Uma sugestão pessoal é a adição de uma pitada de canela, mas os italianos não saberiam viver sem alecrim e sálvia. Outras ervas são comumente usadas, mas será quase impossível encontrar um prato de carne ou peixe sem alecrim; quanto ao vinho, os especialistas recomendam o tinto. Uma dose para as mulheres e duas doses para os homens. O que não significa que, vez, ou outra, não se possa sair da dieta e deliciar-se com os queijos e embutidos tentadores que às vezes temos que afrontar.
No momento em que escrevo esta carta estou fazendo uma santa feijoada (juro!). Sou onívoro e consciente de que comemos carne demais, mas confesso que meus hábitos alimentares mudaram muito nesses anos de Itália. Continuo acreditando que a Esquadrilha da Fumaça está entre as melhores do mundo e, pensando bem, feijão, arroz, carne e salada é uma alimentação bem completa. Quem sabe a partir de segunda-feira nos animamos e começamos uma dieta? Topa?
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Wednesday, October 20, 2010
Cadê o sossego que estava aqui?
Nos últimos dias venho recebendo uma enxurrada de e-mails solicitando/exigindo que me engaje nesta ou naquela campanha para presidente. Alguns poucos leitores deste blog, muitos conhecidos, uma enormidade de desconhecidos e dois amigos cobram uma minha posição antes do segundo turno da eleição presidencial. Muitos links, PPS, correntes, notícias falsas, notícias verdadeiras, meias verdades e sugestões de leitura. Os dois principais links (este aqui e mais este outro) são blogs que não leio e que vou continuar não lendo.
Informo a todos que este não é um blog político. Escrevo amenidades – na maioria das vezes – e futilidades. Também não aceito patrulhamento político e não abro mão da lei que me dá o direito de manter meu voto secreto. A Internet está repleta de gente que escreve bem sobre política. Aos dois amigos, mandei um e-mail esclarecendo e solicitando que parem de me encher o saco – somos amigos e posso me permitir a tratá-los como amigos –, aos ilustres desconhecidos, tenho sistematicamente classificado os e-mails como spam. Aos leitores deste blog já deve ter ficado clara a minha posição. Espero que continuem acompanhando as amenidades e futilidades que escrevo. :)
Votem com consciência. Daqui a pouco tudo passa e voltamos à normalidade.
Informo a todos que este não é um blog político. Escrevo amenidades – na maioria das vezes – e futilidades. Também não aceito patrulhamento político e não abro mão da lei que me dá o direito de manter meu voto secreto. A Internet está repleta de gente que escreve bem sobre política. Aos dois amigos, mandei um e-mail esclarecendo e solicitando que parem de me encher o saco – somos amigos e posso me permitir a tratá-los como amigos –, aos ilustres desconhecidos, tenho sistematicamente classificado os e-mails como spam. Aos leitores deste blog já deve ter ficado clara a minha posição. Espero que continuem acompanhando as amenidades e futilidades que escrevo. :)
Votem com consciência. Daqui a pouco tudo passa e voltamos à normalidade.
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Friday, October 15, 2010
Pagando mico na Itália
Recentemente minha cunhada Valéria e o marido Roberto estiveram nos visitando, numa escapada veloz do roteiro do grupo de excursão com o qual fizeram um giro pela Europa. Além da satisfação imensa em recebê-los – apesar da visita de médico – alguns detalhes da viagem deles me chamou a atenção, curioso que sou.
Primeiro eles reclamaram da comida. Afirmaram ter comido mal praticamente durante toda a viagem, mesmo tendo passado uma semana na Itália. Se lamentaram que na Suíça não aceitaram o cartão de débito que estavam utilizando e descobriram que o cartão telefônico que compraram no aeroporto no Brasil por 20 dólares (para 20 minutos de conversação) não funcionava bem e custou caro demais. Também faltou informação sobre o “tax free”. Trouxeram bagagem demais, o que inviabiliza certas compras. Mas gostaram de conhecer a nossa casa, a cidade e de comer bem. Acho que também gostaram de nos ver e às sobrinhas, mas estou aguardando que nos mandem as fotos antes de me pronunciar com mais veemência.
Se você estiver preparando uma viagem à Itália, algumas dicas podem ser úteis. Antes de fazer as malas, certifique-se de que você irá realmente necessitar de toda a roupa que pretende colocar na mala. Roupas de baixo ocupam pouco espaço e nunca são demais, mas escolha apenas um par de sapatos confortáveis e chinelos, além do sapato usado para a viagem. Mais espaço na mala permite não extrapolar o limite e evita pagar peso extra na volta. Verifique cuidadosamente o roteiro da viagem e procure se informar sobre os hotéis e restaurantes existentes na zona.
Ao desembarcar no aeroporto, procure uma agência de “tax free”, que normalmente fica perto da “dogana”, e pegue alguns formulários. Se tentarem lhe vender os formulários, passe a outra agência – que normalmente são três balcões simples, um ao lado do outro. Use os formulários nas lojas que não os tiverem e peça ao próprio vendedor para preenchê-los. No dia da viagem de volta, coloque todas as suas compras em uma mesma mala e avise ao fazer o check-in. Eles irão lhe devolver a mala, já com os devidos adesivos para ser despachada pela dogana. Dirija-se imediatamente à dogana e, sem abrir a mala – a menos que eles exijam – mostre passaporte, bilhete de embarque, notas ficais e formulários de “tax free” devidamente preenchidos. A mala será embarcada por lá, com todas as compras dentro, repito. Depois, dirija-se ao balcão de “tax free” com os documentos carimbados pela dogana para reaver o imposto sobre compras. Lembre-se de que você poderá ter que pagar o ICMS ao chegar no Brasil, ao retirar a bagagem.
Os restaurantes sugeridos pelos guias costumam oferecer vantagens aos guias. Não canso de repetir que na Itália se come bem é nas “trattorias”, que são restaurantes mais simples que oferecem a comida típica do local com produtos da estação. É muito comum encontrar uma placa escrito “menu fisso €12,00”, ou valores que não ultrapassam os 15 euros. São os pratos sugeridos pela casa com o que há de mais fresco na feira da cidade e que incluem um prato de massa, um prato de carne com salada ou legumes, água ou um copo de vinho e café. Alguns oferecem também a sobremesa. E o cliente sai satisfeito por ter saboreado um prato típico da região por um preço razoável. A regra é simples: como a hora do almoço vai das 11:30 às 14:00 horas, mas ninguém chega antes do meio-dia, espere até às 12:15. Se os operários começarem a chegar aos bandos, entre depressa. Os demais trabalhadores também virão, mas não é raro que o alto escalão local tenha mesa reservada.
Quanto aos cartões de débito, não há nada a fazer, senão ter um pouco de dinheiro vivo – euro – que na Suíça é aceito sem problemas (exceto moedas), mas saiba que o troco virá em francos suíços. Quanto ao mico do cartão telefônico, saiba que em qualquer tabacaria italiana você encontra cartões telefônicos internacionais a partir de cinco euros por duas horas de conversação. Peça “scheda telefonica per il sudamerica” [skêda telefónica per il sudamerica], raspe o código secreto e siga as instruções.
Se você ainda não conhece, visite o Minube e digite o seu destino. Lá você encontrará dicas preciosas de onde comer, sugestões de passeios e roteiros que os guias não frequentam. Enfim, informação local de quem mora ou já visitou a cidade.
Pensando bem, lembro que antes de vir para a Itália cheguei a comprar uma “habilitação internacional” que me custou 150 reais onze anos atrás. Na primeira vez que um guarda me parou, ofereci a minha Habilitação Internacional, traduzida em umas dez línguas, inclusive o árabe. O agente desdobrou aquele documentão, olhou pra lá, pra cá, franziu a testa, dobrou, devolveu-me e informou: “Eu quero a sua habilitação brasileira, que isso aqui não serve pra nada.” Com a habilitação brasileira pode-se alugar um carro, viajar e guiar sem problemas por um ano. Para evitar acidentes, pegue um dicionário, visite esta página e familiarize-se com as placas de trânsito.
Bom passeio e boa viagem!
Primeiro eles reclamaram da comida. Afirmaram ter comido mal praticamente durante toda a viagem, mesmo tendo passado uma semana na Itália. Se lamentaram que na Suíça não aceitaram o cartão de débito que estavam utilizando e descobriram que o cartão telefônico que compraram no aeroporto no Brasil por 20 dólares (para 20 minutos de conversação) não funcionava bem e custou caro demais. Também faltou informação sobre o “tax free”. Trouxeram bagagem demais, o que inviabiliza certas compras. Mas gostaram de conhecer a nossa casa, a cidade e de comer bem. Acho que também gostaram de nos ver e às sobrinhas, mas estou aguardando que nos mandem as fotos antes de me pronunciar com mais veemência.
Se você estiver preparando uma viagem à Itália, algumas dicas podem ser úteis. Antes de fazer as malas, certifique-se de que você irá realmente necessitar de toda a roupa que pretende colocar na mala. Roupas de baixo ocupam pouco espaço e nunca são demais, mas escolha apenas um par de sapatos confortáveis e chinelos, além do sapato usado para a viagem. Mais espaço na mala permite não extrapolar o limite e evita pagar peso extra na volta. Verifique cuidadosamente o roteiro da viagem e procure se informar sobre os hotéis e restaurantes existentes na zona.
Ao desembarcar no aeroporto, procure uma agência de “tax free”, que normalmente fica perto da “dogana”, e pegue alguns formulários. Se tentarem lhe vender os formulários, passe a outra agência – que normalmente são três balcões simples, um ao lado do outro. Use os formulários nas lojas que não os tiverem e peça ao próprio vendedor para preenchê-los. No dia da viagem de volta, coloque todas as suas compras em uma mesma mala e avise ao fazer o check-in. Eles irão lhe devolver a mala, já com os devidos adesivos para ser despachada pela dogana. Dirija-se imediatamente à dogana e, sem abrir a mala – a menos que eles exijam – mostre passaporte, bilhete de embarque, notas ficais e formulários de “tax free” devidamente preenchidos. A mala será embarcada por lá, com todas as compras dentro, repito. Depois, dirija-se ao balcão de “tax free” com os documentos carimbados pela dogana para reaver o imposto sobre compras. Lembre-se de que você poderá ter que pagar o ICMS ao chegar no Brasil, ao retirar a bagagem.
Os restaurantes sugeridos pelos guias costumam oferecer vantagens aos guias. Não canso de repetir que na Itália se come bem é nas “trattorias”, que são restaurantes mais simples que oferecem a comida típica do local com produtos da estação. É muito comum encontrar uma placa escrito “menu fisso €12,00”, ou valores que não ultrapassam os 15 euros. São os pratos sugeridos pela casa com o que há de mais fresco na feira da cidade e que incluem um prato de massa, um prato de carne com salada ou legumes, água ou um copo de vinho e café. Alguns oferecem também a sobremesa. E o cliente sai satisfeito por ter saboreado um prato típico da região por um preço razoável. A regra é simples: como a hora do almoço vai das 11:30 às 14:00 horas, mas ninguém chega antes do meio-dia, espere até às 12:15. Se os operários começarem a chegar aos bandos, entre depressa. Os demais trabalhadores também virão, mas não é raro que o alto escalão local tenha mesa reservada.
Quanto aos cartões de débito, não há nada a fazer, senão ter um pouco de dinheiro vivo – euro – que na Suíça é aceito sem problemas (exceto moedas), mas saiba que o troco virá em francos suíços. Quanto ao mico do cartão telefônico, saiba que em qualquer tabacaria italiana você encontra cartões telefônicos internacionais a partir de cinco euros por duas horas de conversação. Peça “scheda telefonica per il sudamerica” [skêda telefónica per il sudamerica], raspe o código secreto e siga as instruções.
Se você ainda não conhece, visite o Minube e digite o seu destino. Lá você encontrará dicas preciosas de onde comer, sugestões de passeios e roteiros que os guias não frequentam. Enfim, informação local de quem mora ou já visitou a cidade.
Pensando bem, lembro que antes de vir para a Itália cheguei a comprar uma “habilitação internacional” que me custou 150 reais onze anos atrás. Na primeira vez que um guarda me parou, ofereci a minha Habilitação Internacional, traduzida em umas dez línguas, inclusive o árabe. O agente desdobrou aquele documentão, olhou pra lá, pra cá, franziu a testa, dobrou, devolveu-me e informou: “Eu quero a sua habilitação brasileira, que isso aqui não serve pra nada.” Com a habilitação brasileira pode-se alugar um carro, viajar e guiar sem problemas por um ano. Para evitar acidentes, pegue um dicionário, visite esta página e familiarize-se com as placas de trânsito.
Bom passeio e boa viagem!
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Friday, October 08, 2010
Mulher objeto
Numa antiga carta escrevi: “Eu era muito possessivo, até que um dia completei 16 anos e a coisa mudou.” A insegurança é inerente à adolescência, mas um dia a gente cresce e descobre que é dono da própria vida. O passado é um professor que ensina somente o que o aluno tem capacidade para aprender. Portanto, descarregar a própria culpa em fatos ou situações controladas por terceiros é imaturo e incapacidade de discernimento. Claro que cada caso é um caso e situações dramáticas criam traumas graves, mas as exceções devem ser tratadas como tais. Em pleno 2010 me assusto com a quantidade de adultos que ainda não completaram 16 anos. Seres humanos que tratam outros seres humanos como se fossem objetos de sua propriedade. Poderia viver outros 200 anos e tenho certeza de que ainda me assustaria com tal atitude.
O nome Sarah Scazzi não é apenas a vítima mais recente da espetacularização mórbida da mídia italiana, mas também um dos recentes casos da violência contra as mulheres na Itália. No dia 26 de Agosto ela e a prima Sabrina deveriam encontrar-se às três da tarde para ir à praia, a 18 quilômetros da rua onde ambas moravam. O tio agricultor, pai de Sabrina, que vinha insistentemente insinuando-se à sobrinha, voltou mais cedo naquele dia e, como premeditado, teria permanecido em uma garagem próximo à sua casa onde – não se sabe exatamente como, se com a força ou não – teria entrado com a sobrinha. Após a menina, de apenas 15 anos, recusar-se mais uma vez ao tio, foi estrangulada. Morta, foi violentada, seu corpo foi jogado em um poço, coberto com pedras e sua roupa e celular foram queimados. Celular que o próprio tio “encontrou” há poucos dias, ajudando a polícia a decifrar o mistério, fazendo-o confessar depois de 10 horas de interrogatório, indicando, inclusive, o local exato em que escondera corpo. Terrificante.
Na semana passada uma família paquistanesa só não recebeu a mesma repercussão, talvez por ser estrangeira, mas também foi vítima da violência contra as mulheres. O filho tentou matar a irmã que se recusava a casar-se com um homem escolhido pelo pai, hábito cultural ainda muito praticado nos dias de hoje. A mãe, tentando defender a filha, acabou sendo morta pelo próprio marido. A filha continua internada e talvez sobreviva. A dignidade da família foi preservada mas já não faz nenhuma diferença, pois a família não existe mais. Nos últimos anos desenvolvi um certo medo de ler jornais ou ligar a TV. Se o faço é porque ainda acredito que existam notícias boas e que nem tudo está perdido. Mas a minha ingenuidade tem limite.
A parte mais vil desse comportamento é que raramente tudo acontece às escondidas. Tem sempre alguém que viu, sabe, intui, desconfia, é conivente ou prefere não se intrometer. A lista de mulheres e crianças vítimas de abusos ou violências na Itália cresce assustadoramente. Muitas vezes a vítima sente vergonha em contar para alguém, ou foi ameaçada para não falar; outras, esperam que tudo se resolva sem maiores consequências, (sentindo-se culpadas) acham que não é tão grave assim e que conseguirão encontrar um modo de sair da situação. A vítima de uma agressão não deve se sentir culpada e deve denunciar imediatamente e diretamente à polícia, pois muitos familiares procuram minimizar a situação (“viu, sabe, intui…”). Na Itália, para os casos de abusos contra menores, existe o “Telefono Azzurro”. Basta discar gratuitamente de qualquer telefone o número 19696, se for menor em busca de ajuda, ou 199-151515 para os adultos que queiram denunciar situações de risco ou abuso sobre menores. Às mulheres o número a chamar é o 112, número dos Carabinieri, a polícia militar italiana. Mas também existem centros de apoio que acolhem e apoiam as vítimas da violência. Os mais ativos são os centros nacionais anti-violência AQUI e AQUI, e a associação “Non da sola”.
Segundo o Instat, o instituto italiano de estatística (dados de 2006), 6 milhões e 743 mil mulheres entre os 16 e 70 anos, 31,9% da população feminina italiana, declarou ter sido vítima de violência física ou sexual ao menos uma vez na vida, sendo que 14,3% teria sido vítima do próprio marido/companheiro/convivente. Mais: O próprio Instat afirma que 93% da violência do cônjuge não é denunciada. Estarrecedor, mesmo para um garoto de 15 anos possessivo, mas que nunca foi violento.
Eu, que desde sempre fui contra a violência, contra a pena de morte, a favor do "paz e amor, bicho!" e tornei-me pai de duas moças solares, temo pela incolumidade das minhas três garotas (tem a Eloá, também), tanto quanto temo pela minha reação em caso de violência contra elas. Sei que a situação não é apenas italiana e que em muitos outros países as mulheres encontram-se em situações piores, mas em pleno século XXI esse tipo de situação não deveria encontrar-se fora de controle num país do chamado “Primeiro Mundo”. Ou será que sou ingênuo demais e ranzinza além da conta?
**********************
Atualização:
No caso da menina Sarah Scazzi, o tio foi condenado a pouco mais de quatro anos por ocultamento de cadáver e obstrução à justiça. A história de que ele teria se insinuado à sobrinha e que seria o autor do crime, foi inventada por ele para cobrir a esposa e a filha. A menina foi estrangulada pela prima e pela tia por ser culpada de atrair a atenção de um rapaz mais velho, com quem a prima (22 anos) sonhava ter uma relação. A menina não foi estuprada. O tio jamais se insinuou. A tia e a prima cumprem pena de prisão perpétua.
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POST SCRIPTUM
Borboletas nos Olhos comentou:
"O mais doloroso é que todos esses fatos, graves e reveladores, são tratados isoladamente e não como resultado de uma cultura em que a mulher é, como você bem definiu, um objeto. Mas não é a resposta do medo e sim a resposta da educação, do respeito à diversidade, a valorização da mulher que vai mudar esta realidade."
Era a parte que faltava no meu texto. Obrigado.
O nome Sarah Scazzi não é apenas a vítima mais recente da espetacularização mórbida da mídia italiana, mas também um dos recentes casos da violência contra as mulheres na Itália. No dia 26 de Agosto ela e a prima Sabrina deveriam encontrar-se às três da tarde para ir à praia, a 18 quilômetros da rua onde ambas moravam. O tio agricultor, pai de Sabrina, que vinha insistentemente insinuando-se à sobrinha, voltou mais cedo naquele dia e, como premeditado, teria permanecido em uma garagem próximo à sua casa onde – não se sabe exatamente como, se com a força ou não – teria entrado com a sobrinha. Após a menina, de apenas 15 anos, recusar-se mais uma vez ao tio, foi estrangulada. Morta, foi violentada, seu corpo foi jogado em um poço, coberto com pedras e sua roupa e celular foram queimados. Celular que o próprio tio “encontrou” há poucos dias, ajudando a polícia a decifrar o mistério, fazendo-o confessar depois de 10 horas de interrogatório, indicando, inclusive, o local exato em que escondera corpo. Terrificante.
Na semana passada uma família paquistanesa só não recebeu a mesma repercussão, talvez por ser estrangeira, mas também foi vítima da violência contra as mulheres. O filho tentou matar a irmã que se recusava a casar-se com um homem escolhido pelo pai, hábito cultural ainda muito praticado nos dias de hoje. A mãe, tentando defender a filha, acabou sendo morta pelo próprio marido. A filha continua internada e talvez sobreviva. A dignidade da família foi preservada mas já não faz nenhuma diferença, pois a família não existe mais. Nos últimos anos desenvolvi um certo medo de ler jornais ou ligar a TV. Se o faço é porque ainda acredito que existam notícias boas e que nem tudo está perdido. Mas a minha ingenuidade tem limite.
A parte mais vil desse comportamento é que raramente tudo acontece às escondidas. Tem sempre alguém que viu, sabe, intui, desconfia, é conivente ou prefere não se intrometer. A lista de mulheres e crianças vítimas de abusos ou violências na Itália cresce assustadoramente. Muitas vezes a vítima sente vergonha em contar para alguém, ou foi ameaçada para não falar; outras, esperam que tudo se resolva sem maiores consequências, (sentindo-se culpadas) acham que não é tão grave assim e que conseguirão encontrar um modo de sair da situação. A vítima de uma agressão não deve se sentir culpada e deve denunciar imediatamente e diretamente à polícia, pois muitos familiares procuram minimizar a situação (“viu, sabe, intui…”). Na Itália, para os casos de abusos contra menores, existe o “Telefono Azzurro”. Basta discar gratuitamente de qualquer telefone o número 19696, se for menor em busca de ajuda, ou 199-151515 para os adultos que queiram denunciar situações de risco ou abuso sobre menores. Às mulheres o número a chamar é o 112, número dos Carabinieri, a polícia militar italiana. Mas também existem centros de apoio que acolhem e apoiam as vítimas da violência. Os mais ativos são os centros nacionais anti-violência AQUI e AQUI, e a associação “Non da sola”.
Segundo o Instat, o instituto italiano de estatística (dados de 2006), 6 milhões e 743 mil mulheres entre os 16 e 70 anos, 31,9% da população feminina italiana, declarou ter sido vítima de violência física ou sexual ao menos uma vez na vida, sendo que 14,3% teria sido vítima do próprio marido/companheiro/convivente. Mais: O próprio Instat afirma que 93% da violência do cônjuge não é denunciada. Estarrecedor, mesmo para um garoto de 15 anos possessivo, mas que nunca foi violento.
Eu, que desde sempre fui contra a violência, contra a pena de morte, a favor do "paz e amor, bicho!" e tornei-me pai de duas moças solares, temo pela incolumidade das minhas três garotas (tem a Eloá, também), tanto quanto temo pela minha reação em caso de violência contra elas. Sei que a situação não é apenas italiana e que em muitos outros países as mulheres encontram-se em situações piores, mas em pleno século XXI esse tipo de situação não deveria encontrar-se fora de controle num país do chamado “Primeiro Mundo”. Ou será que sou ingênuo demais e ranzinza além da conta?
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Atualização:
No caso da menina Sarah Scazzi, o tio foi condenado a pouco mais de quatro anos por ocultamento de cadáver e obstrução à justiça. A história de que ele teria se insinuado à sobrinha e que seria o autor do crime, foi inventada por ele para cobrir a esposa e a filha. A menina foi estrangulada pela prima e pela tia por ser culpada de atrair a atenção de um rapaz mais velho, com quem a prima (22 anos) sonhava ter uma relação. A menina não foi estuprada. O tio jamais se insinuou. A tia e a prima cumprem pena de prisão perpétua.
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POST SCRIPTUM
Borboletas nos Olhos comentou:
"O mais doloroso é que todos esses fatos, graves e reveladores, são tratados isoladamente e não como resultado de uma cultura em que a mulher é, como você bem definiu, um objeto. Mas não é a resposta do medo e sim a resposta da educação, do respeito à diversidade, a valorização da mulher que vai mudar esta realidade."
Era a parte que faltava no meu texto. Obrigado.
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cotidiano
Tuesday, October 05, 2010
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